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5 4. Dia 2 - Parque de Diversões
Notas iniciais
“Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo. Lo que me gusta de tu sexo es la boca. Lo que me gusta de tu boca es la lengua. Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.”
“O que eu gosto em seu corpo é o sexo; o que eu gosto do teu sexo é a boca; o que eu gosto da sua boca é a língua; o que eu gosto de sua língua é a palavra.”
– Julio Cortázar
Minhas costas doem por motivos que não sei; talvez eu tenha dormido de mau jeito. Eu sento no chão e descubro o que foi que aconteceu. Adormeci no chão e não cheguei a comer a pizza ou a beber a cerveja; olho para o sofá e vejo que ela ainda dorme, encolhida e tremendo. Me levanto com dificuldade e então puxo-a para o meu colo, por mais que minhas costas gritem por ajuda assim que eu a coloco nos braços.
Começo a subir as escadas e ouço Royal ganindo; entro no quarto e a deito na cama, cobrindo-a com uma manta felpuda. Rapidamente, ela ocupa todo o espaço da cama, ajeitando-se na transversal; eu rio e balanço a cabeça, puxando uma camiseta do chão.
Volto a descer as escadas e vou até a garagem para retirar as bolsas de dentro do carro; coloco cinco em cada braço e volto para dentro, deixando-as sobre a mesa de jantar. Depois, pego as duas garrafas de cerveja e volto a colocá-las dentro da geladeira. Resolvo esquentar um pedaço de pizza no micro-ondas porque a fome começa a corroer meu estômago.
Espero os vinte e nove segundos (seriam trinta, mas não quero acordá-la com o bipe alto do aparelho) e então tomo cuidado ao retirar o prato do micro-ondas porque sempre me queimo. Um dia eu teria que aprender! Olho no relógio e vejo que acordei cedo demais: 7h 47min, é o horário que marca. Suspiro e devoro o pedaço lotado de pepperoni antes de dar um enorme bocejo e me espreguiçar.
Ouço a risada dela vinda do andar de cima e então Royal late. Ergo os olhos e limpo a boca antes de virar o corpo na direção da escada; ela começa a descer com um lençol envolvendo o corpo, e não posso negar: ela está linda. Não contenho um sorriso ao vê-la segurando o tecido branco desajeitadamente sobre o corpo; recebo outro sorriso e balanço a cabeça.
– Bom dia – ela suspira, e então boceja.
– Quer que eu esquente um pedaço de pizza pra você? – questiono; ela nega.
– Não estou com fome – outro bocejo – Mas continuo com sono. Não me lembro de ter subido as escadas ou ido para o seu quarto pela noite.
– Eu levei você – digo – Você estava toda encolhida no sofá, tremendo de frio só com a lingerie, então achei melhor colocá-la na cama e cobrir você.
– Isso é… – ela procura as palavras certas –… até meio gentil… Obrigada.
– Não há de quê – reverencio, arrancando uma risada dela. – Então, o que quer fazer hoje?
– Não sei. – um suspiro – Ouvi falar de um novo parque de diversões num antigo terreno baldio, e parece interessante. Mas se não quiser ir, entendo.
Quem ela pensa que eu sou? Um ditador? Sou uma criança no corpo de um homem!…, bem, uma criança meio pervertida, mas ainda assim!
– Que horas abre? – pergunto, já pensando nas inúmeras coisas que podemos fazer.
– Não sei – ela ri ao olhar para mim – Você parece uma criança de oito anos com overdose de açúcar com essa expressão!
– Talvez eu seja uma criança de oito anos com overdose de açúcar, já pensou na possibilidade? – brinco, ela ri e balança a cabeça; seus dentes pressionam seu lábio inferior e eu contenho o impulso de beijá-la.
– Tenho certeza de que não é uma criança de oito anos – ela ri; sua voz está rouca – Mas não significa que não aja como uma às vezes.
