Drunk

2 O tiro que saiu pela culatra


Notas iniciais
O segundo capítulo. Viram como foi rapidinho? XP
Esse aqui ficou enorme, justamente para compensar o primeiro, que ficou realmente curto. Aqui teremos o plano da Nami sendo posto em prática. Mas digamos que as coisas não vão sair exatamente do jeito que ela quer...
Então, sem mais delongas, vamos á ele! Boa leitura 0/

Nami observou a agitação que logo foi se formando, com Sanji gritando com um Franky totalmente desinteressado, Luffy, Usopp e Chopper rindo da situação, e Brook continuando com seu número solo, totalmente alheio á bagunça. Perfeito, todos distraídos. Era hora de por seu plano em prática.

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Apanhou duas garrafas de saquê á sua frente, erguendo-se da cadeira logo depois. Caminhou até o outro extremo da mesa, onde Zoro continuava sentado, ignorando a barulheira infernal. Sorriu ao ver o olho arisco se voltar para ela, estreitado com a desconfiança.

Zoro se permitiu dar um rosnado de indignação, ao ver Nami se aproximando. Ela parara de observá-lo apenas para ficar lançando sorrisinhos falsos àquele cozinheiro idiota, flertando com ele descaradamente. E agora caminhava com passos firmes em sua direção, e ainda por cima trazendo duas garrafas de saquê. Um gesto típico de quem pedia camaradagem. E para o quê? Certamente para continuar provocando-o, como só ela sabia fazer.

“Bruxa dissimulada!”

Aquele sorriso... Aquele maldito sorriso! Ele o atormentava mais do que qualquer outra coisa. Na realidade, tudo em Nami o atormentava, desde seus longos cabelos ruivos e ondulados até seu corpo esbelto e curvilíneo, onde se destacavam o quadril sinuoso e os seios fartos, que balançavam a cada passo que ela dava. Era inacreditável que, mesmo depois de dois anos, ela conseguisse ficar ainda mais encantadora. Mas Zoro não se deixava enganar, ou pelo menos tentava. Cobras também eram belas á primeira vista. Até que o bote era dado, e você sentia o veneno mortal incendiar suas veias.

Não deixaria que Nami lhe desse o bote. Nem em um milhão de anos.

Mas... Merda, porque os seios dela tinham que ser tão grandes e... Parecerem tão macios?

- Ei, Zoro! Posso me sentar aí?

Foi bruscamente trazido de volta á realidade pela voz suave, porém decidida dela. Torcendo para que ela não tivesse notado o interesse dele em seu busto volumoso, Zoro ergueu o olhar com certo aborrecimento. Encarou-a com uma expressão de enfado, como se a coisa toda o entediasse.

- E vai adiantar se eu disser que não?

- Credo, que grosseria! – Nami ladrou, fingindo-se amuada, enquanto fazia um beicinho – Eu estou perguntando se posso me sentar com toda a educação e você me responde desse jeito? Deve ser por isso que as mulheres não mostram interesse em você. Que garota aguentaria essa rabugice toda?

Zoro fechou seu olho, contando mentalmente até dez.

- Como se eu ligasse para o que mulheres pensam de mim. Eu não sou como aquele cozinheiro otário. – Ele respondeu, tentando demonstrar que a provocação não causara o efeito desejado. Os olhos castanhos da ruiva se estreitaram. Como ela previra, Zoro não daria o braço a torcer tão facilmente.

- Bem, isso não importa. – Suspirou – Trouxe essas garrafas como sinal de paz, porque não estou a fim de discutir com você hoje. Por isso, não importa o que você diga, vou me sentar aqui. E não se fala mais nisso. – Decretou, sentando-se ao lado dele e pousando as garrafas sobre a mesa. Zoro revirou o olho bom.

- E ainda diz que não tá a fim de discutir comigo...

Nami riu. Ao ouvir o riso dela, tiritante e melodioso, Zoro precisou usar de todo o seu alto-controle para não sorrir em resposta. Não ia dar á ela motivos para se vangloriar, de jeito nenhum. Voltou a se recostar na cadeira, tentando mostrar que a presença dela não o perturbava de nenhuma forma. Mas passados alguns segundos de silêncio, a navegadora voltou a chamar sua atenção.

- Ei!

Ele a ignorou na primeira vez, perguntando-se se ela acreditaria realmente que ele não a ouvira.

- Ei! Estou falando com você!

Bufou, jogando a cabeça para trás.

- Olhe para mim enquanto eu estiver falando com você, idiota! E não se faça de surdo! Eu sei muito bem que você me escutou...

- O que você quer?! – Rosnou, encarando-a com uma expressão homicida. E como sempre, Nami não se deixou intimidar.

- As garrafas. – Ela disse, apontando para os dois recipientes sobre a mesa – Eu trouxe uma para cada um de nós. Não vai pegar a sua?

Zoro ia dar á ela uma resposta bem ácida, quando percebeu que ainda haviam duas garrafas sobre a mesa. Duas. Ou seja, Nami não havia apanhado a sua. Torceu os lábios, a desconfiança que era inata de seu ser aflorando no mesmo instante. Porque ofereça bebida á ele, se ela mesma não estava bebendo?

Depois de pensar sobre aquilo, acabou por dar um bocejo e espreguiçar-se, gestos propositais para sondar as reais intenções daquela mulher capciosa.

- Não, não. – Murmurou, passando a mão pelas madeixas assanhadas – Já bebi o bastante por uma semana toda. Não quero esgotar nosso estoque de saquê antes de chegarmos á próxima ilha.

Os lábios rosados da ruiva se cerraram, denunciando sua irritação. Aquela carne colorida e lisinha era apetitosa aos olhos masculinos, e mesmo com Zoro, dono de um autocontrole invejável, não poderia ser diferente. Balançou levemente a cabeça para afastar aqueles pensamentos esquisitos.

