Drive By | hiatus |
11 10. Locais Inapropriados e Comida Italiana
Notas iniciais
Os olhos revelam verdades que nem mesmo o tempo apaga.
–Nocivo Shomo
Em algum fragmento do caminho, ela adormeceu ao meu lado, ma não me importo em carregá-la para o meu quarto. Dirijo com lentidão, sem me importar com rapidez ou velocidade; de vez em quando desvio o olhar da estrada para ela. A testa está encostada na janela, por onde escorrem algumas gotículas de água da garoa que já começou a cair.
Seus braços envolvem seu próprio corpo e sua respiração congestionada. Há uma enorme trilha de lágrimas secando em suas bochechas arranhadas e eu sempre tenho que conter o impulso de esticar o braço para secá-las eu mesmo.
Estaciono o carro e abro a porta, tentando não fazer barulho, mas não consigo e viro o pescoço para olhá-la. As pálpebras tremulam e o nariz se contorce antes que eu possa ver as íris verdes das quais fui tornado cativo.
– Já chegamos? – ela questiona de nariz torcido – Quanto tempo eu dormi?
– Algumas horas – dou de ombros e começo a contornar o carro.
Ela, antecipada como me recordo, já abriu a porta e começa a sair do carro. Coloco-me posicionado ao lado dela e espero que fique de pé. Ela fecha a porta e começa a caminhar; seus passos são curtos e hesitantes e ela se apoia em mim para ficar de pé num lugar fixo. Quando tenta dar um passo maior para frente sem que eu a ajude, ela cambaleia e eu solto uma risada.
– Não tem graça – ela reclama, coçando os olhos.
Puta que pariu, ela parece uma criança!
– Posso segurá-la no colo? – peço.
– Não – ela diz, mas já estou passando um braço por baixo de suas pernas – Eu não sou uma inválida, sabia?
– Sei disso – ajeito seu corpo em meus braços – Mas isso não significa que não possa aceitar alguma ajuda ou um mimo de vez em quando.
Um sorriso rasga seu rosto e ela enlaça meu pescoço com os braços; quando chegamos à porta, porém, tenho que colocá-la no chão para que possamos entrar em casa, mas não me vejo fazendo isso. Pensando como eu, ela retira um dos braços de meu pescoço e começa a tatear meus bolsos desajeitadamente à procura do molho de chaves.
Ouço o tintinar do metal e abro um sorriso quando ela tenta encaixar a chave certa na fechadura. Auxilio seus movimentos horários por dentro do metal e ouço o latido de Royal assim que a porta destranca. Rapidamente, ela puxa a chave de volta e coloca-a sobre si, voltando a envolver meu pescoço com os braços.
Contrariando minhas inúmeras ideias e teorias, Royal senta no chão quando olha para Katherine semiadormecida em meus braços. Faço uma nota mental para lembrar-me de dar um petisco a ele mais tarde.
Subo as escadas e coloco-a sobre a cama, observando como seu corpo toma conta de todo o colchão; não consigo evitar a risada que rasga minha garganta.
– Espaçosa – sussurro antes de voltar a descer as escadas.
Royal faz festinha nas minhas pernas assim que me apoio sobre os dois pés no carpete sujo. Acaricio suas orelhas e suas costas, sentindo o pelo dourado correndo pelos dedos. Por um momento, penso na infelicidade que estaríamos os dois vivendo se eu não tivesse pensado em voltar para procurá-la.
– Fui um idiota deixando-a ir embora, não fui, garoto? – pergunto, ainda bagunçando seus pelos – Eu sei que também está feliz por ela estar aqui…
Em resposta, ele joga a cabeça para trás e uiva com vontade. O impulso de um sorriso rasgando meu rosto é maior que minha força de vontade para controlá-lo, então deixo que transpareça; ouço os passos no andar de cima, mas imagino que sejam só frutos da minha imaginação.
– Conversam muito alto, vocês dois – ela reclama de cima e estico o pescoço para olhá-la.
Os cabelos escuros emolduram o rosto, os olhos verdes parecem mais claros do que me recordava, mas continuam lindos. Há um sorriso imenso em seu rosto quando ela começa a descer as escadas e eu contenho o impulso de ajeitar seus cabelos atrás das orelhas.
E, puta que pariu, ela é lindíssima.
– Estavam falando de mim – ela afirma, coçando os olhos – Desculpe por ter bisbilhotado a conversa dos meninos.
