Drive By | hiatus |
30 29. Inspiração
Notas iniciais

O som alto de pratos e talheres me despertou de um maravilhoso sonho, onde tudo era cor-de-rosa e não existia problema algum. Rolei na cama, ficando de bruços, e então senti alguma coisa roçando no meu pé. Definitivamente um complô para não me deixar dormir até tarde. Bufando e colocando o cabelo bagunçado atrás das orelhas, pulei da cama, calcei os chinelos e saí do quarto com passos preguiçosos enquanto coçava os olhos.
Bocejei, deixando um som animalesco escapar da minha garganta, ainda com a visão turva. Por isso, quando avistei Rick na cozinha, dançando na frente do fogão, parei no ato. Inclinei a cabeça só para ver suas pernas de fora, e a boxer preta aparentemente colocada às pressas.
– Bom dia? – eu ri baixinho.
Ele virou a cabeça para mim e sorriu, ainda sem se afastar do que quer que fosse que cozinhava ali. Arrastei-me até o balcão e bocejei mais uma vez, sentindo os pelos macios de Royal roçarem nas minhas pernas nuas. Olhei para baixo só para vê-lo deitado aos meus pés, com a cabeça apoiada nas patas.
Abri a boca para falar, mas antes que eu pudesse sequer raciocinar, um prato com ovos mexidos e panquecas surgiu à minha frente, e isso foi o suficiente para que eu me calasse. Meu estômago roncou, e agarrei o garfo como se já não visse comida há décadas. E, céus, eu estava faminta!
Comecei a devorar o conteúdo do prato com voracidade, e Rick soltou uma gargalhada baixa enquanto eu deixava gemidos de pura satisfação escapar. Depois, constrangida, cobri a boca com a mão e sorri timidamente.
– Desculpe – murmurei.
– Não tem problema – ele apoiou o queixo no braço jogado sobre o balcão – Você deve estar faminta. Fizemos muito exercício ontem à noite.
Ele içou as sobrancelhas sugestivamente, e eu ri, olhando para baixo.
– Eu estava pensando… — ele começou.
Ergui os olhos do prato praticamente vazio e dei de cara com os olhos azuis cintilantes, levemente escurecidos e senti o coração perder o compasso. Engoli em seco e mordi a língua numa tentativa falha de tentar não demonstrar desespero. Então, ele sorriu, balançando a cabeça e respirando fundo antes de prosseguir.
– Como você já deve ter notado – continuou – Eu não tenho muita sorte com pessoas no geral, e quase toda a minha família parece me odiar plenamente.
Arqueei as sobrancelhas. Eu estava definitivamente confusa.
– Onde é que quer chegar?
– É, então – ele riu, coçando a cabeça – Eu meio que não tenho um padrinho para o nosso casamento.
– Ah.
– E eu só… eu não me sentiria nada à vontade em chamar o meu primo para ficar do meu lado no altar. Principalmente porque a esposa dele me odeia e porque, hum… bem, nós temos lá as nossas diferenças – ele explicou.
– Tudo bem – prolonguei as sílabas, ainda tentando entender o rumo daquela conversa – E o que você quer que eu faça quanto a isso?
– Sabe aquela sua amiga…? – ele questionou, coçando o queixo – Aquela que nós encontramos no parque de diversões? Qual era o nome dela?
– Lanie? – arregalo os olhos, finalmente entendendo o que ele queria dizer desde o princípio – Oh, meu Deus. Você quer que o Javi seja o nosso padrinho?
– Não sei! – ele aumentou o tom de voz – Eu não conheço mais ninguém que realmente nos conheça e que não me olhe torto quando estou com você. E, a não ser que você queira que a minha mãe seja o nosso padrinho…
– Não me leve a mal, eu amo a sua mãe, mas – fiz uma careta, e ele riu – Definitivamente não. Tudo bem, eu posso conversar com ela sobre isso, e talvez ela consiga convencer o Javi de que possa ser legal.
– Ótimo – ele suspira, fechando os olhos num momento de alívio – Eu preciso passar na editora hoje para terminar de assinar os contratos e…
Automaticamente, minha expressão mudou. Mordi o lábio inferior, olhando para baixo e franzindo o cenho. Rick parou de falar instantaneamente e soltou uma risadinha sem graça enquanto rodeava o balcão e me puxava para um abraço, o qual não ousei corresponder.
– Se você quiser ir comigo – ele sussurrou em meu ouvido – Ficarei mais do que feliz em apresentá-la a toda a equipe de publicidade.
