Drive By | hiatus |
3 2. Trinta Dias
Notas iniciais
"Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer."
– Mahatma Ghandi.
Fui ao mercado mais próximo e levei Royal comigo, deixando-o no carro enquanto fazia as compras; por precaução, comprei um pacote de absorventes para quando ela perder a aposta e tiver que morar comigo por um mês. Não sou convencido, mas eles jogaram tão bem no jogo passado que já conto com sua vitória novamente; meu carrinho está cheio, mas em parte são produtos de beleza para ela. Frascos enormes de xampu e condicionador repousam juntos no fundo do carrinho, sob pacotes de absorvente e esponjas fofas.
O resto são alimentos não perecíveis, cervejas e petiscos para a hora do jogo; caminho até o caixa lotado e espero. Mulheres aos meus lados e à minha frente começam a me lançar sorrisos e olhares indiscretos, mas eu finjo não percebê-los e então retiro o celular no bolso traseiro da calça. Gravei o número dela por precaução; o contato não está especificado, só tenho seu celular, o endereço e, para não confundi-la, chamei-a de Katherine Cherrypie. Agora vejo como soa ridículo e sem noção, mas não sei seu sobrenome, então o deixo daquele jeito mesmo; ando para frente conforme a fila anda, então chega a minha vez.
Alinho todas as mercadorias e recebo um arquear de sobrancelhas quando a moça do caixa olha para os absorventes e produtos para cabelo; dou de ombros porque realmente não me importo com o que ela pensa. Espero até que esteja tudo dentro de sacolas e então estendo o dinheiro com gorjeta, que ela aceita de bom grado; um homem me oferece ajuda para levar as mercadorias até o carro, mas eu dispenso e pego as sacolas eu mesmo.
Deixo-as no porta-malas e entro no carro, onde Royal me recebe com uma lambida no rosto; faço careta e começo a dirigir até em casa. Não há policiais na estrada, o que facilita minha viagem; destranco as portas e deixo Royal sair do carro, correndo para dentro da mata. Abro a porta de casa e depois volto para buscar as compras; não demoro a arrumar tudo dentro dos devidos armários e a guardar os utensílios femininos no banheiro do segundo andar – no meu banheiro.
Espero Royal voltar e então olho no relógio. Em pouco menos de uma hora o jogo começa, e não quero que nos atrasemos para vê-lo; não quero que ela se atrase para vir para cá, penso. Me levanto com rapidez e aperto o botão verde ao lado do nome dela; os toques são constantes e ela não atende, guiando-me à sua secretária eletrônica, então tento novamente, e, desta vez, ela atende.
– Alô? – a voz dela é sonolenta; eu rio baixo.
– Bom dia, Bela Adormecida – ironizo – Devo estar passando pela sua casa em menos de vinte minutos.
– Oh, é hoje! – ela grita como se estivesse machucada – Me desculpe, eu esqueci!…, mas em vinte minutos devo estar pronta… bem, me ligue quando chegar aqui em baixo.
– Pode apostar que vou! – digo antes de desligar.
POV Katherine/Cherrypie
Caio da cama ao ouvir as palavras dele; ainda estou envolta com os cobertores e não estou com uma cara muito boa desde que me deitei ontem à noite. Juro que esqueci totalmente da nossa aposta de hoje, e me sinto terrível por ter feito isso; desenrolo meu corpo do nicho que criei enquanto dormia e então, vasculho meu guarda roupas por alguma coisa mais apresentável do que minissaias e blusas curtíssimas. Jogo pilhas de purpurina e lantejoulas sobre a cama e solto um grito abafado quando não encontro nada normal para vestir; sem pensar e num ato impulsivo, corro até o quarto de Lanie para bisbilhotar as roupas dela. Não sei se ela foi ao trabalho e também não faço ideia do que vou encontrar lá dentro: um homem nu?…, os dois juntos em um ato pessoal?…, animais?
