Dream and Destiny
3 Capítulo 3 - Verdades
O despertador ecoava pela 3° vez no quarto escuro de Roma. Seu corpo pesado pelo sono e dores do treino de ontem estava relutante para sair da cama. Os seus olhos verde-musgo focaram-se na janela do lado esquerdo, coberta por cortinas de seda em tom de vermelho. Sua cabeça estava cheia, parecendo que havia bebido um litro de Vodca pura. As batidas na porta silenciavam o barulho do despertador, que parara de tocar pela 4° vez seguida.
–Roma? Levanta, já são 7 horas.
A voz era reconhecível. Era sua irmã mais nova, totalmente agitada, provavelmente por causa do açúcar. Luna abriu a porta do quarto da irmã e abriu as cortinas de vez, causando irritação nas córneas de Roma.
–Sai daqui Luna! — Gritou a irmã, jogando o travesseiro vermelho na irmã.
–Deixa de ser mau humorada! — Berrou Luna, se jogando em cima da irmã e a abraçando: — Hoje você tem aula, e eu tenho também. Vamos!
Roma suspirou e carregou a pequena irmã nos braços, a jogando pra fora do quarto:
–Vou me arrumar. Some.
Batendo a porta na cara dela, Roma andou até o banheiro e se desfez do pijama, indo tomar banho.
A água gelada escorria pelo corpo como um antídoto para os venenos dos segredos que guardava. O fato de gostar de outras garotas também era um dos venenos. E de longe, o mais mortífero de todos. Como sua mãe lhe olharia? Ou melhor, como todos os outros lhe olhariam? Suas chances de ir pra Seleção Norte Americana de futebol feminino iria ser extinta! Seu punho direito fechado atingiu a parede fria do box e ela arfou. Porque o destino gostava de jogar com ela? Era um jogo tão desleal quanto sua lealdade pros seus amigos.
Desligou o chuveiro e andou para fora do box enrolada na toalha. Roma estava decidida a esquecer tudo isso, afinal teria jogo a tarde. Trocou de roupa e desceu pra cozinha para tomar o café da manhã.
Descendo as escadas, Meredith discutia no telefone de uma forma voraz:
–Não me diga como educar nossa filha! Você a abandonou quando soube que ela queria ser jogadora, e não modelo! — Roma ficou de longe, encarando-a preocupada: — Preciso desligar, e não me ligue mais para falar mal de nossa filha.
Roma fechou os olhos quando escutou a batida forte do telefone. Sabia que era seu pai, mas não decidiu falar nada. Beijou a bochecha da mãe e foi embora sem comer.
Seu Alfa Romeo estava estacionado na porta de casa, como sempre deixava. Ao lado do carro, estava Jessica, de braços cruzados encarando-a:
–Você não atendeu minhas ligações?
Roma levou a mão aos próprios cabelos, acariciando-os:
–Eram ligações? Putz, foi mal, Jess.
Jessica revirou os olhos e esperou Roma abrir a porta do carro. Assim que entraram, Jessica ligou o carro e começou a tocar uma música famosa de sua banda favorita, HAIM. Forever sempre fazia lembrá-la de festas animadas com os amigos, e de quando deu seu primeiro beijo lésbico. As sensações eram as mesmas. Los Angeles era a melhor cidade que Roma já esteve, e tinham músicas bem legais. A voz de Danielle Haim ecoava dentro do carro, em conjunto com as vozes de Roma e Jess.
Roma olhou pro lado e viu a treinadora diante do portão da escola junto com as outras garotas. E isso indicava problemas.
–Olha ó, a sapatão chegou com a namoradinha. — Caçoou Alletta, fazendo Charlotte e Dianne rir como duas retardadas.
–Cale-se, Alletta. — Gritou a treinadora, fazendo todo o silêncio reinar de novo. Roma coçou a ponta do nariz e ficou ereta diante da treinadora: — O jogo mudou de horário. É daqui a alguns minutos, ou seja, pegue seu equipamento e vamos logo.
Roma suspirou e sorriu para Dominique, que estava totalmente animada. Sua mochila foi deixada com Jessica e ela estralou os pulsos. Era seu primeiro jogo oficial, e como titular. O time inteiro entrou no ônibus do colégio, e Roma se sentou do lado de Dominique.