Continuei olhando para baixo.
– Talvez eu apresente você à minha agente publicitária – ele beijou a minha testa – Fazendo o favor de apresentá-la propriamente como minha futura esposa.
Olhei para ele e tentei conter o sorriso, o que não deu muito certo. Ele riu, balançando a cabeça e puxando-me para um beijo. Mergulhei as mãos em seus cabelos, puxando-o para mais perto. Finalmente, estávamos conseguindo colocar tudo nos eixos.
◊
O prédio era todo feito de metal, e as pessoas mais pareciam máquinas, com seus ternos absolutamente perfeitos e rostos radiantes. Senti-me imensamente deslocada enquanto caminhávamos pelo corredor imenso, entre centenas de editores perfeitamente arrumados e absurdamente lindos. Rick entrelaçou seus dedos aos meus quando entramos numa sala com divisórias de vidro.
Ali estavam duas mulheres, conversando alegremente sobre diferentes artes de capa, rindo e exibindo seus dentes perfeitamente brancos e alinhados. Tentei não olhar para baixo, mas o impulso foi mais forte do que eu.
– Bom dia – Rick murmurou, limpando a garganta, e dois pares de olhos se voltaram contra nós – Eu recebi o e-mail sobre a finalização do contrato.
– Ah, sim – a mulher loira respondeu, vacilando ao olhar para mim – Nós estávamos discutindo a melhor arte para a capa, mas como você está aqui… Meredith, mostre a ele todas as nossas opções.
– Sim, senhora – a ruiva murmurou antes de correr para fora da sala.
– Voltando ao assunto, Rick…
Rick?
–… nós precisamos rever algumas reivindicações propostas no contrato, além do custo de publicação e direitos autorais – ela olhava para o computador, e Rick caminhou até as cadeiras de couro claro prostradas à frente da enorme mesa de vidro, quase me puxando para que eu o acompanhasse.
– Tudo bem – ele murmurou, indicando que eu me sentasse.
Com muita relutância, eu o fiz, ainda sem encarar a mulher do outro lado da mesa. Eu estava quase me sentindo impotente no meio de todo aquele luxo. Ele praticamente se jogou na cadeira ao meu lado, procurando a minha mão e entrelaçando os nossos dedos mais uma vez. Talvez porque soubesse o quão deslocada eu me sentia ali.
Apertei sua mão, e ele a apertou de volta.
– Senhor Castle? – a ruiva surgiu no batente mais uma vez, segurando uma pasta escura – As amostras já estão prontas, caso o senhor deseje vê-las.
– Oh, claro – ele se colocou de pé e eu fiz o mesmo, sem ousar soltar sua mão.
A mulher do outro lado da mesa se precipitou, tomando o espaço à nossa frente e olhando para mim com o seu melhor olhar ameaçador, e devo dizer que ele foi eficaz. Senti todo o meu corpo entorpecido, e engoli em seco, em dúvida e amaldiçoando a mim mesma por ter vindo.
– Sinto muito, mas ela não pode ir com você – ela sorriu de leve, embora tudo o que eu pudesse ver fosse hipocrisia escorrendo do canto de seus lábios – É proibido a visitantes.
Ela cuspiu as últimas palavras, e meu coração se despedaçou quando Rick soltou minha mão. Mas ele não saiu; muito pelo contrário, se colocou à minha frente e olhou para ela, que se encolheu com a proximidade. Não posso culpá-la, pois eu teria feito exatamente a mesma coisa.
– Ela não é uma visitante – ele também cuspiu as palavras, mas seu tom era defensor – Sugiro que trate a minha noiva com mais respeito. Você não sabe, mas pelo menos outras duas editoras fizeram ofertas pelo meu livro, e se isso se repetir, eu não vou hesitar antes de fazer um acordo com elas. Estamos entendidos?
– S-sim. – ela gaguejou.
– Ótimo – ele cuspiu mais uma vez antes de voltar a entrelaçar os nossos dedos.
Praticamente corri para conseguir acompanhar seus passos, e meu coração batia com tanta força atrás das costelas que achei que estava à beira de um ataque de pânico. Sussurrei em seu ouvido para que ninguém mais nos escutasse:
– Aquilo era verdade? – questionei baixinho – Alguma outra editora entrou em contato com você a respeito do livro?
– Não – ele piscou para mim – Mas ela não precisa saber disso.
◊
Em todas as artes de capa havia a silhueta de uma mulher nua.
