Dramione - Side Effect

56 Vida normal... ou quase isso


Notas iniciais
Olá amores, tudo bem?! Não tenho muito o que dizer hoje, só tenham uma boa leitura.

As letras da caligrafia rebuscada de McGonagall começaram a se embaralhar no quadro negro. Fazia alguns minutos que eu dedicava toda a minha concentração a tentar não dormir sentada. Eu já não fazia ideia do que a bruxa estava falando. Depois de duas semanas nos recuperando no Instituto por ordem de Madame Pomfrey, finalmente conseguimos autorização para voltar à Hogwarts. Eu estava sedenta por ter aulas, estudar, fazer deveres e provas — por uma rotina totalmente ordinária e normal. E as coisas estavam mesmo bem normais no castelo — Annie Potins havia publicado reportagens diárias sobre o sequestro, mantendo acesa a curiosidade das pessoas e o burburinho geral; os times de Quadribol disputavam o campeonato anual, com Gina, Harry e Ron já de volta a equipe da Grifinória; os alunos mais velhos estavam quase enlouquecendo de tanto estudar para os N.O.M.s e N.I.E.M.s.; grifinórios e sonserinos brigavam, por vezes fisicamente, pela Taça da Casa; e Simas e Dino agora promoviam festas regadas a Wisky de Fogo e cerveja amanteigada na Sala Precisa, nas noites de fim de semana e, às vezes, durante a semana também.

Nada mais que semanas normais na nossa rotina escolar.

Não resisti a escavar, na pilha de jornais velhos do Salão Comunal da Grifinória, as publicações com as matérias sensacionalistas sobre meu romance secreto com Draco, a quem pertencia a verdadeira lealdade do meu noivo e a minha, a gravidez de Gina e a vingança de Rodolfo Lestrange. Havia ficado acordada até mais tarde, perdendo meu tempo com as palavras venenosas da estagiária de Rita Skeeter vários dias da semana. Enquanto McGonagall falava sobre o dever que deveríamos entregar na próxima aula de Transfiguração, eu só conseguia pensar que tinha de haver uma maneira de processar aquele projeto de jornalista por todos aqueles absurdos. Já tinha falado com Harry sobre aquilo, mas ele não concordava com a ideia e eu ia ter que acabar pondo ela de lado.

Draco colocou a mão sobre a minha e eu suspirei cansada. Eu sabia que a verdadeira razão do meu mau-humor não eram as reportagens. Havia aprendido a lidar com aquele tipo de coisa há muito tempo atrás, não ligar para os fatos inventados e ignorar a fofoca ao meu redor. Annie Potins era responsável pela menor parcela da minha falta de atenção na aula. A verdadeira razão não era nem eu ter perdido o colar com o pingente de pena — que procurei por todo o Instituto, várias vezes, e também no castelo. Eu não me lembrava da última vez que tinha usado. Eu sabia que tinha colocado para o baile. Mas não fazia ideia do que tinha acontecido com ele depois. E cedo ou tarde, Draco ia acabar notando que eu não estava mais usando a peça.

O pior de tudo, na verdade, era que, nos últimos tempos, eu não conseguia parar de pensar em Derick Willians. Não era SÓ porque ele havia desaparecido da face da terra depois que matou Héstia e fugiu do Instituto. Era exatamente POR isso. Especulávamos muito sobre quem o rapaz de olhos esmeralda realmente era — especialmente Andrômeda, que se sentia culpada por tê-lo contratado — e as motivações dele para ter feito o que fez. Segundo Draco e McGonagall, ele havia realmente estudado em Hogwarts, mas abandonou a escola antes de se formar, sem maiores explicações, e desapareceu. Sua família, até onde todos sabiam, deixou a Inglaterra antes da guerra piorar e, até ele aparecer na porta do Instituto Lílian Potter procurando emprego, ninguém mais tinha ouvido falar dos Willians.

— Hermione?

