Drive By | hiatus |
15 14. Libertação
Notas iniciais
O estalar do metal é o que me acorda; o corpo dela está entrelaçado ao meu como se precisasse, como se dependesse do pouco calor que ainda possuo. E, na verdade, eu acredito que dependa. Aperto o corpo dela contra o meu mais uma vez, percebendo a temperatura baixa de sua pele; seu corpo parece fraco demais e ela está tão pálida quanto um cadáver. Olhos animalescos nos observam das sombras e, com meus instintos protetores elevados ao máximo, eu os encaro de volta, escondendo o máximo do corpo dela com os braços.
Meu coração parece estar preso na garganta e, agora, meus pulmões queimam, impossibilitando o total funcionamento de todos os meus sentidos; lentamente, o homem se aproxima de nós e eu aperto o corpo dela contra o meu com um pouco mais de força, protegendo-a em meus braços. O corpo dele é, em todo, musculoso e poderia arrebentar o meu corpo em dois com um simples toque, não duvido. Porém, contrariando o que imaginei que faria, ele toca as grades enferrujadas da jaula na qual somos mantidos cativos; um copo de plástico fica de pé à nossa frente em questões de milissegundos e eu inclino o corpo para pegá-lo.
Toco os lábios dela com o indicador e o polegar e, lentamente, suas pálpebras tremulam, abrindo-se com sonolência, mostrando as pupilas escuras e dilatadas e os verdes, agora sem vida. Ela abre a boca ao sentir o plástico fino tocando seus lábios e eu inclino o copo, deixando que o líquido desça pela sua garganta; seus olhos voltam a se fechar e ela toca meu pulso enquanto engole a bebida incolor.
– Posso retirá-los daqui – ouço a voz ecoando no espaço de metal e acabo encolhendo os ombros – Mas vocês terão que ser espertos.
– Quem é você? – eu pergunto, ajeitando o corpo dela sobre o meu, escondendo-a como posso debaixo dos meus braços – Por que quer nos ajudar?
– Porque eu estou em dívida com seus pais – ele explica, olhando para ela, que ainda bebe a água, sugando cada gotinha que sobrou – Eu devo algo aos pais dela e agora tenho a chance de pagar.
– E por que deveríamos confiar no que diz? – cuspo sobre ele.
– Porque eu conheço Katherine desde que era apenas um bebê – ele sorri sugestivamente para ela, que enrijece debaixo dos meus braços – Cerejas e creme, seu sabor predileto.
– Qualquer um poderia ter acesso à essa informação – retruco – Diga algo que seja realmente sigiloso, que ninguém saiba.
– O bonequinho de madeira – ele olha para ela e, lentamente, ela vira a cabeça para encará-lo – Como eu poderia saber disso, Katie?
– Como você pretende nos ajudar? – ela engole em seco; aliso os cabelos sujos dela e beijo sua testa suja – Tem algum plano do tipo Missão Impossível?
– Melhor que isso – ele pisca, olhando ao redor e encaixando uma chave de prata na fechadura da jaula – Já arrumei algumas roupas do lado de fora para vestirem; não posso afirmar que vão servir como luvas, mas creio que vão caber.
Lentamente, ele vai empurrando a porta enferrujada, tomando cuidado para que não ranja; começo a me colocar de pé e ajudo Kate a fazer o mesmo. Ela se esconde atrás de mim, cobrindo o corpo desnudo com o meu próprio; seus braços envolvem a minha cintura e eu toco seus braços por cima do meu tórax.
– Sequer sabemos seu nome – Kate reclama e vejo um sorriso aparecendo nas feições dele.
– Roy – ele solta um suspiro – Provavelmente me conhece pelo sobrenome. Roy Montgomery, lembra-se?
– Lembro-me de ter tido um tipo de babá com o sobrenome de Montgomery – ela coça a cabeça – Obrigada.
Ele não responde, só volta a trancar a jaula e nos separa, explicando que há detector de movimentos e, quanto mais massa, mais seremos notados, então é melhor que estejamos separados. Mesmo contrariado, solto o corpo dela e começo a seguir o homem, desconfortável com a minha nudez e, quando ele desvia o olhar para mim, cubro minha genitália com as mãos, percebendo o movimento de Kate para trás de mim com o canto dos olhos.
Os cantos dos lábios dele repuxam para cima quando ele nos entrega dois bolos de roupas; pego um deles e o passo para Kate, que espera até que eu tenha o meu em mãos para começar a se vestir. Visto as calças largas e a blusa onde dariam três de mim e olho para ela, que usa roupas que a engolem por inteiro; passo meus braços ao redor dela e puxo seu corpo para perto, beijando sua testa mais uma vez.
Nós vamos sair daqui e eu estou feliz por isso.
Ele puxa a maçaneta da porta e olha ao redor da sala seguinte, fazendo um sinal afirmativo para que comecemos a segui-lo. Deixo que ela vá na frente porque quero ver que ela está bem, que nos acompanha e que não vai ser deixada para trás; Roy nos guia por inúmeros corredores mal iluminados até que chegamos num beco escuro. Kate hesita antes de sair e eu envolvo sua cintura com o braço, dando a ela o apoio que precisa para finalmente se ver livre daquela prisão de metal.
– Estão livres – ele quase sorri – Sugiro que vão à delegacia; é daqui a alguns metros, talvez uns duzentos ou quinhentos.
– Obrigado – eu dou tapas em suas costas – E eu realmente tenho a intenção; obrigado de verdade.
– Obrigada – ela sorri, ajeitando os cabelos sujos atrás da orelha.
– Corram – ele enrijece o corpo – Corram!
E, sem pensar, eu tomo a mão dela na minha e nós começamos a correr para qualquer lugar; ao longe, ouço o som de tiros ecoando, mas nós não paramos; não podemos.
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