Dramione - Side Effect
26 Você demorou...
Notas iniciais
— O que, por Merlim, aconteceu naquela sala, srta. Granger?
Minerva McGonagall caminhava de um lado para o outro atrás da mesa que um dia foi de Dumbledore. A cada olhar eu me sentia diminuir na grande cadeira de mogno em que estava sentada. Sua expressão já havia passado pelo espanto, incredulidade, censura. Mas quando ela se sentou, só havia cansaço. Seus olhos pareciam fundos, com bolsas sob eles e olheiras escuras. Sua pele parecia ter ganhado mais algumas rugas, especialmente na testa. E eu podia jurar que ela emagreceu alguns quilos.
— Hermione, esta não é uma atitude típica de você. Para que as coisas chegassem a este ponto… O que está acontecendo?
— Tudo! E está acontecendo ao mesmo tempo, Minerva. Brigas, julgamentos, execuções, a gravidez da Gina. E algumas pessoas não perdem uma oportunidade sequer de tripudiar. Mas o que aconteceu hoje foi longe demais. Eles humilharam o Malfoy na frente de toda a sala de aula e fizeram piada sobre a execução de Lucius. Por pior que aquele homem seja, ele ainda é o pai do Draco.
— Eu li o Profeta. No Halloween, certo?
Deixei as lágrimas que estavam presas desde a confusão rolarem soltas. Algumas coisas ultrapassavam o relacionamento diretora/aluna, e mesmo se fazer parte da Ordem e lutar lado a lado não nos tivesse feito amigas, Minerva McGonagall não ignorava coisas que outras pessoas achavam menos importantes, como sentimentos e problemas alheios. Ela abriu a gaveta e me estendeu um lenço. Sequei os olhos e respirei fundo tentando me acalmar.
— Ah, Minerva. Ele tem tentado mesmo ser uma pessoa melhor… Mas...
— Infelizmente, não é como se ele pudesse estalar os dedos e deixar o passado para trás. Ele está lidando com as consequências do que fez, todos nós estamos. — a última parte da frase foi um desabafo.
— Mantê-lo aqui está te causando problemas, não está?
— Ele não é o único parente de comensais e seguidores de Voldemort que voltou para terminar os estudos.
— Mas é o mais famoso deles.
— Sabe o que é ainda mais famoso que os Malfoy e seu envolvimento com Voldemort, nesta escola? O ódio entre Draco Malfoy e Hermione Granger.
Lá estava. Aquela era a primeira vez que alguém colocava em palavras, mas não seria a última em que o questionamento viria a tona: a mútua aversão, inveterada e absoluta, que existia entre nós. Como, de uma hora para a outra, esse sentimento se inverteu era uma coisa que eu ainda me perguntava. Eu não podia exigir que outras pessoas entendessem e aceitassem o que nem eu mesma conseguia.
— Como assim?
— Eu entendo se não quiser falar comigo sobre isso, Hermione. Mas, lembre-se, fui eu quem obriguei vocês dois a trabalharem juntos. Eu já vivi muitos anos e sei uma coisa ou duas sobre a vida. Fico feliz em saber que o sr. Malfoy tem alguém com quem contar nesta escola, alguém para orientá-lo e garantir que continue no caminho certo. Com tudo o que tem acontecido na vida dele o caminho mais fácil seria retomar antigos e desagradáveis hábitos.
Não pude evitar esboçar um pequeno sorriso. Mas ele sumiu tão rápido quanto surgiu.
— Só que infelizmente, a senhorita está de castigo. Não poderá visitar Hogsmade no fim de semana. E, por favor, eu sei como as pessoas podem ser cruéis quando querem, mas não aceite mais provocações.
— Sim senhora.
Eu precisei arrastar os pés para conseguir me mover para fora da sala dela. Assim como Dumbledore, Minerva McGonagall parecia saber de tudo o que acontecia dentro e fora dos limites de Hogwarts. Nada passava despercebido pela velha bruxa. Ela deu a entender que sabia, antes de nós mesmos, que eu e Draco iríamos acabar gostando um do outro. Como isso era possível?
Procurei pelo sonserino em todos os lugares que julguei possíveis. Fui primeiro à Torre de Astronomia, depois às masmorras — mesmo sem fazer ideia de onde ficava o salão comunal da Sonserina. Convencida por Gina, assisti às aulas da tarde e nos intervalos procurei no corujal, no campo de Quadribol e até ao jardim. Mas Draco não estava em parte alguma do castelo. Desci para o jantar resignada e sem esperanças de vê-lo sentado à mesa da Sonserina. E ele realmente não estava lá.
— Quando ele estiver pronto, vai aparecer. — Gina sussurrou.
— Será mesmo que ele quer ficar sozinho? Não é como se ele tivesse muitos amigos com quem falar.