Solto o ar que nem sabia que havia prendido quando ela murmura as últimas palavras; desde que fiquei com ela pela primeira vez, tinha a seguinte coisa em mente: não me apaixonar por uma mulher qualquer. Mas acontece que ela não é uma mulher qualquer; todas as moças pelas quais já paguei não tinham conteúdo, eram só um rosto/corpo bonito, mas Katherine não é assim. Convivo com ela há pouquíssimo tempo, mas eu já sei que ela não é fútil, ela tem conteúdo, é inteligente e, por mais que seja prostituta, se valoriza.
– Vá se arrumar – eu peço – Vamos ao parque de diversões.
POV Katherine/Cherrypie
Subo as escadas correndo, largando os lençóis assim que chego ao quarto; meu coração parece estar querendo sair pela garganta e o sangue pulsa em meus ouvidos. Dispo meu corpo das peças detalhadas e entro no chuveiro, fechando o vidro do boxe; deixo a água escorrer pelo meu corpo e fecho os olhos, expulsando a água em excesso dos cabelos.
Quando os abro, procuro os frascos de xampu e condicionador. Não demoro no banho, nunca demorei porque nunca pude pagar por esses pequenos luxos, então acabo lavando os cabelos e passando a barra de sabão pelo corpo em menos de dez minutos. Retraio os músculos ao sentir o ar frio que entra pela janela do quarto; ouço a voz dele da porta e quase solto a toalha, mas sou rápida o suficiente para segurá-la antes que caia.
– Frio? – ele ri; bufo e volto a descer as escadas.
As sacolas de roupas que compramos ontem estão sobre a mesa de centro; atrapalho-me para pegá-las. Seus braços envolvem meu corpo enquanto pegam as sacolas; fecho os olhos ao sentir sua respiração em meu pescoço e tento não suspirar, mas, pela risada que ouço sair de sua boca, sei que falhei no quesito.
Eu o sigo pelas escadas e sento na cama para observá-lo enquanto ele arranja cabides para pendurar as minhas roupas em seu armário. Quase sorrio com a cena, mas consigo contê-lo antes que Richard se vire para mim; ele sai do quarto com lentidão e, assim que seus pés pisam no carpete do corredor, fecho a porta e encosto as costas na madeira.
Fecho os olhos e solto a toalha, deixando-a ao chão. Respiro com dificuldade e o sangue pulsa em meus ouvidos com mais força; minha testa começa a doer e me pergunto se é uma boa ideia continuar naquela casa. Balanço a cabeça enquanto me aproximo do guarda-roupas, procurando algo que seja confortável para esta situação; puxo outra lingerie e visto com rapidez, ansiando me livrar da sensação de estar congelando. Uma calça e uma blusa ¾ são o suficiente; eu os visto e pego a toalha do chão. Volto a abrir a porta, encontrando o cão parado à porta; sorrio e acaricio sua cabeça.
Desço as escadas e olho para ele, que tem fones de ouvido e dança conforme uma música. Água escorre pela torneira e ele passa a esponja sobre um prato gordurento; eu rio com vontade, aproveitando a chance de ele não poder me ouvir. Ponho a mão na barriga para aliviar a dor e caminho em sua direção, enlaçando seu corpo com os braços e retirando um de seus fones; ele pula com o contato repentino e dá risada depois.
– Podia ter feito algum barulho – ele diz, ainda dançando; eu o acompanho nos passos desajeitadamente.
– Eu ri bem alto ali atrás e você não ouviu – reclamo – Não pode me culpar por ouvir música alta demais.
– Não, eu não posso – ele aproxima seu rosto do meu e sinto o coração martelando no peito.
– Vamos perder o parque – consigo sussurrar – Não é melhor ir se arrum…
– Quem liga para o parque? – ele sussurra em meu ouvido; fecho os olhos ao sentir o ar quente em minha orelha – Não precisamos sair hoje, precisamos?
– Não… – sussurro sem pensar; abro os olhos e vejo o sorriso malicioso aberto em seu rosto – Mas seria muito legal.
Com toda a força de vontade que consigo reunir, consigo desvencilhar-me de seus braços e me apoio no balcão do outro lado. Ele ergue as sobrancelhas para mim, mas eu me afasto um pouco mais e dou um sorriso nervoso; gaguejo palavras desconexas e sinto minhas bochechas queimarem.
– Carro – murmuro; ele abre a boca, mas eu balanço a cabeça – Pronto, carro.
