Drive By | hiatus |
9 8. Mudanças
Notas iniciais
POV Katherine/Cherrypie
Movo o pano úmido sobre a enorme mancha de café sobre a mesa e solto um longo suspiro quando sinto outro corpo roçando no meu; automaticamente, volto a ajeitar a postura, ficando ereta. Olho feio para o cliente, que sorri amplamente para mim; desvio de outra garçonete, que carrega uma enorme bandeja de pratos sujos e passo por debaixo do balcão, jogando o pano dentro da pia.
Giro a torneira e, antes que possa começar a limpar o pano, sou chamada ao caixa. Preguiçosamente, começo a me aproximar da menina que deixa seu posto para que eu o tome; vem sido assim por pelo menos um mês, e não acho que algum dia vá mudar.
Há uma enorme fila que, não duvido, talvez esteja dando a volta no quarteirão. Quando procurei um novo emprego, não imaginei que uma lanchonete pudesse ser tão movimentada! O homem que para à minha frente anota um número num pedaço pequeno de papel e desliza-o pelo balcão, colocando-o debaixo da minha mão.
Recebo muitos desses, mas eles já deviam saber que não estou interessada.
Quando o último cliente finalmente vai embora, a lanchonete começa a ficar silenciosa e começo a escutar o burburinho e as conversas das outras garçonetes. Só quando ouço o sino da porta é que percebo a presença de outro cliente.
Ajeito a postura e olho para frente, encarando a última pessoa que eu pensava ver por ali; meu queixo literalmente cai e eu fico olhando para ele como se fosse uma assombração.
– Boa tarde – ele diz sem se importar com a minha presença – Um café grande, por favor.
Pego a nota de dez dólares de suas mãos e coloco-a dentro da bandeja. Anoto seu pedido num papel aleatório e espeto-o para que as meninas da cozinha o vejam. Porém, antes que eu possa trocar mais uma palavra com ele, não há mais ninguém ali. Viro a cabeça para os lados e o vejo sentado numa das mesas mais longes do balcão, o que não acredito ter sido apenas uma coincidência.
Não demora muito até o pedido sair ao meu lado, então coloco a caneca sobre um prato e tomo o cuidado necessário para não derrubá-lo. Em dois meses de trabalho, ainda não me acostumei a levar os pedidos às mesas.
– Obrigado – é só o que ele diz depois que coloco seu pedido à sua frente.
Finjo ser só um cliente qualquer e dou um sorriso a ele, o qual não é correspondido, mas não pretendo me importar com isso. Volto para trás do balcão e começo a limpar as unhas sem ter mais nada melhor para fazer; continuo ouvindo as exclamações e perguntas obscenas das meninas lá de dentro e reviro os olhos uma vez ou outra, soltando suspiros e risadas abafadas.
Ele não demora muito a terminar o café, deixando a louça suja sobre a mesa e saindo da lanchonete sem ao menos um ‘obrigado’ ou um ‘até mais’. Não que eu esperasse que ele viesse falar comigo, de qualquer jeito. Entendo sua frustração completamente, mas nunca imaginei que pudesse ser tão grosso.
Ajeito o laço do avental branco antes de passar por debaixo do balcão para pegar a caneca; por uma incrível coincidência, noto o bilhete debaixo da xícara antes de jogar a louça na pia, ao lado do pano sujo.
CP
4h
R.
Meu coração salta do peito e parece estar na garganta; o sangue pulsa em meus ouvidos como se eu tivesse acabado de correr a maratona. Quero gritar com as meninas e pedir que se calem para que eu possa ter um tempo sozinha para pensar, mas não o faço. Saio do trabalho exatamente às quatro e não sei como vou fazer para sair mais cedo, mas acho que consigo dar um jeito…
Chamo uma das meninas que apoiou a minha entrada na lanchonete e digo a ela que minhas tarefas já estão todas feitas, pergunto depois se posso sair um pouco antes do horário, como agora mesmo, e ela ri, balançando a cabeça em afirmação.
Sequer me importo com o que ela diz depois, porque já voei pela porta de entrada e arranquei o casaco do cabideiro, procurando o caminho certo do parque. Não moro na cidade há muito tempo e nunca me interessei em conhecer caminhos fúteis, como o caminho ao parque, mas agora ele seria de grande ajuda.
