Drive By | hiatus |

16 15. Gratidão


Notas iniciais
Oi, cupcakes! Antes de mais nada, sim, o que vocês leram na sinopse está correto! A fanfic vai passar por uma temporada de hiatus (ainda não sei por quanto tempo, sinto muito!), mas eu juro que não vou desistir dela! Vou agradecer àqueles que, mesmo depois de tudo o que aconteceu, continuam acompanhando porque confiam em mim o suficiente para acreditar que haverá um final feliz! Sou muito grata a vocês por isso! Aline, obrigada pela mensagem que me mandou há alguns dias, pedindo que eu continuasse porque isso me animou bastante! Boa leitura!

Em algum momento no meio do caminho se tornou insuportável para mover minhas pernas e eu simplesmente desabei; Kate quis continuar fugindo, mas meus músculos pareciam queimar e eu já não sabia nem como se respirava. Meus pulmões pareciam conter fogo ao invés de ar, porque queimavam a cada vez que eu inspirava; desistindo de tentar me convencer a levantar e a voltar a correr, ela se jogou ao meu lado no asfalto e caiu em meus braços.

Não posso negar que ainda haja uma enorme quantidade de adrenalina em meu sangue, mas meu corpo inteiro dói e não há nenhuma quantidade de adrenalina que seja suficiente para amenizar o que sinto. Os cortes nas laterais do meu corpo parecem ter sido enchidas com sal e pinceladas com areia; faço careta quando ela levanta a barra da minha blusa para verificar meus machucados.

Por mais que queira dizer a ela que estou bem, ela me conhece demais para saber que, na verdade, tudo o que digo é mentira. Provavelmente – e sei que sim –, o dano que foi feito a ela é e sempre será maior que o meu e não posso negar que, se pudesse, tiraria todo o sofrimento dela e o transferiria para mim, mas não posso fazer isso, então me contento em estar ao lado dela, em abraçá-la quando ela precisar de conforto e deixar que chore em meus braços.

O rosto dela tem manchas que já começam a ficar arroxeadas; estico o braço para ajeitar seus cabelos e ela esfrega o rosto na minha palma, fechando os olhos e soltando um longo suspiro; quando volta a abrir os olhos, suas pupilas parecem se perder nos verdes escurecidos e começo a questionar a mim mesmo o que é aquilo.

– Não podemos ficar no meio da rua – ela afirma – Precisamos ir ao hospital, Rick.

– Eles vão nos separar, você sabe – acaricio suas bochechas arranhadas com os polegares – Se descobrirem sobre o abuso, e você sabe que vão, eu vou ser o principal suspeito.

– Nós dois sabemos que não foi você – ela sorri para mim, mas posso ouvir o tremor em sua voz – Eu quero que façamos isso, eu quero que façamos isso juntos; a polícia não vai ser um obstáculo, vai? Depois de tudo pelo o que passamos…!

– Kate – sopro – Não quero ir ao hospital; sei que, tanto quanto eu, também não é isso o que você quer. Ou eu não a conheço tanto quanto imagino que conheço?

– Você desvendou até o meu último fio de cabelo – ela toca minha bochecha – Mas não sei se podemos voltar à sua casa; podem estar esperando por nós lá e…

– É um risco que temos que correr – cuspo – Eu preciso que confie em mim por mais um pouco; confie em mim como antes confiava. Sei que talvez não seja a coisa mais inteligente a se fazer porque… bem, por causa de tudo o que aconteceu, mas confie em mim agora porque sei que estou fazendo a coisa certa. Estou fazendo isso por nós.

O vento bate nos cabelos dela, jogando-os para trás e é quando ela volta a olhar dentro dos meus olhos; o corpo dela se encolhe e ela sacode a cabeça, segurando minhas mãos e ajudando-me a ficar de pé mais uma vez. Minhas panturrilhas ardem, mas eu tento ignorá-las por algum tempo até conseguirmos nos situar mais uma vez; olho dentro dos olhos dela e obtenho a minha confirmação: nós podemos fazer isso.

***

Por um momento, condeno-me por não ter lembrado de estar sem as chaves de casa, mas, assim que, cansados e ofegantes, chegamos ao batente, Kate arranja um grampo e entrega-o a mim. Os latidos de Royal começam a ficar absurdamente altos e, quando consigo abrir a porta com o pequeno grampo, Kate passa por Royal batida sem sequer dar uma batidinha sobre a cabeça peluda.

Obviamente, achei a atitude extremamente estranha, mas não cheguei a comentar nada disso com ela. Fechei a porta com o pé e ajoelhei-me no chão, acariciando os pelos dourados dele, que empurrava a cabeça cada vez um pouco mais contra as minhas mãos. Quando me levantei, ele me seguiu até a cozinha; balancei o pacote de ração e ele ficou de pé sobre duas patas. Sorri e despejei a ração sobre o pote de plástico que arranjei para ele.