Dei, literalmente, um pulo da carteira e minhas costas protestaram quando bati com elas contra o encosto de madeira, assustada. Draco me analisava com cuidado, uma ruga de preocupação vincando a testa alva.

— Está tudo bem? Você não prestou atenção a uma única palavra do que McGonagall disse. Esteve perdida em pensamentos a aula toda.

Olhei ao redor e notei que estávamos sozinhos na sala. Todos já deviam estar a caminho do Salão Principal para o almoço.

— Merlim! A aula já acabou? — senti meu rosto esquentar. — Desculpe, Draco, eu… É só que…

Ele colocou a mão na minha bochecha e fechei os olhos para aproveitar a sensação da pele quente dele contra a minha.

— Meu amor, ninguém liga para o que o Profeta Diário publicou enquanto estávamos fora. Não devia se preocupar com isso.

— Não. Não são Annie Potins e suas histórias… é…

Fiz uma pausa estratégica, uma tentativa de ganhar tempo. Tinha certeza de que ele não ia gostar de ouvir sobre o que — ou quem — eu estava pensando. Mas Draco parecia conseguir ler meus pensamentos.

— É sobre o Derick Willians de novo? — a voz dele estava um tiquinho menos carinhosa agora. — Hermione, nem todo mundo precisa de uma razão… Algumas pessoas simplesmente são o que são.

— Se ele sempre foi mau, por que não lutou ao lado de Voldemort na guerra, quando tinha muito mais chances de sair vitorioso? Por que apareceu só agora? E por que nós? Eu só quero entender, Draco!

— Por que isso é tão importante?

Apesar do tom de voz calmo e moderado, eu sabia que a paciência dele tinha evaporado, como sempre acontecia quando tocávamos naquele assunto.

— Não sei. Porque ele matou a Héstia, porque conseguiu enganar a todos nós… Eu não sei.

Estava sendo sincera. Eu também queria entender porque descobrir sobre o passado e as motivações de Derick havia se tornado uma verdadeira obsessão para mim. Eu tentava, realmente tentava, não pensar sobre ele. O que eu mais queria era deixar tudo o que aconteceu para trás, Derick Willians inclusive. Mas aquele era uma assunto que vinha me incomodando mais que os outros.

— Hermione, não há mais onde procurar. Já conversamos com a McGonagall, olhamos os registros da escola e na biblioteca.

— E isso não nos levou a lugar algum!

— Porque não há nada para encontrar. — ele disse, se levantando. — Eu sei que você tenta ver sempre o melhor das pessoas, mas dessa vez não tem um lado bom. A verdade é que o cara era um filho da mãe. Eu sinto muito, Hermione.

Draco segurou minhas mãos e me puxou para si, fazendo-me levantar da carteira. Nossos olhos se encontraram e o resto do mundo simplesmente deixou de existir. O sonserino acariciou minha bochecha com o polegar, então, deslizou a mão até a minha nuca. Enquanto ele se aproximava de mim, devagar, eu lutava para manter minha respiração estável. Quando nossos hálitos se misturaram, não consegui mais esperar, acabei com o pequeno espaço que ainda existia entre nós. Era impossível me cansar de Draco. Quanto mais eu tinha, mais eu queria. A sensação de borboletas dançando no meu estômago, de que os meus ossos eram feitos de gelatina e meu coração ia sair voando do peito estava sempre lá quando ele se aproximava de mim.

Mordi o lábio inferior do sonserino e puxei com cuidado, fazendo-o gemer contra a minha boca. Draco apertou minha cintura com força e eu me afastei apenas o suficiente para respirar, mantendo nossas testas coladas. A respiração dele era instável e pesada.

— Eu te amo… — eu disse baixinho.

Draco abriu os olhos e meu coração acelerou de novo quando aqueles dois pedaços de céu noturno me encararam. O loiro parecia ter o dom de me hipnotizar. Um sorriso travesso surgiu nos lábios finos dele, fazendo minha respiração falhar. Ele levou minha mão direita aos lábios e beijou a palma, depois a parte de trás, sem desviar o olhar. Então, de repente, Draco se ajoelhou e estendeu uma caixinha de veludo preto para mim.

