Dramione - Side Effect
57 Culpa e saudade
Notas iniciais
— Um jogo comemorativo... — Gina se animou. — Apesar de tudo, temos tanto a agradecer. Seria tão bom reunir todo mundo agora que George voltou para casa.
— Tipo um evento beneficente? — Luna questionou, começando a ficar empolgada também, e Neville voltou a sua cor normal. — Seria legal. O Instituto Lílian Potter não é único… Existem outros lugares que precisam de ajuda.
— Sim, podemos juntar duas coisas em uma. — ponderei.
— Não precisamos necessariamente vender ingressos, estamos nos aproximando do Natal, podemos trocar ingressos por roupas, brinquedos, comida… — Draco disse tímido, quase com medo de entrar na conversa.
— Mas organizamos um baile a pouco mais de um mês. Acha mesmo que as pessoas iam comparecer?
— Harry, é claro que as pessoas vão comparecer. — Gina estava completamente empolgada. E senti meu coração se aquecer ao vê-la daquele jeito. Foi a melhor ideia-de-última hora-para-desviar-um-assunto que eu podia ter tido. — Ainda mais se convidarmos alguns jogadores pra participar também. Acha mesmo que algum jogador da Liga negaria um pedido seu pra vir?
Os ombros do garoto que sobreviveu se encolheram enquanto ele pensava sobre o assunto. Ele não gostava de usar de sua posição de influência, mas também não conseguia negar nada a noiva, e eu sabia que Harry estava ponderando sobre a sugestão de Gina. A ruivinha sentiu que havia colocado o noivo em uma posição desconfortável, então mudou de abordagem.
— Quer dizer... tem o Olívio, o time dele, o Puddlemere, ‘tá muito bem na competição desse ano. Você e o Ron também são grandes chamarizes. E podemos convidar o Krum…
— Você também devia jogar Gina. — emendei de imediato, assim que cinco pares de olhos se voltaram para mim. — Vem sendo apontada como uma promessa do Quadribol feminino, todo mundo deve estar curioso por uma espiada nas suas habilidades.
— Mas é claro que eu vou jogar. — ela cruzou os braços na frente do corpo e olhou de mim para Draco. — Assim como o seu noivo.
— Eu?
— Nem tenta disfarçar, Draco. Duvido que não quer participar. Joga bem, gosta do esporte, já foi apanhador do time da Sonserina.
— Espera um minuto! Acabou de admitir que eu jogo bem, Weasley? — Draco provocou.
— Não me faça mudar de ideia sobre a sua participação no jogo. — ela provocou de volta.
— Você não vai mudar de ideia. É uma grifinória, é muito nobre para voltar atrás na sua palavra, especialmente, depois de todo mundo aqui ter ouvido seu convite… E sua declaração de admiração ao meu jogo.
— Se qualquer outra pessoa perguntar, vou negar que isso algum dia aconteceu. E ninguém nesta mesa vai ter coragem de me contradizer.
— Está deliberadamente ameaçando essas pessoas, Ginevra Weasley? Que baixo da sua parte.
Draco apoiou os antebraços na mesa, e dirigiu a Gina um olhar afiado, mas ao mesmo tempo cheio de cumplicidade.
— Admitir que você joga bem Quadribol, por mais que isso seja verdade, é manchar minha reputação para sempre, Draco Malfoy. Eu nunca correria esse risco.
— Bem, sinto muito, mas você acaba de fazer novo…
Todo mundo caiu na gargalhada quando Gina percebeu que tinha repetido o que havia prometido negar. As orelhas da ruivinha ficaram vermelho vivo e ela espetou um pedaço de salsicha com um pouco mais de força que o necessário para extravasar sua frustração.
— Sabe que vai ter que incluir seus irmãos e sua cunhada nisso, se quiser continuar viva, certo? George, Angelina e Ron não vão perder esse jogo por nada. — Harry disse, ainda rindo.
— Prometo tentar encaixar os nomes deles quando fizer a lista. — ela respondeu de mal humor.
O garoto olhou para ela com um olhar de pedido de desculpas, estava claro que ele não fazia ideia do que havia dito de errado. Mas eu sabia. Não era por causa de George e Angelina, ou por ter perdido a discussão de brincadeira com Draco, a má vontade de Gina estava relacionada ao fato de o noivo ter incluído Ron nos planos para o jogo comemorativo.