POV Katherine/Cherrypie

Largo as roupas largas sobre o chão de azulejos e mal consigo encarar o meu corpo no espelho; sei exatamente o que verei se o fizer e, de verdade, prefiro não fazê-lo. Fecho a porta e, por precaução, giro a chave. Já liguei a água há algum tempo e acho que, finalmente, ela já esquentou o suficiente para retirar toda a sujeira do meu corpo… superficialmente porque sei que a verdadeira sujeira vai estar comigo onde quer que eu for, pelo resto da minha vida.

Jogo o corpo debaixo d’água e, a principio, sinto a água quase arrancar minha pele fora, mas acabo me acostumando e pego uma esponja, derramando sabonete líquido sobre ela e esfregando sobre a pele machucada. O contato do sabão com as feridas abertas faz com que a dor volte ao meu corpo, mas não posso evitar; fiquei tanto tempo procurando por alguma coisa que me fizesse sentir melhor com tudo isso e, infelizmente, ferir a mim mesma já havia se tornado um hábito que eu não podia controlar.

Minha pele fica vermelha quando esfrego a esponja com força sobre ela mesmo depois de já ter me limpado; mesmo que tome milhões de banhos, nunca vou me sentir limpa e isso é a pior coisa que pode acontecer com alguém em todo o mundo. Certamente, não desejo isso para ninguém.

Quando finalmente dou-me por vencida, não aguentando mais a dor na pele, desligo o chuveiro e escorrego até o chão, transformando-me num bolo de gente; os azulejos são frios e eu estremeço quando entram em contato com a minha pele esfolada. A esponja está jogada perto do ralo, ainda cheia de espuma; meus cabelos grudam no pescoço e eu não faço o mínimo esforço para jogá-los para trás.

Tudo o que eu mais desejo agora é dormir para sempre; me jogar na cama e nunca mais acordar.

Ouço a batida na porta e cubro os ouvidos com as mãos, apertando minha cabeça com força enquanto grito para que me deixe em paz, para que me deixe sozinha para lidar com tudo isso, mas ele não parece ceder, porque continua batendo. Talvez, eu tenha gritado só na minha cabeça e talvez as palavras não tenham sequer saído dos meus lábios; talvez, eu esteja ficando maluca e, a esta altura, eu não duvido muito disso.

– Posso entrar? – ele pergunta, enfiando a cabeça pela fresta aberta; cubro o rosto com um travesseiro e aperto – Está tudo bem? […] Kate, fale comigo.

– Eu quero evaporar – admito, jogando o travesseiro longe – Quero que tudo isso acabe, quero poder andar na rua sem achar que tem alguém me seguindo, sem achar que um monstro vai pular do beco mais próximo para me atacar! Eu quero poder estar segura.

– Deixe-me levá-la até um lugar onde estejamos seguros – ele pede, sentando-se ao meu lado na cama – Deixe-me protegê-la.

– O fato é que eu nunca vou estar segura, Rick – solto um soluço – Eu sempre vou estar na linha de fogo, por mais que eu não queira; minhas escolhas trouxeram-me até aqui e, agora, tudo o que eu quero é poder voltar no tempo para desfazê-las. Não quero mais ser quem eu sou.

Vi a cabeça dele se inclinando e seu pomo de adão subindo e descendo com dificuldade; ele puxou um dos lençóis amarrotados de cima da cama e colocou-o debaixo dos braços, assim como um dos travesseiros – o que eu joguei longe – e acenou para mim, saindo do quarto e fechando a porta. Automaticamente, a escuridão tomou conta de mim.

***

Não sei quanto tempo se passou, mas quando a porta voltou a abrir, deixando a luz entrar, estiquei o pescoço para olhar Royal, que pulou sobre a cama e acomodou-se ao meu lado. Fiz carinho em suas orelhas e afaguei seu pelo, puxando-o mais para perto; ele deixou que eu deitasse sobre ele como se fosse um travesseiro e eu aspirei o cheiro de sabonete animal.

Desistindo de tentar cair no sono, levantei-me, assustando o cão, que deu um pulo quando pus-me de pé; saí do quarto com passos lentos e inaudíveis. Rick dormia no sofá e se remexia debaixo do lençol fino. Desço as escadas em passos vacilantes e, quando chego perto dele, um ganido chama a minha atenção; viro a cabeça e vejo Royal parado ao meu lado, abanando o rabo com rapidez.

Ajoelho-me ao lado dele e sorrio; por uma fração de segundo, penso que, de verdade, ele pode me ouvir e entender tudo o que digo.

– Deixe-nos a sós, amigão – peço, acariciando suas orelhas; ele esfrega a cabeça no meu braço e trota para longe.

Olho para o rosto adormecido dele e vejo inúmeros arranhões e hematomas que já começam a ficar esverdeados, culpando-me por tudo isso… porque a culpa é minha. Retiro os cabelos oleosos e sujos de cima dos olhos e quase sorrio ao vê-lo retorcer o nariz, mas sei que toquei em uma ferida. O corpo dele deve estar cheio de machucados e ele deve sentir dor a cada mínimo movimento que faz; minha visão embaça e eu fecho os olhos com força, encolhendo o corpo ao lado do sofá, esperando que o cansaço vença, por fim, e leve-me para os braços de Morfeu.