- Eu apanhei essas duas garrafas especialmente para nós. – Nami sibilou, num tom baixo e perigoso – Decidi promover uma trégua entre nós, e você simplesmente recusa a minha oferta de paz? Uma garrafa de saquê cheinha?!

- E eu por acaso pedi pela sua “oferta de paz”? – O rapaz retrucou, um sorriso debochado se formando em seus lábios finos – Você trouxe as garrafas porque quis. Mas pode beber ambas, se quiser. Vou lhe fazer essa generosidade.

Ao ouvir aquilo, o gênio de Nami, sempre instável, ficou á ponto de explodir. Desgraçado ingrato! Quem ele pensava que era?! Ela lhe trouxera saquê, com a melhor das intenções (ou nem tanto assim), e ele, além de recusar sua oferta, ainda fizera troça da situação?!

Sua maior vontade, no momento, era de mandá-lo ir á merda. Mas conteve-se, mesmo que precisasse usar de um esforço descomunal para tal. Não daria á ele o gostinho de ver que conseguira aborrecê-la. Pelo contrário. Usaria das provocações dele para chegar onde queria.

Ele mesmo não sabia, mas estava dando á ela as armas necessárias para que o plano transcorresse como queria e fosse bem sucedido. Esse pensamento fez com que sua ira fosse momentaneamente abrandada, e sua expressão de fúria fosse substituída por outra, de puro deboche.

- Hunf... Generosidade, é? – Murmurou, pondo o dedo indicador sob o lábio inferior enquanto fazia um biquinho – Está certo! Sua generosidade soou muito mais como covardia, sabia?

O sorrisinho debochado sumiu na mesma hora do rosto de Zoro.

- Covardia?

- Oh sim. Covardia, do tipo que faria o Usopp parecer um bárbaro sanguinário. – Nami sabia que estava exagerando, mas essa era a tática ideal para conseguir o que queria – Mas eu não o culpo, Zoro. Afinal, todos sabemos muito bem que você não suportaria competir comigo, ainda mais se tratando de álcool.

Pronto. Ela o atingira diretamente em seu calcanhar de Aquiles: o orgulho. Não conteve a enorme satisfação ao ver os dois olhos, o são e o destruído pela cicatriz vertical contraírem-se com indignação, e a veia na têmpora principiar a saltar.

- Como é? – Ele sibilou baixinho, num tom suave que antecipava a fúria que brotava aos poucos.

- É isso mesmo o que você escutou. – Retaliou, atrevida – Você sabe muito bem que jamais conseguiria acompanhar meu ritmo. Sou uma alcoólatra profissional, posso beber por toda uma noite sem sequer ficar zonza. Já você... – Risadinha – Bem, eu preciso mesmo te lembrar do papelão em Wiskey Peak, onde você não aguentou tomar mais que uns dez canecos de cerveja e já pediu arrego?

- Não seja ridícula! – Ao ser provocado daquela maneira, Zoro perdeu totalmente a compostura – Eu não cheguei nem perto de ficar bêbado. Estava apenas fingindo pra poder pegar aqueles caçadores idiotas com a boca na botija. Ao contrário de você, que bebeu até cair e deu o maior vexame, desmaiando encima da mesa.

- Quê?! Idiota, eu também estava fingindo e você sabe muito bem disso! – A ruiva retrucou, a retaliação do espadachim voltando a acender sua ira – Mas a questão não é essa! A verdade é que você tem medo de beber comigo, pois sabe que vai perder!

- E desde quando isso virou uma competição?! Cadê aquele papo idiota de oferta de paz?!

- Acabou no instante em que você fez pouco dele! E não mude de assunto! Vamos, admita que você está com medo...

O espadachim bufou com força, feito um touro enfurecido. Suas mãos tremiam com o desejo quase incontrolável de agarrar aquele lindo pescocinho e apertá-lo até que se partisse. Oferta de paz o cacete! O que ela queria mesmo era provocá-lo, levá-lo ao limite do bom senso para vê-lo explodir de raiva, já que isso sempre a divertira.

Nami era a personificação do demônio, mesmo! Era falsa, dissimulada, interesseira, desbocada... E inteligente, de espírito forte, linda... Mas que merda ele estava pensando?!

- Hunf... Medo? Não me faça rir. – Grunhiu, mantendo o olho bom fechado para não ter que encarar a face angelical que tanto o perturbava – Você é que não sabe com quem está se metendo, bruxa. Fique sabendo que o álcool para mim é como água para você. Se pensa que pode entrar num embate sério comigo, vai acabar caindo do salto e quebrando a cara.

- Você fala demais, marimo. – Sublinhou a última palavra, encarando com zombaria os cabelos esverdeados e rebeldes – Essa lábia toda é pra ocultar o seu medo da competição?

- Não me subestime. Se eu aceitar seu maldito desafio, não vai ser por brincadeira.

- Então quer tentar a sorte?

Zoro a encarou. A expressão dele era enfezada, de quem sabe que está prensado contra a parede e que não pode fazer nada para reverter a situação. Nami conteve um sorriso vitorioso. Conseguira o que queria! Mesmo que fosse a troco de mais uma discussão ridícula, cheia de ironias e provocações.

Ela não queria ter brigado com ele. Sério mesmo, não queria! Mas Zoro era mais teimoso que uma mula empacada, e não havia outro jeito de induzi-lo á fazer suas vontades que não fosse com a troca de farpas envenenadas. Afinal, ele não era como Sanji, que acatava suas ordens como leis absolutas. E era isso que a deixava tão fascinada por aquele homem.

- Pegue a sua garrafa. Vou fazer você chamar urubu de “meu louro”. – Ele anunciou, o que fez a ruiva gargalhar.

