Notas iniciais
Bem, essa não é uma história sobre mim, realmente, mas com toda certeza, eu levo o Gigante para um lado pessoal. Gosto muito dele, e da ideia que ele passa. É muito... Agradável. Se quiserem uma música para ouvir enquanto fazem a leitura, eu recomendaria Pálmai Krisztián - Our Secret Gardens ( https://www.youtube.com/watch?v=NMYpegEn5XI ) Boa leitura!

"Diferente do que as pessoas imaginam normalmente, o medo nada mais é do que uma forma de se proteger. Existir, e ter medo, é a coisa mais natural da existência. Um sentido para te alertar sobre tudo o que te cerca, algo que guia as pessoas. O medo da perda impede o impulso de machucar alguém que você gosta. O medo da dor impede que você se machuque. O medo de algo acontecer sem que você possa ver te impede de dormir toda a noite com todas as luzes apagadas. E não é tão ruim sentir medo, diferente do que as pessoas pensam, é um sentimento com dois modos: Onde entramos em desespero e perdemos o controle. E onde temos total controle e usamos de uma maneira benéfica. Medo é, acima de tudo, natural."

Sinceramente, isso tudo me parece, às vezes, uma enorme bobagem. Comecei a escrever sobre minha vida, como se isso fosse de fato me ajudar a manter o controle, mas controlar algo é difícil, ainda mais quando não sabemos exatamente o que fazer. Quando era mais nova, ainda na escola, eu comecei a ter esses problemas sociais, mas nem de longe o que as pessoas consideram ser um anti-social, eu estou falando de um real problema com o qual eu luto diariamente. Eu travava perto das pessoas de uma maneira bem... estranha. Era ruim. Vejo os jovens de hoje em dia bancando os legais sem falar com ninguém, como e ser intocável fosse a melhor coisa do mundo, e tudo o que eu queria quando era mais nova era fazer amizades sem ter medo de tudo o que podia acontecer. Mas para minha infelicidade, eu não tinha controle sobre isso.

E hoje em dia, não mudou tanto. Vamos analisar meu estado atual: estamos falando de um prédio, um complexo de quartos pessoais com vista para outros prédios da mesma espécie, onde poucas pessoas se falam. Não temos tempo, não temos vontade de ter contato uns com os outros. Crescemos, nos mudamos para cá, eu em particular arrumei um emprego onde não preciso sair com constância de casa, e agora vivo assim, feito um rato escondida nas paredes velhas desse lugar. Não existe glamour aqui, não é um conto de fadas. Tem dias que eu deixo de dormir [mesmo que eu realmente não goste de fazer isso] para entregar pilhas de documentos e referências, com uma matéria escrita, revisada e editada, suas fontes, imagens e tudo o que a revista pode querer. Eles me mandam o material, e eu faço o trabalho sujo. E assim, eu não tenho a obrigação de sair todos os dias da minha casa pra fazer algo que não tenho vontade em um lugar do qual não gosto... E também não tenho a obrigação que me ajudaria a vencer o problema de socializar com as pessoas. É uma faca de dois gumes, e eu talvez esteja me machucando muito na brincadeira.

Por fim, quando tudo acabava, eu podia calmamente me deitar em minha cama e ouvir o silêncio que os outros quartos faziam. Isso me consumia, de uma maneira sem escrúpulos, eram horas olhando o teto, onde eu colei adesivos fluorescentes para não me sentir tão sozinha, apesar disso não funcionar como deveria. As vezes, colocar música me trazia a sensação de que eu poderia arrumar tudo aquilo, mas na verdade, eu iria sempre permanecer jogada na cama sentindo o vento estagnado que o ventilador de teto fazia, e desejando ser outra pessoa. Depois de um tempo minha mente se cansava, o suficiente para eu começar a variar de sono, e eis que eu me encontrava em meu pequeno paraíso... Ou algo bem próximo disso, e quando acontecia, não passava por aquele lugar úmido e estranho, não via o escuro que me perseguia todas as noites me trazendo sensações ruins, simplesmente me notava em um lugar aberto para todos os lados, tão grande quanto podem imaginar, e tudo o que existia nele, além do escuro pela falta de luz, era um poste alto adornado de luz amarelada, em volta desse poste havia uma cerca de pedra feita com detalhes, bem talhada, e por fim, banhado pela luz, um banco de madeira que me trazia uma confortável sensação convidativa. Era ali que meus problemas não me atingiriam, e eu podia realmente descansar. O efeito que acontecia e que me dizia que tudo era um sonho, enquanto iluminada pela luz, não existia. Lá não se invertia cores, não se emitia sensações gritantes e muito menos se tinha qualquer tipo de oscilação. Um lugar constante e único, recheado de uma única sensação: Paz.

