Drunk
3 Circunstâncias
Notas iniciais
Primeiramente, quero agradecer á todos que deixaram excelentes reviews para a minha humilde história, elogiando, incentivando, dando dicas, enfim, fazendo meu coração de escritora se aquecer intensamente. Agradecimentos especiais á ariiuu, á namikdt e á Franzn pela força que tem me dado. Valeu mesmo, meninas! ^^
Vamos agora ao terceiro capítulo. Não direi muito coisa sobre ele, apenas que é nele que nosso querido marimo cabeça-dura tentará resolver o impasse com nossa ruivinha esquentada.
Espero que gostem, e boa leitura! 0/
[...] E então, depois de todas aquelas reflexões, Zoro fez algo que jamais sonhara fazer em todo o caminho trilhado como um espadachim honrado: mandou seu orgulho ás favas, enquanto abria a porta da cozinha e disparava para o convés, atravessando o intenso temporal, indo de encontro á dona de seus pensamentos e causadora de seus males.
–------------------------------------
A chuva caía ininterrupta, intensa e congelante, deixando o gramado sob seus pés lamacento e escorregadio, e ensopando todo o seu corpo. A temperatura quase glacial ajudou á curar parte da ressaca, dissipando um pouco da tontura, embora o calor do álcool não tivesse se abrandado. Uma leve fumaça se desprendia de seu corpo, resultante do choque da chuva gelada com sua pele incandescente. Indiferente ao frio e ao temporal que o deixava encharcado da cabeça aos pés, o espadachim virava a cabeça de um lado para o outro, procurando por algum indício da presença de Nami. Estava difícil enxergar alguma coisa; a chuva era tão intensa que formava uma espécie de cortina, toldando sua visão. Xingou baixinho, enquanto caminhava pelo convés, escorregando algumas vezes nas poças d’água que haviam se formado no gramado. Era uma cena hilária e ao mesmo tempo deprimente.
Depois de alguns minutos, vários escorregões e uma torrente de xingamentos, Zoro enfim localizou a silhueta feminina, imóvel, agarrada ao leme á uns metros á frente. A posição em que Nami se encontrava o preocupou. Era como se ela tivesse sido jogada sobre o leme, a parte superior do corpo totalmente pensa sobre os pinos de madeira, a cabeleira ondulada quase tocando seus pés. A qualquer momento os saltos finos das sandálias poderiam deslizar pela superfície molhada, fazendo a ruiva escorregar para o chão, batendo violentamente a cabeça no suporte do leme...
– Mas que merda!
Correu para onde ela estava, tomando cuidado para não levar mais um tombo no caminho. Agarrou-a pelos ombros, sacudindo-a de leve enquanto tentava retirá-la de cima do leme.
– Nami! Anda, acorda!
A moça não se mexeu. Parecia ter apagado de vez. Agora Zoro se sentia imensamente preocupado. Não imaginou que o excesso de bebida a deixaria naquele estado.
– Idiota, você vai pegar um resfriado de morte se ficar aqui fora! Anda, levanta...
Passou o braço esquerdo dela por cima de seu ombro, segurando-a pela cintura. As roupas dela estavam ensopadas, o cabelo encharcado pingando água, a pele alva gelada como a de um cadáver. Mas o belo rosto continuava fortemente corado, sinal claro de embriaguez. Procurou segurá-la mais junto ao peito, esperando que o calor de seu corpo mantivesse a temperatura do dela num grau razoável.
O que faria agora? Era óbvio que não poderia continuar debaixo daquele toró, ou Nami morreria congelada. Teria que levá-la para dentro, secá-la, colocá-la num lugar quente e confortável... Suspirou longamente. E lá se ia a sua chance de conversar com ela e resolver de uma vez toda aquela confusão. A culpa voltou a pesar, como uma bigorna lhe comprimindo o estômago. Se não tivesse dito aquelas coisas, Nami não teria saído para o convés, desmaiado sobre o leme e tomado chuva até quase congelar... Mas de que adiantaria ficar se lamuriando agora?
– Ei, cara, está tudo certo aí?!
Zoro ergueu a cabeça ao som daquela voz. Franky e Robin vinham chapinhando pelo gramado, ambos usando capas de chuva amarelas e galochas vermelhas. Caminhavam meio trôpegos; era óbvia a alteração causada pelo álcool. Mesmo assim, pareciam razoavelmente bem. Pelo menos podiam caminhar, ao contrário dos outros, incapazes de se manter de pé.
– Onde estão os outros? – Zoro perguntou, sem muito entusiasmo. Tocara no assunto apenas para se esquivar das perguntas embaraçosas que o ciborg provavelmente lhe faria.
– Lá na cozinha. Apagaram de vez. Não tivemos coragem de tirá-los de lá. – Franky respondeu, dando de ombros – Demos uma geral na bagunça e viemos ver se estava tudo okay com o Sunny. Mas e aí, o que aconteceu com a garotinha? Apagou também?
– Ela bebeu demais. – Foi tudo o que o espadachim disse. Franky arqueou uma sobrancelha.
– E você também, meu chapa. Aliais, que merda foi aquela que aconteceu na cozinha agora á pouco? Você deve ter dito alguma asneira pra garotinha te sentar a mão na cara daquele jeito...
– Não é da sua conta! – Zoro rosnou, curto e grosso como sempre. Não estava com o menor animo para iniciar uma conversa sobre o ocorrido na cozinha, ainda mais com aqueles dois.
– Deixe. Ele tem razão, não é da nossa conta. – Robin murmurou tranquilamente, pondo a mão sobre o braço de Franky ao ver que ele abrira a boca para responder, indignado. O ciborg voltou as atenções para a morena, a boca crispada com o aborrecimento. Por fim, ele soltou um longo suspiro enfadado.
– Tanto faz. Mas de qualquer jeito, é bom você tirá-la daqui. Não queremos a nossa navegadora de cama por causa de um resfriado idiota. – Franky alertou – Quem vai manter essa cambada na linha se ela estiver indisposta?
Zoro revirou o olho são. Precisou morder o lábio inferior para não sorrir involuntariamente. A pergunta do ciborg, obviamente, era retórica. Não havia ninguém mais qualificado do que Nami para manter a ordem naquele verdadeiro galinheiro.
– Leve-a para dentro. Robin e eu assumiremos a direção. – O homenzarrão sorriu abertamente, erguendo o enorme polegar da mão mecânica, num gesto positivo. Zoro tinha suas dúvidas quanto á Franky estar em condições de assumir o leme, mas acabou deixando o assunto morrer. Era a sua oportunidade de ficar á sós com Nami. E Robin estaria como copilota, portanto o risco de baterem num recife ou qualquer coisa do gênero era mínimo.
Mantendo o corpo de Nami firme em seu braço, ele caminhou para longe dos outros dois com alguma lentidão, tomando cuidado para não escorregar nas malditas poças d’água outra vez. Antes de se afastar em direção á cozinha, porém, sentiu o par de olhos azul-celeste pregados em suas costas. Virando a cabeça ligeiramente, deparou-se com Robin ainda observando-os, ostentando nos lábios o sorriso sabido que era sua marca registrada. Sentiu-se desconfortável, por ter quase certeza do que a arqueóloga poderia estar pensando. Analisando fatos e somando dois mais dois, como só ela sabia fazer. Suspirou, aborrecido. No fundo, sempre soubera que a situação com Nami não poderia ser mantida em segredo por muito mais tempo. Uma hora ou outra, alguém acabaria juntando as pistas e se dando conta dos fatos. E não se surpreendia por Robin ter sido a primeira a realizar o feito.
