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28 27. Memórias e milkshake | sem segredos


Notas iniciais
Oláaaa, cupcakes! ♥ Como vão vocês? Eu sei que eu demorei um pouquinho, mas dessa vez a culpa não é do computador ou por causa da escola. Eu fiquei sem inspiração, e sinto muito por isso, mas agora ela já voltou e eu prometo tentar não demorar com o próximo, ok? Tenho que agradecer às duas novas recomendações do Yossef e do Pedro (aka Demons) ♥ vocês são uns lindos! Além disso, esqueci de mencionar que já chegamos aos 600 comentários! Obrigada pelo feedback, gente! É muito bom saber o que vocês estão achando da história, e melhor ainda é saber que estão gostando tanto assim! Obrigada ♥ Sem mais enrolações... boa leitura! *-*

Rick estava dormindo de bruços, e eu realmente queria que ele continuasse assim, mas eu não podia. Ontem à noite, assim que chegamos do parque de diversões, ele fez questão de checar seu e-mail, e nós descobrimos que a reunião com a Hypirion seria no centro da cidade às oito da manhã. Então, caso eu quisesse que ele comparecesse, teria que acordá-lo nesse exato momento. O enorme número 7 no relógio me forçava a fazê-lo.

– Amor? – chamei, sacudindo-o – Rick, vamos lá; é hora de acordar.

– Não, por favor – ele suplicou – Só mais cinco minutos… nem precisamos sair hoje…

– Você tem a reunião… — eu disse.

E isso bastou.

Seus olhos se abriram numa questão de segundos, e ele pulou da cama, quase me levando junto. Depois, voltou para perto de mim e beijou-me nos lábios. Carinhoso, mas rápido.

– Cadê o meu terno? – ele questionou, olhando ao redor com desespero palpável.

Apontei para a poltrona onde todo o conjunto de roupas estava separado. Ele sorriu, aproximando-se de mim com os braços abertos; depois, envolveu-me com o calor de seu abraço, puxando-me para perto, e cada vez mais perto. Ele cheirava a sabonete e sândalo, e eu podia ficar para sempre em seus braços. Mas, agora, não podíamos.

– Hora do banho – eu disse, voltando à realidade e ficando na ponta dos pés para roçar nossos lábios – E, enquanto você está lá dentro, eu vejo o que podemos comer.

– Oh, eu amo você – ele riu baixinho e correu até o banheiro; uma vez no batente, virou-se para mim: – Sabe, em outras circunstâncias, você viria comigo!

– É – eu ri baixinho, traçando meu caminho até a cozinha – Talvez mais tarde

A mesa estava posta.

E eu devia estar orgulhosa de mim mesma. Havia ovos, bacon e panquecas; além disso, havia café, sumo de laranja e achocolatado. Mas ainda assim, eu pensei, alguma coisa está faltando. Rick ainda não tinha saído do quarto, e eu continuava olhando para o relógio, torturando a mim mesma a cada vez que o ponteiro se movia. Por que ele tinha de ser tão… Rick?

– Rick? – gritei – Rápido! Você vai acabar perdendo a reunião se não se apressar!

– Já vou! – ele gritou de volta – Eu não consigo pôr a gravata! Ela fica embolando e tornando cada vez mais impossível!

Então é por isso que ele não está aqui ainda? Sério? Não teria sido imensamente mais fácil se ele tivesse simplesmente pedido pela minha ajuda? E, aliás, é assim tão difícil ajeitar uma maldita gravata?

Levantei-me e caminhei até o quarto.

Rick estava de costas para mim, olhando a si mesmo no espelho de corpo inteiro, tentando vencer a batalha que travava com a gravata vermelha; e eu poderia facilmente chutar que aquele pedaço de pano ganharia de lavada, sem a menor sombra de dúvida. Aproximei-me com lentidão, tirando as mãos dele do pano vermelho. Os olhos dele me analisavam, e eu vi suas bochechas corando enquanto eu tentava desfazer o enorme nó que tinha se formado na gravata.

Erros corrigidos, comecei a ajeitá-la.

Eu tinha a mínima impressão de que seus olhos não seguiam os movimentos que eu fazia com o pano. Ele não prestava atenção nos movimentos das minhas mãos; seus olhos estavam fixos em mim.

Tive que lutar contra o impulso de olhá-lo de volta.

– Prontinho – eu disse, ajeitando a gola da blusa – E você está maravilhoso.

Ele não me agradeceu ou nada do tipo; só inclinou seu corpo e beijou-me, segurando meu rosto e acariciando minhas bochechas com os polegares. Segurei sua camisa e, por um momento, permiti-me esquecer o que estava em jogo, por que eu estava ajeitando sua gravata e por que tinha feito o café da manhã, em primeiro lugar. Mas, no momento em que os nossos lábios perderam o contato, lembrei de tudo, e o desespero se apossou de mim.

– Eu amo você – eu disse – E eu amo ainda mais os seus beijos, mas se você não quer perder a reunião, é melhor correr e tomar o café da manhã.

– Você fez o café? – ele riu baixinho, olhando-me nos olhos – Isso é tão fofo…!