/POV Katherine/Cherrypie
Meu relógio marca exatamente 4h20min e começo a me perguntar se devia mesmo ter dado a ela uma nova chance. Lembro-me perfeitamente da sensação dos dias que se seguiram da partida dela: Royal não comia mais, eu me sentia mal e não conseguia fazer nada… talvez ela não mereça uma nova chance, de qualquer forma.
Porém, quando estou quase desistindo de esperá-la, ouço sua voz chamando meu nome e estico o pescoço para trás, olhando para ela. Há um enorme sorriso em seu rosto, mas não sinto vontade alguma de retribuí-lo. Quando a distância de metros entre nós vira uma distância de apenas centímetros, volto a me sentar no banco; ela senta ao meu lado, ainda desconfortável.
– Sinto muito – ela suspira.
– Devia sentir mesmo – reclamo – Sabe o que eu passei?
– Desculpe! – ela quase grita, olhando em meus olhos – Eu não soube o que fazer, como agir, depois que você disse que me amava, eu pirei, ‘tá legal? Posso ter tomado a pior decisão da minha vida ao deixá-lo sozinho naquela cama, mas eu precisava fazer aquilo, eu me sentia suja e obscura, precisava de um tempo para averiguar o que sentia por você!
– Não acho que precise dos detalhes – as palavras ficam entaladas na minha garganta – Você já tomou sua decisão e eu não vou interferir.
– Mas eu… – ela solta um longo suspiro quando ergo o indicador para impedi-la de continuar.
– Você tomou uma decisão quando me largou sozinho sem ao menos uma explicação, sem ao menos se despedir, me fazendo como palhaço – não percebo o tom de voz alto até que uma senhora de idade chia para mim – Eu não sou alguém que perdoa com facilidade, saiba disso.
– Mas eu quero muito obter o seu perdão – ela espalma a mão em meu peito sem ao menos perceber o que fez – Custe o que custar.
Penso que talvez eu não seja homem o suficiente para perdoá-la, para esquecer tudo o que ela me fez sofrer depois de sumir daquele jeito.
– Posso ter uma segunda chance? – ela pergunta quando olho para o lado oposto.
– Não costumo dar segundas chances – estreito os olhos quando olho para cima; o sol se esconde atrás de inúmeras nuvens e, como ele, quero poder fazer o mesmo – Como posso ter certeza de que não vai fazer a mesma coisa se eu der uma segunda chance a você?
Ela olha para mim e eu desvio o olhar com rapidez, passando a olhar para minhas mãos que, agora, parecem muito mais interessantes do que os jogos de futebol que costumo assistir.
– Eu quero você – ela sussurra; foi tão baixo que quase não pude ouvir.
Estreito os olhos e volto a olhá-la no momento em que ela solta os cabelos de um rabo de cavalo e começa a penteá-los com os dedos. Quero pedir que repita aquelas três palavras, que me faça contente por apenas um momento antes que as lembranças dolorosas do que eu disse antes de sua fuga voltem para mim.
Suas bochechas estão vermelhas e ela respira com dificuldade; solto um pigarro para chamar sua atenção.
– Não pensei que algum dia poderia voltar a vê-lo – ela admite – Senti tanto a sua falta e arrependi-me tanto de tê-lo deixado!
– Não é como se já pudéssemos ter sentimentos fortes um pelo outro – tento contornar a situação, mas não confio em minhas palavras – Quero dizer, nos conhecemos há tão pouco tempo que fica difícil saber exatamente o que sentimos.
– Não acredito em você – ela diz e vejo um sorriso brotando em seu rosto – Você disse que me amava e ficou sem resposta.
– Exatamente – suspiro e volto a olhar as nuvens, que se movem rapidamente sobre o globo ofuscante.
– Bem, quer saber a resposta? – ela se ajeita e toca meu rosto, virando minha cabeça para me forçar a olhá-la.
– Fará alguma diferença se eu disser que não? – cuspo e ela dá risada, balançando a cabeça em negação.
– Conheço você e sei o quanto pode ser teimoso – ela me impede de retrucar, pondo o indicador sobre meus lábios – Mas talvez seja isso o que me faz gostar ainda mais de você… demorei bastante a perceber isso e pensar em você constantemente me fez procurar um emprego que fosse mais decente!
– O que isso tem a ver comigo? – consigo falar, mesmo parecendo ter um ovo inteiro dentro da boca.
– Eu abri meus olhos para novas oportunidades, eu quis mudar para ser uma pessoa melhor – ela continua como se eu não tivesse falado nada – E você sabe por quê?
