Notas iniciais
Bem, acho que agora eu realmente coloquei emoção na coisa... E acho que seja sobre por emoção, então espero ter atingido meu objetivo. Se quiserem algo para ouvir: Durante a parte mais... Tensa, eu recomendo The Same Deep Water As You, do The Cure. E mais para o fim, diria mais pelo ritmo, uma boa escolha é Pictures of You, também do The Cure. Não se esqueçam de me dar um feedback, adoraria ler a opinião de vocês sobre a história. Tenham uma boa leitura.

“A existência conjunta é necessária, ao menos se você quiser manter uma qualidade de vida com um nível mediano, no mínimo. Por mais que o contato seja pouco, você precisa de outras pessoas para muitas coisas, e isso não importa se são muitas ou poucas pessoas, você ainda precisará. Usemos como exemplo, os átomos, eles estão sempre em dupla, e fazer, em conjunto, tudo o que existe ao nosso redor. Vivemos dessa forma, ajudando uns aos outros, tentando de certa forma equilibrar a balança para os dois lados. Em certos relacionamentos egoístas vemos essa balança de quebrar, e romper tudo o que foi criado por aquelas pessoas, e recomeçarem do zero, as vezes entre si, outras vezes completamente distante uma da outra. É o desejo que temos: Ter alguém constante ao nosso lado, que não falhe conosco para podermos contar em todos os momentos. Desde que nascemos, até nosso último suspiro, temos o anseio que gira em volta da necessidade de outras pessoas para nos guiar e apoiar pela vida."

As férias chegaram, e agora, eu tinha um belíssimo estoque de suprimentos com o qual duraria um mês, sem precisar sair de casa. Dessa forma, havia deixado claro que ficaria o tempo todo sem falar nem um momento com meus contatos. E por que diabos eu fiz isso?! Me senti uma gênia quando fiz isso, parecia uma idéia perfeita, mas eu notei que tenho essa mania, que parece me afetar sempre, é como se eu quisesse me sabotar o tempo todo, me forçando a não sair dessa cúpula que formei a minha volta, e sabendo que aquilo podia se tornar um problema grande, eu continuava fazendo, repetidas vezes, sem me preocupar no momento em que fazia, com as consequências disso. Eu mesma me cansava da minha imprudência, mas coisas que fazia, e ainda assim, tornava a fazer, repetir o mesmo erro inúmeras vezes. Quando bateu o arrependimento, já havia se passado mais ou menos uma semana que estava sozinha, sem sair, somente atualizando minhas séries, livros, filmes, qualquer coisa que me distraísse, e talvez, pegando a parte tóxica de todas essas coisas para mim. Eu me senti afundar nessa coisa ruim com tanta força nesse meio tempo. Sair da cama? Só se for pra ir no banheiro, e havia me feito o favor de posicionar todo o resto ao meu alcance. Frigobar ao lado da cama dividia a tomada com o celular e o notebook, balcão perto da cabeceira onde ficava o microondas e o que não precisa ficar na geladeira. Eu com toda certeza havia planejado um belo design de comodidade pra me tornar completamente sedentária ali.

O ar do meu quarto ficou estagnado com o tempo que mantive a janela fechada. Estava a tanto tempo respirando o mesmo ar que tudo pareceu começar a flutuar, e em certos momentos eu perdia a noção do que os personagens na tela no computador falavam, pareciam distantes demais, e naquele estado já não me importava tanto em não prestar atenção. Não faria sentido mesmo se eu prestasse. Por mais que tivesse feito o estoque, eu mal havia tocado na comida nesses dias que se passaram, o microondas estava parado por bastante tempo, porque eu não queria sair da cama apenas para esquentar comida, queria manter meu corpo debaixo dos cobertores, e comia muitas coisa frias e até mesmo geladas, não faria diferença para mim se estivessem quentes, já tinham perdido o sabor a muito tempo. A insônia vinha com força, e ao mesmo tempo, o sono também, e eu me sentia naquele meio termo, onde eu não adormecia completamente, mas podia sentir, estando quase dormindo, as mãos daquela sombra pressionar meu corpo, junto com o cansaço, eu me sentia desconectada do mundo e presa naquele lugar. Já tinha perdido as contas de quantas alucinações eu tive desde que havia começado aquela rotina mórbida, estava o tempo todo encarando com olhos pesados a minha recaída, perdendo a vontade de estar ciente das coisas ao meu redor. Tomava o celular na mão, e o impulso de ligar pra alguém era enorme, eu queria tanto, mas tanto pedir socorro, e então eu notava que não havia, de fato, alguém pra quem eu quisesse pedir ajuda, eles não pareciam estar dispostos a ajudarem, e eu sentia que se o fizesse, estaria puxando todos comigo para aquele meu estado. Comecei a almejar que algo pudesse me livrar daquilo tudo, uma pessoa que pudesse me ouvir, mesmo que eu não falasse nada, minhas noites eram uma tempestade forte demais para mim, que durava tempo demais, quase interminável. Eu pedi tanto a Deus uma ajuda, e pensei que ele não me ouviria, por ser pequena e problemática demais, talvez ele quisesse me abandonar, e se ouviu ou não, eu não sei, mas com toda certeza, a luz de um anjo me acendeu aquela noite.