- É o que vamos ver!

Mais que depressa ela apanhou a garrafa, retirando a rolha do topo do gargalo com perícia. Zoro a imitou; inclusive tinha a mesma manha para se livrar da rolha da garrafa, demonstrando toda a sua experiência. Olharam um para o outro. Desafiando-se silenciosamente.

- Certo... Valendo!

Mal fora dada a “largada” e ambos viraram as garrafas na boca de uma só vez, tomando juntos um enorme gole. Mas na pressa de exibirem sua experiência um para o outro, exageraram na quantidade de álcool que deveriam ter tomado. Largaram as jarras na mesa e principiaram a engasgar e a tossir miseravelmente, os olhos lacrimejando, as gargantas queimando com a quantidade excessiva de bebida. E a gafe que cometeram não passou despercebida aos demais tripulantes.

- Ei, vocês dois estão bem? – Usopp perguntou, enquanto cobria com os braços o próprio prato de petiscos, protegendo-o das mãos sempre ágeis de Luffy. Ambos simplesmente sacudiram as cabeças, ainda tossindo e ofegando. Tiveram que suportar o olhar desconfiado dele e dos outros por mais alguns instantes, menos de Sanji, que estava entretido demais em agradar Robin com mais taças e petiscos. Finalmente, ambos deixaram de ser o centro das atenções, e a bagunça anterior foi retomada.

Zoro e Nami ficaram em silencio por uns poucos segundos, as caras vermelhas como pimentões, ainda recuperando o fôlego. Encararam-se, para avaliar a reação alheia. Mas a expressão apatetada que Zoro conservava no rosto acabou por fazer a navegadora estourar em risadas.

- Isso não foi engraçado! – Ele rugiu, o rosto ainda vermelho, dessa vez pela vergonha. Nami sacudiu a cabeça, sem parar de rir.

- Ah, foi sim! Devia ter visto a sua cara depois dessa engasgada monstruosa!

- Do que está falando, idiota?! Você também se engasgou! – Defendeu-se, apontando para o rosto da outra, também vermelho. Mas a retaliação não produziu o efeito desejado.

- Mas não fiquei com essa cara de pamonha estragada!

Pamonha estragada? A analogia totalmente sem nexo fez Zoro esquecer-se momentaneamente do aborrecimento e acompanhá-la nas risadas, embora as dele fossem mais contidas, já que ainda estava envergonhado.

- Certo, agora pare de rir e pegue a sua garrafa. Não vai ser uma engasgadinha de nada que vai me fazer desistir de mostrar á você com quem está se metendo.

Nami não retaliou, feliz ao constatar que agora tudo parecia estar indo bem. Bem demais para ser estragado por mais desentendimentos. Por isso não o contestou, servindo-se de mais uma generosa dose de saquê, desta vez de maneira menos entusiasmada. Zoro imitou-a. E deu-se a “largada” mais uma vez.

À medida que as horas passavam, a tempestade parecia ir se abrandando, embora o vento ainda soprasse forte, e o mar permanecesse agitado. A mesa começava a ficar atulhada de pratos sujos, guardanapos e palitos de dente usados. E também de incontáveis garrafas de saquê, que Zoro e Nami iam apanhando a medida que a competição avançava. O estoque já estava praticamente no fim, e já tinham ouvido as reclamações dos outros sobre não estarem deixando nada para que também mitigassem a sede. Mas ambos nem se importavam. Estavam ocupados demais, totalmente compenetrados nas garrafas que viraram de uma vez na boca, olhando-se de quando em quando para avaliarem o estado do adversário.

Zoro sabia que estava cada vez mais se aproximando de seu limite. Ainda não estava com o estômago embrulhado, mas já começava a sentir um calor escaldante, que subia do pescoço á testa, fazendo-o suar em bicas. Também estava um tantinho tonto, a vista ficando meio embaçada, os contornos dos pratos, copos e garrafas á sua frente se tornando difusos. E também sabia, sem nem perguntar, que Nami estava no mesmo estado. Ela podia falar o que quisesse sobre sua resistência ao álcool e seu fígado poderoso; o espadachim acreditava que mesmo o organismo dela não suportaria uma verdadeira overdose. Mas não diria para pararem. Não mesmo! Levaria aquela garotinha folgada ao seu limite, queria sentir o prazer de vê-la zonza, trôpega, falando besteiras. Até esquecera-se de suas intenções iniciais de provocá-la para poder ver onde a mesma queria chegar com a tal “oferta de paz”.

Mas apesar de tudo, não podia deixar de admirá-la, ao vê-la tomar garrafa atrás de garrafa, sem parar nem para respirar. Nunca conhecera outra mulher com tamanha resistência ao álcool, á ponto de poder competir com ele sem grandes dificuldades. Na realidade, Nami sempre o surpreendia. Seu temperamento forte, sua capacidade de fazer com que todos a escutassem e a obedecessem, seu talento para conseguir o que queria com algumas palavras e sorrisos sugestivos; tudo isso se somava para torná-la extremamente instigante aos olhos dos homens, inclusive aos seus. Ela lhe lembrava muito Kuina; atrevida, provocante e única. Sua rival, melhor amiga e paixão de infância. Kuina... Nami. Sim, elas eram realmente parecidas. E essa semelhança entre ambas... Será que era essa a razão para o seu nervosismo quando estava perto dela?

Afinal, por que aquela garota o deixava tão nervoso? O que sentia por ela? Essas eram as perguntas que fazia á si mesmo á dois anos. Dois anos inteiros sem vê-la... Como ela conseguira ficar ainda mais bonita?

- Ei, Zoro!