– É, é – desconversei, pegando na mão dele – Mas se você não se apressar, não vai ter tempo algum para comê-lo e eu vou ter feito tudo aquilo em vão.

– Entendido – ele riu, beijando-me mais uma vez e correndo para fora do quarto, desaparecendo do meu campo de visão.

Tamborilo a mesa com as unhas, e o som é estranhamente reconfortante. Ouço o sangue pulsando com força e mordo os lábios, cada vez mais nervosa com aquele encontro. Rick não sabe nada sobre ele e, na verdade, nem eu sabia há algumas horas.

— Já sabe o que vai pedir? — a garçonete parece impaciente, e quase posso me ver em seus trajes, segurando um bloquinho e correndo atrás de clientes.

— Eu… — travo — Estou esperando alguém.

— Certo — ela prolonga a palavra — Estou aqui caso precise de alguma coisa, tá legal?

Forço um sorriso e volto a olhar pela enorme janela ao meu lado. Ponho as mãos sobre as pernas e entrelaço os dedos numa tentativa falha de impedi-los de tremer daquele jeito; e fico extremamente desapontada quando isso não funciona. Respiro fundo, engolindo o punho alojado na minha garganta, que me sufoca a cada inspiração.

— Katie?

Meu coração literalmente para por um segundo.

Engulo em seco ao olhar para cima, encontrando-me com o par de olhos verdes que me analisa como se pudesse extrair todos os meus segredos naquele mesmíssimo momento. Talvez possa, na verdade. Eu nunca fui muito boa em esconder coisas dela, e não acho que todo esse tempo possa ter feito alguma mudança.

— Oi, mãe — murmuro.

Ela se senta na minha frente.

A garçonete se aproxima mais uma vez e tira o bloquinho do bolso do avental. Minha mãe sorri amplamente para ela e faz o pedido; a menina anota com um sorrisinho de canto e então olha para mim. O sorriso desaparece. Peço um milkshake.

— Obrigada, querida — minha mãe sorri mais uma vez e se volta para mim — Desculpe por não ter ligado antes, querida. Eu precisava de uma quebra na rotina e só pensei em vir vê-la.

— Tudo bem — deixo uma risadinha nervosa escapar — Acho que ainda temos muito o que pôr em dia, não é? Aliás… eu preciso contar algumas coisas pra você, mãe. Eu não contei o que realmente aconteceu por aqui durante… bem, você sabe.

— Oh — ela pisca, colocando as madeixas escuras atrás das orelhas — Claro, querida.

A náusea me atingiu, e mordi os lábios quando os dedos dela alcançaram a minha mão, entrelaçando-se aos meus, e um sorriso bobo brotou em seu rosto. Seus olhos cintilavam, e eu podia ver as lágrimas começando a acumular. Mordi os lábios, tentando evitar o contato visual; em breve eu estaria chorando, e não tinha dúvida alguma de que isso fosse acontecer mais cedo do que eu gostaria.

— Eu só… — ela começou — Eu não quis que seu pai viesse comigo. Talvez eu esteja sendo egoísta, Katie, mas eu precisava de um tempo a sós com você. Isso faz de mim uma pessoa ruim?

Olhei-a nos olhos e vi a pitada de culpa que escorria pelas bochechas em forma de lágrimas. A risada foi forte demais para que eu pudesse contê-la, e eu apertei sua mão, mordendo os lábios e balançando a cabeça.

— Não — ri — Isso não faz de você uma pessoa ruim, mãe. Isso só… acho que isso faz de você uma mãe. Pura e simplesmente.

Ela riu comigo — É, talvez…

A taça estava pela metade, e mamãe ria enquanto tentava não cuspir todo o milkshake sobre a mesa. Meus cabelos já estavam presos em um rabo de cavalo malfeito, mas ela se recusou a fazer o mesmo. Tinha acabado de me contar algumas histórias sobre como papai começara o jardim na frente de casa e até algumas histórias engraçadas do local onde trabalha.

Mas eu sabia que não estaríamos rindo em pouco tempo. O que eu tinha para contar não era algo que merecesse risadas, e eu ainda tentava juntar todas as informações e reunir a coragem necessária para finalmente tirar todo aquele peso das minhas costas.

— Mãe — chamei, finalmente.

Ela ergueu os olhos da taça e lambeu os lábios sujos de chocolate. Deixei um sorriso triste transparecer e ela semicerrou os olhos, franzindo o cenho.

— Eu preciso contar o que aconteceu — digo — E eu sei que você provavelmente não vai conseguir acreditar, e talvez nem mesmo consiga aceitar que estas coisas ocorreram, mas…

—… então não conte — ela me interrompeu — Não é mais fácil simplesmente fingir que elas não aconteceram? Nem sempre você precisa viver num pesadelo; de vez em quando é bom fingir.

— Eu não quero fingir — desconverso — Você e papai me ensinaram que a vida real não é um conto de fadas, que nem sempre vamos conseguir aquilo que desejamos. Eu não posso mais fingir.

— Tudo bem — ela empurra a taça para o lado e apoia o peso sobre os cotovelos — Conte-me tudo o que aconteceu.