Saio da cozinha e abro a porta da casa antes que ele possa falar mais alguma coisa. Respiro fundo e solto todo o ar de meus pulmões assim que alcanço o carro; encosto na lataria prateada fervente e me afasto ao queimar minha mão. Olho para cima e vejo um sol empalidecido atrás de nuvens rápidas; olho para a vegetação à minha frente e quero correr para ela, me esconder pelo resto da vida.
Não sei quanto tempo ele demora a se arrumar, mas quando vejo, temos Royal numa coleira, entrando no banco traseiro do carro. Sento no banco do carona e tento me ajeitar, mas em todas as posições me sinto desconfortável, então fico na que mais me agrada. Olho para a paisagem borrada que passa pela minha janela e não falo nada durante todo o percurso.
– Não precisa ficar com vergonha – ele suspira – Não aguento você tão quieta.
– Não precisa me aguentar tão quieta – retruco – Por que paramos?
– Porque eu quero conversar – ele aumenta o tom de voz – É tão difícil pra você simplesmente conversar?
Não sei o que ele quer me dizer com aquilo, mas suponho que seja algo relacionado à minha hesitação quando me levou até sua casa pela segunda vez, pedindo só uma conversa. Bem, isso antes de nós… vocês sabem.
Olho para ele e começo a sentir meus olhos lacrimejarem. Minha visão começa a ficar embaçada e meus lábios tremulam para baixo; viro a cabeça para a minha janela, desejando evaporar daquele carro. Quero sair dali e correr pela estrada, pedir carona para qualquer desconhecido que me leve de volta para casa.
– Não quero brigar com você – ele sussurra, e posso dizer que ele está claramente arrependido – Nunca tive a intenção de fazer você chorar, você sabe disso. Eu só quero que tenhamos uma relação normal, por pelo menos um dia. É o nosso segundo dia juntos e, veja, já estamos brigando.
– Talvez devêssemos por um fim à aposta – reúno toda a minha força de vontade para não parecer triste, mas as palavras saem num choramingo.
– Não quero pôr um fim à aposta – ele suspira – Quero continuar com ela, mas quero que você se sinta bem também. O que eu tenho que fazer para podermos viver um mês juntos sem brigas?
– Espaço pessoal – eu digo sem pensar; ele ri.
– Certo. – ele suspira – Eu juro não forçar a barra, não vou fazer insinuações eróticas nem nada…
– Isso é bom – digo, mas isso não é nada bom.
– Mais alguma coisa? – ele pergunta; balanço a cabeça.
– O parque está perto, mas temos que deixar o carro aqui.
Pulo do carro e pego a coleira de Royal. Ele começa a farejar o chão e, conforme vamos nos afastando do carro, ele começa a rodear as minhas pernas, fazendo-me pisar em falso várias vezes. Tropeço em uma pedra e caio nos braços de Richard; ele me levanta com cuidado e olha em meus olhos. Quando nossos rostos estão próximos o suficiente, ele sussurra com dificuldade:
– Espaço pessoal.
Então quero socar a mim mesma no passado por ter feito esse pedido.
/POV Katherine/Cherrypie
Não gosto muito da restrição, mas acho que posso aprender a viver com ela. Bem, contanto que ela não ande pela casa só de lingerie ou que não deixe a porta do banheiro aberta enquanto toma banho, porque isso seria como tortura. Vejo Royal correndo e ela lutando para acompanhá-lo, rindo enquanto ele se enrosca em plantas e raízes ao chão.
Já posso ouvir a música tema de parques de diversão e pressinto que estamos perto. Não que seja um passeio romântico ou algo do tipo, mas estou louco para dividirmos um algodão doce ou até mesmo uma maçã do amor. Corro atrás deles ao perceber que já estão longe e, quando chego perto dos dois, meu coração está acelerado e meu sangue pulsa nos ouvidos. Respiro com dificuldade e ouço sua risada ao me ver arfante.