A voz dela, alta e arrastada por causa da bebida voltou a chamar sua atenção. Dessa vez ele não se fez de surdo, fazendo questão de olhá-la diretamente nos olhos para avaliar seu estado. Nami estava vermelha, as pálpebras pesadas, os belos lábios entreabertos com a respiração um tanto ofegante. Como imaginara, ela não estava em melhor situação do que ele.

- O que foi?

- Nós já estamos nessa á mais de uma hora, bebendo garrafa atrás de garrafa, mas só fazendo isso! – Ela exclamou, em tom queixoso – Eu detesto beber acompanhada e ficar só no silêncio!

- E o que você quer fazer?

- Vamos conversar, botar o papo em dia! – Ela apoiou o queixo na mão, sorrindo abertamente para o outro – Sabe que você ainda não me contou para onde foi mandado? Onde você esteve nesses últimos dois anos?

Zoro desviou o olhar. Não gostava daquele tipo de pergunta, ainda mais assim, atirada á queima-roupa. Mas não culpava Nami pela curiosidade; tinha certeza que todos ali tinham interesse de saber do antigo paradeiro uns dos outros. Todos menos ele. Não que não tivesse se preocupado com os companheiros. Apenas achava que havia coisas que precisavam ser esquecidas e nunca mais desenterradas. Sabia que todos ali provavelmente teriam sofrido duras experiências, memórias que queriam ver apagadas, e respeitava isso.

Mas tinha que admitir, estava curioso sobre o que aquela garota andara aprontando nos últimos dois anos. Pensara nela muitas vezes; naqueles olhos castanhos, no brilho dos cabelos cor de fogo...

- Estive numa ilha da Grand Line, treinando. – Foi tudo o que ele respondeu. Nami bufou.

- Disso eu já sei. É o que todos nós estivemos fazendo, não é? – Disse, revirando os olhos – Não é isso que estou perguntando! Quero saber como era o lugar para onde foi mandado, se estava sozinho ou se tinha companhia, como fez pra melhorar tanto suas habilidades... E se...

Ela de repente concentrou o olhar no tampo da mesa, as bochechas aparentando ficar ainda mais vermelhas, e não parecia ser pelo álcool. Zoro arqueou uma sobrancelha. O que tinha de errado com ela?

- ... Se você pensou em mim durante esse tempo.

Se ele estivesse tomando saquê naquele momento, certamente teria se engasgado de novo. Ele tinha ouvido direito? Por que diabos ela queria saber se ele havia pensado nela? Que raios de pergunta era aquela?

E... Por que diabos aquela indagação o deixara tão nervoso?

- Ahn?

Imediatamente, Nami percebeu que havia soltado uma asneira. A pergunta escapara de sua boca sem que pudesse refreá-la, e agora não havia como mudar o que dissera. Juntou os dedos indicadores e engoliu em seco. Agora sim estava ferrada!

- B-Bem... – Gaguejou, amaldiçoando-se por não conseguir articular as palavras de maneira convincente – Quero dizer... Eu quero saber se você pensou em mim, no Luffy e em todos os outros durante esses dois anos! Quero dizer, você é sempre tão reservado, tão frio... Bem, seria bom saber que você pensou em nós e não só no seu treinamento, pelo menos uma vez...

Aquela ladainha não estava fazendo o menor sentido, deixando Zoro mais perdido que o de costume. Desde quando aquela mulher se importava se ele pensava ou deixava de pensar nos outros ou no que quer que fosse? Ela só podia estar bêbada, mesmo...

Mas... Por que ela parecia tão envergonhada? Nami não era do tipo que soltava aquela classe de pergunta tão espontaneamente, ainda mais quando não parecia ter a intenção de azucriná-lo. E novamente, a desconfiança voltava para perturbar seus pensamentos. O que ela estava planejando?

- E desde quando você se importa com isso?

- C-Como assim? É claro que eu me importo com o que acontece aos meus companheiros! Ainda mais depois de dois anos inteiros sem vê-los! – Ela retaliou, frustrada ao constatar que ele continuava tão lerdo quanto era á dois anos atrás, talvez até mais – Só queria saber se você sentiu a mesma preocupação que eu senti, mas pelo visto só perdi meu tempo me importando com isso...

Zoro suspirou, passando a mão pelo rosto, num gesto cansado. A habilidade que ela tinha de arrancar as coisas que ele tentava ocultar era impressionante.

- Preocupação eu senti, né? – Ele disse por fim, mais para fazê-la se calar do que por qualquer outra coisa – Quer dizer, olha só o que aconteceu com o Luffy depois de nos separarmos...

Calou-se, ao se deparar com a expressão tristonha dela. Falar do que Luffy havia passado era difícil, tanto para eles quanto para todos ali. Desde o reencontro, ninguém tocara no assunto da morte do irmão mais velho do capitão, Ace. Não era agradável trazer a tona um acontecimento que provavelmente deixara Luffy na mais profunda tristeza, além do fato de que nenhum deles estava lá para confortar o rapaz naquele momento tão difícil. E agora que ele parecia ter superado o trauma, o mais sensato á se fazer era não tocar no assunto, e simplesmente seguir adiante. Mesmo que, no fundo, todos quisessem mostrar ao capitão que sentiam muito por ele, e que estariam juntos para o que desse e viesse.

Sim, Zoro pensara muito nos companheiros. Mas seu orgulho exacerbado o impedia de expressar tal fato, ainda mais para Nami. E não era nem por ela não lhe inspirar muita confiança. Simplesmente não queria parecer frágil aos olhos dela. Não queria abrir brechas para que ela pudesse ver seus pontos fracos. Como um bom guerreiro, ele ocultava seus pensamentos e sentimentos, para assim não dar armas ao inimigo.