Não olhou para trás enquanto caminhava em direção á porta que dava acesso ao interior do navio. Manteve os olhos presos na ruiva ao seu lado, o corpo esguio pendendo molemente em seu braço, os olhos ainda fechados. Tinha esperanças que o balanço rítmico de seus passos acabasse por despertá-la, mas a moça não movera um músculo. Parecia completamente nocauteada. Parecia que a conversa que vinha formulando em sua cabeça teria de esperar. Quanto tempo, ele não sabia, e procurava não ficar pensando nisso. Segurando firmemente a cintura delgada com um braço, estendeu o outro para poder abrir a porta.
A cozinha estava ás escuras. Franky e Robin deveriam ter apagado as luzes ao saírem. Deixou a porta meio aberta, para que a fraca luminosidade da noite tempestuosa lhe desse alguma visão do aposento. Luffy, Usopp, Sanji e Chopper estavam largados ao chão liso, cobertos com uma manta vermelho-escura, completamente adormecidos. Luffy roncava horrores, enquanto Sanji murmurava coisas ininteligíveis, um sorriso idiota estampado no rosto. Era óbvio que sonhava com alguma perversão. Lançou um olhar de repulsa ao cozinheiro, e ao virar a cabeça para o lado, deparou-se com Brook estirado sobre o balcão, também coberto por uma manta, uma das pernas esticadas para cima e o violino pousado sobre o peito. Fechou o olho e balançou a cabeça de um lado para o outro. E esses eram os temíveis Chapéus de Palha.
Ficou durante alguns minutos ali, imóvel rente á porta de entrada, encarando o piso liso que se encharcava com a água que pingava de seu corpo, pensando no que faria á seguir. Levar Nami para o quarto que a mesma dividia com Robin parecia ser a opção mais inteligente no momento. Ela estava ensopada, tremendo de frio e desacordada, totalmente alheia ao fato de que o homem que pisara tão cruelmente em seus sentimentos estava ali ao lado, o corpo másculo colado ao seu, desejando ardentemente que despertasse para poderem conversar, resolver de uma vez todas aquelas questões pendentes... Mirando intensamente o rosto pálido e angelical, perguntou-se se a intensidade com a qual o fitava poderia penetrar os sonhos da dona do mesmo, para que ela soubesse o quanto ele desejava que se acertassem. E com esse pensamento, chegou á conclusão de que, definitivamente, estava ficando igualzinho ao cozinheiro otário.
“Que ótimo... está feliz agora? Contente de ver que o seu feitiço surtiu efeito, bruxa?”
Chacoalhando a cabeça para dispersar aqueles pensamentos tenebrosos, Zoro levou o pé para frente, tencionando marchar em direção ao quarto das garotas. Mas distraído como estava em seus devaneios bizarros, não notou que pisara justamente na poça d’água que se formara no piso liso. Perdeu o equilíbrio no mesmo instante, e iria estatelar as costas no chão se não tivesse pensado rápido e usado o braço como apoio, evitando um feio tombo. Ia começar a xingar, amaldiçoando sua falta de sorte com poças naquele dia, quando ouviu um som peculiar.
– Huunn...
O gemido baixo o estarreceu. Tinha se esquecido de que continuava segurando Nami, e de que o balançar de sua quase queda poderia perturbar seu sono. Pondo-se de joelhos, ele sentou-a no chão á sua frente e segurou-a pelos ombros, enquanto a cabeça da ruiva pendia para o lado, e os olhos castanhos se abriam minimamente. Confusa pelo despertar abrupto, ela ergueu a cabeça lentamente e olhou de um lado para o outro.
– Huun? Onde... Onde eu...
Foi então que ela reparou nas mãos grandes e ásperas que a sustentavam pelos ombros. Seus olhos se arregalaram ao dar de cara com o homem de cabelos verdes, encharcado pela chuva, o rosto demonstrando surpresa e apreensão, expressões tão atípicas do mesmo.
– Zoro...
– Ah... Eu... Eu não achei que você fosse acordar agora...
Inicialmente, Nami não entendeu o que ele estava querendo dizer. Com um olhar mais atento ao redor, percebeu que estavam de volta á cozinha, a luminosidade agora fraca, e um som que lhe lembrava roncos preenchia o silêncio. Uma rajada de vento enregelante perpassou por seu corpo, fazendo-a estremecer violentamente, e despertando-a de sua sonolência. Percebeu que, assim como Zoro, encontrava-se ensopada. Uma vertigem estranha e intensa a tomou, e só não tombou de lado no chão porque o espadachim continuava a segurá-la pelos ombros.
Como ela viera parar ali? E aliais, onde estivera antes... antes de...
Seus olhos se arregalaram ainda mais.
– Essa não, o leme! – Exclamou, fazendo Zoro se sobressaltar – Droga, eu devo ter apagado enquanto pilotava! Nós batemos de novo ou...
– Se acalme. – O espadachim lhe disse, ainda surpreso com o rompante dela – Você apagou mesmo enquanto pilotava. Mas não se preocupe, Franky e Robin assumiram a direção.
Ainda desorientada, Nami sentiu quando as mãos fortes e calejadas abandonaram seus ombros, mas ainda deixando a sensação de calor ali. Tocou-os com as pontas dos dedos, sentindo que a pele ficara sensível onde o outro a segurara. Podia sentir o olho arisco e penetrante ainda fitando-a. Voltou a encará-lo, deparando-se com uma expressão terrivelmente aborrecida, destoando completamente das anteriores.
– Você é completamente louca. – Ele rosnou, para o espanto da ruiva – O que é que você tem na cabeça para sair debaixo desse temporal no estado em que estava? Era óbvio que ia acabar apagando! Você tem noção que poderia ter feito o navio se acidentar outra vez? Ah, mas você sabia que isso poderia acontecer, não sabia? Caramba, mulher, precisava dessa criancice toda só por causa de uma discussão idiota?!
Nami piscou, estupefata. Mas seu espanto não durou mais que uns poucos segundos. Ouvi-lo censurando-a daquela maneira, depois de tudo o que ela fizera para tentar se aproximar e das coisas horríveis que ele lhe dissera, acabou por despertar a fúria homicida que vinha remoendo desde que saíra debaixo daquele aguaceiro para supostamente pilotar o navio. Se não estivesse tão zonza, já teria descido novamente a mão na cara daquele imbecil.
– Criancice? Criancice?! – Guinchou, tão estridentemente que Zoro chegou á sentir os ouvidos zumbirem – Você quer saber mesmo o que é uma criancice?! É agir como um idiota insensível, deixar o maldito orgulho falar mais alto e ignorar a preocupação que outra pessoa te dispensa simplesmente por não saber lidar com outras coisas que não sejam álcool e espadas! Porque foi exatamente isso que você fez! E agora vem me falar que minha atitude foi criancice?! – Ela mal fazia pausas para respirar, tamanha era sua ira – Pois a culpa foi sua, Roronoa Zoro, unicamente sua! Eu tentei conversar com você, tentei ser gentil, mostrar que me preocupo, mas seu cérebro é tão diminuto, tão primitivo que não enxerga outra coisa nas atitudes das pessoas se não uma tentativa de te desacreditar e acabar com seu maldito orgulho! Se eu saí debaixo desse temporal, perdi a consciência e quase causei um desastre por não estar pilotando corretamente, o único culpado é você!
Zoro piscou diante do dedo indicador que estava em riste, apontando para seu nariz, como se estivesse sendo acusado de um crime hediondo e o julgamento de Nami fosse algo irrefutável, sem direito á retaliações ou defesas. Ela ofegava depois do intenso acesso de raiva, os dentes serrilhados, os olhos soltando faíscas. O silêncio se instalou sobre eles; os únicos sons eram os da chuva e dos roncos de Luffy. Depois de um tempo que pareceu imensurável, o espadachim quebrou o gelo ao bufar pelo nariz, enfadado.
– Então o culpado sou eu? – Questionou retoricamente – Não percebeu que é você que está sendo ridícula?
Nami ficou abismada.
