Dramione - Side Effect

58 Sotaque francês


Notas iniciais
Oi pessoal! Tudo bem com todo mundo?! Parece que os acontecimentos estão começando a se tornar decisivos em Side Effect. Então, vou parar de falar e deixar vocês lerem logo... Mas antes. Só mais uma coisa... É que eu preciso agradecer a INARA e a Lara byGreen pelas recomendações espetaculares que fizeram à fic. Obrigada meninas. Muito obrigada mesmo. Foram vocês leitores/leitoras que transformaram essa fic em uma das melhores experiências da minha vida... Nunca senti tanto prazer em escrever. Se a história, o texto estão tão bom quanto vocês dizem é tudo culpa de vocês.

— Acho que a nevasca afugentou os candidatos. — Neville constatou o óbvio, esfregando as mãos enluvadas uma na outra.

— Não dá para culpar eles. — respondi puxando o cachecol sobre o nariz. Eu estava o mais próxima de Draco que a educação permitia, encolhida debaixo do braço protetor dele e ainda sentia frio.

A neve havia chegado de repente, durante a madrugada, congelando o Lago Negro e colorindo de branco o gramado ao redor do Monumento da Guerra, as árvores da Floresta Proibida ou qualquer mínima superfície exposta. O frio parecia ter se agarrado às paredes de pedra do castelo, infiltrando-se pelos corredores e fazendo seus ossos doerem se você ficasse tempo demais andando por eles. O que fez McGonagall suspender as rondas noturnas. O espaço diretamente em frente a lareira era o mais disputado do salão comunal e foi necessário muita força de vontade para que eu mesma não ficasse por lá em vez de ir a cidade.

Em Hogsmade, não era diferente. O Três Vassouras estava apinhado. Cada vez que o sino acima da porta tocava, o som vinha acompanhado de uma lufada de ar gelado. Mesmo a grande lareira do salão de Madame Rosmerta não era suficiente para tanta gente. do lado de fora a neve caía sem dó, afugentando as pessoas das ruas brancas e escorregadias. Fazia quase 40 minutos que estávamos sentados na mesa mais ao fundo do bar, tentando não congelar e esperando pelos candidatos, ou candidatas, mas ninguém havia aparecido ainda.

Levei minha terceira caneca de chocolate quente aos lábios, na esperança de que o líquido pudesse diminuir minha sensação de enrijecimento. Estava concentrada na tarefa de bebericar o chocolate fumegante sem queimar minha língua, quando escutei Gina ralhar.

— Eu vi isso, Harry Potter. Você também, Malfoy.

Levantei os olhos da caneca, procurando pela razão da bronca de Gina. Mas a primeira coisa que notei foi um perfume, uma fragrância doce, que fez cócegas no meu nariz. Não era ruim, mas o ambiente estava lotado e quando a garota se aproximou da mesa, o cheiro agitou consideravelmente meu estômago.

— Desculpe. — o timbre era suave e calmo, muito parecido com o de Luna. Mas havia algo estranho com som de suas palavras. — A nevasca acabou me atrrasando.

Pisquei para a recém chegada, apenas um par de olhos muito azuis e um pedaço de nariz vermelho de frio apareciam em meio ao sobretudo preto, salpicado de neve, às pesadas botas para neve, às luvas, ao cachecol, aos abafadores de orelha e à boina.

— Engraçado, nós chegamos na hora. — Gina respondeu.

Os poucos pedaços de pele da garota que apareciam sob as camadas de proteção ficaram ainda mais vermelhos e Harry cutucou a noiva com o cotovelo, repreendendo-a pela resposta atravessada, antes dele mesmo responder.

— É compreensível.

— Confesso que quando li no jorrnal que os responsáveis pelo Instituto Lilian Potterr estavam prrocurando porr um assistente não imaginei encontrrarr Harry Potterr e Herrmione Grangerr em pessoa. Isso é incrrível... e assustadorr.

Primeiro achei que era apenas por causa do cachecol, que estava abafando as palavras. Mas ela, na verdade, tinha um forte sotaque francês.

— E você é?! — Gina cruzou os braços, inclinando-se sobre a mesa e olhando diretamente nos olhos da garota.