POV Richard:

O desconforto não diminuiu depois de conseguir dormir pela noite; o sofá destruiu as minhas costas e a luz do sol começou a entrar pela janela, incomodando meus olhos. Sentei-me e cocei os olhos, afastando os fragmentos do sonho perturbador que tive; em algum momento da noite, Royal deve ter descido e deitado aos meus pés, pois vejo o pelo subindo e descendo conforme ele respira.

Ponho os pés no chão e vejo o corpo dela encolhido ao lado de Royal, com a cabeça deitada sobre a barriga dele. Rapidamente, minha visão fica nítida e eu a pego no colo, colocando-a onde eu estava deitado há pouquíssimo tempo; meu estômago ronca alto e eu resolvo preparar alguma coisa para comermos.

Fomos privados de água e comida por dias e, agora, tudo no que consigo pensar, são panquecas e omeletes com café; meu estômago ronca mais uma vez, desta vez um pouco mais alto, e eu repreendo a mim mesmo por ficar pensando em comida enquanto devia estar preparando-a. Fiz os omeletes bem rápido, jogando as cascas fora enquanto punha as massas das panquecas para assar; durante todo o tempo de preparo, desviei o olhar para ela, certificando-me de que estava tudo bem.

Respiro fundo, e dói. Toco a região do tórax e faço careta ao sentir a dor aguda sobre a região dos meus pulmões; provavelmente, tenho uma costela quebrada, e talvez tenha essa tenha sido a causa do meu desconforto durante a noite. Soltei um grunhido baixo quando a dor ficou mais forte e mordi o lábio inferior, sentindo o gosto metálico invadir minhas papilas.

Ouço o som da voz dela balbuciando palavras desconexas e fragmentos de sentenças que não chega a terminar; solto um suspiro e pulo quando ela grita; estico o pescoço para vê-la encolhida, puxando os pelos de Royal com força. Por mais que deva ser horrível, ele não tentou mordê-la e sequer saiu de debaixo do sofá onde ela dorme; apenas ficou encarando-a, como se, assim, pudesse enxergar o que se passa com ela.

Peguei-o olhando para mim e sorri; às vezes, acho que ele é muito mais do que um simples cachorro, que ele pode vir a salvar nossas vidas. Voltei a trabalhar nas panquecas e despejei-as num prato de porcelana; o farfalho de tecido faz-me prestar atenção nela, que revira o corpo debaixo do lençol que me cobriu durante a noite. Royal uiva, fazendo-a despertar do pesadelo que vinha tendo.

Quase o agradeço por isso, mas fico quieto e continuo a arrumar nosso café da manhã; ela senta no sofá e esconde a cabeça entre as mãos. Desvio o olhar para ela e vejo seus ombros sacudindo conforme ela choraminga baixinho. Eu juro que, se pudesse, tiraria toda a sua dor e a poria toda em mim só para não ter que vê-la sofrendo; não suporto vê-la desta forma, quebrada e desiludida.

– Bom dia – tento parecer firme, mas minha voz fraqueja e eu amaldiçoo a mim mesmo por isso.

– Bom dia – ela repete; a voz tremula enquanto ela se levanta do sofá e aproxima-se do balcão de mármore – Não precisava ter feito tudo isso depois do que fiz com você noite passada. Colocou-me no sofá depois, não foi?

– Foi – admiti, tentando evitar o contato visual – Nunca quis que se sentisse arrependida por ter escolhido ficar comigo. Quero que saiba que eu sempre…

– Ei – ela me interrompe e toca meu queixo, fazendo-me encará-la – Eu não ligo.

– O quê? – engasgo.

– Eu não ligo para o que passamos, para o quão quebrados possamos estar desde que estejamos juntos e passemos por tudo isso juntos – ela explica, com um sorriso começando a tomar suas feições – Nunca tive com quem contar e ainda acho impressionante que você esteja fazendo tudo isso para mostrar o quanto se importa; serei eternamente grata por tudo o que fez por mim, por tudo o que passou.

– É isso o que pessoas apaixonadas fazem, eu acho – dou de ombros, sentindo a dor no tórax voltando a me atingir, desta vez, mais forte; mordi o lábio inferior e sacudi a cabeça quando ela se aproximou – Está tudo bem, eu estou legal.

Mas eu sei que não estou.

Notas finais
Antes que venham me perguntar, haverá o terror psicológico, mas vou deixar vocês com a pergunta: "qual dos dois vai sofrer mais com o terror psicológico?", por mais que seja óbvia a resposta... Vou pedir que divulguem a história! (é muita cara de pau?) Se houverem novos leitores depois que eu voltar da temporada de hiatus, os capítulos podem sair mais rápido e vocês poderão se ver livres de mim mais rápido também ~porém não dsaçljd~ Mandem sugestões pelos comentários! Allons-y!