Harry foi o único que não ignorou Ronald quando voltamos ao castelo. O relacionamento dos dois estava longe de voltar a ser o que era, mas eles se falavam, ocasionalmente. Segundo o menino que sobreviveu, o garoto ruivo parecia ter começado a entender que estivera errado. E depois de ver o efeito da sugestão dele — de que os três voltassem ao time de Quadribol — eu tive que dar o braço a torcer. Luna e Neville também pareciam inclinados a dar ao ruivo uma nova chance. Gina, por outro lado, fazia questão de alimentar a raiva que sentia do irmão, no que tinha o total apoio de Draco. E eu, realmente, não podia julgá-los. Nenhum dos dois voltou a falar sobre os acontecimentos da terrível semana que passaram em poder dos comensais e nós não insistimos, não voltamos a perguntar. Além do mais, não tinha certeza se eu queria mesmo saber.
Draco roçou os dedos nas costas da minha mão, tirando-me dos meus devaneios. E me dei conta de que devíamos acrescentar mais alguns nomes a tal lista.
— Temos que colocar alguns jogadores dos times das casas. — lembrei à Gina.
— Desse jeito vamos ter que fazer um torneio! — ela implicou, fechando a cara.
— Podemos fazer um sorteio entre os jogadores das casas para escolher. — Draco sugeriu enquanto segurava minha mão entre as dele. — Mas, pra oferecer a chance de mais pessoas jogarem e não sobrecarregar ninguém, quer dizer, não queremos ninguém machucado… Podíamos montar times maiores, ter um jogador reserva para cada pessoa que começar o jogo em campo. E, ao longo da partida, a gente dá um jeito de fazer substituições.
— Agora, isso sim é uma boa ideia. — ela quase cantou. — Me empresta uma pena e pergaminho, Hermione…
Gina começou uma lista que, aparentemente, terminaria enorme, com nomes de possíveis jogadores convidados, datas para o jogo, coisas de que iríamos precisar, entre muitos outros itens. Harry analisou o que ela estava escrevendo por cima do ombro da noiva e soltou um suspiro.
— Isso vai durar todo o fim de semana.
— São muitas coisas para resolver... Temos que começar o quanto antes. Só de início: Precisamos da autorização de McGonagall e do Conselho de Pais, encontrar um data entre as partidas do calendário do Torneio de Quadribol da escola e-
— Gina. — interrompi a enumeração de tarefas que ela fazia, meio relutante. — Não sabia que você ia ficar tão empolgada com a ideia, ou teria dito depois. A verdade é que existe uma questão um pouquinho mais urgente pra ser resolvida.
— Urgente!? — Luna quase gemeu.
— Não é nada grave. — Draco se adiantou a mim, diante da ansiedade e expectativa de todos com o que poderia ser tão urgente. — Quer dizer, eu acho que não. É que minha mãe nos mandou uma carta essa manhã. Parece que, sem nossa ajuda, as coisas estão meio complicadas no Instituto. Num momento de descuido, Mayse caiu da escada ontem e torceu feio o tornozelo.
— Merlim! Ele está bem?
— Está, sim. E não foi descuido. — argumentei. — É trabalho demais para apenas duas pessoas. Sem… — parei antes de falar o nome de Derick, eu não precisava dizê-lo para que todos soubessem do que se tratava. — Enfim... elas estão sobrecarregadas.
— Por que Andrômeda não disse nada? — Harry soou chateado.
— Porque Andrômeda se sente culpada, por ter sido a responsável pela escolha e contratação do antigo ajudante. — Draco rebateu, tomando cuidado ao se referir à Derick também. — Segundo minha mãe, quando ela tocou no assunto ‘contratar alguém’, a resposta da sra. Tonks foi “não vou correr o risco de colocar todo mundo em perigo de novo”.
— Colocar em risco? A culpa não é, nem nunca foi dela. Ninguém podia adivinhar…
— Acredite em mim, Potter, no fundo Andrômeda sabe disso. Mas a culpa não é um sentimento fácil de se ignorar.
Meus olhos se encheram de lágrimas diante da declaração de Draco. Havia uma razão para ele entender tão bem o receio de Andrômeda, e era porque ele também se sentia culpado. Apesar de tudo o que Harry e Gina, Luna, Neville e eu havíamos dito. Apesar da rotina ter amenizado um pouco a dor e o sofrimento. Apesar de meus amigos já terem demonstrado diversas vezes como eram gratos por tudo o que ele tinha feito. Draco ainda se sentia culpado. E se sentiria assim para o resto da vida. Acho que, no fim das contas, a culpa é meio como a saudade — o tempo não faz com que ela acabe, com que vá embora; mas, eventualmente, faz você aprender a conviver com ela.
— A questão é…- precisei respirar fundo antes de continuar. — Não faz nem uma semana que deixamos a mansão e elas já estão atoladas. Não dá pra esperar. Pensei que podíamos colocar um anúncio no jornal e fazer entrevista com os candidatos no Três Vassouras esse fim de semana.