– EU ESTOU SENDO RIDÍCULA?! – Rugiu, sua voz ecoando fortemente pela cozinha, o que fez com que seus companheiros adormecidos se remexessem sob as mantas, e Sanji murmurasse “Eu já estou indo, Nami-swan...” para logo depois voltar a ressonar. Alheia á isso, Nami continuava procurando palavras que expressassem adequadamente sua indignação, sem sucesso. As palavras de Zoro a desarmaram por completo. Era inacreditável. Por mais que ela conseguisse prensá-lo contra a parede, por mais que conseguisse sair por cima das discussões que tinham usando de ironias e chantagens, ele conseguia deixá-la sem reação só falando umas poucas palavras absurdas e rudes. E sua única defesa nessas horas era partir para a agressão, fosse verbal, fosse física. Como no incidente da cozinha.
E antes que percebesse, seus olhos mais uma vez foram inundados pelas lágrimas traiçoeiras, que escorreram por seu rosto, facilmente distinguíveis da água da chuva. Viu quando o olho são dele se arregalou de surpresa. Viu que não poderia mais esconder a dor, a mágoa.
Ele tinha razão. Estava sendo ridícula.
– Não quero continuar essa conversa estúpida... – Resmungou, erguendo-se do chão com impressionante rapidez. Pego de surpresa, Zoro a imitou, todo atrapalhado.
– Ei, ‘pera aí! Aonde você vai?
– Não é da sua conta! Me deixe em paz! – Ela gritou novamente, fazendo um gesto brusco com o braço, como se quisesse espancá-lo.
– Nami...
– Fique longe de mim!
– Você não pode sair assim!
– Eu saio pra onde quiser e do jeito que quiser! – Bateu o pé no chão com toda a força ao dar as costas á ele – Me deixa, Zoro!
– Idiota, você vai escorregar!
O aviso viera tarde. Nami não vira a poça d’água, e o salto de sua sandália deslizou pelo chão molhado antes que se desse conta do fato.
– Ah...
O chão sumiu sob seus pés. Seu corpo ficou suspenso no espaço, e com uma estranha lentidão foi desabando, caindo inexoravelmente em direção ao chão frio e duro; seus olhos arregalados focalizaram o teto que ia se afastando cada vez mais, e não havia nada que pudesse fazer para parar a queda. Não havia tempo sequer para gritar... Fechando os olhos, ela esperou o doloroso choque de suas costas contra o piso molhado.
E o que sentiu, ao invés disso, foi o calor latente da pele áspera e bronzeada, de um braço forte que a impedira de se esborrachar no chão. Sua cabeça pendeu para trás ao não encontrar apoio. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, ainda desnorteada com o turbilhão que fora sua queda. Então, lentamente, ergueu a cabeça para encontrar o olhar penetrante de seu salvador.
Zoro sentia-se tão confuso quanto ela. Ao vê-la se desequilibrar e começar a cair, agira por total reflexo. Um impulso, proveniente da sensação de culpa e responsabilidade que tinha para com a navegadora. Mas essa não era a única causa de seu arrebatamento. Não havia percebido até aquele momento, mas a cintura fina moldava-se perfeitamente á curva de seu braço, como se tivesse sido desenhada para se encaixar ali. E com o tronco esguio meio arqueado, ele se viu forçado a encarar os seios fartos e empinados, mais que evidentes através da blusa branca de mangas compridas que ela usava, transparente por causa da água da chuva. Seu olho bom pousou sobre os mamilos rosados e enrijecidos pelo frio, projetando-se contra o tecido fino e constatou, com espanto, que ela não estava usando sutiã.
“Essa mulher não bate bem da cabeça...”
O silêncio que se seguiu foi desconcertante. Tinham acabado de ter mais uma discussão daquelas, que fora novamente interrompida por uma queda, e terminara com ele impedindo-a de cair, mais uma vez. Parecia até uma maldição, Nami pensava. Quanto mais ela tentava se afastar de Zoro, mais as circunstâncias insistiam em empurrá-la para os braços dele. Porque diabos era assim? Não podia haver nada entre eles, já que ele não parecia corresponder aos seus sentimentos. Aquilo só serviria para despedaçar ainda mais seu coração já muito machucado... E por que ele insistia tanto em salvá-la? Não fora ele que dispensara o seu afeto com tanto desprezo?
Seu peito parecia ter murchado. O ódio aos poucos ia se desgastando, perdendo a combustão, para dar lugar á vergonha e á tristeza. Vergonha por se ver agarrada á ele mais uma vez. E tristeza por acreditar que nada que fosse feito mudaria alguma coisa.
– Sua biruta. – Ele rosnou, o rosto terrivelmente afogueado, o que surpreendeu Nami – Essa é a terceira vez que eu tenho que te impedir de esborrachar essa cabeça oca no chão, sabia?
– T... Terceira?
– É, terceira! – Mesmo enquanto esbravejava, o braço dele não largou sua cintura em nenhum instante. Mesmo surpresa e ainda magoada, Nami não conseguiu encontrar força de vontade o bastante para protestar contra aquilo. Já havia dois anos que ela desejava ardentemente ter as mãos daquele homem sobre o seu corpo. Mas não numa situação como aquela.
– Q... Quando...
– Quando você apagou encima do leme, no meio daquele pé d’água! – Ele lhe respondeu antes que concluísse a pergunta – Eu corri atrás de você pra tentar conversar, e te achei desacordada, quase desabando no chão! Foi uma sorte eu ter chegado á tempo, ou você teria caído e batido essa cabeça de vento! – Ele a olhou com extremo aborrecimento, como um adulto repreendendo o mau-comportamento de uma criança de cinco anos. Aquele tom de censura voltou a ascender a raiva da navegadora. Que direito ele tinha de repreendê-la por seus atos, depois da monstruosidade que lhe dissera mais cedo?
– Ah, é?! Se é pra ficar todo irritadinho assim, então nem devia ter se incomodado em vir atrás de mim! – Ela exclamou, tentando se desvencilhar dos braços dele. Bufou ao senti-lo segurar sua cintura, prendendo-a contra seu corpo – Droga, me solta!
– Não solto não! Eu não acabei de dizer que fui atrás de você porque queria conversar?
– E para quê? Você já não disse tudo o que queria dizer lá na cozinha?! – Ela voltava a gritar, e o tom agudo fez Zoro virar a cabeça para observar os companheiros adormecidos, temendo que o escândalo que a ruiva aprontava acabasse por despertá-los – Ou veio atrás de mim pra continuar dizendo mais daqueles absurdos? Olha, eu não tenho mais cabeça pra continuar discutindo com você! Você não tem moral nenhuma pra me censurar, não depois de tudo o que você me disse! Eu já disse, não quero continuar essa conversa estúpida! Me larga ou eu...
Foi interrompida abruptamente, quando a mão enorme de Zoro fechou-se em torno de sua boca com força. Parou de se debater, chocada demais para continuar resistindo ao aperto férreo do braço musculoso em sua cintura. Inevitavelmente, seus olhos voltaram a se encontrar com o dele. Não parecia mais aborrecido, disposto a dar-lhe broncas sem sentido. Parecia unicamente exasperado.
– Pare de gritar, sua maluca. Quer acordar os outros? – Ele perguntou, num sussurro – E mesmo que não acordem, quer que Franky e Robin escutem o seu escândalo e venham até aqui? Não sei quanto á você, mas eu dispenso mais publicidade, ainda mais depois do que aconteceu mais cedo.
Aquilo não foi o suficiente para fazer Nami se aquietar. Em partes pensava como o espadachim; não queria ver aquela confusão entre eles sendo mais exposta do que já fora. Mas essa certeza não diminuiu em nada sua raiva, ou sua mágoa. Pelo contrário.
– E é com isso que você está preocupado, não é? Com o que os outros podem pensar dessa situação. – Ela grunhiu, quando ele enfim libertou sua boca – É claro. Afinal, a última coisa que você quer é comprometer sua imagem. Eu já entendi, Zoro. Você já deixou suas intenções bem claras mais cedo. Agora faça o favor de me largar, porque eu não quero continuar bancando a idiota que continua a ser humilhada por...