Cutuco sua barriga e vejo quando recua alguns passos para que eu não repita; ela sente cócegas e eu não sabia disso. Coloco um sorriso bobo no rosto e eu a puxo para perto do meu corpo, envolvendo o dela com os braços e brincando com a barriga dela, movendo meus dedos em locais estratégicos; ela joga a cabeça para trás, rindo, e tenta se desvencilhar dos meus braços, porém, sou mais forte.
– Pare – ela arfa – Por favor.
Eu rio com ela e começo a soltá-la. Damos um último suspiro juntos e então ela arruma os cabelos, pegando a coleira de Royal e voltando a caminhar com ele; começo a segui-la e, quando estamos andando lado a lado, ela me cutuca com o quadril.
– Idiota – ela ri; eu finjo mágoa – Mantenho meu testemunho.
– Não estou dizendo que não sou – brinco – Mas você gosta de quando ajo como criança, sei que gosta.
– Nunca disse que gosto – ela dá de ombros.
– Mas também não disse que não gosta – eu rio e vejo a expressão dela tornar-se confusa; olho para frente e vejo um homem vendendo algodão doce – Quer algodão doce?
– Não gosto – ela faz careta; olho para ela com os olhos arregalados, arrancando uma gargalhada sincera – Não me olhe como se fosse um monstro!
– Você não gosta de algodão doce! Isso é uma monstruosidade! – eu grito – O que gosta de comer, então?
– Gosto de pipoca – ela lambe os lábios – E gosto de maçã do amor, mas nunca gostei de algodão doce.
– Podemos dividir algum desses – ofereço; ela sorri e balança a cabeça, correndo para a barraca de maçãs do amor – Também pensei nesses.
Ela não escuta as minhas últimas palavras porque não estava por perto; Royal fica de pé nas duas patas traseiras e fareja o ar. Provavelmente farejou algo que gostou, porque começa a puxá-la na direção contrária.
– Pode ir com ele – eu rio – Pode deixar que eu compro a maçã do amor.
– Obrigada – ela diz antes de ser puxada por Royal.
Viro as costas e começo a negociar com o vendedor; escolho a maçã mais caramelizada que encontro e recebo-a coberta por um saco plástico e um laço vermelho. Quando encaro a fita com um quê que questionamento, o vendedor pisca para mim e meneia a cabeça para trás de mim; viro o corpo para trás e vejo Katherine fazendo carinho em Royal, mandando que fique quieto por algum tempo. Tento explicar a ele que não somos um casal, mas ele não acredita em mim e, para ser honesto, não sei se eu acreditaria se estivesse no lugar dele.
–… mau menino! – ouço o fim da briga – Laços vermelhos?
– Tentei explicar, mas ele não acreditou – suspiro; ela balança a cabeça e pega o doce de minhas mãos – Mas, para ser honesto, não sei se eu poderia acreditar também. Quero dizer, nós estamos dividindo um doce que se chama maçã do amor, andamos quase colados um no outro e trouxemos um cão. Qualquer um em sã consciência pensaria que somos um casal ou que estamos tentando começar um relacionamento que dure.
– Não acho que eles estejam errados em pensar que somos um casal – ela me estende o doce – Tudo o que falou está certo, mas não acho que seja só isso. Eles devem imaginar coraçõezinhos voando ao redor de nossas cabeças.
– Brega! – eu reclamo após morder um generoso pedaço de caramelo e maçã; ela ri – O que há com essas pessoas que insistem em ver romance em tudo? Parece uma doença contagiosa, como se fosse transmitida pelo ar!
– Meu Deus, nunca escutei palavras tão verdadeiras em toda a minha vida – ela ri e joga a cabeça para trás – Ei, vamos jogar!
Olho para o lado e vejo uma daquelas tendas de atrações com palhaços e fuzis d’água; seguro em suas mãos e posso ver um brilho desconhecido, talvez seja dúvida. Começo a guiar nossos passos até lá e peço ao homem vestido de cavalo duas fichas; ela prende Royal no pulso e então recebemos nossos fuzis carregados.
Nosso objetivo é encher os balões que estão nas bocas dos palhaços até que eles explodam e precisamos explodir pelo menos cinco balões cada um num período de cinco minutos para ganharmos o prêmio. Há, ao todo, vinte palhaços, ou seja, vinte balões para serem estourados.