Mas, para a minha completa sorte, ela não está em casa e eu posso demorar o tempo que quiser escolhendo suas roupas – só espero que ela não fique tão chateada comigo por isso. Não tenho motivo algum para esconder meu corpo, mas não quero que ele ache que sou vulgar mesmo quando não estou trabalhando.
Visto uma bermuda jeans que chega um pouco acima dos joelhos e uma regata branca, que são as únicas roupas de Lanie que parecem dar em mim, infelizmente. Volto ao meu quarto e calço os tênis vermelhos na falta de opções; corro ao banheiro e penteio os cabelos com uma das mãos enquanto escovo os dentes.
Quando meu celular começa a tocar, já estou pronta e com uma bolsa de mãos; atendo com um sorriso e excitação palpável. Desço as escadas do prédio porque não posso contar com os elevadores ruins; encontro-o no andar de baixo, sentado no carro esperando a minha chegada. O rosto dele está virado para baixo e seus olhos brilham quando curvo as costas e chamo seu nome, o que, obviamente, o surpreende.
– Dormiu demais? – ele pergunta; dou a volta no carro e sento no banco do carona.
– Dormi demais – confirmo – Agora, está pronto para ficar um mês inteiro sem atividades sexuais?
– Você fala como se eu fosse um pervertido – ele reclama; eu jogo a cabeça para trás e rio com vontade – Não vai achar tão engraçado quando perder a nossa aposta, senhorita Cherrypie!
Então eu me calo; não pensei numa possibilidade de acabar perdendo a aposta, de fato. Se eu perder, vou morar com ele por um mês, e isso me assusta, de certa forma. Minha respiração se acelera pelo simples pensamento e posso ouvir meu coração batendo com força, ouço o som do desespero em meus ouvidos e quero pular do carro, mas não faço isso. Concentro minha atenção na estrada e começo a contar até cinquenta; ele não tenta conversar, o que só facilita a minha terapia autônoma.
Pulo do veículo assim que ele estaciona, não dando tempo sequer para que ele converse comigo sobre o jogo. Não faço ideia de que jogo é ou por qual time devo torcer, mas não me importo de verdade; começo a me sentir enjoada e quero revogar a aposta. Tudo o que eu quero nesse exato momento é voltar a dormir, voltar ao meu nicho de cobertores, voltar ao calor da minha cama.
Nós entramos na casa, ainda em silêncio, e então o monte de pelos dourados pula sobre mim, lambendo meu rosto; não contenho a risada estranha que sai da minha garganta enquanto o cão lambe meu pescoço e minhas orelhas. Não posso evitar, faz cócegas!
Richard me ajuda a levantar e então eu me sento no sofá; não contenho um sorriso ao me lembrar do que fizemos ali noite passada. Ele liga a televisão e aposta num dos times, então tenho que apostar no outro; nós começamos a comer os petiscos e a tomar as cervejas que ele comprou logo que o jogo começa.
/POV Katherine/Cherrypie
‘…’
Eu ganhei a aposta – ela vai ter que morar comigo por um mês inteiro, sem que vá trabalhar. Vai ficar confinada comigo todos os dias durante trinta dias e eu não me lembro de já ter ficado assim tão feliz! Ela esconde o rosto nas mãos, mas não parece desolada ou triste, até parece estar feliz por ter perdido a aposta; toco seu rosto e ergo sua cabeça para que ela olhe para mim, então não consigo conter o impulso de curvar as costas e beijar seus lábios. Ela, porém, se afasta como se eu tivesse dado um choque nela, porque se levanta e cruza os braços na frente do peito.
– Preciso ir até a minha casa buscar algumas roupas – ela diz; dou de ombros.
– Vamos ao shopping amanhã, não vejo problema – cruzo os braços sobre o peito e pisco para ela – Temos um mês para ficarmos aqui; tenho certeza que vai enjoar das suas roupas antes mesmo da primeira semana completa.