Engoli em seco e não consegui mais respirar adequadamente. Ele umedeceu os lábios, num claro sinal de nervosismo e beijou mais uma vez a minha mão.

— Eu ia esperar um momento mais apropriado… mais romântico… mas… preciso ver ele na sua mão. Sei que havia prometido “nada de diamantes”, mas eu não pude ignorar esse anel. Ele é como você: delicado, intrincado, instigante… Perfeito! E combina com o pingente que eu te dei. — uma mão gigante e gelada envolveu meu estômago e o apertou, obrigando-me a lutar para não me encolher de dor. Eu ia ter que contar a ele sobre o sumiço do pingente. — Enfim… Bem… Hermione Jean Granger, quer casar comigo?

— Você já me fez essa pergunta antes. Sabe a resposta. — fiz uma pausa dramática. — Sim, é claro que sim!

— Não custa nada checar, não é mesmo. — eu ri da frase, mas a expressão de Draco dizia que ele tinha falado sério.

Ele abriu a caixinha com um clique, para revelar um anel tão delicado, que nem parecia real. Pequenas folhas douradas, detalhadamente entalhadas, surgiam de dentro da peça mais ou menos na metade do aro e serpenteavam pela lateral acima, formando a base para uma pedra de diamante do tamanho de uma ervilha. Respirei fundo admirando a luz do cômodo ser refratada em milhões de cores pela superfície lapidada do brilhante. O sonserino estava certo, o anel era perfeito. Draco pegou a pequena aliança na caixinha e encaixou no meu dedo anelar, antes de beijar minha mão de novo. Estiquei a mão para admirar o contraste do ouro polido contra a minha pele.

— Quando bati o olho nele, soube que foi feito para ficar no seu dedo. — ele disse ao se levantar, segurando meu pulso e admirando o conjunto que a aliança fazia com a minha mão estendida.

— Sabe que não precisava ter feito isso, certo?

— Droga, você não gostou. Tudo bem... Posso te levar até a joalheria para escolher outro mode-

— Como eu não ia gostar de uma coisa assim, Draco! — segurei o rosto dele entre as mãos e interrompi o pedido de desculpas amalucado. — É lindo… O mais bonito que eu já vi. Eu só… não estou acostumada com esse tipo de coisa.

— Pois trate de se acostumar. — ele me puxou para perto. — Porque isso é só o começo…

— Draco…

— Não pode me proibir de te dar presentes, Hermione.

— Posso sim. — teimei.

O sonserino me lançou um olhar enviesado que dizia “quero ver você tentar” e encerrou o assunto.

— Vamos, precisamos descer ou vamos perder o almoço.

Fiz questão de oferecer a mão direita para Draco segurar, de maneira a esconder a aliança. Eu ainda não estava preparada para exibir aquela jóia pelos corredores de Hogwarts, mas sabia que ele ficaria chateado se eu não usasse. Então, tentei tornar o gesto despretensioso e natural. Acabou funcionando.

Gina e Harry chegaram ao salão quase ao mesmo tempo que nós, vestindo seus uniformes do time de Quadribol. Eles haviam melhorado bastante desde que retornamos ao castelo, pareciam bem mais animados. No Instituto, ao mesmo tempo em que cuidar das crianças ocupava-os, trazia sempre a lembrança de Lily à memória. E isso estava fazendo mais mal do que bem; não só a eles, mas a todos nós.

