Dry my eyes.
1 Capítulo 1
"Nenhum crime permanece impune. Nenhuma mentira se mantém sem ser descoberta. Nenhum segredo permanece oculto. Todos os pecados serão pagos." As palavras do padre ecoaram na mente de Elliot e de repente parecia que o sermão era só para ele. A catedral estava vazia, apenas ele e o padre. "O Pai sabe da sua ingratidão." O padre disse olhando Elliot diretamente nos olhos, com uma expressão de desgosto, e nesse momento, o teto antes tão alto da catedral parecia se aproximar rapidamente de suas cabeças e a chama das milhares de velas que iluminavam a igreja crescia numa velocidade alarmante, o bafo quente do fogo parecia afagar as bochechas de Elliot.
E com o som histérico e insistente do despertador, Elliot acordou. Há tempos ele não tinha um pesadelo assim, tão vívido. Notou que estava pingando de suor e seu coração batia tão forte que parecia querer sair peito. Olhou ao redor do quartou, viu suas malas e lembrou que hoje ele estava voltando para a casa de seus pais depois de cinco longos anos. Depois de tanto tempo ele iria rever sua família, e isso o deixava inquieto, a ponto de perturbar seu sono na noite anterior à sua viagem.
Checou o relógio e viu que se não chegasse à estação em quarenta e cinco minutos perderia o trem. Mas perder o trem não parecia uma ideia tão má assim. Ele já sabia até o que diria: “Desculpa mãe, demorei para conseguir um táxi e ainda por cima peguei um engarrafamento gigantesco até à estação e não cheguei a tempo.” Mas o Universo tem um senso de humor meio perverso e no momento que saiu do seu prédio avistou um táxi estacionado e vazio. E para completar, o trânsito estava limpo como numa manhã de domingo e todos os semáforos por qual passaram estavam verdes.
Ao chegar à estação, o trem já se encontrava na plataforma, mas ainda faltavam dez minutos para partir, então Elliot aproveitou para tomar um café, já que havia saído sem comer, pois seu apartamento já estava totalmente vazio, esperando apenas um novo morador se instalar.
O trem soltou um apito estridente e começou a sair devagar. Elliot tentou lembrar-se da sua cidade, da vizinhança onde cresceu e da casa onde foi criado. Ele mal acreditava que voltaria a morar com os pais depois de tanto tempo morando sozinho. Mas isso foi inevitável, afinal, ele recebeu um convite para se tornar professor titular da mesma escola em que terminou o ensino médio, um convite tão súbito que mal deu tempo de organizar as coisas antes de ir, mas também era um convite irrecusável, pois a escola lhe dera liberdade para iniciar qualquer projeto que ele tivesse em mente. E isso o estava fazendo encarar algo que ele passou cinco anos fugindo. Mas eu sou um adulto agora, eu conseguirei lidar com isso calmamente. Pensou Elliot.
Quando saiu de casa para frequentar a universidade, ele tinha apenas dezoito anos, agora com vinte e três e com muito mais experiência de vida, convivência com pessoas diferentes, ele estava confiante de não deixar seus sentimentos atrapalharem seus objetivos. Mas depois de três horas de viagem, quando o trem chegou à estação da sua cidade e começou a parar, todo seu autocontrole pareceu nunca ter existido e o nervosismo fazia seu estômago embrulhar.
Ao descer do trem a primeira pessoa que avistou foi sua mãe, com seu pai logo atrás dela. “Elliot, meu filho! Que saudade!” ela disse quando o viu, o abraçou com um grande sorriso no rosto, mas logo começou a chorar, “Olha como você cresceu, está tão alto, tão lindo, um homem!” e na mesma velocidade que começou a chorar, sua expressão mudou para uma de raiva, “Como você pôde fazer isso comigo? Não ter vindo visitar-nos nenhuma vez em cinco anos!” ela disse batendo no ombro do filho. “Desculpa, mãe” era a única coisa que ele conseguia dizer.
Seu pai em comparação, apenas lhe abraçou e disse: “Sentimos sua falta, filho” com um sorriso gentil. Elliot também estava feliz de rever os pais, mas seus olhos procuravam inquietos por outra pessoa.
Na sua mente uma mistura de vontade de vê-la e um alívio por ela não estar ali batalhavam furiosamente. Seu pai percebeu sua inquietação e disse: “A Millie não pôde vir, ela está na escola.” No momento que as palavras deixaram a boca de seu pai o alívio ganhou a batalha momentaneamente. “Como ela é capitã do clube de atletismo, ela tem que ir pra escola uma semana mais cedo, antes das aulas começarem”. Seu pai terminou, e sua mãe completou: “Você não sabe como ela ficou animada com a notícia de que você daria aula na escola dela.” Aquilo atingiu Elliot como um soco no estômago. “E-ela está estudando na Mt. Hampshire? Ela não vivia dizendo que o sonho dela era estudar naquela escola de elite?” Elliot perguntou quase sem conseguir formular as palavras. “Era sim, mas depois que você foi embora, ela decidiu seguir os passos do irmão”. Sua mãe respondeu enquanto seu pai pegava as malas e eles seguiam para o carro.
Elliot definitivamente não era tão forte quanto pensou que era. Mas pelas suas contas ela já devia estar no último ano, as chances de eu ser professor dela são mínimas. Não são?
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