– Não subestime minhas roupas – ela reclama, mas seus olhos se fixam no carpete, então tenho absoluta certeza de que ela não gosta nem um pouco das roupas que tem no guarda roupas.
– Nós vamos às compras amanhã – eu digo – Além do mais, eu tomei a liberdade de comprar apetrechos femininos que não faço a mínima ideia de como se usam e coloquei-os em meu banheiro, caso queira experimentá-los.
– Não estou com sono ainda – ela dá de ombros; eu balanço a cabeça – Podemos ver um filme ou algo do tipo?
– Não tenho muitos filmes – balbucio e então ela se joga no sofá, fechando os olhos com força.
– Onde é o quarto de hóspedes? – ela questiona; eu rio. – O que é tão engraçado?
– Nada – eu suspiro após uma sessão de risadas – É que eu não tenho quarto de hóspedes. Se quiser privacidade, posso dormir na sala.
– Não! – ela exclama; ergo as sobrancelhas – Não vou enxotar você de sua própria cama…, eu durmo no sofá.
– Minha convidada não vai dormir no sofá de jeito nenhum – eu digo.
– Então nós vamos dividir a cama – ela cruza os braços e então sua expressão se suaviza.
– Não me parece tão ruim assim – eu ironizo; ela engole em seco.
– Parecia melhor na minha cabeça – ela admite; eu rio e consigo fazer com que ela ria comigo.
Eu me levanto e me espreguiço, estalando algumas juntas; puxo os braços dela e consigo levantá-la antes que ela perceba a minha intenção. Grudo nossos corpos e então começo a subir as escadas com ela no colo como se fôssemos recém casados; ela ri e envolve meu pescoço com os braços.
Coloco-a deitada na cama e me encaminho ao banheiro, fechando a porta, mas sem trancá-la; o boxe está seco e frio ao toque dos meus pés, mas então ligo a torneira de água quente e começo a me despir. Posso ouvir uma risada leve vinda do quarto e imagino o que ela deve estar achando de morar aqui por um dia inteiro; me enfio debaixo d’água e deixo as gotinhas escorrerem por todo o meu corpo. Puxo a barra de sabonete do suporte e esfrego em certos lugares, mas não tomo um banho – isso é apenas uma ducha para eu não dormir fedido de suor, até porque estou cansado demais para tomar um banho completo, com direito a esfregada na cabeça, espuma no rosto e ardência nos olhos porque não fechei os olhos enquanto esfregava a cabeça.
Sim, eu ainda me esqueço de fechar os olhos enquanto lavo os cabelos.
Desligo a água rapidamente e balanço a cabeça rapidamente, jorrando água para todos os lados; ouço um suspiro vindo da porta e ergo os olhos, vendo o rosto dela parcialmente escondido pela madeira. Não consigo deixar de rir enquanto puxo a toalha para enrolá-la na cintura e sair do boxe; seco os pés num pano que deixo no chão e abro a porta rapidamente, fazendo-a cambalear para trás. Antes de ela cair, porém, eu a seguro em meus braços, puxando-a para perto de mim, sentindo o perfume de cerejas.
– Ninguém te ensinou que espionar outras pessoas é feio? – eu questiono num tom sério; ela sorri e morde o lábio inferior.
– Talvez eu precise ser castigada – ela brinca e, quando estou prestes a arrancar a camiseta que ela usa, de alguma forma, ela se solta de meus braços e corre até o banheiro – Mas não agora!
Tento segui-la para dentro, mas não consigo entrar, já que ela trancou a porta. Inteligente, muito inteligente… caminho até o meu armário, do outro lado do quarto e arranjo uma boxer preta e uma blusa branca minha para ela não se sentir exposta durante esta noite; não quero apressar um relacionamento – até porque eu não estou à procura de um, mas se vamos viver na mesma casa e dormir no mesmo quarto durante um mês inteiro, nada mais justo do que deixá-la à vontade durante sua estadia.