Um homem, e dessa vez eu podia ver com clareza sua forma, ele era realmente alto, de aproximadamente 3 metros de altura, usava aquele paletó que parecia ter sido tirado de um filme antigo, e seus cabelos me davam inveja, sempre prendidos em um rabo de cavalo bem penteado, eram perfeitos. Este Gigante morava ali, pelo menos diante da minha percepção, era o lugar onde eu sempre poderia o encontrar, não importante a situação. Nunca soube exatamente quem ele era, e isso era algo complicado porque sua face tinha algo difícil de explicar. Não era exata, parecia mudar constantemente, com aquela névoa em seus olhos, que impedia que qualquer um pudesse ver o que se passava em sua mente. Ele é, de longe, o ser mais mágico e cheio de mistérios que já vi em toda minha vida. E por "toda minha vida", eu posso levar pra um lado literal. Eu tenho a sensação de sempre ter sentido a presença dele ao meu redor, mas nunca consegui me lembrar onde eu tinha o visto pela primeira vez. É como se desde que eu passei a existir, ele tivesse nascido comigo, já naquela forma, cuidando de mim sempre que eu precisava. E pode soar bem narcisista, mas isso era realmente agradável.

Diferente dos outros que eu via em meus sonhos, ele não parecia ser algo vindo de mim, mas algo que eu realmente precisava. É um tanto difícil manter as memórias dos sonhos que tenho com ele, mas é como se todo o peso e dor que existe em mim se esvair, e ficasse apenas uma prosperidade imensa em meu peito, e quando eu acordo, depois disso, as manhãs parecem até mesmo atrativas para mim. E só a lembrança da sua voz já era um passo direto para voltar ao controle quando as coisas pareciam horríveis, e a lembrança mais vívida que tenho disso, se resume a sua frase – Ah, mas eu te acompanho até mesmo fora daqui. Sempre fiz isso, desde o berçário, até a sua morte, Querida. Nunca me arrependerei de ter feito essa escolha – E isso sempre vinha seguido de um riso que aqueceria até mesmo os corações de gelo. De longe, a sensação mais agradável que eu sentia nos meus dias. Talvez, de fato, ele tivesse nascido comigo, ou, tivesse me acompanhado desde que nasci. Seja o que for, eu me sinto realmente feliz de poder tê-lo por perto quando tudo parece ruim. Basta me deitar e deixar que isso me aconteça, e toda a que poderia existir em meu peito antes de adormecer virava completa paz percorrendo meu corpo.

A curiosidade me bateu com certa força depois de um tempo, e então comecei a me questionar sobre ele, não que eu quisesse que ele fosse embora, mas com toda certeza sempre quis saber mais sobre as pessoas que alguma vez fizeram bem para mim. Em uma tentativa um tanto quanto... Boba, tentei perguntar até mesmo para o Guardião. Mas isso é o mesmo que eu olhar em um espelho e perguntar algo sobre um assunto do qual não tenho nenhuma forma de conhecimento: O que eu não sei, um reflexo de mim saberá ainda menos. E bem, não preciso dizer que tentar questionar o Escuro sobre qualquer coisa é uma péssima ideia. Mas talvez eu tenha muito eufórica com isso. afinal de contas... Ele próprio me acalmava com a ideia de que, não importasse como, ele sempre estaria comigo. E isso foi para mim, por muito tempo, o maior consolo que eu poderia ter em relação a minha vida.

E então eu acordo, diferente de dias normais, me sentindo melhor, e com vontade de fazer algo bom para mim mesma. Queria, de verdade, que essa sensação durasse mais que um dia. Depois de um tempo eu volto a encarar que estou sozinha em um lugar ruim, fazendo algo pelo qual não tenho amor. Mas todos fazem isso, pelo sucesso. E quem sabe um dia eu possa ter minha chance, não é? A de me desprender dos meus medos e conseguir algo que eu queira muito.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Obrigada por lerem, e semana que vem volto com outro capitulo.