Quando fechei meus olhos, e os abri no campo distorcido, eu não precisei olhar em volta para sentir que ele já estava lá, o Escuro, segurando em meus ombros com certa delicadeza, mas quando o medo nos toca, nunca é com a leveza que ele espera, aquilo parecia me forçar para baixo, sentia como se a gravidade daquele lugar tivesse aumentado em números consideráveis o suficiente para meu corpo querer ceder diante de tudo aquilo. Tentei me manter, e juntar forças o suficiente para me virar, apenas para encarar os olhos amarelos, os enormes olhos que devorariam qualquer pessoa. E sabem o que esse homem tem de tão especial? Ele não é um homem, é uma coisa, algo que toma a forma daquilo que você mais teme, e se alimenta do seu desespero, e isso não significa que ele sempre tomará a forma de um bicho papão, afinal eu nunca tive medo dos monstros que estão embaixo da cama, e sim ao meu redor todos os dias, e que eram, de certa forma, impossíveis de se escapar. Não acreditei até então que ele soubesse realmente o que fazia, ele me parecia um animal fazendo o que o instinto mandava, deve ser como quando você encontra e prova drogas pela primeira vez, e o sabor, o efeito sobre seu corpo, é viciante, e seu corpo passa a sempre pedir mais. Isso começa nele, ele quer se alimentar mais e mais de você passando todos os limites, e por outro lado, quando você sente medo e não o controla devidamente, ele te consome, ele toma o controle por você, e vai te puxar para dentro dele, para que você viva naquele estado constantemente, que ao primeiro olhar, para ser um estado de alerta, mas se torna algo horrível. E era essa nossa relação naquele instante, ele estava me engolindo, bebendo da minha vida para existir em mim, enquanto eu estava enrolada em suas raízes, sem fazer força alguma pra sair, pois de certa forma acreditava que isso nunca teria solução. E como essas raízes iam fundo, extremamente fundo, tomando conta do meu peito, do meu coração, do meu ser, partindo minha vida em pedaços e me deixando sem jogadas a fazer, sem notar que estava perdendo, me perdendo.

Ao meu redor, naquele instante, já não havia mais nada além dele e sua sombra ao meu redor, enquanto suas mãos deslizavam sobre meu pescoço, eu me sentia perder todo o meu ar. Aquela sensação era tão... Assustadoramente acolhedora, eu queria tanto sentir aquilo, mas eu me via mergulhada em desespero ao desejar isso. Isso se repetia em loops na minha mente, quase infinitos, eu estive sozinha com ele por muito tempo, desejando isso com força demais, e ele estava ali, me encarando nos olhos, eu não podia fazer, não tinha forças pra realmente tentar, mas experimentaria mil vezes a sensação de estar quase, de estar na ponta do penhasco e não pular, de encostar o copo com veneno nos lábios e nunca virar. Me perguntei se eu poderia perder a consciência dentro do meu próprio sonho. Não tinha mais ar percorrendo meu corpo, meu sangue parecia queimar dentro de mim, ser algo tóxico e horrível, um veneno criado por ele. Criado por mim. E por fim, eu cheguei a perder a noção de quanto tempo estive naquela situação, de quanto aquele sonho durou, de quanto ele me consumiu e me machucou.

