Foi há dezessete anos que o dia mais feliz da vida de Elliot aconteceu. Há meses ele rezava fervorosamente e pedia com a sinceridade e a inocência de uma criança de seis anos para o pai do céu lhe dar um irmão, ou uma irmã. Filho único, Elliot era uma criança solitária. Ser a única criança de sua rua também não ajudava. E quando ouviu a mãe chorando com a notícia que não poderia mais ter nenhum bebezinho ele também chorou, mas sem deixar que a mãe ou o pai o vissem. Ele pediu com mais vontade ainda, prometeu que seria o melhor irmão que já existiu e que amaria o bebezinho com todas as suas forças.

E um dia quando chegou da escola, escutou um choro no andar de cima. Na mesma hora largou a bolsa no chão e subiu correndo. O choro vinha do quarto dos seus pais. Ao entrar encontrou a mãe sentada na cama com um embrulho nos braços, nele, um neném bem branquinho choramingava. “Elliot, diga olá a sua irmã.” Sua mãe disse com lágrimas nos olhos. Elliot sorriu de orelha a orelha, e falou baixinho: “Obrigado”.

Mais tarde, quando o pai chegou do trabalho, ele e a mãe brigaram, brigaram feio, o pai chamou a mãe de irresponsável, perguntou como ela teve coragem e ameaçou até se separar dela. Mas Elliot tentou não escutar e prometeu que protegeria a irmã, de tudo e de todos. Com o passar dos anos Elliot entendeu por que os pais brigaram naquele dia, que pra ele tinha sido tão feliz. Acontece que a mãe era enfermeira, e naquele dia no hospital havia sido dada a entrada de uma mulher que tentou se suicidar, grávida de oito meses já. A mulher não sobreviveria, mas conseguiram salvar o bebê. E a mãe cometeu um crime, adotando o bebê irregularmente. O pai teve medo do que poderia acontecer com eles e ficou muito bravo com a mãe, mas depois de pensar um pouco e se acalmar eles foram ao cartório, registraram a Camile como filha deles e nunca mais tocaram no assunto do dia que Millie chegou.

“Meu filho, o almoço está pronto!” a mãe gritou do andar de baixo. Elliot havia cochilado, com a roupa que viajou e tudo, sem desarrumar as malas nem tirar os sapatos. O quarto estava do mesmo jeito que deixou, com exceção de algumas caixas cheias de bagulhos que provavelmente tinham sido colocadas lá por sua mãe. O quarto lhe despertou lembranças que ele pensava ter esquecido há anos.

Resolveu tomar um banho rápido antes de descer para comer. Pegou na sua mala uma roupa mais social, pois tinha uma reunião marcada para as duas horas na escola, para resolver a papelada do seu contrato. Após o banho, enquanto descia as escadas para ir almoçar, escutou a porta da frente abrir com um baque e passos rápidos de alguém correndo. Camile o encontrou ainda no meio da escada e se jogou nos braços do irmão num abraço forte. A mente de Elliot ficou em branco, todos os pensamentos do momento desapareceram, mas tinha sido impressão dele ou Millie hesitou por meio segundo antes de lhe abraçar? Isso não importava mais. No momento que ela o soltou Elliot voltou a si, e voltou ainda mais, voltou a ser o mesmo Elliot de cinco anos atrás, o mesmo de antes de sair de casa.

“Seu irmão babaca! Como pode voltar sem dizer nada? Sabe o quanto senti sua falta?” Millie ralhou com ele, que apenas sorriu e respondeu: “Também senti sua falta, sua doidinha” Plantando um beijo bem no topo da cabeça da irmã.

“Camile! Vá tomar um banho antes de vir almoçar! E deixe seu irmão em paz, ele está muito cansado da viagem” A mãe gritou para a menina que revirou os olhos e subiu para o seu quarto. Elliot riu da reação da irmã, mas conforme ela se afastava ele se dava conta do efeito que o breve encontro com ela tinha causado no seu corpo. Era quase como se ele estivesse tendo uma reação alérgica. Seu corpo tremia e o sangue parecia ferver bem abaixo da sua pele, em todos os lugares que ela encostou. Sem falar na sua respiração, que estava completamente desregulada. Mas por outro lado, ele conseguira manter a tranquilidade muito bem, prova de que esses cinco anos valeram de alguma coisa. Pelo menos era o que ele estava pensando naquele momento.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.