Respirei fundo e fechei os olhos.

Algo parecido com um filme passou diante dos meus olhos. Os primeiros dias nas ruas, Lanie estando disposta a me ajudar, todo o abuso, as noites em claro, o medo… e então, Rick. Como ele foi gentil comigo mesmo quando eu dava todos os sinais de que não queria sua gentileza; as noites em claro com ele, as conversas, tudo. O sequestro, o estupro, a fuga. O trauma, o nojo e as lembranças.

— Nem tudo foi invenção — digo; os olhos dela ficam foscos — Eu terminei os estudos num supletivo, isso é verdade. Mas não trabalhava numa lanchonete.

A expressão dela começou a ficar sombria conforme eu ia me aproximando do que me neguei a contar a ela. Meus dedos tremiam, e o sangue pulsava com mais força do que julguei ser possível em meus ouvidos. Os pulmões queimavam e minhas têmporas doíam. Mas continuei falando, falando, falando. Tentei não olhar para o rosto dela, mas falhei miseravelmente nessa missão também. Pouco a pouco, eu via a expressão de mamãe se modificando cada vez mais.

De felicidade, passou à tristeza.

De tristeza, ao medo.

Do medo, ao horror.

Do horror, ao desespero.

Mas em momento algum eu vi traços de nojo estampados em seu rosto; em momento algum os olhos marejados pareciam me julgar. Ela só parecia… melancólica, talvez prestes a um ataque de nervos. E eu não a culpava. Então, sem acrescentar nenhuma palavra, mostrei-lhe o anel.

Os olhos dela se arregalaram e um enorme sorriso surgiu em seu rosto. Eu podia ver, enquanto ela esticava o braço para pegar a minha mão, que ela tremia tanto quanto eu.

— Rick é um homem bom — ela constatou, olhando dentro dos meus olhos enquanto secava as bochechas — Ele é um homem bom, não é?

Eu ri, fungando ao enxugar as lágrimas.

— Sim — respondo, finalmente — Rick é um homem maravilhoso. São incontáveis as vezes que ele se arriscou por mim, mamãe.

— Então — ela respira fundo, estampando um sorriso sincero e puxando a taça de milkshake para perto de nós — Não importa como vocês se conheceram, mas como mudaram um pelo outro. Como se sentem quando estão juntos e o que estão dispostos a arriscar pela vida a dois.

— Obrigada — digo, engolindo o líquido gelado — Por não me julgar e não ficar me olhando com aquele olhar de desaprovação. Por não sentir nojo ou algo do tipo.

— Eu nunca poderia fazer isso — ela pisca — Quem garante que eu conseguiria fazer algo melhor com as oportunidades que teve quando chegou aqui? Além do mais, você é minha filha. Eu jamais conseguiria olhar para você desse jeito. É como o velho ditado…

… eu conhecia aquelas palavras como conhecia a mim mesma.

Antes de julgar alguém, calce suas sandálias e caminhe uma milha — recitamos juntas e, por um momento apenas, sou capaz de sentir-me em casa.

Royal está deitado nas minhas pernas e eu afago os pelos dourados enquanto meus olhos viajam entre as linhas de livros pesados e meus dedos trabalham arduamente na tarefa de copiar as palavras grifadas em um amarelo berrante. Não fazia muito tempo desde que eu resolvi fazer faculdade; e os milhares de livros espalhados pela casa eram um lembrete de que a prova seletiva se aproximava.

Eu tinha arrumado o quarto de hóspedes para que minha mãe se sentisse confortável, e ela já tinha se trancado do lado de dentro há algum tempo. Rick não parecia ter voltado para casa ainda, e por alguma razão, isso não me preocupava.

De repente, Royal latiu, e eu praticamente saltei com o susto. Xinguei baixinho, olhando para as letras borradas no papel. É, obrigada, Royal.

Acho que gosto um pouquinho menos de você agora, cão.

Coloco-me de pé e atrevo-me a olhar pela janela. Rick está parado na soleira da porta, tateando os bolsos como se tivesse se esquecido de pegar as chaves. Giro a chave na fechadura e abro a porta; ele olha para mim como se tivesse sido pego no flagra, e um sorriso culpado surge em seu rosto.

É quando percebo o corte no lábio e o olho roxo.

— Eu preciso te contar uma coisa — digo.

— É — ele grunhe — Eu também.

Notas finais
Devo dizer que foi difícil escrever esse capítulo... =6 Meu coração foi esmagado e destruído em 8243782347 pedacinhos quando a Kate começou a lembrar de tudo ;-; mas já passou! Vocês acham que a tia Jo aceitou numa boa ou que ela tá meio que surtando lá no quarto de hóspedes? É justo deixar o Jim sem saber de nada? E quanto à Martha? Ela vai saber de onde a Kate veio/como ela e o Rick realmente se conheceram? Tantas perguntas! Ugh! Quem puder (e quiser, não é obrigatório!) responder às perguntas nos comentários, do jeito que acham que deve ser, eu agradeço! É muito bom saber o que vocês pensam ;) Obrigada mais uma vez por todo o feedback! ♥ Vejo vocês nos comentários =)