— Oh… Desculpe. — ela puxou o cachecol do rosto, revelando lábios finos e bem desenhados e um pouco do cabelo, que parecia ser escuro como a noite, antes de estender a mão para Gina. — René Delacour, senhorrita. Weasley.

— Delacour? — o rosto da ruiva era pura descrença enquanto ela apertava a mão da moça. — Como a minha cunhada?

— Meu pai e o pai de Fleur Delacour são prrimos, o que nos faz prrimas distantes. Não tivemos muito contato durrante a infância, mesmo em Beauxbatons. Serria estrranho se ela tivesse falado de mim, não o contrrário.

— Sei.

Lancei um olhar exasperado à Gina. Nossa primeira impressão com Fleur não tinha sido das melhores, mas a vida se encarregou de nos mostrar o quão equivocadas estávamos a respeito da mulher de Gui.

— Você também é meio veela? — perguntou Luna, enquanto colocava a mão na de Neville, que estava sobre a mesa.

— Oh… não. — ela sorriu tímida. Um sorriso que realmente se parecia com o de Gabrielle. — Essa carracterrística peculiarr de minhas prrimas veio da família da mãe, a senhorra Apolline.

Tive que me segurar para não rir. Todo o mal humor de Gina estava relacionado ao fato de a garota poder ter o gene irresistível da beleza. Meneei a cabeça e olhei para René. Ela era mesmo bonita. Os olhos azuis deviam fazer um contraste e tanto com os cabelos negros e a pele extremamente branca. Dava para perceber que ela devia ter um corpo bonito também, a cintura fina estava bem marcada pelo cinto do sobretudo. E com certeza ela era alguns centímetros mais alta que eu.

Coloquei a caneca de chocolate quente de volta na mesa com um pouquinho mais de força que o normal, quando me dei conta sobre o que Gina havia reclamado poucos segundos antes dela se aproximar. Harry e Draco deviam ter olhado para ela através do salão do bar.

O loiro se virou para mim, com a sobrancelhas erguidas, como quem pergunta “O que foi?”. Belisquei-o, mas havia pelo menos três camadas de tecido acima da pele dele, sem contar minhas luvas, então, ele praticamente nem notou.

— Eu diria para você se sentar. Mas infelizmente, estamos sem lugar. — disse, com um tiquinho de amargura na voz.

A ruga na testa de Draco havia aumentado quando ele se virou para mim de novo. Lancei um pequeno sorriso sarcástico para ele que — como bom representante do sexo masculino — continuou sem entender do que se tratava.

— Sem prroblemas. Estou muito nerrvosa e não ia conseguirr me sentarr, de qualquerr maneirra.

— Por que está tão nervosa?

— Está brrincando comigo, senhorrita? Estou diante dos maiorres herrois da segunda gerra brruxa.

— Não vai conseguir esse emprego por meio de bajulação.

Harry soltou um suspiro cansado e eu me obriguei a ser profissional, apesar do monstro de ciúme que arranhava as paredes do meu estômago, louco para se libertar e atacar a garota francesa.

— O que a Gina quis dizer, é… Por que quer trabalhar conosco no Instituto Líllian Potter, srta. Delacour?

— Oh… Porr favorr, me chame de René, senhorrita Grrangerr. — eu estava me esforçando ao máximo para ser educada e profissional, agir como uma empregadora que entrevista uma empregada em potencial. Mas o sotaque de René não deixava com que eu me concentrasse totalmente na tarefa. — Semprre pensei em trrabalharr com crrianças, semprre gostei delas. Acabo de me forrmarr em Beauxbatons e vim parra a Inglaterra prrocurrarr uma oporrtunidade na árrea, uma chance de me especializarr.

— Trabalhar com crianças envolve vários fatores. — Luna argumentou. — Quando diz que já pensou em trabalhar com elas, quer dizer como professora, orientadora, cuidadora, recreadora? Não em entenda mal, René. Mas há muito trabalho a ser feito no instituto e ele envolve um pouco de tudo, desde trocar fraldas, dar banho e alimentar; a ensinar lições e brincar. Talvez até mesmo cozinhar, lavar e limpar.

A garota francesa engoliu em seco e encarou Luna. Ela torcia a ponta do cachecol roxo entre os dedos magros, sem nem tomar conhecimento do gesto.

