Drive By | hiatus |
24 23. Família Imediata - parte 2
Notas iniciais
Anteriormente, em 'Drive By':
– Royal! – Rick gritou, e eu ri alto – Saia daqui! Não, menino malvado!
Ele latiu, balançando o rabo dourado e peludo – Rick, eu acho que ele quer brincar…
– Mas eu não quero brincar com ele! – Rick olhou para mim com os olhos azuis escurecidos, e eu senti que falava sério, como se fosse uma questão de pura necessidade – Eu quero brincar com você, e já expliquei como…
Olhei para ele, ignorando o balanço desagradável que o corpo de Royal fazia no colchão e, aproximando os meus lábios de seu ouvido, sussurrei: – Royal não parece entender isso… por favor, Rick, eu prometo recompensar você depois…
– Hmm, e por que isso parece, de repente, tão tentador? – ele mordeu a minha orelha, e Royal latiu em resposta – Tá legal, seu estraga-prazeres! Nós já estamos indo!
E eu ri enquanto ele saía de cima de mim, chamando Royal para a sala para que eu pudesse me vestir com privacidade. Cobrindo-me com o lençol até que saíssem, soprei um beijo para ele, recebendo um sorriso sensual em resposta; suspirei e joguei-me sobre o colchão, ciente do meu estado deplorável enquanto catava as roupas do chão.
Teria que trocar as roupas, pois boa parte delas poderia ser considerada inutilizável para qualquer um; a maioria estava rasgada, e se não isso, completamente engomada e suja com marcas das patas de um enorme Golden Retriever que ainda acredita ser um pequeno e inocente filhotinho.
Ri baixinho. – Ah, Royal…!
E por mais que eu devesse estar chateada… bem, aquela era a minha família agora, não era? A minha pequena família imediata, e eu não podia desejar nada mais do que aquilo.
~?~
Havia grama nas minhas calças e até nos meus cabelos; tudo o que eu queria era voltar para casa e enfurnar-me debaixo da água quente, sentindo todo o suor e sujeira da longa caminhada com Royal simplesmente se esvaíssem, caíssem ralo abaixo, perdendo-se nas vias do subsolo, mas Kate parecia se divertir, e só de ver o sorriso cintilante em seu rosto… bem, acho que só de ver seu sorriso, toda aquela sujeira e grama em locais inapropriados valiam a pena.
Respirei fundo, vendo-a correndo com ele, arfando e rindo como uma criança num parque de diversões; uma criança que, incrivelmente, não gosta de algodão doce e gosta de dormir de conchinha. Sorrio quando ela para por um momento, ajoelhada na grama, olhando para mim com um sorriso satisfeito estampando seu rosto.
– Richard?
Viro a cabeça só para ver os cabelos flamejantes caindo em cascatas sobre mim; levanto-me num pulo, deixando seus braços envolverem a minha cintura, apertando-me e puxando-me para perto. Lentamente, retribuo, mas olho para trás para ver se Kate ainda olha para mim, mas ela já está longe, correndo com Royal mais uma vez.
– Oi, mãe.
– Há quanto tempo não nos vemos? – ela riu baixinho, afastando-se de mim e colocando as mãos na cintura – Já trocou de namorada ou ainda está com aquela moça maravilhosa que me apresentou?
– Nós ainda estamos juntos e…
Olhei para trás mais uma vez, vendo-a arfando, ajoelhada no chão, acariciando a pelagem dourada da barriga de Royal, que rolava na grama, pondo a língua de fora e lutando para recuperar o fôlego; queria estar no lugar dele, recebendo carinhos dela e tendo, por todo aquele tempo, sua total atenção. Minha mãe soltou um pigarro, e foi isso o que me fez voltar a olhá-la porque, por mim, teria ficado mais mil anos olhando para ela.
– E…?
– Royal! – gritei, inclinando a cabeça de leve; ouvi o latido e, logo depois, as risadas de Kate se aproximando.
Puxei-a pela cintura quando meu braço esticado já podia alcançá-la e, quando o fiz, colei nossos lábios por um momento. Ainda rindo, Kate se afastou, piscando para mim e, finalmente, desviando sua atenção para minha mãe, que sorria para nós dois, sem saber para quem olhar; nós dois, eu, ela ou Royal.
– Nós vamos nos casar – murmurei, apertando o corpo dela contra o meu, desviando o olhar de minha mãe que, àquele momento, devia ter arregalado os olhos de surpresa.
– Casar?! – mamãe praticamente gritou – Meu filho, você…
Eu sabia o que ela ia dizer; “mas meu filho, você tem certeza?!”