Franzi o cenho quando Rick apontou para uma com o fundo amarelo-limão, com prédios e um sol nascente. Pelo o que vi, a auxiliar de imagem também não gostara nem um pouquinho. Quando ele olhou para mim, a decepção estampava todo o seu rosto.
– Se me permite dizer – ela murmurou baixinho – O senhor pode ter habilidade com as palavras, mas é desprovido de qualquer senso artístico.
Deixei uma risadinha escapar, e Rick cruzou os braços sobre o peito, avaliando a imagem que tinha escolhido. Aparentemente, ele não via nada de mais naquela foto. Mas eu via, e era horrível.
– Por que não usa a vermelha? – questionei, aproximando-me da imagem.
Rick fez o mesmo, lentamente, e passou o indicador sobre o título do livro, impresso na parte de baixo da imagem. Franziu as sobrancelhas e concordou com a cabeça, sorrindo para mim.
– Ótima escolha – a ruiva suspirou.
Enquanto ela retirava a imagem escolhida da sala, Rick se aproximou de mim, rodeando a minha cintura com o braço e puxando-me para perto. Descansei a cabeça em seu peito e senti seu queixo apoiado no topo da minha cabeça. Espalmei a mão sobre o terno e pude sentir seu coração bater por trás de todo o tecido.
– Obrigado – ele murmurou, dando um beijo estalado na minha cabeça.
– Pelo quê? – questionei, afastando-me apenas o suficiente para poder olhá-lo nos olhos.
– Por ter sido a minha inspiração – ele sorriu.
Deixei o meu próprio sorriso emergir e coloquei-me na ponta dos pés para beijá-lo. Eu sabia que, em determinado momento, ele não poderia mais estar em casa tão regularmente, e que talvez nós ficássemos longe um do outro por tempo demais. Mas, agora, ele era total e completamente meu, e eu não o deixaria ir.
Fomos interrompidos pelo meu celular, que indicou a chegada de uma nova mensagem. Eu ri baixinho, tirando-o do bolso e lendo as palavras irritadas de Lanie sobre eu “nunca conseguir chegar a tempo para nada” ou reclamando sobre o fato de que “está um frio do caramba” e que eu “devo a ela um café. Ou talvez uns mil”.
◊
Quando eu entrei na cafeteria, Lanie já estava com os braços cruzados, de pé, e me olhando como se eu fosse a pior pessoa do mundo. Mas, no momento em que me aproximei dela, seu sorriso começou a surgir e ela me tomou num abraço apertado. Retribuí-o, e ela tratou logo de chamar alguém para nos servir.
– Então? – ela arregalou os olhos – Não tem menino-escritor hoje?
– Lanie – revirei os olhos – Não o chame desse jeito. Ele tem um nome, sabia?
– Eu sei – ela riu – Mas é legal chamá-lo assim. Aliás, qual é o assunto extra-secreto que precisamos discutir?
– Não é extra-secreto, Lanes – digo – É só que… Rick está preocupado, porque, nas palavras dele, ele precisa de alguém que “não o olhe torto quando está comigo” e que nos conheça bem o suficiente para ser o nosso padrinho de casamento.
– Hum… — ela bateu as unhas na mesa de plástico.
Um sininho ressoou na minha cabeça, e eu ri.
– Então eu pensei – fiz suspense – Eu também estou precisando de uma madrinha, e talvez… só talvez, você e Javi queiram ocupar esses lugares. Quero dizer, vocês não precisam, só…
– Você está brincando?! – ela ri alto – É claro que eu quero!
Eu ri baixinho quando ela se colocou de pé, abrindo os braços e lançando a mim um sorriso desproporcionalmente grande em relação ao seu rosto. Lentamente, pus-me de pé e ela me puxou para um abraço apertado, que eu aceitei de bom grado.
Aspirei seu perfume, e ela riu baixinho enquanto me apertava contra seu corpo. Ficamos daquele jeito por algum tempo, até que ela me soltou e voltou a se sentar no banco oposto ao meu. Por alguns segundos, ficamos em silêncio, e eu gostaria de tê-los aproveitado um pouco mais. Porque no instante em que voltou a falar, trouxe o assunto do qual eu menos tinha vontade de falar naquele momento.
– Precisamos conversar sobre sua despedida de solteiro – ela batucou os dedos na mesa mais uma vez, e eu dei um sorriso forçado – E eu tenho a ideia perfeita!
Essa não…
– Então, a gente pode fazer assim…
Fale com o autor