— Fui crriada para saberr cozinharr, lavarr, passarr e cuidarr de uma casa da melhorr maneirra possível, como uma boa esposa frrancesa. No que diz rrespeito às crrianças, eu dirria que tenho uma aptidão naturral para cuidar delas. Desculpe, senhorrita Lovegood, mas o cuidarr e o ensinarr parra mim não são duas coisas distintas. Elas caminham juntas.

Foi uma ótima resposta, na verdade. Diminuiu em alguns centímetros a minha implicância inicial.

— Está ciente de que este é um trabalho em período integral? — indagou Harry. — Receberá tudo como manda a lei, com horas extras e adicionais. Mas precisamos de alguém disposto a, literalmente, morar no Instituto.

— Eu, na verrdade, estava contando com isso, senhorr Potterr. Estou morrando em uma pensão parra garrotas desde que vim parra a Inglaterra e não tem saído barrato. Como eu di-

René interrompeu a frase de súbito. De repente, saído de algum lugar no meio da confusão de bruxos que andava de uma lado para o outro entre as mesas do Três Vassouras, Ronald surgiu ao lado dela. A moça deu pulo de susto e quase caiu sentada no colo de Harry. Como se Gina precisasse de mais razões para odiar o irmão, ou a pobre recém chegada.

— Que infernos você quer, Ronald?

— Desculpe atrapalhar. — ele tentou dizer com firmeza, mas seu rosto estava quase tão vermelho quanto os cabelos. — É que a moça está há um bocado de tempo em pé e tinha uma cadeira sobrando na nossa mesa.

Ronald posicionou a cadeira na ponta da mesa e fez um gesto com a mão, indicando-a a René. Os olhares dos dois se encontraram e a francesa piscou algumas vezes, como quem quer ter certeza do que está vendo.

— Era só isso, Weasley? — Draco foi seco. — Estamos no meio de algo importante aqui.

Ele desviou os olhos da garota e encarou Draco por meio segundo, com o queixo trincado de raiva e frustração. Depois, se virou para Harry.

— Ouvi dizer que estão organizando um jogo comemorativo…

— O que você tem com isso? — Gina começou, sem dar chances ao noivo.

— Só ia dizer que se precisarem de ajuda, e-

— Você está à disposição. — ela cortou-o. — Sei… sei… Obrigada, mas pretendemos garantir que ninguém seja sequestrado por comensais da morte, dessa vez.

Ronald até abriu a boca para responder, mas desistiu. Lançando um último olhar exasperado à irmã, ele se virou e saiu. René apenas ficou olhando para as costas do garoto ruivo enquanto ele se afastava.

— Precisava disso tudo? — Harry claramente se dirigia a Draco e Gina.

— Depois a gente fala sobre isso. — a garota respondeu, meneando a cabeça em direção à René. — Se já acabou de olhar para o meu ex-irmão idiota, podemos continuar… O que acha, Srta. Delacour?

— Desculpe.

— É, eu sei… — Gina foi seca. — Ele é famoso, um herói de guerra e tal. Mas vamos nos concentrar no que realmente importa, sim?!

— O que eu estava dizendo mesmo? — René mordeu o lábio enquanto tentava se concentrar de volta na conversa, totalmente envergonhada.

— Que está morrando em uma pensão para garrotas. — Gina respondeu imitando o sotaque da garota e deixando-a ainda mais encabulada.

— Sim, sim. Obrrigada. Tenho disposição parra me mudarr parra o Instituto Lílian. — ela desafivelou o cinto do sobretudo e retirou do bolso interno da veste um pergaminho enrolado. — Aqui está minha carrta de recomendação de Beauxbatons e algumas rreferrências. Posso darr mais alguns nomes se forr prreciso.

Harry desenrolou o pergaminho e analisou o conteúdo. Gina pegou o papel das mãos do noivo e depois de ler, passou-o para mim. René era mesmo qualificada. Tinha tirado notas altas em todas as matérias dos N.I.E.M.s e a própria diretora, Madame Maxime, havia escrito sua carta de recomendação ao empregador. Mas eu não reconhecia nenhum dos nomes citados como referência.

— Vamos precisar de algum tempo para avaliar o que nos disse e checar essas informações. Seja qual for nossa decisão, entraremos em contato com você. — respondi.

