Drive By | hiatus |
25 24. Planejamentos
Notas iniciais
Anteriormente, em 'Drive By':
Senti o ardor no rosto antes mesmo de ter conseguido processar o que tinha acontecido. Minha mãe tinha os olhos marejados, envoltos pela pele vermelha e inchada, enquanto lágrimas formavam trilhas brilhantes nas bochechas avermelhadas. Meu coração pareceu estar sendo despedaçado naquele exato momento, mas eu não me permiti quebrar externamente; olhei para Kate, que segurava o copo com tanta força que peguei-me pensando em qual segundo ele se despedaçaria em suas mãos, com todos aqueles estilhaços pontiagudos sendo jogados ao chão.
– Jamais insinue que eu não o amei, Richard – minha mãe gaguejou – Porque isso eu não admito.
As lágrimas já pareciam queimar a minha garganta, e quando olhei para Kate, percebi que ela estava prestes a desabar ao meu lado, talvez comovida pela situação em que nós nos encontrávamos ali, eu e minha mãe. Mas por mais que tudo o que eu quisesse era voltar no tempo para destruir aquela discussão, o que estava feito estava feito, e eu não poderia mudar aquilo que já tinha acontecido.
Por isso, pus-me de pé e afastei-me delas, entrando no quarto e batendo a porta. Meu coração parecia acelerado, e tudo o que eu queria fazer era me esconder debaixo dos lençóis e cobertores e só acordar quando uns seis anos já tivessem passado; quando a vergonha finalmente pudesse desaparecer.
Ouvi o burburinho vindo da sala e cogitei sair do esconderijo, mas talvez aquele não fosse o melhor momento; talvez o melhor momento demorasse a chegar, e eu não sairia do quarto enquanto não sentisse que pudesse ser certo, enquanto não sentisse que aquilo era o certo a se fazer.
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Li em um livro uma vez, quando era um moleque, que a pessoa por quem você levaria um tiro geralmente é aquela que aperta o gatilho – na época, não entendi direito e acabei deixando pra lá, mas o que aconteceu hoje foi a prova de que essa frase podia estar mais do que certa; ela pode ser piegas e até um tanto clichê, mas acredito que minha mãe tenha se sentido assim quando explodi com ela, tendo julgado sem saber seus motivos.
Nunca me senti pior do que quando ela me olhou com os olhos cheios d’água, com as bochechas vermelhas e os lábios curvados.
Também não sei há quanto tempo estou trancado aqui dentro, e eu quero sair, mas não acho que vá conseguir encarar a minha mãe – e muito menos Kate – depois da cena que fiz. Posso ser considerado o pior cara do mundo depois disso, e acho que elas têm todo o direito de não querer mais olhar para mim… Kate tem todo o direito de não querer mais sequer casar comigo, e eu não posso julgá-la por isso, porque, se eu estivesse em seu lugar, também não quereria.
– Rick? – ouço a voz melodiosa abafada pela porta.
Não encontrei forças, e muito menos coragem para responder; fiquei quieto, esperando que ela dissesse mais alguma coisa.
– Rick, por favor – ela suspirou; meu coração se quebrou em um milhão de pedaços, mas continuei quieto – Nós dois sabemos que você não quer ficar aí dentro, então… por favor, nós três precisamos conversar…!
– Eu não consigo – minha voz fraquejou – Não consigo, não posso.
– Por quê?
– Porque eu sou um babaca – ri com desgosto; se eu tivesse que escolher a pior pessoa do mundo naquele momento, me escolheria – Porque eu sou a pior pessoa do mundo, e eu não quero que vocês olhem pra mim agora.
– Filho?
As lágrimas pareciam queimar todo o meu corpo, de dentro para fora, e eu sabia que, hora ou outra, eu implodiria. Minha mãe podia ter muita paciência, mas um dia toda ela iria acabar, e eu ficaria sozinho; sinceramente, eu odeio me sentir assim, odeio ser uma decepção, mas é tudo o que eu consigo ser.
– Richard, por favor – ela gaguejou – Por favor, abra a porta e vamos conversar…
Eu queria abrir a porta.
Eu queria, sim, abrir a porta e simplesmente me jogar nos braços dela, sentir seus braços finos envolvendo o meu corpo como se eu ainda fosse um moleque de seis anos com o joelho ralado – e eu queria ter podido experimentar essas sensações, de ser embalado pela mãe, de ter conversas constrangedoras sobre garotas, sobre a vida… sobre tudo, mas o tempo passou e não vamos mais ter a chance de ter esses momentos. Não mais, pelo menos.
Eu quero abrir a porta; mas eu não posso.
POV Katherine/Cherrypie
Não há nada no mundo que eu odeie mais do que não poder fazer nada quando as outras pessoas estão sofrendo – e é exatamente isso o que está havendo agora, e eu odeio. Por mais que tenhamos tentado, eu e Martha, Rick se recusa a abrir a porta do banheiro, e tudo o que eu quero é que ele simplesmente esqueça que disse aquelas coisas – nós tentamos de tudo, mas ele não sai de lá.