— Tente comer, Hermione. Passar mal ou ficar doente não vai ajudá-lo. Além do mais, a enfermaria vai ficar cheia por uns dias. — a última frase foi seguida por uma risada um tanto maligna.
— Eu não consigo, Gina. Simplesmente, não consigo. E por mais cruéis que tenham sido as palavras da Parvati, eu não devia ter feito aquilo. Por isso, não ria.
— Eu não posso acreditar que está arrependida de ter feito o que metade desta escola queria fazer!
— Só porque muitos queriam fazer não significa que era certo.
— Pare de se martirizar por isso, Hermione. Ela vai sobreviver para continuar nos infernizando. Sabe que ela está fingindo ter se machucado para continuar na enfermaria e chamar atenção. — ela deu de ombros. — Mudando de assunto para algo mais agradável, precisamos definir o tema do baile, para ontem!
— Tema? Gina, é só um baile.
— É claro que precisamos de um tema, Harry. É assim que se faz. Um tema nos dirá como decorar o salão, o que servir, o que as pessoas vão vestir. Um baile de máscaras seria incrível!
— Não! Nada de smokings e vestidos de baile. Isso intimida as pessoas. Quero algo simples, divertido, que estimule as pessoas a vir participar. — Harry declarou.
— É noite de Halloween, pensei que esse fosse o tema. Pareceu meio óbvio para mim. Se querem deixar as coisas mais divertidas, façam uma festa à fantasia.
— Mione, isso é perfeito! As crianças vão adorar. — ela, praticamente, cantou.
— E os adultos também! Precisamos aproveitar o fim de semana em Hogsmade para providenciar nossas fantasias. — Harry completou.
— Você vai ter que fazer isso sem mim, Gina. Sabe que McGonagall me proibiu de ir.
— Eu posso escolher alguma coisa para você.
— Por que isso soa ainda mais assustador? Acho que vou usar a capa da invisibilidade do Harry, obrigada.
— Não senhora, Hermione. Nada de desaparecer no meio da festa.
Como acontecia sempre que eu estava com alguma coisa na cabeça, com o pensamento fixo em descobrir o que significava aquele fio solto no fundo da minha mente, houve um estalo, eu liguei os acontecimentos e descobri.
— Ah. Meu. Merlin. Como eu sou burra! Como foi que eu não pensei nisso antes?
Gina me olhou de lado. Tentando não chamar ainda mais atenção para a minha súbita descoberta.
— O que? Você acha que sabe onde ele está?
— Eu tenho certeza. — disse para que só ela escutasse. — Preciso ir. Vou encontrar Malfoy para a ronda. Não me esperem acordados. — falei para Harry e Gina, desta vez.
Gina piscou e eu soube que ela me daria cobertura se fosse preciso.
Tive de usar todo o meu autocontrole para não correr até as grandes portas de carvalho. Depois que virei à esquerda em direção às escadas, comecei a andar mais depressa, mas ainda havia muitos alunos nos corredores. Às vezes não poder aparatar em Hogwarts era uma droga. O caminho pareceu ficar cinco vezes mais longo, era como se eu andasse, andasse e não saísse do lugar.
Quando finalmente alcancei a parede, estaquei. Como entrar na sala se Draco já estava lá? Droga! Joguei as mãos para o ar, exasperada. Se ele não quisesse ser encontrado, a porta não surgiria nem em um milhão de anos. Mas se houvesse uma brecha… O próprio Draco já tinha entrado na Sala Precisa com pessoas lá dentro, duas vezes. Caminhei lentamente pelo corredor.
Preciso encontrar Draco Malfoy. Nada.
Preciso saber onde ele se escondeu. A parede continuava selada.
EU SÓ QUERO AJUDÁ-LO. Bati a lateral da mão fechada na pedra, mas o som que se seguiu ao gesto foi oco. Levantei os olhos e lá estava a porta. Girei a maçaneta devagar, pisei com cuidado para dentro e encostei a madeira atrás de mim sem fazer barulho. Lentamente, meus olhos se ajustaram à pouca de luz e eu vi o braço do sonserino sobre a poltrona negra em frente a lareira. O ambiente parecia uma cópia menor do que eu acreditava ser o salão comunal da Sonserina, pela descrição que Harry e Ron fizeram no segundo ano. Paredes de pedra escura, tapeçaria verde e prata, móveis suntuosos de couro e uma imensa lareira encravada na pedra.
Caminhei, pé ante pé, até onde ele estava, ponderando se deveria chamar por ele, tocá-lo ou simplesmente ficar parada até que ele me visse. Eu finalmente tinha encontrado Draco, mas começava a pensar se realmente deveria ter ido, se Gina não estava certa e ele queria ficar sozinho.
