Drive By | hiatus |
20 19. Enxerido
Notas iniciais
Em alguns momentos da vida, você sente o seu chão sumir. Você se vê numa armadilha, e não consegue pensar num jeito de sair dela, sem se machucar, ou machucar alguém que você ame. Você enxerga claramente os erros que você cometeu, e nesse momento você se arrepende de ter feito tudo o que fez. O momento atual era o meu momento.
Ela está indo embora e talvez isso seja mesmo o melhor para nós dois, talvez seja o melhor para todo mundo. Minha única vontade é gritar seu nome, puxá-la contra o meu corpo e dar-lhe um abraço bem apertado. Mas eu não consigo me mover; meus músculos parecem ter sido congelados.
– Eu preciso acertar as coisas, Rick, e vou entender se você não quiser mais olhar para mim depois disso. Eu não estou fugindo de você ou das suas perguntas, ainda vou respondê-las, mas agora… agora eu preciso explicar as coisas para o que ainda restou da minha família.
Quis gritar mais uma vez, pedir a ela para esperar um pouco, para me perdoar por tê-la pesquisado e pedir para que deixasse que eu cuidasse dela, que me deixasse mimá-la. E eu faria tudo o que ela quisesse, não importa o que fosse… desde que ela não vá embora sem mim, desde que não me abandone mais uma vez.
E eu devo ter dito isso em voz alta, pois ela se virou para mim, largando a enorme bolsa no chão da sala, com as lágrimas rolando pelas bochechas vermelhas. Segurei as minhas próprias enquanto ela caminhava até mim com lentidão. Nós havíamos acabado de começar a nos dar melhor, a conseguir esquecer o que aconteceu conosco… começamos uma nova vida, e ela estava tão boa. Mas então, eu fui e estraguei o que tínhamos, o pouco que ainda possuíamos.
– Eu não quero que se culpe por nada, Rick. – ela choramingou – É verdade que eu não pretendia contar a você tanto de quem eu fui, mas agora você já sabe e eu posso, pelo menos, tentar consertar todo esse mal-entendido.
– Mas eu não quero perder você mais uma vez – gemi – Não posso ir com você?
– Por que é tão difícil dizer adeus pra você?
– Porque talvez não devamos nos despedir – instintivamente, ergo o braço e toco seu rosto, enxugando as bochechas dela com o polegar.
– Por mais que isso doa em mim – ela funga, afastando-se de mim aos tropeços –, é o certo a se fazer, Rick. De qualquer forma, saiba, e se lembre disso para sempre, que eu amo você e nunca deixei de amar.
Engoli em seco enquanto ela se punha na ponta dos pés, enroscando seus braços ao redor do meu pescoço e deitando a cabeça em meu ombro, acariciando as pontas dos meus cabelos. Demorei algum tempo até retribuir o seu abraço; enfiei minha cabeça no vão entre seu ombro e pescoço e inalei o perfume de cerejas e creme, já sentindo falta de seus beijos, de seus abraços e, principalmente, de seu cheiro.
Afastei-a com um pouco mais de força, sem querer soltá-la, sem querer deixá-la ir embora. Mas ela se afastou um pouco mais mesmo assim. Ela se afastou mesmo assim e eu me encontrei sozinho dentro de casa, com frio, saudades, e sozinho.
***
Dias depois
Olhei para a enorme casa à minha frente e prendi a respiração, tentando controlar os batimentos do meu coração. Num momento de loucura e melancolia – talvez até saudade –, pesquisei o endereço dos pais dela e o descobri. Viajei de Nova York até aqui e não pretendo ir embora até conseguir que eles conversem comigo, que entendam pelo o que ela passou.
Reunindo toda a minha pouca coragem, dei um passo à frente, cerrei os punhos e bati na porta de madeira escura, engolindo em seco quando passei a ouvir as vozes cansadas dos pais dela, que reclamavam e pediam para serem deixados em paz para sofrerem sua perda sozinhos.
Meu estômago embrulhou assim que ele abriu a porta. Os olhos dele eram acinzentados e os cabelos grisalhos caíam sobre o rosto. Atrás dele, sua esposa – a mãe de Kate – olhava para mim com os olhos esverdeados cintilando com a esperança de receber notícias da filha há tanto tempo perdida, e senti o coração subindo pela garganta no instante que ele abriu a boca.
– O que você quer? – ele parecia extremamente cansado – Já dissemos que não vamos responder a nenhuma entrevista.
– Querido, eu acho que ele não quer fazer uma entrevista – ela murmurou, apossando-se do espaço do batente, olhando dentro dos meus olhos; estremeci quando ela tocou o meu rosto, sorrindo singelamente – Você sabe alguma coisa, não sabe? Você sabe alguma coisa sobre a minha filha.
– Jo, eu… – ele começou, mas ela ergueu uma das mãos e ele se calou automaticamente; Kate costuma ter esse efeito em mim também.