Mas... Nami por acaso era sua inimiga? Não, claro que não. Era sua companheira. A companheira que conseguia deixá-lo furioso e abalado com pouquíssimo esforço. A mulher ardilosa que sempre tinha segundas intenções por trás de seus gestos e de suas palavras.

E a mulher que parecia profundamente magoada, ao pensar que ele não se importava com ela ou com os demais. O que não era nem de longe verdade.

- Eu... Eu estive numa Ilha do Céu.

Ela falara de repente, interrompendo os pensamentos perturbados de Zoro. Voltou suas atenções para a ruiva, que estava meio encolhida na cadeira, segurando a garrafa de saquê com as duas mãos, os olhos caídos e esboçando um sorriso de canto. As bochechas dela tinham adquirido um tom rosado que lhe era estranho... E absurdamente tentador.

- Kuma me mandou para uma Ilha do Céu, onde se estudava o tempo. É meio irônico, não é? Logo eu, que antes duvidava da existência desse tipo de coisa... – Ela riu timidamente – Eu estive na companhia de uns velhinhos bobos. Eles eram fáceis de enganar e manipular, então não tive dificuldades para fazê-los me aceitar. – Acrescentou com impressionante naturalidade, o que fez Zoro revirar o olho são – Passei esses dois anos estudando o clima de diferentes regiões do Novo Mundo, e aprendendo a usar o tempo ao meu favor. Foi assim que eu aperfeiçoei o Clima Tact. Mas sabe... Mesmo ocupada com o treino e estudos, eu não deixava de pensar em vocês. Nem por um segundo eu me esqueci... Não que eu estivesse sozinha, mas eu sempre me sinto mais á vontade quando estou com vocês. Senti muito a falta do Luffy e dos outros. E...

Ela então largou a garrafa, apoiando ambas as mãos no tampo da mesa. Zoro sentiu um arrepiou lhe percorrer a espinha ao vê-la se aproximar, inclinando o corpo até que seus rostos estivessem a centímetros um do outro. Sentia a respiração quente dela, o perfume doce de saquê que ela exalava; via os olhos cor de avelã brilharem ao se focarem intensamente em seu rosto, e os lábios cheios e coloridos que se abriam, roçando sensualmente um no outro ao dizerem num sussurro:

- ... E eu senti muito a sua falta, também.

Tentar se manter impassível, mesmo depois de ouvir tamanha revelação, exigia tudo de seu autocontrole.

“Ela está mentindo!” Sua consciência rugiu, num alerta. “É óbvio que está dizendo isso pra zombar de você! O que mais essa bruxa interesseira iria querer? Com certeza deve estar procurando por uma brecha para tocar no assunto daquela maldita dívida! Não se deixe enganar!”

O espadachim procurou se esquivar daquele olhar, que parecia radiografa-lo. Ele sempre achou que fosse o único homem, em meio á uma trupe de verdadeiros palhaços, que não se deixava levar pelo rosto de anjo e pelas atitudes persuasivas de Nami. Mas sua convicção, sempre inabalável, estava começando a vacilar. Talvez... Talvez ela estivesse sendo realmente sincera desta vez...

“Não, não está!” A voz voltou a rugir. “Viu só? Passa tanto tempo com aquele cozinheiro idiota que está ficando igual á ele!”

“Não, não estou!”

- Hunf! – Ele bufou com aborrecimento, ainda sem encará-la – Sentiu minha falta, é? Sei! Aposto que sentiu muito mais falta do dinheiro que insiste em afirmar que devo á você...

E no instante seguinte, Zoro se arrependeu amargamente por ter dito aquilo.

Foi tudo tão repentino que mesmo ele demorou á assimilar os fatos. Só teve tempo de ver a mão de Nami, com a palma bem esticada, vindo á toda velocidade na sua direção. E depois, sentia o doloroso contato que o punho pequenino fazia com o lado esquerdo de seu rosto, com tal força que chegou a desequilibrá-lo momentaneamente na cadeira.

O tabefe produziu um som estalado que ecoou pela cozinha, mesmo com todo o barulho ali feito. E claro, não deixou de chamar a atenção dos demais, que imediatamente se calaram, virando as cabeças na direção de onde o som viera, para ver o que estava acontecendo. E o que viram foi Zoro agarrado ao assento da cadeira, ostentando uma expressão espantada, encarando Nami que havia se levantado, os punhos cerrados, os lábios tremendo e os olhos marejados. Estava enfurecida.

- Seu... Seu... Seu imbecil! Idiota, grosso, estúpido! – A moça gritou, a voz esganiçada pela ira, os olhos castanhos em chamas – Como pode dizer uma coisa dessas?! Eu estava tentando ter uma conversa normal com você, saber pelo que você tinha passado... Merda, eu realmente queria saber! Eu estava preocupada, mas você estraga tudo com um comentário ridículo desses... – Uma lágrima solitária desceu pela bochecha rosada, o que não abrandou nem remotamente a fúria da navegadora – Q... Quer saber, Zoro?! Vai se danar! Cansei de ficar bancando a idiota me importando com você!

Silêncio absoluto. A explosão da ruiva, naquele momento, foi algo completamente inesperado e inusitado. Todos encaravam o espetáculo boquiabertos, estarrecidos; Luffy inclusive esquecera-se de que havia um enorme pedaço de carne em sua boca, esperando para ser mastigado e engolido. Mas os dois protagonistas do “show” sequer notaram que havia uma plateia abismada os assistindo.

Zoro levou lentamente a mão esquerda ao rosto, mais especificamente ao lado atingido pela mão de Nami, que latejava e ardia. Mas não era a dor que o perturbava. E sim a reação completamente descontrolada dela. Ela já o agredira inúmeras vezes antes, mas aquele tapa teve um “quê” á mais que nenhum dos outros socos, cascudos e pontapés tiveram. Nele havia uma fúria decepcionada. A dor de uma mágoa profunda. E na mesma hora, o espadachim compreendeu que havia dito uma coisa repugnante. Mesmo que o alvo da provocação tivesse sido Nami.

