Drunk

1 O Plano


Notas iniciais
O primeiro capítulo. Ele é curto, já que é mais uma introdução. Mas prometo que os próximos compensaram o tamanho desse ^^

Boa leitura! 0/

A chuva gelada castigava a superfície agitada do oceano. Ondas enormes erguiam-se e quebravam-se umas contra as outras, formando rodamoinhos aos seus arredores, atiçando a fúria do mar sempre bravio daquelas bandas. As ondas faziam o pequeno navio sacolejar incessantemente, mas seus tripulantes pareciam pouco se importar com a ameaça iminente de um naufrágio. Como se importar com alguma coisa, quando já se estava com doses altíssimas de álcool no sangue, que faziam o mesmo fervilhar?


Geralmente, a tripulação do Chapéu de Palha não era de esquentar a cabeça com obstáculos. Ou pelo menos a maioria deles. Mas mesmo aquela tempestade não parecia provocar um mínimo de receio, nem mesmo na sempre atenta navegadora. Quando havia festa naquele navio (ou seja, quase sempre), os problemas, por maiores que fossem, eram simplesmente deixados de lado, e os piores receios viraram motivo de chacota e risadas. Principalmente quando motivadas por muitas garrafas de saquê, que iam sendo empilhadas uma á uma no chão da cozinha, para abrir espaço para outras mais cheias.


O som do violino de Brook enchia de alegria o ambiente já muito agitado. Mesmo caindo de bêbado, o esqueleto não se esquecera de como desempenhar sua maior função, arrancando notas agudas, porém melodiosas de seu inseparável instrumento, cantando com sua voz já muito engrolada.


Levado pela empolgação que o álcool lhe proporcionara, Franky subira encima da mesa, e agora rebolava animadamente ao som da música, fazendo caras e bocas, chorando de emoção ao acompanhar Brook num animado vocal. Em outra ocasião, Sanji teria enxotado o ciborg de cima da mesa com um potente chute. Mas como também já estava para lá de Bagdá, simplesmente assistia ao “espetáculo” ás gargalhadas, enquanto oferecia mais e mais taças de bebida á Nami e Robin, acompanhadas dos típicos galanteios, piruetas alegres e declarações melosas. Luffy, Usopp e Chopper não eram diferentes. Por terem estômago fraco para a acidez do álcool, os três geralmente evitavam beber demais. Mas naquela noite, levados pela empolgação contagiante dos outros tripulantes, acabaram por também cair na birita. Resultado: eram os mais barulhentos da mesa, embora não fosse algo incomum. Até mesmo Robin, sempre correta e comedida, não escapara ao clima de festa, e ria de se acabar ao assistir as estripulias de Franky sobre a mesa.


De fato, os únicos que ainda pareciam manter uma réstia de sobriedade eram Zoro e Nami.


Zoro sempre tivera um fígado de aço, e orgulhava-se de sua capacidade de consumir garrafas e mais garrafas de saquê sem sequer ficar com a vista turva. Mas tudo tinha um limite, e o espadachim sabia muito bem qual era o seu. Por isso, parara de beber á algumas horas, embora as garrafas ainda cheias sobre a mesa lhe tentassem. Para escapar á tentação, concentrava as atenções na bagunça que seus companheiros aprontavam, sorrindo ao assistir a discussão boba que Luffy e Usopp tinham iniciado sobre quem havia pescado mais peixes para o jantar, e revirando o olho bom quando Franky se pôs e sacudir o traseiro na frente de Robin, como uma dançarina de boate, coisa que fazia a morena gargalhar. Recostou-se ao encosto da cadeira, pondo os braços atrás da nuca e suspirando com satisfação. Mesmo que a barulheira fosse um incomodo, tinha que admitir que sentira falta daqueles sons, daquelas risadas, daquela alegria tão simples e escancarada. Depois de dois longos anos, estava de volta ao lugar ao qual pertencia. De volta ao Sunny, ao seio de seus camaradas, ao oceano hora inquieto, hora pacifico... Abriu o olho que lhe restara, e deu de cara com as orbes castanhas de cílios longos e recurvados, que o observavam com um interesse quase grosseiro.


Assim como Zoro, Nami possuía a invejável capacidade de beber litros de álcool sem sofrer com os efeitos que o mesmo causava no sangue. Mas ao contrário do espadachim, Nami não respeitava os limites de seu organismo. Se é que ele possuía algum. A ruiva já estava na sua décima taça de bebida, e sequer estava com o rosto corado. Com um sorrisinho afetado, que Zoro sabia muito bem ser dissimulado, ela aceitava as taças que Sanji lhe oferecia tão apaixonadamente, beliscando com doçura a bochecha do loiro, fazendo-o saltitar de alegria e proferir juras de amor eterno àquela mulher peçonhenta. O espadachim se perguntava, talvez pela milionésima vez, como aquele cozinheiro podia ser tão estúpido, ao ponto de acreditar que as meiguices que Nami lhe dirigia eram realmente sinceras. Só ele sabia o quanto a navegadora podia ser ardilosa. A dívida exorbitante que ela insistia em lhe cobrar era uma prova irrefutável disso. Sentia raiva só de lembrar.