– Mais certeza do que jamais tive em toda a minha vida – retruquei, olhando para Kate que, no momento, olhava para os próprios pés, claramente envergonhada – Então, eu queria contar antes, mas nós ainda não resolvemos a data e nem nada do tipo, por isso estávamos esperando para contar aos nossos pais e…
– Entendo – minha mãe abriu os braços; Kate ergueu a cabeça ao ver as unhas vermelhas quase raspando em seu rosto – Venha cá, querida, deixe-me abraçá-la!
– Hã…
Hesitante, Kate cedeu aos caprichos de minha mãe, que a tomou nos braços rapidamente, girando-a e rindo em seu ouvido, murmurando coisas que, honestamente, prefiro não saber. E, quando se separaram, ela tinha as bochechas mais coradas do que jamais tivera, e tudo o que eu queria era perguntar se já podíamos ir para casa, agir como um menino de cinco anos só para conseguir ficar com ela sozinho.
– É difícil de acreditar que o meu filho, o meu bebê, vai se casar! – ela riu, soltando-a.
Kate sorriu – Também foi difícil para acreditar e, francamente, acredito que ainda esteja sendo, mas nós não contamos a ninguém ainda.
– Sou a primeira a saber da novidade?!
– Quase isso – murmurei, coçando a cabeça.
Royal latiu.
Mamãe olhou para ele e arregalou os olhos; depois, um sorriso bobo pincelou seu rosto, e quase pensei que ela ia fazer algum comentário sarcástico sobre como eu era horrível para cuidar de mim mesmo, quem dirá de algum ser que precisasse da minha total atenção, mas então seu sorriso só fez aumentar, e então uma risada felicíssima explodiu de seus lábios.
– Já estão treinando para cuidar dos filhos?!
Eu gelei e, em meus braços, Kate fez o mesmo; meu Deus, nós vamos ter um longo caminho de volta para casa e sérias considerações a fazermos… ah, se temos!
POV Katherine/Cherrypie
Se eu pudesse simplesmente cavar um buraco no chão e me enfiar lá dentro por mil anos, assim eu o faria; a mãe de Rick parecia felicíssima em envergonhar o filho e, principalmente, fazer perguntas ainda mais invasivas.
– O que acham de ligarmos para os seus pais, querida, para podermos finalmente sermos apresentados?
– Nós precisamos encontrar espaços livres; roupas; convites…
– Quando é que fizeram a escolha de se casarem?
– Como se conheceram?
Finalmente, ela deixou de olhar para mim para focar sua atenção nas revistas de noivas espalhadas pela mesinha de centro da sala, e eu aproveitei a chance para correr até o escritório, onde Rick digitava como se aquela fosse sua única porção de alegria no dia. Royal estava deitado ao seu lado, cochilando como um pequeno filhote, e não pude deixar de acariciar sua cabeça antes de dirigir-me a Rick.
– Sua mãe está me deixando maluca.
Ele levantou os olhos para mim e sorriu – Ela costuma fazer isso com todo mundo; não é algo que ela costume planejar fazer, ela só… você sabe, faz.
– Mas…! – protestei – Rick, eu juro que se você não for até lá e começar a enrolá-la, vou fazer greve de sexo até depois do casamento!
– O quê? – ele engasgou – Mas…!
– Ah! – rio – Agora você presta atenção em mim!
– Eu só não gosto muito de estar perto da minha mãe quando temos tantos segredos, Kate – ele bufou, fechando o laptop – Não podemos contar a ela como nos conhecemos, porque senão ela não vai sair do seu pé, e isso é uma coisa que eu não posso suportar.
– Mais cedo ou mais tarde nossos segredos vão ser revelados, Rick, e teremos que lidar com todas as consequências – dei de ombros; embora soubesse que os segredos não poderiam manter-se por tanto tempo a mais, sabia que, enquanto pudesse esconder a verdade de todos, assim eu o faria – Estou disposta a lidar com as consequências se você estiver disposto a fazer a mesma coisa.
Ele se pôs de pé – Se estivermos juntos, Kate, então eu estou disposto a ir ao inferno e voltar, você bem sabe disso.
– Eu sei – pisco – Mas, primeiro: vá conversar com a sua mãe.
– Sozinho?
– So-zi-nho – separei as sílabas, dando as costas para ele.
/POV Katherine/Cherrypie
Minha mãe parecia interessadíssima em modelos de vestidos, aperitivos e espaços e salões para festas; sentei-me ao lado dela no sofá, prestes a responder todas as perguntas que ela tivesse, mas tudo o que ela fez foi me ignorar solenemente enquanto folheava inúmeras revistas, procurava salões disponíveis nos arquivos que nós imprimimos e olhava a nossa nova casa. A única observação que ela fez foi sobre o jardinzinho – maravilhoso, de acordo com ela – que tínhamos na frente.
