Drive By | hiatus |
21 20. Um Pedido Especial
Notas iniciais
Seguro a mão dela por debaixo da mesa para que seus pais não vejam, sentindo-me o adolescente que não pude ser. Os músculos dela estão enrijecidos e tenho medo de soltar alguma coisa que não devo, então, quando o pai dela me chama para vermos alguma coisa na televisão, eu consinto com a cabeça e solto sua mão. Baixinho, ela grunhe, mas me deixa ir sem grandes reclamações.
Por mais que tudo o que eu queira é abraçá-la e nunca mais deixá-la ir, caminho lado a lado com o pai dela nos corredores amplos e estreitos da casa. Logo me vejo no que imagino ser um escritório amplo e escuro; se eu estivesse aqui quando era apenas um adolescente, certamente teria mijado nas calças.
Mas o fato é que eu não sou mais aquele garoto bobo e sei como me comportar diante de pessoas mais velhas respeitosamente apesar de, agora, estar com a maior vontade de correr dali e me esconder debaixo de algum lugar para que ele não possa me ver. Suprimo estes pensamentos e encaro seus olhos acinzentados quando ele começa a falar, mas não entendo suas palavras, ficando em silêncio enquanto ele brinca com uma porcelana de elefantes enfileirados.
Lentamente, viro a cabeça para olhar o corredor escuro; a apenas alguns passos estão Kate e sua mãe, conversando sobre assuntos que prefiro não pensar. Queria estar com ela quando contasse aos pais sobre sua vida depois de ter desaparecido, queria dar meu ombro para que chorasse caso precisasse, queria simplesmente segurar sua mão e dizer que estava tudo bem, que eu estaria lá para protegê-la de tudo. Mas eu não posso fazer isso agora porque os olhos cinzas estão cravados em mim como se eu fosse algum tipo de bicho.
– Estava sequer ouvindo o que eu estava falando? – ele perguntou, dando a volta na mesa e ficando de frente para mim; era alguns centímetros mais baixo do que eu, por isso tinha que ficar com os ombros curvados para olhá-lo nos olhos.
– Eu… não, desculpe – desviei os olhos dos dele e suspirei – É só que… bem, nós dois passamos por muita coisa, e eu sei o quão estressante pode ser essa situação agora e… e eu queria estar com ela agora, se não for de muito incômodo para o senhor.
– Não será – ele sorriu para mim, tocando meu ombro com a mão de pele enrugada – Eu fico feliz que a fuga de Katie tenha resultado num genro que eu goste.
– O quê?
– Os meninos da escola dela geralmente só pensavam em tirar as saias das meninas, meu jovem… – ele riu, sacudindo a cabeça; engoli em seco – Eu não queria que ela se arranjasse com um menino que só quisesse se aproveitar dela, de seu corpo.
Eu juro que quase fingi um ataque cardíaco para me livrar daquela situação; engoli o nó de palavras em minha garganta e forcei a mim mesmo a continuar olhando-o nos olhos, transmitindo toda a pouca confiança que eu ainda tinha ao meu favor. Mas ele não pareceu perceber que eu estava nervoso, porque baixou os olhos e riu baixinho.
– Nós sempre quisemos o melhor para ela, sabe? – ele fungou, e foi quando percebi que tinha começado a chorar; quis abraçá-lo e confortá-lo como se fosse o meu próprio pai, mas não fiz isso – Eu queria que ela tivesse a melhor educação, as melhores oportunidades… o melhor casamento. Mas não percebi que, ao tentar dar a ela tudo do melhor, acabei tirando todo o espaço que ela precisava… era tudo o que ela precisava: espaço. Espaço para tomar suas próprias decisões, para se divertir de vez em quando, para sair com os poucos amigos que tinha. Você entende isso?
– Sim, senhor – murmurei, precisando de mais ar do que nunca; todo o oxigênio que meus pulmões recebiam parecia muito pouco e eu não sabia quanto tempo a mais poderia aguentar à presença das palavras dele.
– Você parece doente, meu jovem – ele coçou a cabeça – Vamos lá para fora, ao jardim.
– Sim, senhor – foi tudo o que pude responder antes que ele me puxasse pelo braço até o lado de fora.
No caminho, passamos em frente à cozinha, e pude ver apenas de relance a expressão tristonha de Kate, as lágrimas manchando as bochechas e fazendo-as brilhar enquanto seus lábios se moviam, formulando palavras que não pude compreender. E então, tudo o que vi foi o jardim à frente da casa, cheio de petúnias e botões de rosa; sorri para o pai dela, que sorriu para mim também.
– Era a nossa diversão depois que Katie fugiu – ele confessou – Nós vínhamos aqui todos os dias do aniversário dela e plantávamos orquídeas. Ela adorava orquídeas, sempre gostava de comprá-las na floricultura perto da escola. Então, fazíamos isso para honrá-la, mesmo que estivesse longe de nós.