No tempo que levei lutando comigo mesma, ele notou a minha presença. Os olhos cor de tempestade capturaram os meus e meu coração se aqueceu imediatamente. Se ele tinha chorado, havia acontecido há muito tempo, talvez ainda de manhã. Seu semblante era triste, mas suave. Apenas uma pequena ruga vincava sua pele alva no espaço entre as sobrancelhas. Percorri a linha com o dedo e ele fechou os olhos ao meu toque. Da ruga, passeei com os dedos pela lateral de seu rosto até o lábio superior. Draco tomou minha mão nas dele e beijou a palma.
— Você está bem?
— Você demorou…
— Sinto muito.
— O importante é que está aqui agora.
Draco me puxou para seu colo. Abracei-o, ele retribuiu e descansou a cabeça na minha clavícula. Acariciei seus cabelos loiros, concentrando-me na textura macia sob os meus dedos. Ficamos assim por muito tempo, o silêncio permeado apenas pelo som da madeira crepitando na lareira e de nossas respirações ritmadas. Eu me sentia bem daquela maneira, confortável. Não havia necessidade de falar. E não havia nada que eu pudesse dizer que representasse mais do que aquele carinho. Do que nossos corações batendo na mesma cadência. Do que estarmos juntos.
Só que tínhamos obrigações a cumprir.
— Draco…
O sonserino levantou a cabeça e eu senti meu corpo esquentar sob seu olhar.
— Precisamos ir. Já perdemos a ronda ontem…
Não nos preocupamos em sair separados da Sala Precisa. Ainda havia alunos pelos corredores, mas todos já se dirigiam aos seus respectivos salões.
— Conversei com Harry e você e sua mãe estão dispensados dos preparativos com o baile. Poderão usar o dia como precisarem.
— Não é algo que eu quero assistir. — ele fez uma pequena careta.- Mas vai ser difícil convencer Narcisa a fazer o mesmo. Ela acha que o estará traindo se deixá-lo sozinho na hora. Não sei o que fazer para dissuadi-la da ideia. Logo agora que ela estava se recuperando da temporada que passou em Azkaban.
— E se ela insistir mesmo em ir?
— Então, irei com ela.
— Se você quiser, eu posso…
— Nem pensar. Você não tem que passar por isso também. Além do mais, sem minha mãe e eu para ajudar, o Potter e a Weasley vão precisar ainda mais de você aqui.
Algumas segundanistas da sonserina apressaram o passo ao nos ver descendo as escadas, enquanto murmuraram “Já estou indo!”, “Desculpe, Granger” e coisas do tipo.
— Já estava me preparando para as piadinhas de mal gosto, mas… tenho a impressão…Parece que elas estão com medo de nós. — ele constatou, confuso.
— Sinto te decepcionar, mas elas não estão com medo de você.
Draco levantou uma sobrancelha para mim. O gesto era ao mesmo tempo questionador e um desafio.
— Está fazendo pouco caso da minha fama de bruxo das trevas impiedoso? Não tem medo do perigo, Granger?
— Eu sou o verdadeiro perigo aqui, Malfoy.
Ele sufocou uma risada.
— Talvez você tenha estudado demais e seu cérebro superaqueceu. Com certeza ele não está funcionando direito.
— Talvez eu tenha estuporado Parvati Patil hoje de manhã, depois do que ela… bem, você sabe… E agora todos tem medo de serem pegos por mim desobedecendo as regras.
— Como é que é?! Hermione Granger estuporou outra aluna? Sabia que devia ter ficado naquela sala.
Dei de ombros sentindo meu rosto esquentar. Draco me observava de boca aberta, literalmente. Seus olhos estavam tão arregalados que pareciam querer saltar para fora das órbitas
— Foi errado e, como punição, não poderei visitar Hogsmade esse fim de semana.
— É só Hogsmade, Hermione. Você pode esperar até o mês que vem por uma cerveja amanteigada do Três Vassouras.
— Muito engraçado. Decidimos fazer uma festa a fantasia, já que o baile beneficente é no Halloween, e eu realmente não queria deixar a escolha da minha roupa a cargo da Gina.
Ele me olhou de lado, daquela maneira só dele. O sorriso safado brotando nos lábios finos.
— Gina vai escolher sua fantasia?
— Não é que ela tenha mal gosto… é só…
— Talvez isso não seja de todo mal. — ele me interrompeu. — Quer dizer, não tenho intenção de ir a Hogsmade sem você e o castelo estará praticamente vazio.
— Draco...
Ele olhou rapidamente por cima do ombro e me puxou mais para perto. Envolvi seu pescoço ficando na ponta dos pés. Nossas bocas se encaixaram uma na outra como peças de um quebra cabeça. Mas apesar do calor que aquecia meu coração, eu tinha medo. Eu me perguntava se o que sentíamos um pelo outro era suficiente para nos manter juntos durante e depois do que podia vir a acontecer.
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