Martha já desistiu, e folheia revistas de decoração de salões; mas eu ainda não consigo aceitar o fato: Rick não pode ficar no banheiro para sempre e, sem que ela percebesse, escapuli até o quarto e pressionei as costas na porta pesada.
– Rick?
Ele não respondeu, mas ouvi um choramingo.
– Ei – murmurei baixinho – Eu sei que você já sentou no chão do banheiro e chorou; eu sei que você tentou segurar o choro e não conseguiu. Eu também sei que isso doeu muito, e tudo o que você quer é um abraço… por favor, Rick. Me deixe ajudar você, e nós vamos passar por isso juntos, como sempre fazemos.
Ele continuou sem responder, mas ao invés do silêncio, recebi o som da chave na fechadura; ajoelhei e toquei a maçaneta, girando-a com cuidado e, finalmente, empurrando a porta só para vê-lo encolhido, com o rosto escondido nas mãos. Os ombros curvados e o desespero de recuperar o fôlego só para então, perdê-lo novamente.
Com rapidez, engatinhei, aproximando-me dele e tocando seus cabelos em horas; lentamente, ele ergueu a cabeça e fungou. Os olhos estavam vermelhos, marejados e suas bochechas estavam marcadas por trilhas de lágrimas que pareciam se recusar a parar de cair; limpei-as com os polegares e beijei seus lábios por uma fração de segundo. Então, sorri.
– Tá tudo bem? – perguntei, enfim.
Ele ainda não tinha respondido, mas balançou a cabeça.
– Você sabe que a sua mãe te ama, mesmo depois da quantidade de coisa que você disse pra ela, não sabe? – ele assentiu – Então vamos sair daqui, conversar com ela, e decidimos o que faremos depois. Quando ela voltar a perguntar sobre a minha história, nós vamos conversar com ela, e talvez não seja a melhor história do mundo, mas todos nós temos histórias ocultas, histórias que jamais contaremos, não é?
– É – ele murmurou, respirando fundo – Kate…
– Oi?
– Você é a única coisa que eu tenho que me faz bem, e isso me dá um medo danado – ele riu, limpando as lágrimas com as costas das mãos – Porque todas as coisas que eu já tive não estão mais comigo, e aí eu fico com medo de perder você. E eu não sei se eu já te disse isso, mas eu não quero te perder, porque aí eu vou acabar me perdendo também e…
Eu o calei com um beijo – um beijo de verdade.
/POV Katherine/Cherrypie
Eu não duvidava que as minhas bochechas estivessem vermelhas quando, de mãos dadas com Kate, saí do banheiro e caminhei até a sala. Minha mãe ergueu os olhos da revista e pôs-se de pé, esticando os braços para mim; soltei da mão da mulher que, em breve, seria a minha esposa, e deixei que minha mãe me embalasse num abraço apertado – e, céus, aquilo era bom demais.
Enfiei o rosto nos cabelos ruivos, sentindo o perfume inconfundível enchendo as minhas narinas, reacendendo o meu corpo; suspirei, e ouvi o suspiro da minha mãe seguindo o mesmo caminho. Pelo canto do olho, vi que Kate estava agachada, acariciando os pelos dourados de Royal, que abanava a cauda com rapidez, e pensei que, a qualquer momento, ele poderia levantar voo.
O súbito – e, principalmente, alto – latido fez minha mãe pular de susto, e Kate riu alto, tornando a prender a guia na coleira de Royal, que começou a arrastá-la até a porta no exato momento em que ela terminou de ajeitá-lo.
– Então, eu vou… – ela segurou as chaves com força, ainda rindo – É… daqui a pouco estamos em casa.
Depois, ela saiu.
Ela saiu e eu estava sozinho com a minha mãe em casa – e isso já não parecia mais um problema; talvez porque nunca tenha sido um, na verdade. Talvez eu fosse babaca demais para perceber que eu só precisava aceitar que tínhamos perdido tempo – muito tempo –, mas que ainda tínhamos o agora, e era só isso o que importava.
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Quando pedi a mão de Kate em casamento, não pensei no planejamento da coisa – e, meu Deus…! Eu não acredito que as pessoas consigam fazer isso mais de uma vez, porque eu mal comecei a planejar o primeiro e já estou querendo acabar com tudo, fazer algo como um jantar informal. Planejamentos são horríveis; tenha isso em mente quando for pedir a mão de alguém em casamento…
Os olhos dela lentamente rolaram de mim para a revista e vice-versa; minha cabeça já dói de tanto ter visto vestidos e arranjos e decoração e todo o resto – eu quero largar o planejamento e aproveitar o noivado, sair com Kate e deixar toda a história de planos, decoração e comida para depois. Porque não vai ser tão legal assim depois do casamento – a parte do noivado era pra ser a melhor de todas, e eu não sinto que está tão boa assim…
– Rick?! – ouço a voz de Kate antes mesmo de ouvir a chave na fechadura.