Kate apareceu na cozinha e buscou um copo d’água e, quando estava prestes a desaparecer no corredor, minha mãe a chamou e, lentamente, ela voltou ao meu campo de visão, andando de costas e com os cabelos compridos balançando com o mínimo movimento de seu corpo. Quando estava perto o suficiente, virou-se para minha mãe, que já tinha fechado a revista e encarava-a de cima a baixo, quase como se estivesse procurando alguma imperfeição nela.
– Vocês não chegaram a responder às minhas perguntas – ela suspirou – Estou sendo um peso morto? Porque, vocês sabem, eu preciso saber com quem o meu filho está se casando, se vem de boa família e…
– Mãe – interrompi – Kate é a melhor pessoa que eu tive a chance de encontrar, você já a conheceu antes.
– Eu me lembro – ela sorriu – Mas não conheço sua história, querida.
– E seria bom se você não precisasse conhecer – rebati – Aliás, eu queria mesmo perguntar: você quer essas respostas porque quer saber se estou me casando com uma pessoa boa ou só porque se sente na necessidade de se tornar uma mãe presente…? Justamente agora, mãe?
– Richard…
– Eu não quero saber os motivos que levaram você a se afastar quando eu era um menino, deixando-me sozinho com pessoas que pouco se importavam com o meu bem-estar, só quero entender o motivo de voltar justamente agora, que é quando pareço estar finalmente arranjando a minha vida com alguém que realmente valha a pena. Por que, mãe? Para quê tudo isso? Perguntas sem fundamento e dúvidas que não existiam antes de repente surgiram quando eu disse que íamos nos casar, eu e Kate, e eu quero entender o motivo.
– Rick… – Kate tocou o meu braço – Ela só está tentando se redimir.
– Talvez devesse ter feito isso antes!
– Eu amo você, meu filho, e nunca duvide disso – ela fungou e, naquele momento, eu senti que podia desabar com ela – Mas você nunca entenderia os meus motivos, e não vejo quais deles poderiam fazê-lo ver com mais clareza o que passei para tornar as nossas vidas um pouco mais suportáveis.
– Talvez todo o afastamento tenha tornado a sua vida um pouco mais suportável, mãe, mas não à minha.
– Eu só…
– Já parou para pensar que tudo o que senti durante toda a vida foi a rejeição da mulher que eu mais admirava? – meus olhos ardiam, e eu me recusava a deixar as lágrimas caírem – Por isso que, talvez, eu nunca tenha conseguido me relacionar com qualquer outra, sentir o tão desejado amor, mas quando Kate apareceu foi como se… bem, foi como se tudo aquilo fosse apagado, simplesmente assim, e tudo o que eu queria era estar ao lado dela.
– Rick, deixe-a terminar – Kate pediu, mas não dei ouvidos.
– Eu não me importo com a rejeição, mãe, não mais; tudo o que eu quero é ter um pouco de autonomia, é amar e ser amado – eu ri com desgosto – E isso é uma coisa que eu não tive quando era pequeno.
Senti o ardor no rosto antes mesmo de ter conseguido processar o que tinha acontecido. Minha mãe tinha os olhos marejados, envoltos pela pele vermelha e inchada, enquanto lágrimas formavam trilhas brilhantes nas bochechas avermelhadas. Meu coração pareceu estar sendo despedaçado naquele exato momento, mas eu não me permiti quebrar externamente; olhei para Kate, que segurava o copo com tanta força que peguei-me pensando em qual segundo ele se despedaçaria em suas mãos, com todos aqueles estilhaços pontiagudos sendo jogados ao chão.
– Jamais insinue que eu não o amei, Richard – minha mãe gaguejou – Porque isso eu não admito.
As lágrimas já pareciam queimar a minha garganta, e quando olhei para Kate, percebi que ela estava prestes a desabar ao meu lado, talvez comovida pela situação em que nós nos encontrávamos ali, eu e minha mãe. Mas por mais que tudo o que eu quisesse era voltar no tempo para destruir aquela discussão, o que estava feito estava feito, e eu não poderia mudar aquilo que já tinha acontecido.
Por isso, pus-me de pé e afastei-me delas, entrando no quarto e batendo a porta. Meu coração parecia acelerado, e tudo o que eu queria fazer era me esconder debaixo dos lençóis e cobertores e só acordar quando uns seis anos já tivessem passado; quando a vergonha finalmente pudesse desaparecer.
Ouvi o burburinho vindo da sala e cogitei sair do esconderijo, mas talvez aquele não fosse o melhor momento; talvez o melhor momento demorasse a chegar, e eu não sairia do quarto enquanto não sentisse que pudesse ser certo, enquanto não sentisse que aquilo era o certo a se fazer.
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