- E... Ei... – Ele se ergueu da cadeira, os braços estendidos para frente, num gesto defensivo e completamente dócil. Nami imediatamente se afastou, dando um passo para trás, os punhos ainda tremendo, os dentes ainda trincados de fúria.

- Fique longe de mim!

- O que você fez á Nami-san, seu marimo desgraçado?! – Sanji rugiu de repente, avançando para Zoro como um cão raivoso. O rapaz se voltou para o loiro na mesma hora, sua mão automaticamente agarrando a bainha da Wado Ichimonji. Aquilo era entre Nami e ele. Não deixaria que aquele cozinheiro imbecil se metesse no que não era de sua conta.

Mas a contenda foi rapidamente interrompida, quando uma forte onda atingiu a lateral do Thousand Sunny com a força de uma locomotiva desenfreada.

Como a tempestade havia se abrandado com o passar das horas, o choque do navio contra a parede maciça de água fora completamente inesperado. O impacto quase fez com que a embarcação se virasse, e o equilíbrio sumisse. Todos foram imediatamente jogados de suas cadeiras, junto com os pratos, copos, garrafas e a enorme mesa. Luffy, Usopp e Chopper bateram contra a parede, completamente embolados uns nos outros; Brook, o mais leve ali, fora praticamente arremessado para trás do balcão. Franky fora jogado junto á mesa, mas conseguira amparar a queda de Robin, que pega de surpresa, não tivera tempo sequer de produzir braços que a mantivessem segura no lugar, enquanto Sanji dera de cara com a parede dura, indo cair junto dos outros três garotos.

E Zoro, arremessado para o lado oposto, sentiu o ar fugir de seus pulmões quando o corpo curvilíneo se chocou contra seu peito, e começou a tossir quando a cascata de cabelos ruivos cobriu sua visão e tapou sua boca e nariz. Abriu o olho, que se fixou nas duas orbes castanhas arregaladas de susto, e ainda marejadas pelas lágrimas.

Confusa, ainda abalada pelo susto e pela fúria recente, Nami demorou mais que o convencional para se dar conta de quem era o dono do peitoral largo e forte onde sua cabeça repousava, e dos braços musculosos que a amparavam, envolvendo sua cintura com firmeza. E ao encontrar o olho escuro e arisco focado intensamente nos seus, sentiu o estômago dar uma cambalhota para trás, e o sangue arder em seu rosto, deixando suas bochechas mais vermelhas do que antes. A respiração quente de Zoro batia em seu rosto, causando arrepios por todo o seu corpo, deixando suas pernas bambas. O desejo que a atraía para perto dele, como se fosse um imã, batalhava furiosamente contra a raiva e a mágoa que ainda estava sentido. Atração e ódio se fundiam dentro de seu ser, causando sensações inéditas que a deixavam completamente sem reação.

Já Zoro não sabia o que fazer ou dizer. Até um momento atrás, sentia uma estranha ruptura entre ele e Nami, como se suas palavras maldosas tivessem cortado a tênue linha que os ligava, certeza acentuada pela maneira furiosa com a qual ela o rechaçara. E agora estavam os dois ali, atados pelo enorme susto que levaram, pelo segundo imensurável em que a morte estivera próxima, a briga de minutos atrás parecendo uma lembrança distante. Pelo menos para ele era assim. Como se concentrar em qualquer outra coisa, quando a pele quente e macia colava-se á sua, numa fricção que quase o fazia perder as estribeiras?

Castanhos aveludados sobre o negro impenetrável.

- Cacete, essa doeu!

Os gritos de raiva e dor de seus companheiros mais que depressa os despertaram daquele estado de letargia. A realidade se atirou sobre Nami sem qualquer cerimônia, fazendo-a se dar conta de que a pose em que se encontrava, jogada sobre o corpo másculo de Zoro e tendo os braços dele envolvidos em torno de sua cintura, era totalmente desconcertante e possivelmente suspeita. Empurrou-o para longe com brusquidão, ainda encarando-o com os olhos chamejando de cólera.

- Tire suas mãos de mim!

Zoro não retaliou, embora sua língua formigasse com o desejo de fazê-lo. Não queria dar á Nami mais motivos para se enfurecer com ele. Limitou-se a dar um bufo de desdenho, enquanto se erguia do chão, ajeitando suas vestes que se embolaram na queda.

A cozinha estava uma zona. A mesa tinha sido virada, as pernas voltadas para o ar. A louça da qual Sanji cuidava com tanto zelo estava em cacos no chão, também sujo de comida e bebida derramada. E para completar a comicidade da cena, metade dos Chapéus de Palha ainda não haviam se erguido do chão, a tontura causada pela bebedeira agora dez vezes mais intensa.

- Gyhahahahahahahaha!!! – Luffy gargalhava á plenos pulmões, dando tapas na própria perna, o chapéu de palha virado do avesso em sua cabeça – Caramba, que susto! Por um segundo eu achei mesmo que fossemos todos morrer!

- Isso não é engraçado, seu idiota! – Usopp rugia, tremendo da cabeça aos pés, agarrando Luffy pelo colarinho da camisa e chacoalhando-o com violência – Você tem alguma noção do perigo que corremos?! Eu vi a minha vida inteira passar diante dos meus olhos!

- Ugh... Estão todos bem? Alguém está ferido?! – Chopper indagou sem demora, embora ele mesmo mal conseguisse firmar as duas pernas (ou patas) no chão – Essa não! Precisamos de um médico! Mas... ‘pera aí, eu sou o médico! – Concluiu, abismado.