Achei que estava, de fato, completamente perdida naquele sentimento, e que não poderia mais sair de lá, presa em meus medos para o resto da minha existência, que sinceramente, naquele meu estado, parecia extremamente curta. Não sei quanto tempo eu fiquei, mas eu não aguentei, não consegui encarar aquilo para sempre, eu pedi socorro uma última vez. Quando me dei conta, o vento quente e confortável esbarrava em meu rosto delicadamente. Não sentia chão sob meus pés, pelo contrário, uma leve pressão confortável se fazia em minhas costas, segura e acolhedora. Eu estava sendo carregada. Nem havia aberto meus olhos, mas sentia a luz que existia naquele lugar, e aquilo acalmava meu peito com uma força grandiosa. Ao olhar ao meu redor, aquele anjo estava ali, me carregando pelos céus róseos. Sua face distante eu já conhecia, era tão limpa e calma, afável. Seus cabelos penteados para trás, trazia uma elegância unicamente dele, que só se completava com o terno de fina costura que eu sempre havia achado lindo. Sentia como se tivesse o desenhado para estar sempre cuidando de mim, da melhor forma possível, e se eu pudesse dizer que ele é um sentimento, eu diria que é esperança. E talvez, eu não sei ao certo, ele realmente fosse.

Seus campos se faziam abaixo de nós, enquanto suas asas faziam um vento forte ao nosso redor, com a grama verde e brilhante sendo iluminada pelo sol que nunca se punha. As nuvens rosadas davam a constante sensação de começo da manhã, ou de fim de tarde, e o cheiro doce me trazia a sensação de estar bem longe do ninho de ratos onde morava, me trazia, na verdade, a ótima sensação de estar de novo na minha infância, quando ia visitar familiares e amigos que moravam nos campos, e tudo era calmo, sem pressão, a sensação que nunca me esqueci, quando não existia pressão, e talvez um dos melhores momentos da minha vida. Sentia agora o tempo passar bem devagar, e ali, naquele lugar, me sentia preencher com vontade de continuar existindo e vivendo com toda minha força.

Nos aproximamos da grandiosa árvore, com grande galhos de madeira escura e torta, cheios de uma folhagem de um verde vivo e brilhante, que parecia até mesmo ter luz própria, ao redor da enorme árvore, bolhas de sabão enorme flutuavam, todas fazendo espectros de luz que traziam ao lugar um ar místico e sereno. Aquele era, de longe, o meu abrigo, onde nada de ruim me atingiria. Pelo menos parecia ser isso, e eu gostava muito de acreditar nisso. Nós pousamos ao pé da árvore, e meu Guardião me deixou no chão, a sua frente, senti a grama fria encostar meus calcanhares, e quis tirar as sapatilhas para sentir aquilo entre meus dedos. Seu olhar iluminado, de pupilas claras que reluziam todas as cores, encaravam meu rosto cansado de lutar, com certa veemência. Ele puxou um lenço de seu bolso para limpar minha face, manchada pelas lágrimas que havia derramado sem nem perceber, e ao terminar, pousou suas mãos sobre meus ombros me puxando para perto de seu peito, e dessa vez, eu não senti desespero, nem pesar. Senti, na verdade, o calor que ele trazia para mim, me renovando, me protegendo. Nos sentamos, por fim, encostados na árvore, sem me soltar nem um momento, ele era egoísta, assim como eu, e queria me manter por perto, e eu não iria recusar isso, não depois de tudo o que me aconteceu.

— Não me importo nem um pouco se isso soar careta. Meu dever é cuidar de você, não te deixar desistir. Não deixar que você seja tomada pela Escuridão, e te ajudar a subir cada vez mais alto, não se esqueça disso, Querida, eu existo apenas para olhar por você – Eu podia sentir o quão suave era sua voz, mesmo que ele nunca falasse de fato. Éramos um só, e eu sabia o que ele queria me dizer, sempre sabia e nunca precisaria gritar por ajuda, pois agora eu tinha algo que me escutaria sem que eu dissesse nem uma palavra. Eu estava agora fechada em seus braços, no lugar mais seguro que eu poderia pedir, e ali, nada me alcançaria.

Eu não me sentei na cama desesperada como fazia sempre, na verdade, eu apenas abri meus olhos, e a luz do sol entrava pela janela. Ainda estava frio, era inverno, mas o sol estava radiante lá fora. Pela primeira vez eu não estava me sentindo completamente quebrada, mesmo sabendo que passaria o dia completamente sozinha. Naquela tarde eu liguei para minha mãe, e combinamos de ir a um jantar. Depois mandei mensagens pra um amigo. Eu queria pedir ajuda, mas precisava antes... Voltar a ser próxima dessas pessoas. Talvez agora eu tivesse força pra isso, pelo menos esperança eu tinha certeza que teria.

Notas finais
Bem, queria avisar sobre os dias que postarei, e a hora: É sempre quinta, então é só passar que vocês acham. Agora a hora... Eu diria pra verificarem a noite. Eu normalmente tento postar de manhã, mas nem sempre dá, então posto mais a noite. Espero que a leitura esteja agradável. Como sempre: Obrigada por lerem, e espero que tenham gostado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.