– Quer calar essa boca? – Ele a interrompeu bruscamente, ainda sibilando. Pela expressão raivosa, era óbvio que estava fazendo um esforço enorme para manter a voz contida – O que é que você sabe sobre minhas intenções? Pare de falar como se pudesse ler meus pensamentos!
– Não é necessário saber ler pensamentos pra saber o que você está achando de tudo isso! Eu sei muito bem que...
– Você não sabe de nada!
Ele não conseguiu se manter sussurrando. Praticamente rugiu as cinco últimas palavras, fazendo a ruiva em seus braços se sobressaltar com o susto. Novamente os Chapéus de Palha adormecidos se remexeram nas cobertas, incomodados com o barulho. Mas dessa vez, Zoro não se preocupou em acordá-los, ou em chamar a atenção de Franky e Robin. Além da raiva, estava começando á sentir um desespero latente. Não sabia mais o que dizer para fazer Nami entender como ele estava se sentindo em relação á tudo o que tinha acontecido. Só sabia que, se não colocasse de uma vez as cartas na mesa e a fizesse compreender toda a confusão em sua cabeça, a epifania que tivera e o orgulho que abandonara não teriam servido de nada.
Nami sentia-se totalmente confusa, ao mirar a expressão angustiada dele. Nunca o vira agir assim, e nem sequer pensava que um homem como ele, com força e determinação inabaláveis, pudesse ficar tão transtornado com uma discussão como aquela. Onde estavam as respostas rudes e monossilábicas, os bufos desdenhosos, o rolar de olhos que eram as marcas de seu temperamento difícil? Onde estava o desprezo que ele demonstrara na cozinha, ao dispensar seu afeto?
– Ei...
– Cala a boca! – Ele voltou a exclamar repentinamente, e Nami pensou que ele ainda a faria cuspir o coração se continuasse a ter esses ataques inesperados – Só... Só cala a boca e me escuta. Eu não quero continuar a discutir com você, mulher, pelo contrário. Eu fui atrás de você pra esclarecer tudo o que aconteceu aqui mais cedo. Queria fazer você entender as minhas palavras. Queria que você entendesse tudo, de uma vez por todas.
Nami ficou desacreditada. Teria esperado por tudo, menos por aquilo. A indignação a tomou, ocasionada pelo espanto com as palavras dele.
– Queria que eu entendesse? Para quê?! Eu já entendi tudo, não preciso das suas explicações! Você deixou bem claro que achava que eu me importava mais com a sua dívida do que com você mesmo, e ainda por cima me chamou de ridícula por estar zangada! Eu não quero ouvir nada do que você tem para dizer, seja lá o que for!
– Mas você vai ouvir, querendo ou não! – Ele silvou, e seu tom ameaçador e sua expressão sombria deixaram claro para Nami que ele falava sério. Não a deixaria dar um passo sequer sem antes escutá-lo – Eu não posso deixar você continuar zangada comigo sem nem ao menos saber o porquê de eu ter dito aquelas coisas. Então será que dá pra fechar essa matraca e me deixar explicar o que aconteceu?
E ao invés de gritar, espernear, xingá-lo, exigir que ele a largasse e a deixasse em paz, Nami ponderou. Ponderou porque não parecia haver outra opção. E ponderou por sentir-se confusa.
O que ele queria, afinal? Já não estava bom todas as coisas que tinha dito, e todas as lágrimas que conseguira arrancar de si? Ainda precisava de mais? Ou será que... Com um suspiro profundo e enfadado, a ruiva procurou controlar sua raiva. Havia alguma coisa estranha ali. Zoro querendo conversar, ainda mais depois de tudo o que acontecera... Escutá-lo poderia piorar seu estado depressivo, mas não era como se tivesse direito á escolha.
– Tudo bem. – Murmurou por fim, mantendo os olhos fixos num ponto acima do ombro dele, decidida á não encará-lo – Explique-se de uma vez.
Fora pego desprevenido pela súbita aceitação. Intimamente, esperava que ela continuasse á resistir teimosamente aos seus pedidos. Mas se ela não estava de todo disposta, pelo menos parecia prontificada a escutá-lo. Tanto melhor. E agora...
Merda, por onde diabos ele devia começar?!
– Você vai começar a falar ou vamos ter que ficar nisso a noite toda? – Ela o pressionou, impaciente. Zoro rosnou, doido de vontade de mandá-la calar a boca e deixá-lo pensar. Não podia simplesmente abrir a boca e começar a falar sem antes medir as consequências do que iria dizer. Nami era extremamente passional, e qualquer palavra errada ou frase mal formulada poderia despertar sua fúria sem aviso prévio.
– Você é...
A boca ficou seca. Não podia mais conter as palavras duras, entaladas em sua garganta desde cedo.
– ... Tão irritante!
Os olhos castanhos ficaram enormes.
– Como?!
– Você é irritante! – Ele tornou a dizer, o punho livre se cerrando com força – Não mudou nada nesses dois anos que passaram! Continua a mesma bruxa irritante, manipuladora e incompreensível! Adora fazer coisas simples se tornarem complicadas, pra depois se queixar das consequências dos próprios atos! E você fica aí, só...
Nami ofegou quando a mão grande e áspera foi em direção á sua nuca, enroscando-se nos cachos cor de fogo. O rosto dele se aproximou perigosamente, fazendo-a engolir em seco. Nunca o vira agir daquela maneira antes. Intenso, bruto... Angustiado.
–... Só me provocando. Me irritando, porque gosta de me ver furioso. Só por isso... – Ele murmurava incoerentemente, e Nami não soube o que fazer ou dizer, chocada como estava com aquela situação – E o que você esperava que acontecesse? O que achava que eu iria pensar quando se aproximou, me ofereceu bebidas, me provocou? Eu te conheço bem, Nami. Ou pelo menos achava que conhecia.
– O... O quê...
– Como eu poderia imaginar que o que você queria não tinha nada haver com a maldita dívida? Depois de todas as cobranças, de todos os lembretes que você insistia em me dar á dois anos atrás... – Ele passou a mão livre pelo rosto, o olho bom fechado, aparentando exaustão – Eu não conseguia pensar em outra razão para você estar agindo daquela maneira. As provocações, as garrafas de saquê... Eu sabia que tinha coisa aí, mas eu nunca imaginaria que o que você queria era apenas se aproximar de mim de uma maneira mais íntima, e nem que tentaria usar álcool pra conseguir isso.
Nami congelou nos braços dele. O rosto dela ficou, se é que isso era possível, ainda mais vermelho. A respiração se tornou superficial, e seu cérebro, sempre tão veloz e perspicaz, passou a trabalhar com uma estranha lentidão, tentando processar as palavras dele de maneira comedida, para não sobrecarregar o complexo sistema e danificá-lo permanentemente.
Em nenhum momento, desde que se aproximara dele na cozinha até quando saiu para o convés num rompante de fúria e mágoa, ela poderia imaginar que ele juntaria as peças do quebra-cabeça e chegasse á verdade de maneira tão abrupta e absoluta. Pensava que o cérebro dele era demasiado subdesenvolvido para fazer tal operação. E o choque de ter todo o seu meticuloso plano descoberto e exposto dessa maneira era tamanho que pareceu minar a raiva que ardia furiosamente em seu peito.
– Como... Como você... – Não conseguia juntar duas sílabas para exprimir seu espanto. Zoro pareceu satisfeito de ver que finalmente conseguira roubar toda a atenção dela.
