Dramione - Side Effect
45 Um soco no estômago
Notas iniciais
Derick me encarava, parado na soleira da porta do pequeno quarto — o quarto dele — analisando meus movimentos. Ficou difícil respirar e precisei puxar o ar com força.
— De… De… De… Derick.
— Hermione. — ele cumprimentou de forma casual. Não pareceu surpreso em me ver, apenas curioso e divertido. — Harry vai ficar orgulhoso. Ele estava caçoando de Percy sobre usar aquele feitiço na porta pra segurar você. “Não vai levar nem duas horas para ela conseguir sair”. — ele imitou o timbre rouco do meu amigo.
— Acho que ele me conhece melhor que os outros. — disse, tentando parecer encabulada.
Se ele fosse contar para alguém sobre a minha escapada, eu tinha que fazê-lo acreditar que consegui escapar sozinha e manter Luna fora de confusão. Mas os olhos esmeralda, apesar de continuarem me analisando com cuidado, não davam sinais de preocupação.
— Sorte dele. — ele murmurou.
— Derick. Por que o feitiço? Por que me prenderam naquele quarto? — apesar de ter certeza que Luna não havia me escondido nada, resolvi me fazer de desentendida.
— Eu não posso… — ele encarou os próprios pés por alguns segundos e, depois, voltou a olhar para mim. — Hermione, eu sinto muito… Eles… alguns deles… Sinceramente, não sei como eles tem coragem de se intitular seus amigos, se não confiam em você.
— Está dizendo que eles acham que traí a Ordem? Que ajudei ou estou ajudando os comensais? — usei meu tom mais ultrajado. — Derick, você precisa acreditar em mim… eu nunca… eu juro… eu não… eu não fiz nada.
Ele meneou a cabeça para o lado, ainda com os olhos fixos em mim. E sorriu.
— Não precisa jurar, Hermione Granger. Acredito em você.
— Acredita? Mesmo? — eu estava prestes a arriscar tudo, mas não havia muitas opções no momento. — Porque vou precisar de ajuda para provar o que estou dizendo.
— Está pedindo a minha ajuda? — ele deu um passo à frente e fixou os olhos cor de esmeralda nos meus.
— Desculpe te colocar nessa posição. Mas não posso fazer isso sozinha e não tenho mais ninguém a quem recorrer. — sustentei a encarada, lutando contra o rubor que já fazia a pele do meu rosto arder.
Ele se aproximou ainda mais e quando estava bem na minha frente, dobrou um dos joelhos, colocando-o no chão. Involuntariamente, dei um passo para trás, intimidada. Mas ele capturou minha mão direita e me manteve parada.
— Hermione, não há nada, absolutamente nada, que eu não faria por você. Apenas me diga o que fazer.
Engoli em seco. A intensidade verde havia me alcançado e parecia querer me engolir, tomar-me a força. Um pequeno calafrio percorreu a minha coluna. Puxei a mão que ele segurava e Derick ficou de pé para acompanhar o movimento, mas não me soltou. Estávamos muito próximos e eu podia sentir a respiração quente contra a pele da minha bochecha. O cheiro fresco de menta e sálvia que emanava dele.
— Bem… — enrolei. Ainda não estava certa de quanto eu podia revelar. Além do mais, eu já estava fora há mais tempo do que deveria. Eu tinha de voltar e encontrar Luna para entrar no quarto. — Sinceramente, não sei por onde começar. Acho que… quer dizer, você é quem esteve lá… então… O que pode me dizer sobre as desconfianças da Ordem? O que aconteceu para que me prendessem naquele quarto?
— Parece que aquele Desiluminador, o tal dispositivo que podia levar vocês até a Gina e que você tirou do Harry logo que chegaram naquela manhã, desapareceu. Procuraram pela casa toda, mas ninguém sabe dele.
— Precisamos continuar procurando. — decretei. — Se achássemos, talvez…
— Talvez eles acreditassem em você — completou. — Hermione, já vasculhei todos os cantos desta casa... mais de uma vez. Acredite, ninguém gostaria de encontrar esse dispositivo mais do que eu, só para poder esfregar no nariz empinado daquele tal Percy Weasley.
Ao dizer isso, o olhar dele finalmente deixou o meu e se fixou em um ponto atrás de mim. A raiva e o asco na voz de Derick, quando ele pronunciou o nome de Percy, mandaram um novo calafrio pela minha espinha. A intensidade que emanava dele estava começando a me assustar de verdade. Eu precisava me afastar. No mínimo corredor atrás dele, notei a figura de olhos azuis, que estudava cuidadosamente meu próximo movimento, paralisada. Inspirei uma grande quantidade de ar e tirei o pé direito do chão, esperando o momento exato de levá-lo para trás. Mas Derick levou a mão livre ao meu rosto e acariciou a minha bochecha com o polegar. Minha respiração ficou presa na garganta e eu encarei os botões da camisa dele, concentrada em não deixá-lo capturar meu olhar novamente.
Eu tinha certeza de que estava de olhos arregalados. Minhas mãos estavam começando a suar frio. Merlim! Eu precisava lutar contra o impulso de me afastar do toque.
— Derick…
Era para soar imponente, firme, mas não passou de um gemido estrangulado. Ele passeou a ponta dos dedos pela lateral do meu rosto, mais uma vez, de forma suave e entrelaçou-os nos meus cabelos. De repente, meu coração parecia não ter espaço suficiente para bater, apertado dentro do peito, desesperado, dolorido. Aquilo era tão errado, de tantas maneiras diferentes. Levei a minha mão livre até a gola da camisa preta, recuperando meu equilíbrio, aproximando-me dele. Então, pedi, silenciosamente, para que o lampejo que vi nas grandes e vivas íris azuis, quando elas acompanharam meu gesto, significasse o que eu precisava que significasse. E me virei para Derick, restabelecendo a perigosa conexão com o verde.