- Minha nossa, nunca levei um susto tão grande na minha vida! – Brook exclamou, apoiando-se no balcão para se erguer – Meu coração quase saiu pela boca! Mas espere aí, eu não tenho um coração! Yohohohohoho!

- Nami-swaaan! Robin-chwaaan! Vocês estão bem?! Se machucaram?! – Sanji gritava em pânico, girando sem sair do lugar, já que tinha a visão completamente ocultada pela toalha de mesa, que lhe cobria toda a cabeça.

- Huunn... Só espero que o navio não tenha sido danificado, ou estaremos correndo o risco de naufragar e morrer afogados. – Robin murmurou, com uma expressão pensativa e tranquila que não condizia em nada com a suposição agourenta que fizera.

- Não diga besteiras! O Sunny é o navio mais Super que existe, e um encontrão com uma ondinha de merda não significa nada para ele! – Franky protestou aos brados, fazendo gestos exagerados com os enormes braços – Mas é bom eu ir dar uma checada mesmo assim. Pode ser que o impacto tenha danificado o casco ou a proa...

- Eu vou. Preciso estabilizar o percurso, de qualquer jeito... – Nami mais que depressa se prontificou. Quase todos a encararam com espanto. Não era do feitio dela aceitar sair debaixo de um temporal daqueles para fazer o que quer que fosse. Mas a navegadora viu ali um excelente pretexto para não ter que continuar debaixo do mesmo teto que Zoro, pelo menos por enquanto. – E vou sozinha! – Acrescentou depressa, ao ver que Sanji fazia menção de segui-la. O cozinheiro estancou no lugar, assustado á princípio, mas logo voltou a soltar os costumeiros suspiros apaixonados.

- Nami-san fica tão linda quando está zangada!

E sem mais nem menos, desabou feito uma bomba no chão, as pernas esticadas para cima. Mas ele não era o único ali caindo de bêbado. Usopp e Chopper também permaneceram no chão, e recuperados do susto, riam de se acabar das tentativas de Luffy de ajeitar o chapéu sobre a cabeça, frustradas pela zonzeira dele. Brook também mal conseguia parar em pé, e acabou se esticando sobre o balcão da cozinha, também rindo das trapalhadas do capitão.

Franky tratou de levantar a mesa e as cadeiras, enquanto Robin ia á despensa para pegar sabão e um esfregão. E Nami tampouco se demorou. Abriu a porta da cozinha e disparou para fora, não sem antes lançar um último olhar de repulsa á Zoro, que permanecia estarrecido no lugar.

Bateu a porta com uma força desnecessária, e saiu chapinhando em direção ao leme, a chuva intensa deixando-a ensopada quase de imediato. Mas a possibilidade de apanhar um resfriado não a preocupou naquele momento. Ali, debaixo daquele temporal que a encharcava até os ossos, ela se permitiu liberar as lágrimas que vinha segurando desde o incidente na cozinha, deixando-as correr livremente por seu rosto, misturadas á água da chuva.

Não entendia o porquê das palavras de Zoro terem-na afetado tanto. Aquele brutamonte só abria a boca pra beber, roncar a falar grosserias. Aquela não era a primeira vez que ele lhe dizia coisas horríveis, que provavelmente dilacerariam o coração de uma mulher mais emotiva. E também não era a primeira vez em que ele a ofendia usando de artifício o seu maior defeito, a ganância. Mas fora justamente quando ela resolvera deixar aquela rixa por dinheiro de lado só daquela vez, procurando ter uma conversa amigável com ele. Fora sincera em cada uma de suas palavras. Sentira uma imensa falta dele nos dois que passou sem vê-lo, e quisera deixar isso bem claro. Mas ele não se convencera. Pisara no afeto que ela lhe dispensara da mesma maneira que pisaria em uma barata.

E aquela confusão toda começara graças ao seu plano mirabolante de embebeda-lo para fazê-lo soltar a língua. Que ridículo! Ela caíra na própria arapuca! Deixou-se levar pelas provocações dele e bebeu mais do que devia, e levada pela espontaneidade proporcionada pelo álcool, falou pelos cotovelos e acabou por humilhar á si mesma. Era o tiro que saia pela culatra. Como fora idiota...

E como se tudo isso não bastasse, ainda descobrira que suas suposições estavam todas erradas: Zoro não estava interessado nela, e provavelmente nunca estaria. Fora ela que, levada por seu ego demasiadamente inflado, acreditara que a fúria e as ofensas que ele lhe dirigia tinham algum significado oculto. E essa certeza a machucava mais do que deveria. A rejeição de um imbecil sem um pingo de educação não deveria deixá-la assim, tão arrasada... Isso, é claro, se não estivesse amando o dito imbecil. Como nunca se dera conta disso antes? E afinal, que diferença isso faria agora?

Ele não retribuía seus sentimentos. E agora ela estava ali, sozinha debaixo de um maldito temporal, chorando feito uma idiota por um amor não correspondido.

“Quando foi que você se tornou tão patética, Nami?”

Agarrou com firmeza o leme, mordendo o lábio inferior com força, esforçando-se para manter as atenções voltadas para o oceano bravio á sua frente. Estava tão tonta... Não deveria ter exagerado tanto na bebida... Tudo culpa do desgraçado do Zoro...

O que a navegadora não sabia era que, dentro da cozinha, o causador de suas mágoas e dono de seus pensamentos estava naquele exato momento pensando nela.

Zoro permaneceu encostado á parede, observando Franky e Robin ajeitando a bagunça deixada pelo incidente com a onda, enquanto os outros continuavam largados ao chão, parecendo incapazes de se sustentar sobre as próprias pernas. Não ouvia nenhuma palavra do que diziam, e não via nada do que faziam. A todo o momento, a imagem da expressão furiosa e arrasada de Nami arrebatava seus pensamentos, fazendo seu estômago saltar e se revirar, e o coração ficar pequeno e apertado dentro do peito.