– Isso pode ser um choque para o seu ego, mais você não é a pessoa mais inconspícua desse mundo. – Murmurou, permitindo-se dar um meio sorriso atrevido. Esquecera-se convenientemente de mencionar o quanto precisara forçar o próprio cérebro, tão desacostumado á resolver complicadas operações, á chegar ao fundo de um mistério que, no final das contas, nem fora tão bárbaro assim – Depois que você começou a beber e á soltar á língua, não foi difícil chegar á uma conclusão. As suas intenções ficaram meio óbvias demais. E foi justamente por isso que eu fiquei confuso, e disse que você estava sendo ridícula.
A boca seca demais para ser usada, Nami permaneceu em silêncio, enquanto via a expressão ranzinza ir se abrandando, dando lugar á uma taciturna.
– Se você queria tanto se aproximar e falar comigo, por que não fez isso desde o começo? Por que ficou me sondando com assuntos sem sentido e não me fez a pergunta crucial de uma vez?
Novamente, ele não obteve uma resposta imediata. Embora já não estivesse se surpreendendo com mais nada, Nami não conseguia formular verbalmente uma razão coerente para todas as suas atitudes. Não que não soubesse qual era a razão. Era apenas demasiado complicado explicar tudo aquilo ao espadachim. Como diria á ele que, lá no fundo, temia seu jeito frio e arredio, suas respostas curtas e grossas, sua habilidade inigualável de pegar palavras ditas e embolá-las de modo que tivessem um significado totalmente diferente do real? Para ele era fácil pensar que tudo poderia ser resolvido de forma simples. Para os homens, tudo era muito simplório. Mas para as mulheres, tudo era sempre mais complexo, e mais profundo. E Zoro não entendia como funcionava a cabeça de uma mulher. Principalmente a de uma mulher apaixonada. Então como explicaria á ele que só fizera tudo aquilo simplesmente por temer se aproximar diretamente e ser rechaçada sem cerimônias?
– Você não entende...
– Então me explique.
Suspirou profundamente. Agora sentia falta da raiva que ardia em seu peito antes de se dissipar. Era muito melhor do que sentir aquela vergonha abrasadora, aquele medo de que tudo de que ela abrira mão para se aproximar dele não tivesse valido de nada. Mas agora não tinha mais escapatória. E de qualquer jeito, seu maior desejo no momento era botar todos os seus anseios para fora, de uma só vez, e livrar-se do fardo de se manter calada por medo.
– Certo, eu vou explicar. – Disse por fim, a voz já mais firme. Apoiou os braços no chão para sentar-se, e Zoro viu que era seguro soltá-la. Encarou-o com a expressão mais séria que conseguiu fazer.
– Já tem um tempo que eu conheço você, Zoro. Dois anos, para ser mais específica. – Ela começou á dizer, tentando colocar alguma firmeza em seu tom – Com o tempo de convivência que temos, ficou fácil pra mim definir exatamente o tipo de homem que você é. É do tipo arredio. Calado, frio, que nunca parece se importar com nada e nem com ninguém. Eu sei que não é bem assim! – Apressou-se á acrescentar, ao ver que ele abria a boca para retaliar – Mas você passa essa impressão para todos ao seu redor, até mesmo pra nós, que te conhecemos tão bem. Por isso é super difícil se aproximar de você sem sentir algum receio e... E sem cometer algumas gafes por conta dele.
Um segundo de silêncio se passou. O espadachim arqueou uma sobrancelha, sentindo que nada o deixara mais surpreso naquela noite do que aquele pequeno discurso.
– Está dizendo que tem medo de mim?
Nami estremeceu. E logo depois suspirou.
– Sim, eu tenho. – Admitiu por fim – Mas não de você em si. Não da sua força, do seu mau-humor, do seu instinto assassino. Tenho medo da sua frieza. Do seu silêncio, da sua postura de parecer não se importar com nada ao seu redor. Eu tenho medo de quê...
Não foi capaz de completar a frase. Abaixou a cabeça, mirando intensamente o azulejo encharcado, ouvindo apenas o som da chuva, dos roncos de Luffy e da respiração baixa e ritmada de Zoro, tão próxima que ela podia sentir o calor da mesma. Ela estava furiosa até poucos minutos atrás, e agora só conseguia sentir um aperto no peito, doloroso, do tipo que obstrui sua garganta e encharca seus olhos, ao ponto de ser impossível conter as lágrimas quentes e traiçoeiras. Era a dor de estar se abrindo tão abruptamente, de estar sentindo-se totalmente exposta, e ainda por cima para o homem por quem ela sentia uma mescla intensa de paixão e medo. E não sabia dizer qual dos dois sentimentos era maior.
– Medo de quê? Que foi, mulher, o Luffy comeu sua língua? – Ele a pressionou, sentindo-se ainda mais nervoso e impaciente. O fato de ele inserir o nome de seu capitão esfomeado naquela expressão coloquial a fez sentir uma súbita vontade de rir, mesmo com todo o nervosismo que a tomava. E percebeu que, nas horas em que suas conversas com Zoro pendiam para um lado menos delicado, era fácil relaxar e deixar a coisa fluir naturalmente. Será que aquilo queria dizer alguma coisa, afinal?
Por fim, ela respirou fundo e ergueu a cabeça, mirando intensamente o olho escuro e penetrante, como o de uma ave de rapina, capaz de enxergar mais longe do que qualquer outro. Essa era a única parte de Zoro que sempre o denunciava e tornava mais fácil a tarefa de decifrá-lo: seus olhos negros e brilhantes. Mas um deles se perdera para sempre, e ela intimamente se perguntava que tipo de acidente teria causado aquele ferimento. Era mais uma das muitas coisas que Zoro insistia em mascarar.
Nami queria mudar isso. Queria que ele se abrisse para ela, assim como ela fizera com ele. Queria romper a muralha que ele construíra em torno de si, mostrar á ele que poderia compreendê-lo, que era digna de dividir com ele seus segredos, medos e anseios. E com esses pensamentos, concluiu que o que sentia jamais poderia ser mudado, sobrepujado, ou simplesmente esquecido. Era um sentimento forte e intenso demais, que crescera, criara raízes e fincara-se fundo em seu âmago. E foram precisos dois longos anos e algumas doses de saquê para que ela enfim se desse conta de tudo isso.
– Eu tenho medo de que tudo o que eu estou sentindo agora não faça a menor diferença. Que toda a sua frieza te impeça de enxergar que cada palavra, cada gesto meu foi puramente sincero. – Engoliu em seco – E... Bem, isso já aconteceu mais cedo. Agora não adianta mais ficar choramingando por isso. Nem sei por que fiquei bancando a garotinha iludida... Agora é sério, me deixe ir, por favor...
De repente, as palavras morreram em sua garganta. Seus lábios entreabertos foram pressionados pelo dedo indicador da mão direita dele, impedindo-a de continuar á falar. Não havia brutalidade alguma no gesto. Nami nunca pensou que Zoro fosse capaz de um gesto tão delicado e suave como aquele, tão espontâneo, sem quaisquer resquícios de raiva ou impaciência. Encarou-o, sentindo-se completamente desarmada sob aquele olhar penetrante.
– Não vou deixar. – Ele sussurrou, tão baixo que Nami chegou á pensar que o havia entendido errado – Agora que eu enfim entendi tudo, eu simplesmente não posso deixar você ir assim.
Era tão estranho. Não parecia ser sua voz, dizendo aquelas baboseiras melosas de maneira tão suave e cândida. Na verdade, não só a sua voz, mas tudo nele simplesmente não parecia lhe pertencer. A raiva, a impaciência, o constrangimento e a confusão tinham simplesmente lhe abandonado, dando lugar á um sentimento estranho, inédito, assustador, mas tão presente que Zoro tinha a plena consciência dele em cada célula do seu corpo. Era algo indefinível, impossível de ser resumido em palavras, mas que reinava intenso e supremo ao mirar a face corada, angelical, ainda molhada pela chuva e por umas poucas lágrimas teimosas.