–Ansiosa pro jogo? Pois eu estou! Vamos ganhar de 15 a zero em cima das idiotas! — Exclamava Dominique, totalmente competitiva. Roma deu risada e deu alguns tapinhas no ombro dela:
–Calma Dominique! Não subestime nossos adversários.
Dominique fez careta e Roma apenas riu. Depois de Jéssica, Dominique era sua melhor amiga. Ambas eram atacantes, e eram titulares. O Estádio do LA Galaxy ia surgindo, assim como os torcedores. Roma estava concentrada, mas toda sua concentração se foi quando viu Camille aguardando o ônibus parar. Suas bochechas estavam pintadas com um azul e dourado, as cores do time, e Roma ficou corada. Camille era completamente um amorzinho de pessoa. Ao lado dela, Nate, seu namorado. Roma suspirou fortemente e encarou a porta do ônibus, sendo a primeira a sair. Roma não cumprimentou ninguém, exceto Nate e Camille, que estavam animados:
–Boa sorte Roma! — Exclamou Cam, abraçando-a apertado. O coração de Roma palpitou forte, e a voz rouca de Nate a acalmou docemente: — Você consegue, eu sei que consegue.
Dominique abraçou Roma por trás e a puxou:
–Desculpem jovens, mas a estrela do time precisa se concentrar pro jogo.
Roma deu risada e entrou no estádio com o resto do time, indo pro vestiário. Espaçoso, cheio de energéticos e com os uniformes. Roma apenas ficou maravilhada com o que via.
–Atenção meninas, aqui vai a escalação do time. — Roma ficou sentada do lado de Dominique e suspirou ao ouvir Fields continuar: — Goleira será Amber. Zagueiras serão Marion e Elizabeth. Laterais serão Michelle e Alice.
Roma suspirou e passou a mão pelo nariz quando viu o temor nos olhos de Alletta e suas amigas.
–Meio de campo serão Charlotte, Dianne, Victoria e Kimberly. Atacantes, Roma e Dominique. Quero que o time seja ofensivo, mas sem desligar a defesa. Eles vão jogar com a atacante principal deles, então, marcação cerrada, Marion e Elizabeth. Abusem dos contra ataques também, e vamos ganhar essa merda!
As garotas gritaram e foram em direção a saída. Alletta estava enfurecida por não ser titular, e ficou no banco de reservas emburrada. Era a primeira vez que não jogava como titular, e seu ego estava ferido.
Roma e os outros entraram em campo e se aqueceram. Dominique estava completamente ansiosa e encarava o estádio como uma criança encarando doce. Roma apenas dava risada para a amiga ansiosa:
–Não sei o que é melhor, ver Alletta boladona, ou você parecendo uma criança.
–Cala a boca Roma. — Charlotte se intrometeu entre as outras duas, e apontou pro centro do campo: — O Juiz está chamando.
Roma andou até o árbitro da partida e encarou a adversária, de forma totalmente séria. Apertaram as mãos após ser decidido que o LA Galaxy iria começar o jogo, e Roma andou com Dominique até o centro do campo para dar início.
–Vamos lá. — Sussurrou Roma, e o árbitro apitou a partida.
Roma passou a bola para Dominique e correu entre os outros jogadores do Houston Dynamo, se movimentando para não ficar em impedimento. Dominique deixou a bola para Victoria e correu junto a Roma, que recebeu a bola de forma graciosa dos pés de Vic. Roma, ágil, jogou a bola por baixo das pernas de sua marcadora e correu mais rápido que as outras três jogadoras atrás dela, e tocou a bola na frente do gol para Domi, que chutou certeiro no canto. O gol mais rápido fez toda a torcida explodir de felicidade, e a treinadora também. Roma abraçou Dominique, junto com as outras jogadoras e voltaram para seu campo.