Ponho-me de pé, largando a revista sobre o sofá; ouço vozes baixas do lado de fora e, automaticamente, meu coração sobe à garganta. Pelo tanto de coisas que já passamos – o abuso, o sequestro, os ferimentos… tudo isso voltou à minha cabeça –, vozes do lado de fora não parecem ser uma coisa boa. Rapidamente (talvez mais rápido do que eu devesse), giro a chave e abro a porta, dando de cara com Kate, Royal e duas pessoas que não pensei que fosse ver nunca mais.
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Alguns litros de café depois, estamos todos sentados na sala, e eu juro que nunca estive num espaço tão claustrofóbico – não fiquei desse jeito quando fui conhecer os pais de Kate, e essa deveria ter sido a situação mais assustadora de toda a minha vida. Mas, de qualquer forma, quando vi Ryan parado com a esposa (que me odeia, só pra constar) na porta da minha casa, senti que todo o oxigênio dentro da casa se dissipou.
Royal mordia um brinquedinho alegremente enquanto Kate fazia carinho em sua cabeça; eventualmente, a esposa de Ryan lançava olhares maldosos à Kate, como se ela não fosse boa o suficiente, ou simplesmente porque o ódio que ela tinha por mim não a permitia sequer gostar das pessoas que podiam sentir algo por mim além de raiva. Logo, Kate estava sujeira àquele tipo de olhar.
– Já pensam em ter filhos? – Jenny perguntou de repente; Kate engasgou com o café e fechou os olhos por um minuto – O que foi?
– Nós, hum… – ela gaguejou, coçando atrás da orelha de Royal – Nós ainda não conversamos sobre isso.
Mentirosa…
– E vocês? – rebati.
O rosto dela empalideceu, e logo as bochechas começaram a ruborizar com rapidez; ela baixou os olhos para as mãos entrelaçadas no colo e Ryan envolveu os ombros dela com um dos braços, plantando um beijo na testa dela.
– Nós estamos com um… – ele tossiu –…, bem, um problema de fertilidade.
– Entendo – sacudi a cabeça – Bem, vocês sabem como é… dizem que acontece com os melhores casais!
– Richard, deixe de ser mal educado! – minha mãe repreendeu, arrancando uma risada baixa de Kate, que ainda segurava Royal – Já está ficando tarde… o que vocês dois acham de saírem hoje? Não é como se fosse uma coisa maravilhosa, mas precisamos deixar os pombinhos à sós… eles têm muito o que discutir acerca do casamento, sim?
E, simples assim, nós ficamos sozinhos de novo.
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Num canto do quarto há um bolo de roupas com o qual penso não ter que me preocupar até amanhã – porque eu me recuso a sair de onde estou, me recuso a largá-la sozinha aqui, e tudo isso parece ser bom demais para ser verdade. A cada toque pareço entrar em combustão, e quisera eu ter experimentado isso antes – jamais pensei que poderia me sentir mais excitado com os toques que eu já conhecia, com o sexo do qual sou tão familiarizado, mas quando eu penso que não há nada mais a descobrir… então ela chega e vira o meu mundo de ponta cabeça.
Eu não queria forçar os movimentos, mas não consegui não pegar em seu cabelo enquanto ela brincava comigo, levando-me à beira da loucura – e, céus, ela sabia o que estava fazendo! A língua fazia movimentos que eu desconhecia, que não sabia que eram possíveis, mas eu estava aproveitando cada segundo daquilo, sentindo que o meu amor por aquela mulher não parava de crescer.
Quando ela se afastou, ergui o quadril, querendo mais – precisando de mais – e ela riu com o meu desespero; logo eu estaria vendo estrelas, e pouco me importava o mundo porque, naquele momento, só nós dois existíamos e eu gostaria que continuasse assim.
E logo senti os espasmos, a tremedeira, e senti o meu corpo explodir; joguei a cabeça para trás e apertei o lençol claro debaixo de mim. Kate se afastou lentamente, subindo na cama e plantando um beijo no meu pescoço; sem conseguir me controlar, empurrei-a para baixo, prendendo-a sob o meu corpo, traçando uma linha de beijos, passando pelo pescoço, seios, barriga… e então, beijei a área interna das coxas, ouvindo o gemido baixo que ela não conseguiu conter. As mãos dela seguraram nos meus cabelos assim que afundei a língua dentro dela – e então, os fios emaranhados na minha cabeça se tornaram algo que jamais pensei que eles poderiam ser: rédeas.
Mostre onde quer que eu vá…, pensei.
E ela mostrou exatamente onde queria que eu fosse.
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