Era isso. Era aquilo que ele vinha sentindo a algum tempo, antes mesmo da separação brutal dos Chapéus de Palha. Aquele sentimento inominável, totalmente novo e intenso. Se tivesse aquelas divagações durante aquela fatídica época, talvez não tivesse sido capaz de definir exatamente o que era aquela sensação. Mas agora era diferente. Ele enfim havia se dado conta do que era aquele sentimento, escondido timidamente em seu âmago, apenas esperando o momento em que ele finalmente tivesse a capacidade e a coragem de admitir á si mesmo que tudo havia mudado. Tudo. E agora era simplesmente impensável voltar atrás, mesmo que quisesse.
– Você se explicou. Você finalmente conseguiu me fazer entender tudo. – Ele murmurou, num tom baixo e grave – Agora é a minha vez. Você vai calar essa boca, e deixar que eu também te faça entender.
Não era uma ordem, tampouco um pedido. Ele afirmava que ela o ouviria em silêncio, porque seria exatamente assim. Nami estava completamente sem fala, e Zoro via em seus olhos o quanto ela aguardava, ansiosa e amedrontada, por suas palavras que enfim encerrariam aquela confusão, aquele mal-entendido que quase tinha posto tudo á perder. E ele sabia exatamente o que precisava dizer.
– Eu já disse que você é irritante. Uma bruxa irritante, egoísta, mesquinha e mandona. Além de tudo, você mostra ter prazer em demonstrar todas essas “qualidades” para mim, e não me poupa como poupa os outros. E não é como se eu pudesse deixar pra lá. Não é como se eu pudesse esquecer a dívida, as cobranças e as chantagens num estalar de dedos. – Ele ilustrou o que queria dizer produzindo um rápido estalo com o polegar e os dedos médios – Você sabe como eu fico quando sou pressionado, ainda mais quando a opressora é você. – A expressão dele ficou subitamente carrancuda – Mas você não sabe como eu me sinto. Não sabe de todas as coisas passaram pela minha cabeça durante aquele nosso papo maluco. Não sabe de tudo o que eu tive que repensar e tudo do que eu tive que abrir mão para criar coragem e vir atrás de você para me explicar. Porque eu...
Sua voz morreu de repente. A boca permaneceu aberta, sem emitir som algum. O rubor subia ao seu rosto, e ele sentia como se um tijolo estivesse obstruindo sua garganta.
“Vamos... Se não fizer agora, nunca mais vai conseguir. Fale. Apenas fale.”
–... Porque eu também percebi que alguma coisa em mim tinha mudado.
Os ombros da ruiva se amoleceram. Os olhos cor de avelã ficaram enormes de descrença. E uma dor forte a atingiu no peito. Mas não era uma dor causada por mágoa, raiva ou decepção. Era uma dor puramente física, porque seu coração começou á bater tão rápido e com tanta força que parecia mais uma bomba-relógio, pulsando loucamente antes de explodir em milhares de sensações e sentimentos que a deixariam atordoada. Uma sensação semelhante á que tivera na cozinha, ao ser amparada pelos braços fortes e calorosos do homem que agora se abria para ela de maneira totalmente espontânea, como nunca havia sonhado que um dia faria.
– Eu não tinha percebido nada disso até agora. Mas depois do que aconteceu na cozinha, depois de tudo o que nós dissemos um para o outro, depois do que você me disse... – Zoro ainda estava atordoado com a facilidade com que estava proferindo aquelas palavras, percebendo que era muito mais fácil deixar todos os sentimentos reprimidos saírem de uma só vez do que simplesmente tentar contê-los – Eu percebi algo que eu não estava conseguindo enxergar. Ou que não estava querendo enxergar, não sei. Mas agora não adianta mais voltar atrás. Não adianta mais negar, me esconder atrás do meu orgulho, fingir que essa mudança não significa nada. – Passou a mão pela testa molhada, sentido-se estranhamente leve, como se um imenso peso estivesse sendo tirado de seus ombros – E isso é tudo culpa sua. Culpa sua, sua bruxa mandona e manipuladora, que conseguiu passar por cima do meu orgulho, das minhas convicções e me... E me deixar completamente enfeitiçado.
A última palavra casou-se perfeitamente com o apelido maldoso que o espadachim lhe dera. “Bruxa”. Efoi por isso que Nami não se sentiu ofendida ao ouvi-lo chamando-a assim novamente. A palavra “feitiço” foi a que mais a surpreendeu, encantou, porque a navegadora acreditava piamente que fora ele que a enfeitiçara, que a tornara cativa de seu charme, de sua força e de sua coragem. E descobriu-se maravilhada com a possibilidade do “feitiço” ter sido recíproco.
– Ah... Te enfeiticei, é? – Ela disse por fim, procurando aparentar indiferença – Quando? Na cozinha, enquanto bancava a tonta apaixonada e praticamente me declarava pra você?
Zoro balançou a cabeça lentamente, sem interromper o contato visual.
– Não. Nem quando me ofereceu bebidas, e muito menos quando empinou essas melancias para mim agora á pouco. – Brincou, sorrindo ao vê-la corar e passar os braços por cima dos seios – Na verdade, nem eu sei dizer exatamente quando isso aconteceu de fato. Só sei que desde á dois anos atrás você parece ter esse maldito poder sobre mim. De me manipular, me enfurecer... E de me fazer pensar no seu maldito rosto toda vez que estou sozinho e fecho a porra dos meus olhos.
Outra vez o batucar frenético. Rápido, intenso, quente. Preenchendo o buraco profundo que havia no peito da navegadora com uma sensação de felicidade e emoção diferente de tudo o que já havia sentindo em sua vida. Seus olhos, enternecidos pela alegria, miraram o rosto anguloso e belo do seu espadachim, seu guardião e sua eterna incógnita, sentido o carinho por ele transbordar em seu íntimo, suplantando totalmente o medo, a raiva, a mágoa que agora sabia ser infundada. Abriu a boca, desejando do fundo do coração poder dizer umas poucas palavras que expressassem tudo o que estava sentindo naquele momento, mas não obteve sucesso. Só Deus sabia o quanto ela estava precisando se conter para não cair num pranto emocionado. O que o excesso de álcool não fazia com ela... Ou melhor, o que o excesso de Zoro não fazia com ela...
– Eu... – Ele murmurou de repente, a expressão se tornando subitamente angustiada, o que assustou Nami. Ele parecia estar travando uma batalha interna ferrenha, lutando contra seus próprios preceitos para conseguir dizer á ela tudo o que estava sentindo. Conhecendo Zoro como conhecia, sabia o quão difícil estava sendo para ele expor seus sentimentos e anseios, coisa que nunca tinha sido solicitado á fazer até então. E o conhecimento disso era a maior razão para a explosão de afeto dentro de seu peito.
– Diga.
– Eu... Eu sinto muito. – Ele sussurrou entre dentes – Sinto muito se o que eu disse te magoou, e se te fez pensar algo totalmente equivocado. Não era essa a minha intenção. Eu só... Eu só não fazia ideia que tudo o que você tinha me dito era mesmo sincero, que você realmente estava sentindo todas aquelas coisas e que o queria não tinha nada á ver com aquela porcaria de dívida. E como eu sempre pensei em você como a mulher mais sisuda e marrenta que eu já tinha conhecido, eu simplesmente não esperava que você tivesse uma reação daquelas por causa de uma provocação. – Ele deu seu famoso meio-sorriso, dando palmadas suaves no lado esquerdo do rosto – Tem certeza que você não treinou nenhum estilo bruto de luta nesses dois anos? Aquele tapa doeu pra valer, sabia?
Nami empinou o nariz e crispou os lábios, num gesto de teimosia.