— O que eu faria sem você, Hermione? — Harry riu.
— Com ela é assim, não tem problema, tem solução. — Gina nem levantou os olhos do pergaminho ao entrar na conversa. — Por isso é que ela vai me ajudar a organizar o jogo e convidar o Krum.
Revirei os olhos e vi que Draco havia imitado meu gesto. Mas ele sorriu em seguida, deixando claro que não se importava. Sorri também, aliviada. Não era o tipo de coisa que Ronald levaria numa boa. Meu sorriso aumentou quando pensei no quanto, apesar de tudo, era fácil estar com Draco. E a citação de um livro trouxa de romance, que tinha lido anos anos atrás, surgiu no fundo da minha mente. Quase tão natural quanto respirar.
— Não quero ser estraga prazeres, nem nada… — Luna disse, no mesmo tom tranquilo de sempre. — Mas já pensaram que podemos não encontrar o novo ajudante logo de cara?
Harry cobriu o rosto com as mãos e bufou, frustrado.
— Desculpa… — a loirinha murmurou. — Só acho que devíamos pensar em todas as possibilidades, estar preparados para elas.
— E você está coberta de razão. — respondi. — Não gosto do que vou sugerir, mas gosto menos ainda da ideia de outro acidente. — pensei por um segundo, para ter certeza de que essa era a única opção que nos restava, antes de continuar. E até Gina deixou a lista e se voltou para mim. — Por isso, acho que devemos mandar Monstro pra lá por um tempo.
— Talvez isso nos isente até de ter que contratar alguém. — Harry disse mais para si mesmo do que para o restante da mesa, mas a frase saiu alta o suficiente para que todos ouvissem. O olhar indignado que dirigi a ele também estava nos rostos de Gina e Neville. — Ou não… — ele completou ao notar a maneira como praticamente o fuzilávamos, tínhamos discutido diversas vezes o uso do trabalho de elfos domésticos antes de inaugurar o Lilian Potter e ele conhecia bem a nossa opinião. — Definitivamente precisamos contratar alguém, de preferência alguém humano e bruxo.
— Não dá pra contratar o elfo?
A sugestão de Luna acabou arrancando risadas sarcásticas de Gina e Draco.
— Se você conseguir convencer ele a aceitar receber um salário, me avise. — Harry gemeu.
— Ele pode acabar gostando do trabalho por lá!
Draco tentou ajudar Harry, mas a forma como sua boca se curvou para baixo deixava claro que ele não acreditava em uma só palavra do que disse.
— Se for esse o caso, não vejo porque não deixar que ele fique. — rebati. — Mas, não podemos contar apenas com isso.
— Não mesmo. — Gina concordou. — Temos que contratar alguém, não vai dar pra fugir.
— ‘Tá bom. — Harry suspirou, colocando as duas mãos espalmadas na mesa para se levantar. — Hermione, por favor, pode mandar uma coruja para o Profeta Diário com o pedido de publicação do anúncio? Isso precisa sair na edição de amanhã, o que significa que estamos em cima da hora.
— Claro. Deixa comigo.
— Vou passar pela cozinha e mandar que Monstro se apresente à sra. Malfoy, no Instituto. — ele disse, já a caminho da porta.
— Posso fazer uma pergunta idiota? — Luna levantou a mão, como se estivesse na sala de aula. Confirmei com a cabeça e ela prosseguiu. — Por que mandar o elfo doméstico até a Narcisa e não Andrômeda? Acha que a sra. Tonks vai ficar chateada conosco por interferir na gerência do Instituto?
— O mundo seria um lugar tão mais bonito se existissem mais pessoas como você, Luna. — Gina enrolou o pergaminho antes de continuar. — Monstro não é como Dobby, el-
— Ah, nisso você está coberta de razão, Weasley. Ele não é nada parecido com Dobby. — apesar de ele tê-la interrompido, Gina sorriu para Draco, com os olhos rasos d’água. — Dobby não era um elfo doméstico comum, ele era um elfo livre. Não só no que diz respeito ao trabalho, mas ao espírito.
A garota ruiva enxugou uma lágrima fujona, que rolou de seus olhos marejados para a bochecha. Mas várias outras saltaram das orbes azuis, logo em seguida, e ela levantou as mãos em forma de rendição, deixando claro que não ia conseguir voltar a falar. Acabei derramando algumas lágrimas também e precisei respirar fundo antes de tentar falar.
— Ele é preconceituoso. — expliquei. Draco fazia círculos com o dedão nas costas da minha mão para me acalmar. — Não gosta da ideia de ter que servir a nascidos trouxas, ou qualquer pessoa que tenha relação com nascidos trouxas. Harry só quer poupar Andrômeda da grosseria de Monstro.
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