Arranco a toalha dos quadris e visto a boxer com rapidez só para conseguir ajeitar a cama; um travesseiro a mais é preciso e eu arranjo mais uma coberta porque, apesar de nunca ter passado uma noite inteira com uma mulher, sei que, às vezes, durante o sono, elas retiram suas cobertas e o deixam sentindo frio pelo resto da noite. Por isso, resolvo colocar mais uma ao pé da cama só por precaução.
Ouço o som da água caindo nos azulejos do banheiro e me recosto na cama, fechando os olhos e então cruzando os braços sobre o peito; penso nas inúmeras coisas que podemos fazer em um mês e um sorriso aparece em meu rosto. Antes que eu possa retirá-lo do rosto, porém, ouço a voz brincalhona vinda do escuro:
– Não tenho roupas – ela diz; abro os olhos e sorrio ao vê-la só de toalha.
– Você pode usar uma blusa minha e… – paro de repente – Não pensei na questão da calcinha.
– Não vou usar uma cueca sua – ela avisa – É nojento.
– Nós podemos comprar calcinhas e roupas para você amanhã, mas se não quer usar uma cueca minha, temo que tenha duas opções apenas. – eu murmuro e ela ergue uma sobrancelha enquanto puxa a minha blusa – Ou você a) não usa nada por baixo da blusa, o que seria muito agradável – recebo um tapa no peito – Ei, isso dói!… ou, b) use a calcinha que usou hoje, apesar de ser muito mais nojento do que usar uma cueca minha, limpa, é claro.
– Não sei qual das opções é pior, então acho que vou acabar pedindo uma – ela engole a seco e vejo seu rosto ficar vermelho, mesmo no escuro – de suas cuecas mesmo.
Pulo da cama e corro até o armário, puxando uma boxer branca para que não apareça o contraste entre as roupas no corpo dela. Entrego a peça de roupa para ela e viro de costas para que ela se vista sem incômodo ou vergonha; ouço uma risada leve e então ouço o farfalhar de tecido enquanto ela se veste. Viro de frente enquanto ela ajeita a blusa, que, como previ, ficou enorme em seu corpo pequeno e magro – era exatamente isso que eu queria.
– Serviu direitinho – ela iça uma sobrancelha quando falo isso – Mentira, está enorme.
– Percebi – ouço seu suspiro – Além do mais, parece que sou eu que tem testículos aqui!…, porque, meu Deus, há um espaço enorme vazio dentro disto aqui.
Para explicar o que diz, ela ergue a barra da blusa branca e eu vejo o papo do qual ela reclama tanto; contenho os espasmos de uma risada, mas acabo soltando um som parecido com o de um porco, fazendo com que ela ria também, jogando a toalha em cima de mim. Os cabelos dela emolduram seu rosto, coisa que eu não havia percebido antes, e então, vejo-me hipnotizado pelo rosto em maquiagem e límpido.
Ela se espreguiça e eu dou um passo a frente quando ela recua para subir na cama; ainda mal acredito que ela tenha perdido a aposta, ainda não acredito que nós temos um mês inteiro para convivermos um com o outro. Um mês dormindo na mesma cama, isso é mais do que eu sempre sonhei a vida inteira.
Tenho uma mulher na minha cama, usando as minhas roupas, e ela é bonita. Pelo amor de Deus, é isso o que todo jovem sempre sonha!
– Boa noite – ela diz, deitando de costas para mim; eu beijo sua cabeça.
– Boa noite – repito e quase não ouço a minha voz; está rouca e tremula um pouco.
Tento fechar os olhos, mas é impossível porque imagens de possíveis cenários para o dia seguinte começam a encher meus pensamentos; imagino que estejamos num shopping, carregando várias bolsas de roupas caríssimas ou que estejamos almoçando em algum lugar da praça de alimentação, cercados por bolsas de lojas de roupas. Mas então forço minha mente a apagar todas essas suposições porque sei que o amanhã vai ser muito, mas muito melhor.
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