– Eu a conheço e… – céus, é tão difícil dizer isso! – Nós dois estamos juntos, eu acho. É complicado, mas eu a amo de verdade e posso afirmar que ela está bem. Acho que está vindo para cá, se não já veio, mas…
– Ela o quê? – os dois engasgaram e eu percebi que tinha dito algo errado – Como assim? Como você sabe?
– Bem, ela me deixou sozinho em casa, então… é.
– Oh, céus – a mulher escondeu o rosto nas mãos e tornou a entrar na casa; pude ver que seu esposo também tremia.
– Gostaria de uma xícara de chá? – ele me ofereceu, e eu sorri.
– É claro!
POV Katherine/Cherrypie
Largo a bolsa no batente, reunindo a minha coragem para bater na porta, para tocar a campainha ou para simplesmente gritar que estou em casa. Meu bom-senso manda que eu volte para Nova York; estou aqui há dias, e ainda não consegui reunir toda a coragem para olhar para os meus pais. Fui estúpida, anos atrás, e agora sei que podem estar incrivelmente irritados comigo. Sei que sentem a minha falta, mas ainda assim… bem, nunca quis irritar meu pai porque sei o quanto ele pode ser bravo.
Respirei fundo e relaxei os músculos, sentindo que poderia fazer isso se não olhasse diretamente nos olhos dos meus pais, se não mantivesse o contato visual e… bem, nem o físico. Sairia tudo bem se eu simplesmente despachasse todas aquelas palavras sofridas, mais um pouco de bagagem emocional em cima deles e simplesmente fosse embora.
Seria fácil – na teoria, é claro.
Eu tinha medo de acabar causando algum acidente depois de tantos anos longe da minha família, tinha medo de machucá-los de alguma forma. O pensamento de que eles estavam incrivelmente bravos comigo não me deixara dormir durante o tempo que já passei aqui, agradecida por ninguém se lembrar do meu rosto. E, também, como poderiam?…, afinal, quando fui embora, ainda usava o reluzente aparelho de prata que, na época, odiava, mas agora o agradeço pelos dentes brancos e alinhados.
Respirei fundo mais uma vez e tentei controlar o meu coração frenético, mas não tinha a certeza de que conseguiria bater na porta hoje. Talvez nunca tivesse a coragem para fazê-lo, e era esse o meu medo. Mas não era mais uma questão de querer, era uma questão de necessidade, e eu precisava disso para poder seguir em frente – para poder ser feliz com quem eu quisesse ser feliz e, no momento, este alguém devia estar em Nova York, lamentando-se com Royal sobre a minha partida repentina.
Mandando toda a minha insegurança e medo pro quinto dos infernos, ergui o punho cerrado e bati na porta com toda a minha força restante e, imaginando que seria demorado até que meus pais se sentissem seguros para abrir a porta, cruzei os braços sobre o peito, surpreendendo-me quando vi os cabelos grisalhos na cabeça do homem que, um dia, me carregou nos ombros.
– Oh – ele gemeu, fraquejando ao me ver; mamãe apareceu logo atrás dele, e foi quando senti todo o meu mundo desabar… eles pareciam tão cansados!
– É você mesmo? – ela gaguejou, tomando todo o espaço entre mim e a enorme casa de tijolos na qual cresci; engolindo o bolo de palavras acumuladas em minha garganta, sacudi a cabeça para cima e para baixo, deixando que ela ficasse na ponta dos pés e abraçasse o meu corpo trêmulo com os braços magricelas.
Não demorou muito até que papai fizesse o mesmo, agarrando-me com força como se, a qualquer momento, eu fosse escapar de sua visão, mas eu não queria fazer isso, talvez nunca mais quisesse. Retribuí ao abraço dos dois, puxando-os cada vez para mais perto, sentindo os perfumes mesclados dos dois que eu tanto sentira falta. O perfume de café e baunilha inundou os meus sentidos e amaldiçoei-me por ter ido embora daquele jeito; hoje, vejo o quão estúpido foi o meu plano.
Então, chorei.
Chorei por todas as escolhas erradas que já tomei desde que resolvi sair de casa, chorei de saudades e chorei porque a dor em meu peito havia se tornado insuportável. Chorei porque estava com saudades daqui e também chorei porque estava com saudades de Rick, de seus beijos e seus carinhos, saudades de Royal e sua companhia constante, mesmo nas piores horas.
Mas não pude desfrutar mais tempo daquele abraço porque os dois me soltaram ao mesmo tempo e ficaram olhando para mim como se eu fosse uma peça rara em um tipo de museu, mas não pedi a eles que fossem embora ou parassem de olhar como faria quando mais jovem. Eu sentira tanta falta daquilo que me parecia errado pedir que parassem, pedir que se afastassem de mim ou até mesmo que fossem mais como “gente”.
