Dream's Place

40 O Coração da Médica


O sábado chegara. A madrugada estava fria, mas Kuzaru não estava sentindo essa temperatura nem um pouco. Kuzaru estava treinando violentamente. As correntes que estavam amarradas em sua perna ferviam. A atmosfera explodia a cada chute do garoto. Seu pai observava de longe – Então ele descobriu os poderes – refletia Hachiro. O mestre sorriu e deitou-se em sua cama. Ele virou-se para o lado e disse baixo:

– Misaki teria orgulho.

As explosões continuavam incandescentes dentro do obscuro dojo. Kuzaru estava focado em seu treinamento. Mesmo com suas pernas pesando, ele continuava dando chutes altos de maneira esplêndida. Depois de mais alguns chutes, o ruivo caiu cansado. Ele olhou para a perna. Ela estava completamente queimada. Ele puxou uma respiração mais forte e deixou escapar um pequeno "ai". Ele suspirou e refletiu:

– Claro que teria efeitos colaterais... O que eu estou pensando que sou? – ele levantou-se com dificuldade – É melhor eu ir descansar – o garoto foi desamarrar as correntes de suas pernas e quando as tocou, percebeu que estas estavam fervendo. Ele soltou-as – É melhor eu tentar esfriar essas correntes.

Kuzaru saiu do dojo e foi até uma torneira que havia do lado de fora dele. A água derramava nas correntes, que exalavam muita fumaça ao toque do líquido. Kuzaru olhava pra toda aquela fumaça e começou a estalar os dedos. Pequenas explosões eram feitas enquanto ele estalava e ele começou a se distrair com aquilo e fez com que ele esquecesse a dor na perna.

Noutro lugar da cidade, treinavam Edward e Tankeno na praça próxima a casa do moreno. Murphy treinava seus socos em uma árvore e Tank tentava concentrar o poder de suas células para que não perdesse o controle. A concentração de Oyahashi parecia inabalável. Ele deixava o poder liberar enquanto concentrava-se, tentando deixá-lo recluso. Parecia estar fazendo algum efeito, afinal a aura de coloração azul que se formava por toda sua pele estava voltando a se infiltrar sem descontrole, porém o ritmo dessa volta ainda era lento.

Edward dava socos fortes na árvore. Mesmo apenas sendo algo imóvel, a habilidade como pugilista do garoto era indiscutível. Enquanto ele golpeava a planta lembrava-se do que Balboh o tinha dito, que sabia sobre o que ele estava passando. Ele viu que o azulado era um bom homem, mas ainda estava preocupado, já que por mais que ele não quisesse, Kusaribe estava do lado de seu pai. Ele estava tão distraído pensando nessas coisas, que não percebeu que seus socos estavam fortes demais. Sua luva havia rasgado e suas mãos estavam sangrando. Ele olha para aquilo e, mesmo que parecesse improvável pra situação, sorri.

Voltando a casa dos Natsumoto, Kuzaru já estava deitado em sua cama, porém não dormia ainda. Ele olhava pra cima e continuava estalando os dedos e criando pequenas combustões no ar. Enquanto fazia isso, falava para apenas ele ouvir:

– Talvez eu devesse usar mais as mãos – ele acerta dois socos no ar, fazendo com que pequenas explosões se projetassem próximo ao teto – Vixe! Tenho que aprender a controlar golpes com as mãos também! – ele fica olhando para a fumaça criada pelas explosões por um tempo e logo após vira de lado na cama – Eu estou poluindo mais que uma fábrica! – ele dá uma leve risada e tenta dormir.