Rapidamente e, antes que eu possa responder, ela se ajoelha no chão para receber o enorme Golden Retriever nos braços. Ela acaricia seu pescoço e suas costas, caindo para trás quando ele começa a lamber seu rosto e lambuzar seus fios desgrenhados de saliva canina. Sua risada me consome e eu não posso deixar de sorrir com aquela cena. Há tão pouco tempo, eu nunca mais queria vê-la, mas, agora, sinto como se esse fosse meu único propósito de viver.
Ajoelho-me no chão para retirar Royal de cima dela e ouço seus agradecimentos quando faço isso, ajeitando o enorme cachorro no colo e levando-o para a área de serviço. Quando volto, ouço o chiado do fogão e encaro a panela. Há algo como massa lá dentro, mas não consigo identificar o que seja.
– Kate? – eu acabo chamando por apelido.
– Na despensa – ela diz e eu começo a andar até lá.
Consigo me enfiar dentro do pequeno armário e observo seu corpo se contorcendo para pegar uma lata de molho de tomate. Ela me lança um sorriso quando me vê lá dentro e, de repente, deposita a lata que conquistou com tanto esforço numa prateleira qualquer e envolve meu pescoço com os braços, acariciando meus cabelos com as pontas dos dedos. Sem pensar em qualquer outra coisa, eu envolvo sua cintura e grudo seu corpo ao meu; ela fecha os olhos com o contato repentino e então estica o pescoço e abre os olhos, revelando os verdes mais escuros.
Que meu santo me ajude, porque não acho que duro mais alguns dias perto dela sem controlar meus instintos.
– Me beije – ela pede e eu não penso duas vezes.
Inclino o corpo, por consequência, acabo inclinando o dela também, e capturo seus lábios com os meus, pressionando-os de leve. Por um momento, quero que seja como os beijos que já trocamos, mas então começo a me lembrar – e imaginar – das cenas que ela passou no dia de hoje e resolvo fazer como um beijo adolescente; continuo pressionando e roçando meus lábios nos dela, mas sem nenhum outro contato.
– Não é um local apropriado – eu rio quando ela tenta aprofundar o beijo.
– Fizemos coisas inapropriadas numa ópera, pelo amor de… – ela começa, mas eu volto a pressionar seus lábios com os meus e ela aperta a pele do meu pescoço –… Deus…
– Vai queimar – encosto minha testa na dela e ouço uma risada abafada.
POV Katherine/Cherrypie
Meus lábios formigam enquanto mexo a colher de madeira na água fervente, misturando os fiapos de massa que insistem em se misturar e contorcer em posições que desafiam as leis da física. Richard abriu a lata de molho para mim porque me julguei fraca demais para fazê-lo e, apesar de me incentivar bastante, ele sabe que não tenho força para sequer abrir uma lata de molho.
Quando sinto que já está amolecendo, cato um garfo qualquer de dentro da gaveta e tento pegar alguns fios fujões. Assim que consigo, chio para atrair sua atenção e estendo o talher a ele, que sorri e inspira, conseguindo guiar o macarrão para dentro da boca.
– Amoleceu? – pergunto e posso ver sua sobrancelha se erguendo; logo percebo a ambiguidade que só a mente poluída dele poderia perceber – A massa, seu idiota!
– Estava brincando – ele ri, apoiando o rosto nos cotovelos – Já parece bom o suficiente para colocarmos no molho. Deixe que eu termino isso.
Como conheço bem o temperamento dele, deixo que tome meu lugar na cozinha e me sento sobre o balcão. Ele pega a panela com cuidado e derrama toda a água fervente e o macarrão sobre o escorredor, mas não é nisso que estou focando a minha atenção. Não que eu não tenha percebido isso antes, mas ele parece ter feito bastante exercícios físicos enquanto estávamos separados, porque seus músculos, de alguma forma, parecem maiores.
Quando ele volta a olhar para mim, nossos olhares se cruzam e eu começo a sentir as bochechas queimando quando ele se posiciona entre as minhas pernas, puxando meu pescoço para que nossos lábios se aproximem. Ele roça a boca na minha e eu envolvo seu pescoço com os braços e enlaço minhas pernas em sua cintura, impedindo que vá embora.
– É melhor pararmos – ele pede entre beijos –… porque senão eu não vou me controlar.