O Houston Dynamo deu início ao jogo e começou a trabalhar a bola com habilidade, que deixou Roma boquiaberta. Era aquele o nível de futebol oficial? Victoria foi vencida pela atacante do Houston, mas Charlotte tomou a bola e jogou para Dianne. O LA Galaxy descia rápido no contra ataque, e o ataque ficava mais rápido quando Dominique deixava a bola pra Roma. Duas zagueiras pressionaram a atacante de olhos verde-musgo e ela jogou a bola por cima das duas jogadoras, e cruzou para Dominique, que cabeceou a bola para fora. Dominique gritou de raiva e Roma voltou para ajudar a marcar, mas a defesa estava bem postada. Marion tomou a bola e jogou para a lateral esquerda, para Alice, que saiu correndo puxando outro contra ataque. Alice jogou a bola para Dominique, que deixou para Roma chutar de fora da área e colocar a bola no ângulo, marcando outro gol. Todo o estádio ficava barulhento com a maestria do futebol jovem do LA Galaxy. Roma ouviu o apito do juiz anunciando o fim do primeiro tempo. Indo pro vestiário, Marion dizia, em francês, o quanto estava animada com a beleza do futebol de suas colegas.
–Calem-se, vocês são idiotas. — Gritava Alletta, que chutou a latinha vazia de energético.
–Alletta, seja mais amigável. Olha só como suas colegas de time estão felizes. Estamos ganhando de dois a zero. — Comentou Amber, de forma séria. Fields entrava pela porta do vestiário batendo palmas:
–Vocês jogaram perfeitamente bem. Roma, Dominique, Marion, vocês todas, estão sendo ótimas. Charlotte, Dianne, vocês apareçam mais no jogo. Foquem a marcação, porque se elas estão perdendo por dois a zero, vão por Stacy pra jogar.
Roma engoliu em seco e encarou Dominique, que estava surpresa. Stacy era irmã mais velha de Dominique, cuja pessoa era definida como "vadia perfeccionista."
–Vamos voltar pro jogo. Boa sorte meninas. — Disse a treinadora, guiando as garotas pro campo.
O jogo ia recomeçar, e Dominique estava séria vendo a sua irmã entrando em campo:
–Que vadia. — Sussurrou Domi, fazendo Roma dar risada.
O jogo recomeçou, e Roma viu um time mais ofensivo com Stacy. Aos 5 minutos de jogo, o Houston Dynamon diminuiu, e aos 10 minutos, empatou. Dominique e Roma ficaram assustadas com a ofensiva delas. Eram mais rápidas no ataque, mas ainda estavam lentas em outras partes. Marion subiu com a bola e jogou para Elizabeth, que deu de primeira para Charlotte. A bola era trabalhada no meio de campo com total estudo, mas o ataque não chegava em nada. Bolas nas traves, na goleira, para fora. Roma e Dominique estavam ficando preocupadas. Tinham que ganhar o jogo, não importava como.
Estava faltando 3 minutos pro fim do jogo. Um carrinho atingiu Dominique por trás, e torceu seu tornozelo. Roma levou a mão na boca vendo que quem atingiu fora Stacy, irmã de Dominique.
–Mas que diabos você fez! — Gritou Roma, fechando as mãos. O árbitro da partida chamou os médicos do LA Galaxy e marcou pênalti, expulsando Stacy pela entrada violenta. Roma ficou chorosa. Ver a amiga daquele jeito era de cortar o coração. Alletta entrou no lugar de Domi, mas não seria ela a cobrar o pênalti. Roma estava com a bola nas mãos, encarando a goleira. Todo o estádio ficou mudo. Toda a cabeça de Roma ficou muda. Toda a tristeza, toda a raiva sumia diante da bola. Roma ajeitou a bola no local e chutou levemente a grama antes de analisar aonde chutaria a esfera. O apito do árbitro indicava que Roma poderia já cobrar o pênalti, e ela correu na direção da bola, chutando com toda sua força. A bola foi no canto esquerdo inferior, e todo o estádio vibrou. Roma havia feito o gol da vitória. O jogo terminou para Roma, para o LA Galaxy. 3 a 2 foi o placar final. O time vibrava, mas Roma não esperou se juntar com as outras. Apenas saiu correndo na direção de fora do estádio, e se bateu com Camille:
–Ei! Para aonde está indo? Você não vai comemorar?
Roma estava com os olhos vermelhos, e ela apenas chorou, abraçando fortemente a garota. Roma sentia o peso da dor de Dominique, o peso das verdades que guardavam. Camille encarou os olhos verde-musgo de Roma, e secou suas lágrimas:
–Não engole essa dor toda sozinha. Você tem amigos, não tem?
Roma encarou a menina e silenciou tudo com um beijo calmo. O coração de Roma ficou lento, e toda a tristeza se tornou uma paz alta. Camille retribuía o beijo, e alguém as observaram.
–Roma, o que você está fazendo?
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