E lá estava ela, encarando-o com aqueles olhos grandes, brilhantes e sapecas, sorrindo, num gesto desafiador. Ela não se cansava de provocá-lo, e Zoro se perguntava qual era a graça em atormentá-lo tão insistentemente. Ela já não tinha Sanji, que praticamente lambia o chão em que ela pisava? Então para que aquele sorrisinho, aquele ar maroto, aparentando segundas intenções? Talvez ela simplesmente se divertisse com as pequenas explosões de mau-humor que o rapaz tinha ocasionalmente. Ou talvez já estivesse bêbada. Zoro duvidava disso, mas não conseguia encontrar outra explicação para o olhar que ela lhe dirigia.


Do outro lado da mesa, Nami procurava segurar o riso, enquanto apreciava o olho de íris negra devolver seu olhar desafiador, e os lábios finos se crisparem, incomodados com sua abordagem pouco discreta. Alheia á baderna ao seu redor, ela mantinha os olhos pregados no espadachim, sentado displicentemente, os coturnos pesados apoiados no tampo de madeira.


Suspirou, risonha. Aquilo estava acontecendo outra vez. Aquele interesse crescente por Zoro, que vinha sentindo antes mesmo da separação do bando, á dois anos atrás. Sentia um prazer quase doentio em provocar o espadachim, só para poder vê-lo dar uma daquelas respostas vociferantes e grosseiras, ou para apreciar a veia que pulsava em sua têmpora, denunciando sua fúria mal contida. Não sabia muito bem o porquê, mas achava que o espadachim de cabelos verdes ficava ainda mais sexy quando estava mal humorado. O semblante rabugento lhe dava um ar mais másculo. E gostava do jeito como ele se impunha, sempre desafiando-a, enquanto os outros homens acatavam suas ordens sem maiores perguntas. Era irritante e ao mesmo tempo impressionante. Zoro era bruto, violento, falava o que pensava e não se deixava domar facilmente. Um macho viril e instigante.


Sorridente, desviou sua atenção para Sanji, enquanto apanhava o que já era a décima segunda taça de bebida que ele lhe oferecia, vangloriando-se intimamente ao ver, com o rabo do olho, Zoro cerrar os punhos sobre a mesa e trincar os dentes, furioso ao ver que ela parara de encará-lo para dar atenção ao loiro barulhento. Desde a fatídica época de dois anos atrás, ela notara que a antipatia entre o espadachim e o cozinheiro vinha á tona por outro motivo. O fato de Sanji estar sempre perto dela, tentando agradá-la de todas as formas, enchendo-a de mimos e regalias. Quando isso acontecia, Zoro se manifestava, provocando o cozinheiro com apelidinhos e comentários sarcásticos. Sempre por sua causa.


Fora a partir daí que Nami decidira investir naquele homem tão arredio e excessivamente estúpido. Ao ver o interesse que ele tinha nela, coisa que nem o mesmo parecia notar, percebeu que poderia ser bem sucedida se tentasse o flerte. Mas conhecia o orgulho inquebrável que Zoro possuía, e sabia muito bem que o rapaz preferiria cravar uma de suas espadas no próprio abdome a admitir que nutria algum interesse por ela. Então, se queria algo daquele idiota, teria de apelar para táticas baixas. Qual seria a melhor maneira de fazer um homem desabafar sobre seus pensamentos e desejos mais secretos?


Álcool, é claro.


– Nami-swan?!


Ouviu Sanji cantarolar, sua voz soando longínqua, já que seus pensamentos estavam muito longe dali. Ergueu a cabeça para encontrar o único olho visível do cozinheiro, azul-elétrico, transbordando aquela paixão cheia de segundas intenções, intensificadas pela desinibição que o álcool lhe proporcionara. Fez um esforço descomunal para não rir dos esforços patéticos dele, limitando-se a abrir um sorriso doce, superficialmente cândido.


– Sim, Sanji-kun?


– Preparei mais uma taça de saquê com limão para você, Nami-san, com todo o meu amor e devoção. – Declamou, fazendo gestos exagerados – Espero que você aprecie.


Como se ela já não estivesse apreciando. Sanji podia ser grudento e um pouco irritante, mas tinha sua serventia. Na verdade, ela poderia até se interessar em ter algum caso com o cozinheiro. Isso se já não tivesse encontrado um alvo tão mais interessante.


– Obrigada, Sanji-kun, mas acho que vou beber saquê puro, mesmo. – Respondeu – Por que não oferece essa taça á Robin? Aposto que ela vai precisar mais do que eu.


Apontou para onde Robin estava sentada, e Sanji trincou os dentes ao ver a morena rindo da dança ridícula que Franky fazia sobre a mesa, agora sendo dedicada somente á ela.


– Com licença, Nami-san. – Murmurou, afastando-se rapidamente – Ei, seu robô pervertido de uma figa! Pare de perturbar a Robin-chan com essa estupidez!


Nami observou a agitação que logo foi se formando, com Sanji gritando com um Franky totalmente desinteressado, Luffy, Usopp e Chopper rindo da situação, e Brook continuando com seu número solo, totalmente alheio á bagunça. Perfeito, todos distraídos. Era hora de por seu plano em prática.


Continua...



Notas finais
Esse foi o primeiro capítulo. Vocês podem esperar tudo do plano da Nami *sorriso safado*

Até o próximo 0/