— Se precisarmos saber mais alguma coisa, podemos te contatar? Tem disponibilidade para um possível período de testes?

— Mas é clarro que sim, srrta. Lovegood. O enderreço da pensão está no fim do documento. — ela se levantou e fez uma pequena mesura. — Obrrigada. — antes de puxar o cachecol sobre a boca e nariz mais uma vez, se virar e sair.

A garota ainda nem tinha passado pela porta, quando Gina deu seu veredito.

— Definitivamente, não.

— Claro, porque todos os outros candidatos são tão qualificados. — Harry rebateu.

— Podemos esperar mais.

— Estamos congelando aqui a uma hora e a neve ainda não diminuiu. Acho que é hora de admitir, Weasley. Ninguém mais vai aparecer hoje.

Gina não respondeu, apenas pegou o copo em que Draco havia bebido wisky de fogo, colocou no meio da mesa e conjurou uma chama dentro para tentar esquentar as mãos.

— Podemos deixar o anúncio mais alguns dias. — Luna disse em seu tom mais apaziguador.

— Com certeza vamos deixar o anúncio mais alguns dias. — Gina resmungou.

— Precisamos checar essas informações, mas acredito que ela será uma boa candidata.

A ruivinha me dirigiu um olhar de indignação antes de sibilar.

— Seu noivo estava olhando para ela, enquanto a qualificada René pedia informações à Madame Rosmerta no balcão.

— Eu sei. — suspirei. — Entendi porque você tinha chamado a atenção dele e do Harry assim que ela tirou o cachecol. Mas prefiro confiar nos dois.

Lancei a Harry e, finalmente, Draco um olhar de aviso. A boca do menino que sobreviveu se torceu para baixo e ele olhou para Gina pelo canto do olho. Mas a ruiva ignorou o gesto. Draco, por sua vez, moveu os lábios para formar um “desculpe” sem emitir nenhum som.

— A questão não é ela ser descaradamente bonita. — Luna colocou as mãos ao redor de sua caneca e escutei Neville engolir em seco. — Não podemos dar o emprego a ela, simplesmente, porque foi a única candidata que apareceu hoje. Mesmo que ela tenha boas referências. — ela não completou o raciocínio, mas estava explícito para todos nós que o restante da frase era “foi o que fizemos com Derick e olhe onde isso nos levou”. — O anúncio ficou no jornal apenas um dia. Há uma tempestade de neve caindo lá fora. Enfim, acho que precisamos tentar um pouco mais

— Tudo bem. Podemos manter o anúncio no Profeta Diário mais alguns dias e entrevistar candidatos de novo, no próximo fim de semana.

Harry concordou e colocou o braço ao redor da noiva, tentando fazer aquilo parecer automático, inocente e despretensioso. Gina notou a real intenção por trás do gesto, mas decidiu ignorá-la e se acomodou no abraço dele.

A conversa mudou de rumo, rendeu e acabamos ficando no Três Vassouras mais algumas horas, apesar do frio. Luna resolveu criar um roteiro de perguntas para fazer aos próximos candidatos, o que acabou se mostrando muito útil quando voltamos à mesma mesa do bar de Madame Rosmerta, uma semana depois de nosso primeiro encontro com René. A neve finalmente havia parado de cair e passamos o dia todo analisando cartas de recomendação, currículos e históricos; conversando com pessoas interessadas em trabalhar para nós; e tentando nos livrar, educadamente, das que haviam ido até ali apenas para nos ver de perto e pedir um autógrafo.

Depois de várias rodadas de cerveja amanteigada, muita discussão e diversas ameaças de Gina para Harry, Draco e até Neville, durante todo o caminho de volta até Hogwarts, acabamos nos decidindo pela garota francesa. É claro que a ruiva já havia checado todas as referências, mais de uma vez, e sabatinado Fleur com perguntas sobre a prima. Ela escreveu até mesmo para Madame Maxime a fim de confirmar as informações sobre a moça e, felizmente, tudo que ela tinha nos contado era verdade.

— Que fique claro, que isso é um período de testes. — ela declarou pela milésima vez, enquanto esperávamos por René, ao redor da mesa na cozinha do Instituto.

Notas finais
Já estou me sentindo carente... então, por favor, deixem muitos reviews! Haushaushuashua Bjos