Surpreendentemente, foi de Ronald a ideia de eles voltarem a treinar com a equipe. E era notável a diferença que voar, ficar ao ar livre, trabalhar duro e ocupar a cabeça com algo de que eles gostavam, tinha feito em apenas uma semana. Gina era a mais engajada dos três. Harry tinha medo de que ela estivesse tentando mascarar o sofrimento com a dedicação ao esporte. Eu não disse ao menino que sobreviveu, mas era exatamente o que ela estava fazendo, afugentando a dor. Só que eu não via isso como uma coisa ruim. Minha amiga havia voltado a se alimentar; estava recuperando a cor, o vigor; conversava com as pessoas e até ria, ocasionalmente. Além do mais, não éramos os únicos vigiando a recuperação dela. Luna e Neville estavam sempre por perto, sempre atentos à qualquer sinal de tristeza ou desânimo. Nunca ia poder agradecer os dois o suficiente, porque a verdade é que eles vinham cuidando de todos nós.

Percorremos o caminho entre as mesas para encontrar o casal — que guardava nossos lugares. E enquanto Gina se servia, percebi o olhar vigilante da loirinha corvinal.

— Então, treino hoje à tarde? — Neville perguntou.

— Sim… Os novatos não pensam em outra coisa a não ser ganhar o torneio.

— Quem pode culpar eles? — Luna brincou. — Quadribol é um jogo excitante de assistir, imagina de jogar.

— Claro que não. — Gina respondeu. — É que o capitão aqui está fora de forma e tem suado para entrar no ritmo dos treinos.

Não precisei desviar os olhos do suco que estava servindo para saber que Harry tinha feito uma careta diante das risadas que se seguiram.

— O que é isso na sua mão Hermione?

Soltei a jarra tão rápido que Draco teve de segurá-la para evitar que ela virasse sobre a mesa e molhasse os pratos de comida. Não era só em Gina que Luna vinha prestando atenção. Fechei a mão em punho atrás das costas, tentando reunir coragem para esticá-la em cima da mesa e me sujeitar ao julgamento de todos. Mas Gina alcançou meu punho e puxou meu braço de volta.

— Ah. Meu. Merlin! — ela chiou, um pouco alto demais para o meu gosto. — É maravilhoso!

— Quando foi que isso aconteceu?

— O pedido ou o anel? — Draco perguntou como quem comenta o tempo.

Luna e Gina deram gritinhos entusiasmados.

— Então, teve mesmo um pedido!? — a loirinha cantou. — Não é apenas mais uma jóia… É A jóia.

Gina estendeu a mão direita ao lado da minha e comparou nossos anéis por alguns segundos.

— Isso é tão legal. Noivas… — ela suspirou animada.

— Obrigada, Malfoy. — Harry murmurou. — Fez meu anel parecer bijuteria de criança.

— Own… — Gina abraçou o noivo. — Não precisa se preocupar. Eu amo a minha aliança.

Luna e eu rimos da reação de Harry e percebi que Neville estava de um vermelho quase escarlate. O rosto contorcido em uma pequena careta de decepção.

— Você está bem, Longbottom? — Draco perguntou divertido.

— Não. — ele disse sério. — Primeiro o Harry e aquele pedido embalado pel’As Esquisitonas, agora você e esse seu anel… vocês elevaram as expectativas em termos de pedido de casamento à um nível que eu nunca vou conseguir alcançar.

Luna deixou cair os talheres e olhou assustada para o namorado, as sobrancelhas arqueadas, os olhos azuis arregalados, a boca meio aberta — a verdadeira imagem da incredulidade. Ela parecia genuinamente assustada com a possibilidade de um pedido de casamento. Caímos na gargalhada mais uma vez.

— Eu não vou… Quer dizer eu vou… — Neville gaguejou tentando se explicar para ela. — Mas… não agora… não imediatamente… É só…

— O que ele quer dizer, é que tem planos para o futuro... — eu disse tentando ajudá-lo. E Luna pareceu mais aliviada. Tentei pensar rápido em algum assunto que interessasse a todos. — Falando em futuro. — continuei, mudando o foco da conversa, e pisquei para ele, que finalmente respirou. — Eu estava pensando no que Luna acabou de dizer, sobre o Quadribol... O que acham de organizarmos um jogo comemorativo?

Notas finais
Já tô começando a ficar com saudade... Bjos