Dream Fields
1 Escuridão
Notas iniciais
Espero que se divirtam lendo minha obra. Boa leitura!
"Todos os seres no universo, seja ele finito ou não, tem a capacidade para ao menos emitir sinais nervosos para seu corpo, isto é, se está vivo. Alguns seres, que tem mais privilégios, conseguem ter o conforto de entender, ao menos um pouco o que acontece a sua volta, vendo e ouvindo os tons e as expressões. E ainda a outros que tem a capacidade de ser Deus, não um Deus supremo, mas Deus ao que se diz de criar coisas, em sua mente, é claro. Não pense que isso é blasfemar, afinal de contas, se você criar uma pessoa na sua mente, ela provavelmente existe, ao menos para você, e enquanto você permitir, ela estará viva dentro de ti."
É interessante, em como alguns anos atrás eu estava numa situação completamente diferente de agora: Na minha antiga casa, com minha família, talvez tudo tenha começado lá e eu era muito ocupada vivendo aquilo para notar. Quando me dei conta do que estava acontecendo em minha vida, eu tinha acabado de terminar o colégio, e estava indo em direção a minha faculdade. Havia me mudado faziam alguns dias para uma cidade distante da minha família, e trabalhando em casa, criando roteiros, era fácil eu me perder nos horários, tinha de estabelecer a programação para as revistas, e isso levava, em média, muito mais tempo do que vocês possam imaginar, com certeza. Minha casa em si não tem nada de tão interessante, não se preocupem, é apenas um amontoado de caixas, com uma mesa de trabalho, uma cama ao fundo, um microondas e um banheiro. Não existem luxos quando você vive como um rato. A parte do dia que sempre me foi mais interessante, era a noite. Era diferente do resto, era mais calma, eu podia aproveitar parte dela e adiantar meu trabalho, ou me divertir sem me preocupar com os vizinhos de quarto acordados. Podia fazer o que quisesse, pois não era um horário fixo para nada. Bem, nada exceto por dormir. Criamos essa mania, de dormir a noite, somos animais diurnos, e com isso, eu prefiro muito mais estar descansando a noite, do que de dia. E era assim, descansando, que essa história toda começou.
Eu precisava apenas encostar minha cabeça no travesseiro, e aquele lugar se montava diante de mim. Era... Incrível! A primeira vez que me vi lá, foi extremamente normal. Eu tinha uma sensação de afinidade com o lugar, era como se conhecesse ele a muito, mas muito tempo, e talvez, de fato, o fizesse, e não tivesse noção plena disso. Com o chão úmido e brilhante, me lembrando um caleidoscópio obscuro, e o céu opaco que parecia massinha velha, o lugar tinha todos aqueles... Fantasmas. Estavam por toda parte, correndo, dançando, sorrindo, chorando, gritando, fazendo tantas coisas, sempre ali, perdidos, sozinhos no meio de uma multidão gigantesca, um mar de cabeças cinzas e esfumaçadas fazendo o que a sua mente lhe guiava. Estavam todos acima de tudo, sonhando.
Algo me chamou a atenção naquela noite, para uma direção que parecia exatamente a mesma coisa que os outros lados, exceto que aquela em questão tinha um cheiro diferente, um som diferente, não parecia ir infinitamente, parecia conter um segredo. E eu não me sentia totalmente no controle, e fui, sendo guiada por uma sensação, algo que simplesmente tomou meu peito. Quando comecei a caminhar entre os fantasmas, um cheiro se fez no ar, doce e quente, com um leve sabor de manteiga de cacau, era o cheiro do meu quarto, e eu conhecia bem. Enquanto eu caminhava, tudo ficava escuro a minha volta, aquela cena sem sentido se deformava, se tornando uma imensidão vazia. Lá estava eu, pela primeira consciênte naquele enorme vazio, encarando o nada que existia dentro de mim. Bem filosófico, eu sei. Mas era isso, no literal. Eu me senti dentro do meu ser, vendo a parte mais profunda de mim.
E estar lá, naquele lugar em questão, naquele momento, era como estar no lugar que eu mais conhecia... Até tudo começar a ficar estranho. Não era mais tão quente, e nem tão agradável. Era ainda mais vazio agora, um vazio que não parecia mais me representar, e sim a outra coisa, outro ser. Foi então que aquela sensação me veio como onda, e eu me toquei que não era meu quarto, eu não estava na minha casa, e nem perto disso, não teria luz ao meu lado a ser acesa, e nem cama a se deitar. Eu olhei em volta, e procurei, procurei em mim, e todos os outros lugares, mesmo sem saber o que exatamente procurava. A única coisa que notei, foi que ao invés de vermelho escuro, meu cabelo estava em um tom de verde azulado claro, e meu vestido, que normalmente era preto, estava branco cintilante.