Quando o cronômetro começa a rodar, esguicho água para a boca do primeiro palhaço e o balão explode. O mesmo acontece com os próximos oito, e só temos mais vinte segundos. Ela explodiu sete balões, e eu nove; não precisamos nos preocupar com o tempo, mas seria muito agradável se conseguíssemos explodir todos os balões.
O apito contínuo do cronômetro mostra que nosso tempo acabou. Explodimos dezoito balões em cinco minutos, então não acho que tenhamos sido ruins no jogo; o homem vestido de palhaço seca o rosto e então nos mostra o armário de prêmios. Há ursos gigantes, bolhas de sabão e bichos de pelúcia que não reconheço.
– Aquilo é um tigre? – questiona ela, apontando para um animal listrado; a cabeça do bicho está escondida por um urso, mas também acho que seja, pois é laranja e rajado de preto. O homem palhaço balança a cabeça em concordância – De quantos pontos precisaríamos para consegui-lo?
– De… – ele checa a mão; vejo tinta borrada em sua palma, mas ele consegue enxergar perfeitamente as palavras –… pelo menos quinze pontos. Vocês fizeram…, errr…
– Dezoito – emendo; ele ri e esconde o rosto nas mãos, como se estivesse envergonhado.
– Querem levá-lo? – ele pergunta com um enorme sorriso; olho para Katherine e vejo seus olhos brilhando de excitação.
– Pode passá-lo para cá! – eu digo, pegando a pelúcia das mãos do palhaço; olho para ela e recebo um enorme sorriso – O que quer fazer agora?
– Só quero andar um pouco – ela ri –, e, quem sabe, provar o algodão doce do qual você tanto fala!
Não contenho um sorriso e não consigo conter o impulso de abraçá-la. Grudo nossos corpos e apoio minha cabeça no vão de seu pescoço, aspirando o perfume de cerejas e creme do qual tanto gosto.
POV Katherine/Cherrypie
Tropeço em Royal várias vezes até conseguir que ele caminhe ao meu lado. Olho para o lado e vejo o enorme tigre de pelúcia que Richard carrega nos braços; não posso negar que pareço estar em um relacionamento sério com ele. Pescoços se viram em nossa direção e começo a me sentir estranha por estar andando por ali, estranha por estar caminhando com o cachorro dele. Apesar de tropeçar no cão, era para ser um passeio comum.
Mas, então me lembro, nada com ele é comum.
Há uma tenda roxa em formato suspeito ao lado dele e eu o cutuco com o ombro; meneio a cabeça para o local e ele gargalha com vontade, fechando os olhos com força e arfando para recuperar o fôlego.
Nós continuamos a caminhar pelo chão de areia, ouvindo risadas de crianças e discussões de casais sobre o que vão fazer depois.
– Daqui a pouco vai escurecer – ele diz.
– Quer voltar pra casa? – pergunto; ele olha para mim e sorri.
– Se você quiser… – ele suspira – Achei que fosse um pouco mais legal.
– Talvez você não seja um menino de oito anos com overdose de açúcar. – eu rio; ele reverencia e deixa o tigre de pelúcia cair na areia – Mas talvez seja uma criança de oito anos desastrada.
– Sempre fui – ele ri – Minha mãe costumava brigar comigo por causa disso, então ela e meu pai entravam em discussões sobre mim, e… bem, você não quer saber.
– Sinto muito – é tudo o que consigo dizer antes de começar a puxá-lo pelo caminho inverso – Podemos pedir comida chinesa, o que acha?
– Fantástico!
‘…’
Me jogo no sofá assim que entramos em casa e respiro fundo; minhas mãos doem por conta do fuzil d’água. Olho para Royal, que me encara com os enormes olhos marrons; eu rio e tiro a coleira de seu pescoço. Ele lambe minha mão e sai andando até a cozinha, onde Richard procura folhetos de restaurantes chineses que façam entregas.
Subo as escadas e, quando chego ao quarto, a primeira coisa que faço é retirar as calças, procurando algo que seja confortável. Porém, ouço o som de algo caindo no chão do lado de fora do quarto e viro a cabeça, vendo Richard boquiaberto no batente da porta. O pomo de adão sobe e desce rapidamente, mas os olhos dele continuam fixos nas minhas pernas; tento cobrir minha pele, mas ele balança a cabeça.