No parque, Morpheu já tinha se retirado, porém Tankeno continuava concentradíssimo em controlar seu poder. Seu estado parecia o de pura meditação, mesmo assim, sua aura epitelial continuava instável. Ele decidiu forçar um pouco mais o poder, fazendo com que o mesmo tomasse uma proporção bem maior e destruísse o chão ao seu redor. Ele abre os olhos furioso e explode com ainda mais poder. No momento que o seu poder parece estar começando a ficar descontrolado, é acertado por esferas laranjas, fazendo que no mesmo momento o moreno caia no chão e perca seus poderes. Quando ele retoma sua leve perca de consciência vê a figura embaçada de uma mulher à sua frente. Ele balança um pouco sua cabeça, mas antes de reconhecê-la ouve a voz:

– Realmente as células organismo parecem ser as mais difíceis de se controlar – era a voz de Samantha. Ela ainda estava com seu jaleco branco e grandes saltos altos pretos. Seu olhar não era aquele sedutor que costumava lançar quando via Oyahashi, mas sim um de certa preocupação. Tankeno ao perceber que era a mulher, disse:

– O que está fazendo aqui, doutora?

– Hoje não precisei ficar no hospital até mais tarde... Me disseram que sua casa era por aqui – a azulada estava meio envergonhada.

– Hum... Mas o que iria fazer na minha casa? – ele disse enquanto se levantava e batia as mãos em suas roupas para limpar a sujeira. A mulher, envergonhada, respondeu:

– B-bom... É que imaginei que você estaria treinando mesmo e queria lhe ajudar com o que eu pudesse, he... he!

– Ah... faz sentido – o garoto abre um leve sorriso – Mas já encerrei por hoje. To precisando descansar.

– S-sim, mas tudo bem. Queria apenas conversar com você sobre – ela olha para os lados – Vamos nos sentar naquele banco.

– Tudo bem...

Os dois vão até o banco e sentam-se. No primeiro momento permanece apenas o silêncio. Os dois ficaram apenas observando a paisagem ao redor. Tankeno então para e olha para o rosto de Samantha, que parecia bastante distraída. Ele então fala:

– Então... que você queria falar? – A garota Boulevard vira rapidamente o rosto para o moreno e nesse momento seus lábios ficam bastante perto um do outro. Os dois coram na mesma hora. Tankeno olha pro lado coçando a cabeça e ela dá uma leve olhada para o chão, mas logo levanta a cabeça e diz com seu tom suave e músico:

– É que... eu estava lembrando. Eu te conheci aqui... – ela deixa escapar um pequeno sorriso – Me desculpe por aquilo, estava tentando dar uma de garota má.

– A-ah, não, tudo bem. Eu tenho que lhe agradecer por aquilo. Eu sei que o Taisei é seu amigo, mas ele realmente estava tentando me matar com aquilo.

– Realmente ele é bastante descontrolado e sim, ele iria te matar mesmo se eu não chegasse! – ela olha de uma maneira assustadora para o moreno, fazendo com que realmente ele se assustasse. Ela começa a deixar escapar risadas e logo ri de maneira alta e entoante. Ela continua a falar ainda rindo – Sua cara foi muito engraçada! Ele não iria te matar! Aquele jeito que ele tem é só pra colocar medo. Única coisa que ele ataca são plantas, mas não por diversão, ele deve ter seus motivos pra isso. É quase um vegetariano.

– Ah... Ha, ha – ele deixa escapar uma risada sem graça após o susto.

Os dois sorriem um pro outro e logo após seus olhares se encontram de forma profunda. Os olhos dos dois tinha um certo brilho e eles aproximavam cada vez mais seus rostos. Nenhum deles estava com pensamentos diferentes naquela hora, era apenas o instinto que tomava conta. Eles iam se beijar sem dúvidas. Quando finalmente seu lábios deram um leve toque, ouviu-se um grito que fez os dois se desaproximarem. Era Morpheu, que chamava pelo nome de Tank. Os dois tiraram o olhos do outro e Samantha disse:

– Desculpe, está tarde. Amanhã vá na escola que eu estarei lá e lhe digo o que eu tinha pra falar. Boa noite! – a mulher pega sua bolsa e vai embora sem olhar pra trás. Samantha estava totalmente corada e pensava: "Ele é apenas um garoto e eu sou uma mulher. O que eu estou fazendo?". Ela apressou o passo voltando pra direção de onde viera. Oyahashi apenas a observava até a perder de vista. Quando finalmente não pôde mais vê-la, gritou em resposta para o amigo:

– Estou indo, Murphy!