Eu não sabia o que responder, então continuei em silêncio. Observei as orquídeas do outro lado do jardim, todas enfileiradas como se estivessem se preparando para alguma coisa; ao lado delas, vasos com ervas que eu não reconheci estavam postos. Imaginei que os cheiros mesclados que eu sentia eram os perfumes das flores e os cheiros dos temperos. Respirei fundo, memorizando aqueles cheiros mesclados, o que fez o meu estômago revirar e o meu diafragma se contrair com a proximidade de um espirro – que, felizmente, consegui evitar.
– Meu filho – senti sua mão em meu ombro e automaticamente, virei a cabeça para olhá-lo nos olhos –, entenda uma coisa: ela é a minha única filha, a minha garotinha, e você tem que me prometer que a amará e a protegerá de qualquer coisa, pois no momento em que a magoar…
– Papai – Kate fez com que ele desviasse os olhos dos meus, e eu a agradeci imensamente por isso – Do que estavam falando?
Mas nenhum de nós respondeu à pergunta.
– Vamos lá para dentro – ele roçou a bochecha no rosto dela e ela sorriu para ele – Precisamos conversar, não precisamos? Afinal, sua mãe e eu temos muito o que falar com você, minha querida.
Enquanto era arrastada para dentro da casa, ela virou a cabeça para trás, olhando para mim como se estivesse pedindo desculpas com os olhos, e eu sacudi a cabeça em confirmação, colocando as mãos nos bolsos da calça. Recostei-me à parede de tijolos da casa e olhei para as inúmeras orquídeas enfileiradas; se dependesse de mim, nenhuma outra orquídea seria plantada ali.
POV Katherine/Cherrypie
Omiti os detalhes que achei sórdidos demais para eles.
Disse que me arranjei trabalhando como uma garçonete durante todos aqueles anos e que havia conseguido terminar os estudos em um supletivo. E eu não menti quanto aos estudos, realmente os terminei, só não pude começar a faculdade que eles tanto queriam que eu fizesse. Eles não precisavam saber que consegui me manter como uma prostituta, e nem que Richard foi um cliente que resolveu cruzar a linha.
Para eles, a história era a seguinte: num belo dia, ele começou a frequentar a lanchonete na qual eu comecei a trabalhar há tantos anos e ficou encantado com a garçonete de olhos verdes. Embora fosse um enorme desvio para ele à caminho da editora de seus livros ainda não publicados, ele fazia questão de ir até lá todos os dias só para vê-la e, então, num outro belo dia, ela resolveu dar ao pobre homem uma chance, o que desencadeou a tudo o que estava acontecendo agora.
E, claro, deixei de fora a parte do sequestro. E a do estupro.
Não precisava preocupá-los com coisas que não precisavam saber. A não ser que, claro, Rick resolvesse contar a eles tudo o que nós passamos juntos. E, com tudo, digo tudo mesmo. Os olhos de mamãe marejaram enquanto ela dizia como a nossa história era linda, maravilhosa e tudo o mais.
Se ela soubesse de toda a história, com certeza não diria isso. Mas eu não vou contar, e não vejo por que Rick o faria, também. Eu ri e balancei a cabeça, mordendo o lábio inferior para poder controlar a mim mesma para não ir até o lado dela e abraçá-la com força, beijar suas bochechas coradas e dizer o quanto eu a amava. Mas também não fiz isso; continuei parada na cadeira, segurando a enorme xícara de chá – porque eles estavam num tipo maluco de greve de cafeína – e respirei fundo, tentando assimilar tudo aquilo.
Em apenas um dia, voltei a ver os meus pais e ao mesmo tempo, apresentei-os ao meu namorado – será que podíamos nos denominar assim? Quero dizer, eu sabia que ele me amava, e eu o amava ainda mais, mas nunca tínhamos conversado sobre isso, sobre o nosso relacionamento e sobre como seriam nossas vidas como um verdadeiro casal.
Precisávamos conversar sobre isso, e precisávamos fazer isso o quanto antes.
Com isso na cabeça, pus-me de pé e fechei os olhos com força quando mamãe fez o mesmo, provavelmente querendo me impedir de ir embora. Papai se aproximou de mim, mexendo nos meus cabelos, brincando com os meus cachos e beijando a minha cabeça. Passei os braços em seu pescoço, curvando-me ligeiramente para poder fazê-lo sem que o esmagasse e beijei sua cabeça, despedindo-me da maneira mais ligeira possível.
Tudo o que eu queria agora era conversar com Rick, e não desistiria disso até que fizéssemos isso.
– Mas você acabou de chegar – mamãe havia dito, já com lágrimas em seus olhos.
– Nós temos todo o tempo do mundo para ficarmos juntos, Jo – papai havia contraposto, defendendo-me como sempre havia feito, e eu o amei por isso – Nossa menininha nunca vai deixar de ser nossa menininha, principalmente agora. E eu tenho a completa noção de que vamos poder revê-la em breve, não vamos?