– Eu… – ele gagueja – Eu.
Não consigo conter a risada e solto o tecido jeans, olhando para ele com um enorme sorriso no rosto. Não fazia ideia de que eu causava essa atitude, que causava tal perplexidade. Começo a me aproximar dele, tocando seu rosto para que ele volte a si, mas só o que ele faz é me acompanhar com os olhos, de boca aberta.
– Espaço pessoal – ele diz, mas soa mais como uma pergunta.
– Quer que eu me afaste? – pergunto; ele engole em seco.
– Não – é tudo o que diz antes de enlaçar minha cintura com o braço, então me puxa contra si; fecho os olhos e sorrio – Você quer?
– Não. – respondo, abrindo os olhos.
Ele pressiona seus lábios contra os meus e eu enlaço seu pescoço com os braços; nós caminhamos desajeitadamente até algum lugar. Paramos quando sinto a parede fria contra minhas coxas; sem outra alternativa, ele me põe no ar e eu enlaço minhas pernas em seus quadris, beijando-o com volúpia.
Nós nos separamos quando ergo a barra de sua camisa para que ele se veja livre daquela peça; coloco meus pés no chão e começo a retirá-la. Ele ergue os braços para me ajudar com o trabalho de expulsar o tecido de seu corpo e agradeço-o por isso; a seguir, ele retira a minha blusa, jogando-a para longe. Olho em seus olhos e vejo os azuis mais escuros e as pupilas extremamente dilatadas; engulo em seco e, desajeitadamente, começo a retirar seu cinto.
– Não devíamos estar fazendo isso – ele sussurra em meu ouvido com dificuldade depois de me impedir de começar a retirar suas calças; eu solto um grunhido.
– Você não quer? – respondo com a voz rouca.
– Não posso dizer que não – ele ri – Mas nós fizemos o trato de…
–… espaço pessoal – completo – Eu tenho ciência disso.
Rapidamente, desvencilho-me dele e cato minha blusa, voltando a vesti-la. O tecido parece gelo quando entra em contato com a minha pele; arrepios me consomem quando sinto sua respiração em meu pescoço, mas não cedo. Consigo, de alguma forma, desvencilhar-me de seus braços e traçar uma rota até o armário, pegando shorts e levando-os para o andar de baixo.
Ao chegar no sofá, desabo sobre as almofadas. Fecho os olhos quando Royal deita a cabeça em minhas pernas e começo a acariciar os pêlos macios do cão; respiro fundo várias vezes, mas não deixo de arfar quando ouço sua voz ao telefone, pedindo comida.
– Desculpe – ele diz – Não quis que achasse que não a desejo.
– Não precisa se desculpar – eu rio; minha voz ainda falha – Não acho que devamos fazer nada do tipo agora. Amigos?
Estendo minha mão e espero que ele a tome, mas ele não o faz. Ao invés disso, só olha para ela como se fosse, de certa forma, contagiosa; ergo as sobrancelhas e observo seus olhos traçarem uma rota da minha mão estendida até meu rosto, meus olhos.
– Não posso prometer que seremos só amigos – ele arfa – Nós dois já fizemos coisas que simples amigos não fariam. Nós dois temos uma história complicada, e você não estaria aqui se não fosse por uma aposta idiota, você sabe disso e eu também sei. Eu não quero que sejamos só amigos porque o que fizemos antes vai atrapalhar nossa amizade, então, sinto muito, mas não podemos ser só amigos.
O que ele não sabe, infelizmente, é que não estou lá só pela aposta, que não quero que sejamos só amigos porque não resisto a ele. Não quero que algo atrapalhe nossa amizade porque não há uma amizade certa, nós nunca vamos ser só amigos.
Não sei como explicar isso a ele, então fico calada e consinto. Abaixo o braço e vejo o olhar machucado em sua expressão quando ele vira de costas e volta a subir as escadas; abraço Royal e deixo minhas lágrimas molharem seus pêlos.
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