– Não – digo, ainda parecendo uma criança.
– Porque eu amo você – ela suspira e eu reteso os músculos pela primeira vez em três meses – Não sei se fez alguma diferença ‘pra você, mas eu me sinto assim e queria que soubesse.
Não sei como agir e não sei mais como se respira; meus pulmões queimam, mas não posso fazer nada quanto a isso porque meu cérebro simplesmente se desligou de mim. Meus olhos vagueiam pela roupa que ela usa e então percebo um ganho considerável de barriga em apenas três meses, e não acho que seja só pelo afastamento de uma profissão onde se usa todo o corpo.
Ela parece encabulada quando encaro suas roupas, porque fecha o casaco sobre o corpo, impedindo minha visão. Quando finalmente consigo o oxigênio necessário, olho para ela e acabo sorrindo.
– Ainda estou chateado – afirmo –, mas não posso negar que também senti sua falta.
– Imaginei – ela brinca e depois pisca – Fizemos passeios bem aleatórios, não fizemos?
– Fizemos – suspiro – Por que arranjou trabalho numa lanchonete?
– É a única coisa que sei fazer além de… você sabe – suas bochechas coram e eu solto uma risada, voltando a olhar para o céu – Acho que, se algum dia eu tiver um filho, quero que ele tenha orgulho de mim, sem que saiba das obscuridades da minha vida de antes.
– Não quer que uma criança cresça em meio a tudo aquilo – suponho e ela afirma.
Nós não falamos mais nada depois disso. Talvez o assunto ‘crianças’ não tenha sido bem o que ela pretendia.
– Suspeitei de uma gravidez – ela diz de repente e eu viro a cabeça com rapidez, esperando para que ela complete o que disse – Mas eu fiz alguns testes…
– E…?
– Negativos, por enquanto – ela dá um sorriso fraco e eu relaxo os músculos, finalmente – Não acho que eu esteja preparada para filhos agora.
– Não acho que alguém esteja preparado para filhos mesmo quando planejam uma gravidez – suponho – Minha mãe não queria filhos e, quando descobriu que estava grávida de mim, isso destruiu sua carreira, mas não a impediu de continuar tentando.
– Mas o problema é exatamente esse – ela ergue o rosto e olha dentro dos meus olhos – Não sei se algum dia vou ter a coragem necessária para cuidar de uma criança.
– Ninguém tem coragem de cuidar de uma criança – retruco – É normal ficar com medo, mas todos nós temos que tentar algum dia.
– Você pensa em ter filhos? – ela pergunta e eu balanço a cabeça em negação.
– Nunca quis, na verdade – solto um suspiro – Mas minha mãe vive pondo pressão em mim para que eu a presenteie com um neto, por mais que isso tire toda a rota da minha vida. É como se eu não servisse para ser um pai.
– Como pode saber se nunca agiu como um? – ela cutuca meu peito e eu solto um grunhido esganiçado.
– Não quero ter filhos – é tudo o que digo.
Ela cruza os braços sobre o peito e respira fundo; o vento começa a levar folhas e galhos para longe de nós, ricocheteando os cabelos dela para todos os lados e, pela primeira vez desde que encontrei com ela naquela lanchonete, permito-me apreciá-la mais uma vez. Não é a mesma que conheci e eu não esperava que fosse; debaixo de seus olhos há bolsas escurecidas, provavelmente pela falta de descanso que conheço bem…
– Estou com fome – ela reclama e eu solto uma risada – O que é?
– Nada – mordo o lábio para conter a risada monstruosa que me possui – É que você acabou de sair do trabalho que, por acaso acontece de ser uma lanchonete e me diz que agora está com fome.
– Não somos recompensadas com bolinhos ou café grátis, sabichão – ela me dá uma cotovelada – Se consumimos, temos que pagar.
– Posso levá-la para jantar, se quiser – eu ofereço e vejo seus olhos brilhando.
– Você faria isso? – pergunta com excitação palpável e eu rio.
– Podemos jantar juntos, oras – replico – Somos amigos agora, não somos?
Ela sorri para mim e me dá o braço quando levantamos; seus olhos percorrem todo o meu rosto para, enfim, pararem sobre meus olhos. Ela dá um último sorriso antes de começarmos a andar pelo parque a caminho de qualquer restaurante, porém, antes que saiamos do lugar, ela se coloca na ponta dos pés e dá um beijo na minha bochecha.
– Amigos.
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