– Não venha se queixar comigo por isso. Você mereceu, pelo menos naquele momento. – ela o advertiu, num tom falsamente aborrecido. Sua alegria era tamanha que não conseguia imaginar nada que conseguisse reacender sua raiva, nem mesmo as palavras rudes e sarcásticas do espadachim – Eu não precisaria ter descido a mão na sua cara se você não fosse tão teimoso. Você nunca diz nada sobre seus pensamentos e sentimentos, sempre querendo esconder o que há dentro de você com essa fachada de durão insensível, e ainda se aborrecendo quando alguém mostra alguma preocupação com o que você está pensando ou sentindo. Exatamente como se aborreceu comigo lá na cozinha. – Ela balançou a cabeça em reprovação – E tudo isso só porque eu havia perguntado onde você tinha se metido durante esses dois anos...
Um som semelhante ao rosnado de um leão escapou pelos dentes trincados do espadachim, e umas poucos veias pipocaram em sua testa. Nami arqueou uma sobrancelha, confusa com aquela reação.
– O que é que deu em...
– Tá legal! – Ele exclamou num rompante, fazendo a ruiva se sobressaltar pela milionésima vez naquela noite – Você quer mesmo saber? Quer tanto assim saber onde eu estive durante esses malditos dois anos? Então escute bem, porque eu só vou dizer uma vez! Eu estive numa ilha da Grand Line que parecia saída de um conto de terror, escura, sombria e cheia de escombros, treinei minhas habilidades com o “Olhos de Falcão” Mihawk e minhas únicas companhias eram aquela garota fantasma de Thriller Bark e um bando de babuínos com síndrome de guerra que pareciam dispostos á tudo pra me matar!
Nami o encarou, os olhos esbugalhados e o queixo caído. Não esperava por aquele rompante, e muito menos por aquela torrente de informações jogadas de uma só vez em sua cara, sem que tivessem lhe dado tempo para digerir qualquer uma delas. Era difícil de acreditar em seu discurso fantasioso, mas sabia que Zoro não tinha capacidade de inventar uma estória daquelas tendo apenas poucos segundos para poder organizar as ideias. Então era tudo verdade mesmo, não é? Uma ilha sombria e escura, o “Olhos de Falcão”, a garota fantasma de Thriller Bark e... Babuínos? Sem poder se conter mais, a ruiva caiu numa gostosa gargalhada.
– Não ria! Eu não inventei nada disso! – Zoro exclamou, sentindo-se furioso ao constatar que a revelação de sua desventura não surtira o efeito que gostaria de presenciar. Ainda rindo, Nami balançou a cabeça de um lado para outro.
– É claro que não inventou. Seu cérebro não é evoluído o bastante para criar uma estória dessas em tão pouco tempo. – Afirmou em tom impertinente, rindo mais ainda ao ver a cara de indignação dele. Virou a cabeça um pouco de lado, abrindo um sorriso cândido que roubou as atenções do espadachim e apaziguou parte de sua raiva – Mas sabe, estou feliz por você ter finalmente engolido esse orgulho bobo e confessado todas essas coisas para mim. Não queria ser a única a ter feito isso e me sentir ainda mais idiota.
– Não precisa mais se preocupar. Agora me sinto tão idiota quanto você. – Zoro resmungou, e sorriu meio á contragosto ao ouvi-la rir mais uma vez. Lembrou-se de como a navegadora ria fácil nos momentos em que estiveram na cozinha, bebendo ou discutindo. Só agora se dava conta de como todos os indícios haviam lhe sido dados de maneira sucinta. Todos. E ele ignorara cada um deles. Mas agora não era hora para se aborrecer consigo mesmo, para ficar remoendo um erro que já fora cometido. Sentia que estava aos poucos se redimindo com Nami, trazendo de volta as risadas, os sorrisos doces e angelicais, o brilho dos olhos cor de avelã ao o encararem com fascinação. Aqueles olhos... Nossa, como ele sentira falta daquele olhar!
– Mas espere aí... – Nami murmurou de repente, num tom de voz subitamente sibilante e raivoso, o que surpreendeu o espadachim – Você disse “a garota fantasma de Thriller Bark”? Então você esteve com uma mulher esse tempo todo?!
Zoro a encarou, abismado. Não entendia onde ela estava querendo chegar, levantando uma pauta que, para ele, era completamente irrelevante. Mas ao notar a boca dela cerrada, os olhos em chamas e uma veia pulsando em sua têmpora ele percebeu que, para a navegadora, aquele assunto tinha sim muita relevância. Sacudiu a cabeça e mordeu o lábio inferior, fazendo um enorme esforço para não desatar á rir.
– Não sei se podemos falar daquela coisinha como uma mulher. Eu penso nela mais como a personificação do diabo travestido, se quer mesmo saber. – Ele deu de ombros, ao que a navegadora sentiu sua irritação se esvair de súbito, sendo substituída por um breve acesso de riso. Zoro lançou á ela um olhar estafado, e também divertido – O passatempo preferido dela era me aborrecer. Mas ela nunca soube fazer isso tão bem quanto você.
Nami sorriu de canto.
– É claro! Aborrecer você é uma das minhas especialidades, somando-se aí a navegação, cartografia e contabilidade.
– Bruxa...
O sorriso da ruiva abriu-se ainda mais. Ao mirar o olho são do espadachim, fixo em seu rosto, ela sentia que os dois tinham chegado mais longe em sua relação naquela noite do que em qualquer outro momento da fatídica época de dois anos atrás. Por vários segundos, os únicos sons audíveis voltaram á ser os do tamborilar da chuva e dos roncos guturais de Luffy. Nami sentia que poderia ficar apreciando os contornos angulosos do rosto do espadachim pelo resto da noite. A testa larga e vincada, o nariz comprido, os lábios finos e meio ressecados pelo vento, o queixo forte e saliente; a fisionomia perfeita de um lutador. A ruiva sentiu os dedos formigarem, num súbito desejo de tocá-lo, de memorizar as linhas e expressões do rosto que assombrara seus sonhos durante um tempo imprescindível. Hesitando um pouco, levou a mão em direção a face morena e ainda molhada do espadachim que estremeceu, levemente surpreso ao sentir as pontas dos dedos ágeis e delicados afagando suavemente seu nariz, seu queixo, contornando seus lábios.
– Eu me sinto realmente feliz por você ter me dito todas essas coisas. – Ela murmurou, tão baixo que pareceu ser para si mesma – Mas isso não muda o fato de eu ter me sentindo frustrada ao não conseguir te decifrar, te entender. Eu realmente não entendo esse seu medo de se abrir, Zoro. Você nunca fala sobre o que está pensando, o que está sentindo. Não sei se é por vergonha ou se é pra nos poupar dos seus problemas. Só sei que você sempre teve essa mania irritante de querer mascarar tudo, ao ponto de termos que arrancar forçosamente as coisas de você.
Zoro não respondeu de imediato. Ainda estava num estado de letargia, o estômago se contorcendo e formigando ao sentir os dedos da ruiva dedilhando delicadamente seu rosto. Fechou o olho bom por um momento, permitindo-se apreciar o toque quente das mãos habilidosas de navegadora e cartógrafa. Abriu-o depois de alguns segundos, e sentiu uma leve contração no baixo ventre ao ver o rosto corado e molhado da ruiva tão próximo do seu.
– Você sempre consegue arrancar as coisas de mim. Principalmente quando se trata de dinheiro.
Nami riu baixinho. Seus rostos estavam próximos demais agora. Podia sentir a respiração dele batendo de encontro á sua, aquecendo seu rosto e pescoço ensopados e fazendo-a se arrepiar inteira. Não estava mais envergonhada com toda aquela situação esdrúxula. Na realidade, fora algo muito natural. Natural para eles, pelo menos. Brigas, discussões, zombarias e xingamentos faziam parte de sua relação, e era algo que ambos nunca poderiam mudar. E nem queriam, aliais. Eram as diferenças, os contrastes de gênios que os aproximavam. Dois imãs de polaridades diferentes, cuja aproximação resultava numa atração louca.