– Não quero que se controle – sussurro em seu ouvido, separando nossos lábios rapidamente.
– Não faça isso – ele pede, apertando minhas coxas – Não faça isso porque você ainda não me viu quando me descontrolo.
– Eu quero ver – sussurro – Por favor, mostre-me.
Com agilidade e sem que eu possa reagir, ele segura a gola do uniforme e o rasga; solto um grito surpreso, mas não me incomodo de me cobrir, porque não há nada ali que ele já não tenha visto, de qualquer forma. Seus dedos seguram as alças do sutiã e, antes de retirá-lo, ele olha para mim, procurando obter minha concessão para o que estamos prestes a fazer.
Balanço a cabeça com rapidez, rezando para que ele não dê para trás antes que tudo termine… olho em seus olhos e vejo as íris azuladas começando a escurecer; seguro em seus cabelos e os puxo para cima quando seus dedos tocam meus seios por cima do tecido. Ouço uma risada baixa vinda dele e quero socá-lo por estar me torturando.
Porém, com maior agilidade, ele retira o que ainda me resta de roupa e ajoelha; prendo a respiração e jogo a cabeça para trás ao sentir seus dedos e sua língua trabalhando dentro de mim como se nada tivesse acontecido. Fecho os olhos com força e solto gemidos intercalados, porém altíssimos.
– Não faça isso – eu peço num grunhido alto – Por favor, pare com isso!
Automaticamente, os movimentos param e ele retira os dedos de dentro de mim, fazendo-me choramingar pela perda do contato. Seus olhos não demoram muito a estarem na mesma altura dos meus e, quando percebo o sorriso malicioso rasgando seu rosto é que percebo que não vamos terminar aquilo tão cedo.
Olho para o escorredor com a massa já fria e então, rolo os olhos de volta para ele, certa do que desejo agora. Meu coração palpita no peito e eu seria maluca se deixasse tudo de lado agora, certeza absoluta!
Volto a enlaçar seus quadris com as pernas e seu pescoço com os braços; ele ri e me põe no colo, subindo as escadas com rapidez. Escondo o rosto em seu pescoço, recusando-me a soltá-lo quando sinto o tecido gelado do lençol. As mãos dele soltam minha cintura e eu ouço o som de seu cinto sendo desafivelado; o sangue pulsa com violência em meus ouvidos e eu já nem sei como se respira.
Sem conseguir forçar minhas pernas contra os ossos de seus quadris, eu acabo abrindo as pernas para soltá-lo; ele ri enquanto as calças deslizam pela perna, caindo aos seus pés. Já não há sapatos e muito menos uma blusa, deixando-me com a visão que tanto senti falta. Lentamente e com uma pose provocativa, ele sobe na cama mais uma vez, ficando entre as minhas pernas, deixando-me exposta.
– Não quero que seja selvagem – ele sussurra em meu ouvido, prendendo o lóbulo entre seus dentes – Quero que façamos como nunca fizemos antes, nem entre nós e nem com mais ninguém.
– Faça o que quiser – eu peço, jogando a cabeça para trás quando suas mãos passam por cima da pele fria dos meus seios, que enrijecem com o toque repentino – Céus, não me torture…
– Me responda uma coisa, e nós podemos começar – ele volta a sussurrar, brincando com um dos meus mamilos, balançando os dedos sobre ele e pinçando-o entre o indicador e o polegar – O que nós vamos fazer aqui é simplesmente sexo, ou pode ser considerado amor?
– Um pouco dos dois – gemo –… acho.
– Resposta correta – ele aumenta o tom de voz e solta meus seios para segurar meu rosto entre suas mãos, pressionando seus lábios com força sobre os meus.
Antes de enlaçar seu pescoço com as mãos, eu faço o trabalho que ele demoraria algum tempo para fazer, deslizando o tecido da cueca justa pelas coxas, deixando-a pertíssimo dos joelhos; ele ri quando nos separamos e se levanta, retirando o tecido por si só, e é então que vejo a enorme ereção que não tinha sentido antes, por incrível que pareça.
Meu coração parece estar subindo pela garganta e eu não consigo pensar quando ele volta para cima de mim. Os olhos dele se fixam nos meus enquanto ele desliza para dentro de mim e, assim que entra por inteiro, fecho os olhos e deixo o longo grunhido escapar. Sinto seus lábios em minha testa e suas mãos alisando meus cabelos, ajeitando os fios fujões atrás da orelha.
