Drive By | hiatus |
19 18. "Sentimentos há muito adormecidos..."
Notas iniciais
A sensação era gostosa, então deixei que suas mãos continuassem acariciando minhas costas, mas ainda fingia dormir; eu tinha que ir embora antes do nascer do sol, mas com mamãe me olhando enquanto eu – supostamente – dormia, sei que não conseguiria realizar esta façanha tão cedo. De verdade, sinto-me mal por estar fugindo de casa, mas eu preciso dar um tempo de tudo isso: estudos incessantes, ser o exemplo de menina, concursos, atividades extracurriculares… tudo isso já me parece desnecessário.
Finalmente, ouvi a porta se abrindo, e rezei para que papai percebesse o incômodo que – eu detesto dizer isso – mamãe está sendo agora. Mas, infelizmente, ele se junta a ela, afagando os meus cabelos e retirando-os do rosto; não me leve a mal, eu amo isso, só acho que eles poderiam confiar um pouco mais em mim como pessoa… por mais que, aos olhos deles, eu precise ser “protegida”, não sou mais uma criança e sei como me cuidar bem sozinha.
– Já está tarde, Jo – papai sussurrou, provavelmente para não me acordar… ops! – Nós precisamos acordar cedo amanhã.
– Eu sei. Só… é só que eu tenho esse mau pressentimento, Jim. Sinto que, a qualquer momento, ela vai poder escapar entre os meus dedos¹… – oh, mamãe!
– Ela ainda estará aqui pela manhã, querida – papai beijou minha testa e saiu do quarto em seguida.
Não sei quanto tempo se passou até que sentisse o beijo molhado de mamãe em minha bochecha, mas assim que seus lábios descolaram da minha pele, senti a sensação de vazio no peito e quis fingir acordar só para pedir a ela que se juntasse a mim na cama de solteiro que papai comprou há tão pouco tempo. Uma prevenção contra os garotos, ele disse.
– Eu amo você, Katie – a voz trêmula de mamãe indicava que ela estava prestes a chorar, se é que já não estava fazendo isso.
A minha vontade era pular em seu pescoço, esconder o rosto em seus cabelos com perfume de café e pedir perdão por ter sequer pensado na possibilidade de fugir de casa, mas não faço isso. Mantenho o controle, apertando os lençóis debaixo do enorme cobertor para não começar a soluçar e acabar chamando sua atenção. Esperei até ouvir o som da porta batendo para jogar os cobertores para longe.
Minha cabeça doía e minhas mãos pareciam dormentes enquanto eu tentava equilibrar a caneta para conseguir escrever algo como uma “carta de despedida” para os meus pais; pelo menos uma satisfação eu devia dar a eles. De alguma forma, minha caligrafia conseguiu sair melhor do que eu imaginei que sairia.
Desviei o olhar para o porta-retratos branco em minha mesinha, o que só fez com que o meu coração ficasse um pouco mais acelerado e começasse a subir pela garganta. Aquela foto tinha sido tirada há tão pouco tempo, mas, ainda assim, pareciam ter passado anos desde aquele momento; estávamos só nós três, eu, mamãe e papai e, de alguma forma, eu, ainda assim, parecia desajustada ao lado dos dois: os advogados da Califórnia.
A culpa me corroía por dentro, mas eu já não tinha como voltar atrás; já tinha envolvido gente demais nessa história e não queria estragar o único prazer que poderiam ter agora… nem que, para eles, fosse uma brincadeirinha inocente. Eu não tinha dito a ninguém que a fuga era pra valer, e sabia que não podia contar com a companhia de nenhum deles durante a minha jornada para lugar nenhum.
Larguei a caneta sobre o papel e encarei as palavras tremidas e cuspidas na pressa; reunindo o pouco conhecimento que tinha das aulas de educação física, joguei o enorme fio de lençóis pela janela, aventurando-me a descer por eles. Já tinha visto filmes de como tudo aquilo era feito, mas achei que seria mais difícil do que realmente foi; ralei os braços nas paredes de pedra e devo ter machucado seriamente as pernas ao cair no chão.
Com pressa, joguei a sacola com os meus poucos pertences e algum dinheiro sobre os ombros e comecei a correr até onde nós tínhamos marcado de nos encontrar, mas ninguém chegou a aparecer…
***
Acordei com um grito preso na garganta, encarando as duas circunferências brilhantes que eram os olhos de Royal, no escuro, fitando-me com compreensão e carinho animal. A fraca luz do escritório chamou-me a atenção; o relógio digital marcava 5:47h e, das duas uma: ou Rick tinha acordado bem cedo para trabalhar no manuscrito ou nem tinha vindo dormir. Logo descartei a primeira opção, pois, ao olhar para os lençóis intocados ao meu lado, soube que tinha dormido sozinha… bem, quase isso. Royal passara a dormir comigo há alguns dias e, admito, eu gosto da companhia peluda.
Jogo os cobertores para o lado e coço os olhos, sentindo o corpo felpudo de Royal debaixo da minha mão, seus pelos dourados fazendo cócegas na minha palma sensível. Lentamente, saio do quarto e caminho, cambaleando um pouco por causa da visão embaçada, até o escritório. E é só um fragmento da parte estranha: o escritório está, de fato, vazio.
De qualquer forma, porém, o notebook está aberto. Curiosa como sempre fui, sentei-me na almofada quente da cadeira de rodinhas e movi o cursor, arrependendo-me infinitamente depois, por ter sido tão curiosa. Havia uma foto minha aberta no navegador de, não sei, uns oito anos atrás, onde eu segurava um troféu de ouro de um campeonato de tênis. Céus, isso parece ter acontecido há milênios!
Meu coração entalou na garganta ao ver todas aquelas janelas abertas com o meu nome ou sobrenome; de repente, ouvi o som de louça sendo quebrada e um arquejo surpreso vindo da porta do escritório. Xinguei a mim mesma mentalmente; era até meio óbvio! Por que mais ele teria ficado tantas horas no escritório sem digitar? Mas, de qualquer forma, ainda havia esta enorme dúvida martelando na minha cabeça: como ele poderia ter descoberto o meu sobrenome de uma noite para outra?
– Kate… – ele murmura, mas eu não quero saber, não quero ouvir o que tem a dizer.
Fecho os olhos com força, querendo que isso faça parte do sonho-pesadelo, mas, lá no fundo, eu sei que não é, que não poderia ser, mesmo que eu quisesse. Agora, de qualquer jeito, ele já sabe mais sobre mim do que eu pretendia divulgar para ele.
Minha cabeça gira, e o mundo parece girar com ela; fui tão estúpida! Por que achei que ele se contentaria em saber o básico sobre mim? Era óbvio que ele iria querer mais informações, não era? Eu deveria ter sabido que ele não ia querer viver comigo sabendo tão pouco, mas… por um mínimo período de tempo, permiti que a pouca informação que tinha descoberto sobre mim fosse o suficiente.
Sei que não é mais, sei que quer mais, mas não sei como vai reagir ao descobrir tudo.
Não consigo erguer os olhos para ele, não consigo falar e não consigo sequer respirar; todo o meu mundo acabou de virar de cabeça para baixo. Em partes, porque ele quis me pesquisar e, em partes, porque a matéria que está aberta no navegador é datada de três dias atrás. E acho que é por isso que não consigo respirar.
“A família Beckett comemorou outro aniversário sem sua primogênita; o mundo virou de cabeça para baixo para este casal tão importante.
Ainda assim, o casal ainda tem esperanças que sua jovem menina volte para casa; um pedido foi feito, e nós tentaremos atendê-lo:
Katherine, volte para casa!”
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