– Por mais que eu consiga, admito que preferiria muito mais que você se abrisse mais ao invés de deixar que eu me descabele pra tentar te desvendar. – Ela murmurou, estreitando os olhos um pouco. Soltou um profundo suspiro – Mas é sério, Zoro, isso é muito frustrante! Você sabe como é humilhante para uma mulher tão linda como eu ver que seus dons de sedução não funcionam com o homem que ela quer conquistar? Sabe como é ruim ver todos os seus planos tão bem arquitetados serem frustrados e resumidos á um maldito porre? Ver que todas as coisas das quais você abriu mão não adiantaram de nada, porque aquela pessoa especial não acreditou em nenhuma de suas palavras... – A ruiva mordeu com força o lábio inferior. Seus olhos eram enormes ao encarar intensamente o espadachim mudo de espanto – Cada palavra que eu te disse foi mais do que sincera, Zoro! Poxa, eu... Eu realmente senti sua falta.
– Nami...
Zoro não sabia o que dizer. Agora que já compreendera todas as razões que levaram a ruiva á bolar aquele plano mirabolante para tentar se aproximar dele, não havia mais porque duvidar das palavras dela. Os olhos castanhos e cintilantes eram espelhos que refletiam o que havia de mais profundo nos sentimentos da navegadora. E Zoro os reconheceu facilmente, porque também eram um reflexo do que ele próprio estava sentindo. E agora, tudo o que sabia era que Nami e ele haviam enveredado por um caminho totalmente sem volta. A ruiva já havia feito a sua escolha á muito tempo. E por mais que o futuro fosse algo incerto, por mais que não soubesse onde e como aquilo iria acabar, o espadachim sentia que a sua escolha também já havia sido feita, e á mais tempo do que ele poderia imaginar. Foram precisas apenas dúzias de garrafas de saquê para que a verdade enfim viesse á tona.
E a verdade era que estava perdida e irremediavelmente apaixonado por aquela bruxa manipuladora.
– Eu também senti sua falta.
Nenhuma outra palavra foi dita. Palavras eram desnecessárias num momento como aquele. Nami só conseguia sorrir, pra depois soltar um longo suspiro ao ter suas mãos, pequeninas, macias e delicadas tomadas pelas do espadachim, grandes, ásperas e cheias de calos. Zoro pressionou ambas contra seu rosto, mantendo o olho bom fechado, totalmente enlevado. A ruiva acariciou a pele morena, que mesmo molhada era deliciosamente quente. Abrindo o olho, encarando intensamente a ruiva, o espadachim pressionou os lábios contra cada um de seus dedos, com uma amabilidade que deixou Nami absolutamente encantada. Agora que a barreira do orgulho fora quebrada, Zoro parecia estar se esforçando ao máximo para estreitar ainda mais a intimidade de ambos. E a navegadora simplesmente não conseguia mais esperar. Seu corpo e seu coração pediam pelo mais íntimo e doce dos contatos, e desta vez ela não iria ignorá-los. Fechou os olhos e se inclinou para frente, fazendo com que seus lábios tocassem os dele.
Zoro ficou extático. Não esperava que Nami fosse tomar a iniciativa, ainda mais de maneira tão abrupta. Mas não foi capaz de dizer uma única palavra contra a ação. O calor da boca da ruiva, a maciez daqueles lábios, tudo isso foi capaz de livrá-lo de todos os percalços que o limitavam. Durante muito tempo desejara ter aquela boca unida á sua. Só agora se dera conta disso. Manteve-se imóvel, até que a navegadora por fim se afastou. A expressão dela era de medo; certamente pensara que fora longe demais. Mas assim que ela abriu a boca para dizer algo, Zoro a puxou pela nuca e colou sua boca na dela, dessa vez de maneira mais sôfrega e intensa.
Nami achara que tinha tomado a atitude errada. Lançara-se para o espadachim num impulso, levada pelo desejo e pela certeza de que ele não seria capaz de tomar as rédeas, retraído como era. Fora um selinho rápido, mas que foi o suficiente para aquecer seu peito e saciar parte daquela vontade louca de experimentar o sabor da boca dele, até então desconhecido. Mas assustara-se ao ver que ele não á correspondia. Pensara que tinha excedido algum limite. E assim que abrira a boca para se desculpar, ele a calara com aquele beijo de tirar o fôlego. Era muito mais do que ela poderia ter sonhado em receber. Fechando os olhos, ela simplesmente deixou-se levar. Passou os braços ao redor do pescoço do espadachim, correspondendo o beijo com o mesmo fervor. Nunca imaginou que a sensação dos lábios dele nos seus e da língua áspera dele explorando cada canto de sua boca fosse deixá-la assim, mole e vulnerável. Era melhor do que em qualquer um de seus sonhos. Mais doce, mais apaixonado e menos desajeitado. E aquela sensação maravilhosa de que tudo o que ela precisava estava bem ali. Zoro lhe transmitia uma sensação de paz e segurança indescritível. Não era como o bem estar que sentia ao lado de Luffy, á quem considerava como um irmão caçula. Era o calor do corpo de um homem, á quem ela poderia confiar seus segredos, medos, anseios. Alguém com quem ela quisesse estar nos melhores e piores momentos. Alguém com quem poderia dividir a sua vida.
Lembrou-se de como amaldiçoara as circunstâncias, por sempre empurrarem-na para os braços dele. Agora percebia como fora precipitada. Talvez as circunstâncias não fossem responsáveis. Talvez, no final das contas, ela simplesmente estivesse destinada á ser empurrada para os braços dele.
Zoro a puxou para mais perto de seu corpo, fazendo-a se sentar em seu colo. Os seios fartos pressionaram-se contra o seu peito, aumentando sua excitação em níveis críticos. Os dedos de Nami enroscaram-se em seus cabelos, e ela agora praticamente devorava sua boca. Começavam á ter dificuldades para respirar, mas não tinham animo para se separarem agora. Seus companheiros certamente teriam despertado com o barulho dos ofegos e suspiros, se não estivessem ferrados naquele sono pesado de bêbado. Mas Zoro não estava sequer remotamente preocupado com isso. Ter Nami em seus braços era o suficiente para varrer qualquer outra coisa de sua mente. Dedilhou as costas dela por cima da blusa encharcada, percorrendo as curvas com firmeza, fazendo a ruiva suspirar e jogar a cabeça para trás. Cada toque das mãos dele parecia arder, borbulhar em sua pele muito sensível, deixando a navegadora completamente zonza. Aproximou-se mais do tronco musculoso, e inevitavelmente a região entre suas pernas acabou se friccionando no volume das calças dele. Foi o que bastou para ambos ficarem em polvorosa.
Nami não queria mais esperar. Não queria mais ignorar aquela necessidade latente em seu corpo, que reclamava do excesso de roupas e implorava por mais contato. Não pensou se estavam sendo precipitados, se estavam indo rápido demais. Foram dois longos anos esperando ansiosamente por aquele momento. Não havia motivos para continuar protelando.
Com imensa dificuldade, afastou-se o bastante para encará-lo nos olhos, ainda com os braços firmes ao redor do pescoço dele. Ambos ofegavam, os rostos muito vermelhos, os olhos semicerrados. O espadachim queria demais voltar á beijá-la, mas sabia que Nami tinha alguma coisa á dizer. A ruiva encostou a testa contra a sua, sem quebrar o contato visual. Os lábios dela roçaram em seu rosto, indo em direção á orelha, causando-lhe arrepios intensos. A voz baixa e cheia de desejo então sussurrou:
– Me leva pro quarto.
E pela primeira vez, Zoro não contestou a ordem que lhe fora dada.
Continua...
Notas finais
O quarto (e último) capítulo conterá cenas um tanto quanto "calientes", o desfecho da confusão entre nosso marimo e nossa bruxa.
Espero que tenham gostado! Beijos e até lá! 0/
Fale com o autor