– Olhe para mim – ele pede, traçando beijos pelo meu rosto, contornando os lábios e eu obedeço – Quero que olhemos nos olhos hoje.
– Mova-se – peço, porque, apesar de estar completamente preenchida, não aguento a tortura de não sentir seus movimentos – Por favor…
– Seu desejo é uma ordem – ele ri, beijando meus lábios enquanto sai deliberadamente lento de dentro de mim e, quando percebo, ele já voltou para onde estava antes, e depois sai, e depois entra, e ficamos assim por algum tempo.
Em algum momento, não consigo conter o revirar dos olhos e fechá-los se torna inevitável; ele geme quando arranho suas costas, puxando seu pescoço para que nossos rostos fiquem na mesma altura e, quando abro os olhos mais uma vez, ele sorri para mim, movimentando-se cada vez um pouco mais rápido.
Puxo seus cabelos para os lados e para cima, ciente de que posso arrancá-los se fizer um pouco mais de força, mas é impossível não fazê-lo quando os movimentos de vai e vem se tornam mais frequentes, mais fortes e rápidos. Grito seu nome quando começo a sentir as contrações no baixo ventre e posso ver um sorriso transparecendo em sua face.
– Olhe para mim, não importa o que esteja sentindo – ele pede, voltando a velocidade original; mordo o lábio inferior com força e ergo os quadris, querendo a velocidade anterior, a velocidade que eu gosto.
– Por favor… – choramingo, passando os dedos pelos cabelos castanhos macios – Por favor, não faça isso…!
– Não fazer o quê? – ele estoca com força e eu reviro os olhos, gritando mais uma vez – Me diga o que você quer e como você quer.
– Eu quero você – respondo, abrindo os olhos para encará-lo; há um misto de prazer e felicidade em sua expressão – Quero que façamos rápido… rápido e forte!
E, sem hesitar nem por um segundo, ele começa a aumentar a velocidade e a força dos movimentos. O som do bate-bate molhado dos nossos núcleos começa a me fazer fechar os olhos, mas então lembro do que ele havia me pedido e forço a mim mesma a ficar com eles abertos para que ele veja cada expressão minha, apesar de achar até um pouco bizarro.
Pouquíssimo tempo depois, eu jogo a cabeça para trás e puxo seus cabelos com os dedos dobrados, gritando seu nome mais uma vez e, em seguida, ele faz o mesmo, gritando o meu nome e descansando a cabeça no vão de meu pescoço, mas sem sair de dentro de mim.
/POV Katherine/Cherrypie
Só saio de dentro dela quando meus joelhos começam a fraquejar; ela choraminga pela perda do contato, mas deito de costas no colchão e puxo seu corpo para cima do meu, cobrindo-a com os meus braços. Beijo sua testa e olho em seus olhos, vendo um tipo de brilho que nunca havia visto antes.
– Gostou? – pergunto, ajeitando os fios de cabelo rebeldes.
– Não gostei – ela semicerra os olhos e eu estico o pescoço para olhá-la direito, então, um fragmento de sorriso começa a transparecer em seu rosto – Eu amei. Mas…
Ajeito o corpo na cama, afrouxando os braços ao redor dela, vendo um quê de dúvida em seu rosto.
–… por que você sempre pede que eu olhe em seus olhos enquanto… – as bochechas dela coram furiosamente.
– Porque os olhos revelam verdades que nem mesmo o tempo apaga – sorrio, acariciando suas bochechas com os polegares.
– Olhar nos olhos também pode ser muito perigoso – ela suspira, olhando fixamente para meus lábios – Porque os olhos revelam muita coisa, talvez até coisas que não queremos saber.
– Mas eu quero saber – aproximo nossos lábios e vejo seus olhos se fecharem com a proximidade – Eu quero saber tudo sobre você, eu quero descobrir mais coisas sobre você para que possa tê-la de corpo e alma, sem divergências.
– Não temos divergências – ela ri baixinho – Me beije.
Sem pensar duas vezes, eu faço isso e, sinceramente, esse foi o melhor de todos até agora porque agora eu sei que ela pertence a mim. Porque agora eu sei que nós dois estamos juntos e nada pode nos separar.
Não conheço ninguém que seja tão cabeça dura quanto nós dois e nada pode nos separar pelo simples fato de sermos nós.
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