Naquele momento, amaldiçoou com todas as forças sua língua extremamente afiada. O que era um feito inédito para si. Zoro se conhecia muito bem, e sabia que podia ser bastante cruel e insensível quando assim queria. Mas todos o conheciam também, e sabiam que colocar o espadachim contra a parede ocasionaria numa torrente de indelicadezas proferidas por ele. Então porque Nami... Levou as mãos á cabeça e a coçou, sentindo-se completamente desorientado.

Por que ela ficara tão chateada com o que ele dissera? E por que diabos ele estava se sentindo tão culpado agora?

Não era a primeira vez que a tratava com grosseria. E antigamente, ela nunca parecera se importar com isso, pelo contrário; sempre zombava dos ataques de fúria dele. E agora, ela o esbofeteara e o xingara, como uma garota que sofrera a primeira desilusão amorosa. Aquele pensamento trouxe um rubor causticante ao seu rosto, enquanto pensava sobre os acontecimentos recentes, tentando chegar á alguma conclusão.

Ele era um ignorante quando se tratava de sentimentos. Sempre fora uma pessoa fria, embrutecida pelo tempo e pelas más experiências. Era um homem de poucas palavras e muita ação. Não estava acostumado a lidar com delicadezas e sentimentalismos femininos; deixava essa parte para o cozinheiro idiota dar conta. Mas naquele momento, não poderia contar com Sanji ou com qualquer outro ali. Fora ele que fizera a lambança, e sabia que não poderia ser outro á concertá-la. Mas como faria isso?

Como alguém que procura desesperadamente as peças perdidas de um quebra-cabeça, Zoro revirou sua memória afetada pelo excesso de álcool, procurando se lembrar de fragmentos da conversa maluca que tivera com Nami, algo que o ajudasse a desvendar o mistério.

“Quero saber como era o lugar para onde foi mandado, se estava sozinho ou se tinha companhia, como fez pra melhorar tanto suas habilidades... E se...”

A lembrança da frase seguinte enrubesceu ainda mais seu rosto.

“... Se você pensou em mim durante esse tempo.”

Nunca esperaria uma frase como aquela saída da boca da navegadora. Ainda mais sendo dirigida á ele. Ela queria se saber se pensara nela...

“Só queria saber se você sentiu a mesma preocupação que eu senti, mas pelo visto só perdi meu tempo me importando com isso...”

Ela parecera decepcionada ao ver a recusa dele em responder á seu questionamento. Provavelmente pensara que ele pouco se importava com o que lhe acontecia, e tentara esconder a mágoa com aquele comentário irônico...

“Cansei de ficar bancando a idiota me importando com você!

...

“... E eu senti muito a sua falta, também.”

Trincou os dentes. Passou a mão pelos cabelos espetados, assanhando-os mais ainda, sentindo-se um perfeito idiota.

Estava tudo tão claro agora! De tão determinado que estava em descobrir as verdadeiras razões por trás do comportamento estranho de Nami, não percebeu que as mesmas estiveram o tempo todo bem debaixo de seu nariz. E ao se dar conta disso, o peso da culpa pareceu triplicar, como se tivesse engolido várias toneladas de chumbo.

Desde o começo, as intenções da navegadora foram escancaradas. As provocações, as bebidas oferecidas como gesto de paz, a insistência em querer conversar; tudo fora meticulosamente calculado por ela para que pudesse se aproximar do espadachim, de modo a poder arrancar confissões dele, e assim conseguir que algo mudasse entre eles. Que a relação conturbada, sustentada por inúmeras desavenças, pudesse se tornar afetiva. Intenções veladas e secundárias, mas que dessa vez não foram maliciosas. Gemeu, sentindo-se o mais insensível dos monstros.

“Merda, Zoro, como você consegue ser tão idiota?!”

Todas as dúvidas sobre o comportamento de Nami e sobre o que sentia por ela pareciam apontar para uma única alternativa. Uma única resposta que respondia milhares de perguntas. E essa certeza, ao contrário do que poderia imaginar, não o deixou constrangido ou contrariado. Apenas o deixou mais deprimido, ao ver que havia estragado quaisquer chances que poderia ter tido de mudar a relação que tinha com a ruiva.

Mas... Será que estava mesmo tudo acabado?

“Só tem uma maneira de descobrir isso...”

Zoro suspirou. O que estava prestes á fazer ia contra todos os seus princípios, e extirparia de vez qualquer réstia de orgulho. Mas não podia mais permitir que seus conceitos arraigados ficassem entre ele e seu objeto de desejo. Não podia se arriscar a perder a última chance que estava sendo-lhe concedida. Porque se a perdesse, não haveria mais volta. A relação entre ele e Nami nunca mais poderia mudar. Talvez até pioraria, ao ponto do ódio sobrepujar aquele tímido, porém intenso sentimento. E ele já estava cansado de todas aquelas brigas.

E então, depois de todas aquelas reflexões, Zoro fez algo que jamais sonhara fazer em todo o caminho trilhado como um espadachim honrado: mandou seu orgulho ás favas, enquanto abria a porta da cozinha e disparava para o convés, atravessando o intenso temporal, indo de encontro á dona de seus pensamentos e causadora de seus males.

Continua...


Notas finais
Bem, aí está o segundo capítulo, que como prometido, ficou enorme XP
Sim, eu sei, o Zoro foi um perfeito imbecil. Até eu fiquei com dó da Nami enquanto escrevia. Mas não se preocupem, porque o nosso marimo está decidido á concertar a burrada que ele fez!
Espero que tenham gostado! Beijos e até o terceiro capítulo 0/