– Claro que sim – puxei-a para perto, abraçando os dois com força – Eu vou voltar, não se preocupem. Agora não vão mais conseguir se ver livres de mim, vocês vão ver! Vou aparecer quando menos esperarem, tudo bem? Mas agora eu realmente preciso conversar com Rick sobre algumas coisas que não conseguem sair da minha cabeça…
Eles concordaram, e mamãe me deu um olhar de soslaio com um enorme sorriso malicioso cobrindo seu rosto; ri com vontade quando ela me deu um cartãozinho com o número do telefone fixo e seu celular. Aceitei o cartão e dei-lhe um beijo estalado nas bochechas, abraçando-a mais uma vez, sentindo o tão amado perfume de baunilha e cafeína invadindo as minhas narinas mais uma vez.
Céus, como eu sentira falta daquilo!
/POV Katherine/Cherrypie
Eu já estava fechando os olhos quando Kate finalmente saiu da casa de tijolinhos, abraçada pelo pai e pela mãe, que pediam a ela para voltar com mais frequência e, quando ela se aproximou de mim, beijou-os rapidamente, acenando enquanto dava o braço para mim. Beijei sua testa e me despedi dos dois, que me olharam com olhares maliciosos que não me agradaram nem um pouquinho.
Enquanto nós saíamos de perto da casa, eu ainda não conseguia tirar as palavras do pai dela da minha mente: “Meu filho, entenda uma coisa: ela é a minha única filha, a minha garotinha, e você tem que me prometer que a amará e a protegerá de qualquer coisa, pois no momento em que a magoar…” e eu tenho a absoluta certeza de que não vou gostar nem um pouquinho de como a sentença termina.
Minhas palavras ficaram entaladas quando tentei dizê-las em voz alta a ela, e decidi não fazê-lo; estava voltando para o hotel dela, sem ao menos me preocupar em buscar as poucas coisas que tinha trazido comigo. O que eu tinha para falar era muito mais importante do que as roupas surradas que eu trouxera para dormir apenas; a roupa do corpo era a única roupa razoável que eu tinha comigo, mas não me importava. A caixinha no bolso da minha calça fazia a questão de me lembrar, o tempo todo, o maior motivo para eu estar ali.
Não era para ela ter chegado hoje, mas fico feliz em poder contar logo de uma vez.
Caminhamos ainda por um bom tempo, com ela tagarelando sobre como era bom rever seus pais, tirar o peso de seus ombros, mesmo que não como um todo, e eu assentia quando me convinha, dando apenas pequenas opiniões, tais as quais ela esqueceria em menos de um par de horas.
Quando, finalmente, chegamos ao hotel, senti que o peso tinha saído das minhas costas, e não digo isso metaforicamente – eu, literalmente, me senti mais leve, pronto para dizer a ela o que eu vinha segurando desde que ela fora embora. Já tinha aquela pequena caixinha há alguns dias – semanas, eu acho –, mas depois do que acontecera conosco, achei que seria apressar um pouco as coisas.
Nós nunca conversamos sobre o nosso relacionamento, nunca definimos o que tínhamos, e eu me senti inseguro quanto a isso. Afinal, ela é… bem, ela, e eu não sou o que pode se chamar de um ‘bom partido’ aos olhos de seus pais – um aspirante a escritor que usa as finanças de um manuscrito bem antigo para se sustentar. Mas eu não consigo tirar da cabeça que, se esperar mais um pouco, ela pode escorregar para longe de mim e partir para outra.
Então, quando entramos no quarto, ela fechou a porta com um baque surdo e virou-se para mim, os olhos marejados e os lábios trêmulos. Quis gritar para todos ouvirem, mas as palavras saíram da boca dela como se estivessem desesperadas por espaço:
– O que é que nós temos? – ela questionou, retorcendo o chaveirinho de plástico nas mãos sem, em nenhum momento, desviar o olhar, e eu fiquei nervoso de repente.
Olhando para ela daquela forma – e mesmo depois de sua pergunta –, perguntei a mim mesmo se conseguiria murmurar aquelas sete palavrinhas que eu segurava há dias, semanas, e talvez por tempo demais. Era a hora de soltá-las, eu sabia, mas não tinha ideia de como o faria sem que gaguejasse ou parecesse uma criança com problemas cerebrais. O desespero em seu rosto era quase palpável, e imaginei que eu devia estar quase mil vezes pior, o que só aumentou o meu nervosismo.
Nós nos olhávamos como se fôssemos, a qualquer momento, estrangular um ao outro, e não duvido que seja o que ela quer fazer comigo enquanto não respondo sua pergunta, mas, respirando fundo e reunindo toda a minha coragem restante – que não é muita, só para ressaltar –, puxei a caixinha de dentro do bolso da calça, ajoelhei-me à sua frente, o tempo todo sem quebrar o contato visual, e então, limpei a garganta e murmurei as palavras que tanto me agoniavam por tanto tempo:
– Katherine Beckett, você aceita se casar comigo?
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