Fui uma adolescente problema pouco tempo antes de decidir ir embora e tudo o que me aconteceu depois disso foi consequência das escolhas erradas que tomei. Pensei que nada de bom ia me acontecer depois de tudo, mas então eu conheci o Rick, tomei Royal como meu próprio cão e, agora, estou parada à frente dos meus pais, que me analisam como se eu fosse o bem mais precioso que têm. E eu sei que sou, por mais que tenha feito os dois passarem por uma imensa onda de sofrimento.
Por isso, quando começam a me levar para dentro de casa, apertando os meus pulsos e mantendo-me sob sua vigília constante, não os culpo nem um pouquinho. Antes de qualquer coisa, eles me levam até o meu quarto – o meu antigo quarto – e eu vejo como o deixaram exatamente como era antes de eu fugir. Mas, por mais que estejam curiosos sobre o motivo da minha fuga – e eu os conheço bem, sei que estão –, não fazem nenhuma pergunta e eu os agradeço em silêncio. Não sei se conseguirei contá-los todos os detalhes ainda e, talvez, nunca consiga.
Eu os amo e sei que têm o direito de saber o que me levou à fuga e o que aconteceu comigo durante o período em que estive fora de seu campo de visão – e eu vou contar a eles. Mas isso não significa que eu tenha que contar tudo nos mínimos detalhes. Sei o quão aborrecidos e talvez até aterrorizados vão ficar se lhes contar exatamente o que aconteceu a cada noite e, por isso, faço uma nota mental para contá-los somente a parte onde conheci Rick, como o conheci e como ele é um homem maravilhoso, que pôs seu coração na linha de fogo por uma desconhecida que, com o tempo, passou a amar.
Pego minha mãe olhando para mim e sorrio para ela, abaixando a cabeça. Estou envergonhada de estar com eles agora, já tão mais velhos do que os pais que eu me lembrava; lembro-me de papai correndo comigo no parque, colocando-me em seus ombros e fazendo curativos em meus machucados. Já de mamãe, lembro-me das manhãs na cozinha, fazendo todas as receitas que podíamos encontrar, nossas pinturas e madrugadas viradas pelos estudos e trabalho. Era tão bom, e eu desperdicei toda aquela vida.
Cada momento desses passou pela minha cabeça assim que encontrei com os olhos esverdeados de mamãe – incrivelmente, os dela ainda têm o brilho sapeca que ambas tínhamos. Mas agora, os meus parecem extremamente sem vida, como se eu fosse um cadáver ambulante e, de verdade, não duvido que seja mesmo um.
Todo o meu corpo dói, talvez pelas horas de viagem ou pelo desconforto do hotel barato que pude bancar, mas tudo o que eu preciso agora é de uma poltrona estofada, almofadas – grandes almofadas – e talvez um cobertor. É tudo o que preciso para me sentir confortável e amada… bem, talvez não seja tudo, mas já é um bom começo.
– Que tal uma xícara de chá? – papai perguntou ao pé do meu ouvido, brincando com os meus cabelos como costumava fazer quando eu era bem pequena; meus olhos lacrimejaram e eu envolvi seu pescoço com os braços, soluçando e sacudindo a cabeça para cima e para baixo.
Mamãe me puxou dos braços de papai e envolveu a minha cintura com um de seus braços, guiando-me escada abaixo. Tudo o que eu queria era me perder no abraço dos dois, estar ali para sempre, arrependendo-me – superficialmente – de ter cometido o erro de ir embora. Mas, por outro lado, pensei, se eu não tivesse ido embora, nunca teria conhecido Richard e nós… bem, nós nunca teríamos nos juntado, não é mesmo? Então, minhas escolhas não foram de um todo ruins, certo?
É isso o que eu tinha na cabeça quando mamãe abriu a porta da cozinha e eu o vi parado ali, segurando uma xícara na mão enquanto a outra desenhava os padrões de textura da toalha da mesa. Assim que a dobradiça da porta rangeu, ele esticou o pescoço e olhou para mim com os olhos marejados; meu coração voou até a garganta e eu não contive o impulso. Soltando-me dos braços de mamãe e da proximidade de papai, corri até ele enquanto ele ficava de pé e envolvi seu pescoço com os braços, apertando-o de encontro a mim.
Céus, como eu senti saudades!
Tínhamos ficado apenas alguns dias – uma semana, talvez duas? – separados, mas isso já fora o suficiente para me deixar morrendo de saudades dele, de seus toques, de seus beijos, de suas palavras e, principalmente, de seu cheiro. Inalei seu perfume quando respirei fundo e, de verdade, nunca tinha me sentindo melhor em toda a vida.
Por enquanto, tudo o que eu queria era ficar abraçada com ele ali, sentindo o seu perfume e apreciando o carinho que fazia em meus cabelos. Mas, depois… ah, depois ele ia se ver comigo!
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