Sabe a sensação de ter algo te seguindo? De uma coisa grande atrás de você? Aquela sensação que alimenta um medo incontrolável e insano? Foi isso que senti, quase me afogando. E me veio aquela ideia sem sentido, no momento, se aquilo tudo era real. Não, não podia ser, era... Bizarro demais. Eu devia, com toda certeza estar sonhando. E então veio essa noção, eu não estava sozinha, pelo contrário, aquilo estava me guiando o tempo todo, aquela enorme sombra, fria e distante. Por algum motivo, me vinha a vontade de estar com ela, e ao mesmo tempo, de ser livre dela. Ela se formava, mesmo que eu não pudesse de fato ver, ela se erguia em minha volta, e eu podia sentir. Ela era o diabo, trajando escuridão apenas para brincar com minha mente, e quanto mais crescia, eu podia ver que eu queria muito entrar em seu jogo, mesmo sendo a coisa mais idiota que eu podia fazer. A ideia de não ser algo vindo de mim se quebrou naquele instante, quando eu encarei aquela sombra. Era um reflexo meu, talvez? Eu não tinha certeza, mas parecia vir de dentro de mim, ser algo que eu havia criado. Eu criei um monstro naquela noite, um enorme monstro de olhos amarelos e e sorriso frio. E por algum motivo, aquilo me abraçou de uma forma tão... Carinhosa. Eu estava envolvida, como se fosse ser seguro ali. E talvez fosse, eu representava nada mais e nada menos que a vida daquilo. Mas sabe de uma coisa? Ele não se importava, nem um pouco.
E esse foi um dos maiores enganos da minha vida, estar ali não era nem um pouco seguro, estava mais para uma armadilha, me senti como um coelho quando se vai direto para a comida e sente algo o furando com força. Quando notei, estava caindo, era um enorme poço, e eu se quer podia ver a água no fundo. Acima de mim, estava ele, observando encostado na borda do poço, como devia fazer sempre. Em seus ombros se encaixava com delicadeza um sobretudo enorme, que se misturava em sua sombra, em seus cabelos, era tudo escuro, exceto pelo seu rosto, era completamente branco, sem vida, e os olhos amarelos perfuravam meu peito. Eu queria tanto que o chão chegasse logo, aquilo era desesperador, mas a ideia de morrer também era. Me perguntei quando aquilo havia se tornado um pesadelo, meus pulmões não tinham ar, e eu tentei, com toda minha força gritar, mas não era possível. Cair era tudo o que eu podia fazer, enquanto assistia os olhos ficarem pequenos e sumirem no alto do poço, a forma se perdeu no escuro, e tudo o que me restou foi, novamente, o vazio.
A sensação de amargo na garganta se formou, parecia que eu ia morrer ali, até sentir as mãos encostarem em minhas costas, e deslizarem pelo meu corpo, até tocarem minhas mãos. Eu estava sentada, o tempo todo, mas a sensação de queda permanecia, imensa sobre mim. Frente a frente com ele, segurando sua mãos gélidas. Parece coisa de filme de adolescente com vampiro, mas aquilo era desumano. A sensação que ele passava não era agradável, e nem convidativa. Não era sexy ou qualquer outra coisa do tipo. Era do mais puro desespero, e mesmo assim, eu me sentia presa ali.
Aquilo parecia correr nas minhas veias, indo em direção ao meu coração, com tanta pressa, com tanta fome, com toda vontade, que até mesmo minha pele pareceu se embranquecer, e eu pensei, por um instante, que seria meu fim. Foi assim, até um toque quente se encontrar com minha nuca. Todo o ar que me faltava voltou aos meus pulmões, todo o desespero que havia crescido em mim, tinha sido dissipado, controlado, e ele soltou minhas mãos. As asas grandes bateram ao meu redor, brancas e iluminadas, tornando tudo a volta dele branco. Um anjo, de face tão calma e agradável, estava ali me olhando. Aquele sim, de fato, era algo que eu havia criado, com toda certeza. Me lembro quando imaginava um anjo só para mim, e ele estava ali, me protegendo daquilo. Não havia desafios, ou perigo nele, tal como desejo ou vontade de algo. Ele era aquilo, aquela imagem, iluminada e grandiosa, a qual eu havia projetado sobre um protetor. E ele me protegeu, me ergueu e me levou de lá, deixando a imagem de uma sombra nos observando com o olhar frio.
Me sentei na cama, os lençóis molhados e o travesseiro no chão me parecia a cena de uma luta, talvez a qual travei sozinha durante este sonho. Meu Guardião se apagava ao meu lado, enquanto o Escuridão, pobre dele, eu havia o abandonado para um pouco de esperança, um pouco de força. Não tive a menor vontade de voltar a dormir naquele instante. Na verdade, eu só consegui sentar na mesa de trabalho, e redigir algo para ocupar a cabeça. É estranho quando se passa por algo assim e não existe a quem recorrer. Maldição do Século XXI. Incontáveis pessoas vivendo suas vidas em um cubículo sem ter uma mão na qual segurar.
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