O tom esmeralda havia desaparecido, os olhos verdes estavam escuros, como a grama queimada pelo sereno durante as noites de inverno. Senti minha garganta se apertar ao me aproximar mais, para cobrir o já escasso espaço entre nós. Derick parecia estar esperando pelo que eu ia fazer, pois levou nossas mãos unidas para minhas costas e inclinando a cabeça, acelerou as coisas, colando nossos lábios.
Tentei me concentrar no que estava fazendo, tentei me dedicar ao beijo, mas sob as minhas pálpebras cerradas, os olhos cor de tempestade me fitavam. Escutei as tábuas do piso de madeira rangerem em algum lugar, não muito longe de nós, e encontrei o estímulo que precisava. Soltei a gola da camisa e deslizei as mãos até o pescoço dele. Derick deu um pequeno gemido e me apertou ainda mais contra si, aprofundando o beijo. Os lábios dele tinham um gosto bom de café, eram quentes, macios, mas pareciam não se encaixar nos meus. Os braços ao meu redor eram fortes, mas não aplicavam a pressão certa. O corpo contra o meu era imponente, mas não me aconchegava como se fôssemos uma extensão um do outro.
A dor no meio peito aumentava no ritmo em que meu corpo constatava e meu cérebro processava tais diferenças, levando a pouca força de vontade que eu havia conseguido reunir. Com cuidado, diminui o ritmo do beijo e, finalmente, consegui fazê-lo parar de me beijar. Mas Derick não me soltou, ficou me encarando em silêncio, pelo que pareceram eras, enquanto eu forçava um sorriso sem graça. Tentei com todas as forças parecer encabulada e tímida. E agradeci pela forma como minhas bochechas esquentaram sob o jugo do olhar verde esmeralda.
— Você fica linda corada… — ele sussurrou com a voz rouca. Minha mente foi inundada com lembranças de um timbre um pouco mais grave que, apesar de rouco, era permeado de um sorriso sincero e feliz. A lembrança veio acompanhada de dois grandes olhos azul-acinzentados cheios de vida.
Então, para completar meu desespero, Derick segurou a parte de trás do meu pescoço e encostou a testa na minha, de olhos fechados. Foi como levar um soco em cheio no estômago. Tenho certeza que me retrai quando a dor me atingiu, real e impassível. Desisti de ser educada, de afastá-lo com cuidado. Segurei seus pulsos com firmeza e me libertei, antes de sair correndo escada abaixo.
Só quando dei de frente com Luna no último degrau, notei que, felizmente, ele não havia me seguido. Não fiz cerimônia e me joguei nos braços maternais e protetores dela. A loirinha afagou minhas costas com carinho.
— Cada dia admiro mais a sua coragem, Mione. Gina vai enlouquecer quando souber o que você acabou de fazer.
Não tinha forças para responder com palavras, então, levantei os olhos molhados para ela. Sentia-me tão vazia que não fui capaz de produzir uma expressão confusa. Mas aquela era Luna e ela entendeu o que eu queria mesmo assim. Afastando-me delicadamente, ela estendeu a mão com o Desiluminador para mim e a intensidade das lágrimas aumentou. Agarrei-me a ele como se disso dependesse a minha vida, e talvez, de certa forma, dependesse mesmo. Luna sorriu, um sorriso lindo e iluminado. Não esperei mais e comecei a descer o corredor com Luna em meus calcanhares.
— Como você soube?
— Finalmente me lembrei... Precisamos contar aos outros antes que ele descubra que sumiu.
— Ainda não entendi.
Alcançamos o pavimento térreo e surpreendemos Harry saindo da cozinha. Ele nos deu seu melhor sorriso — pelo menos, o melhor que podia diante de tudo o que estava acontecendo. E gritou para dentro da cozinha.
— Você deve 10 galeões ao George, Olívio.
Não consegui não correr para ele. Foi um abraço sincero, aliviado, mas ainda assim cheio de angústia e medo. O abraço mais cúmplice que qualquer outro que já houvéssemos trocado. Agora eu tinha certeza de que Draco estava na verdade protegendo Gina e, por isso mesmo, correndo perigo também. Agora, sabíamos exatamente o que o outro estava sentindo.
— Eu nunca duvidei de você. — sussurrou com a voz falha de vergonha.
— Eu sei. Mas não temos muito tempo. — estendi o Desiluminador para ele. — O traidor já avisou aos comensais sobre nosso próximo passo.
Harry entrou cozinha balançando o Desiluminador para quem quisesse ver e me puxando atrás de si. E vários pares de olhos deixaram seus afazeres para me encarar. Alguns eram acolhedores, outros envergonhados, outros ainda desconfiados.
— Que conveniente, ela encontrou. — desdenhou Percy.
— Não, não fui eu. Foi a Luna.
— Ah, claro... — ela respondeu sem graça. — Depois que você matou a charada sobre o traidor ficou fácil! Vai finalmente me dizer como descobriu?
Se alguém ainda não estivesse 100% concentrado no assunto, com certeza o comentário de Luna tinha conseguido chamar a atenção em definitivo para nós.
— Quando ele me surpreendeu saindo do sótão eu meio que tive um estalo. Lembrei que ele foi a primeira pessoa que encontrei depois que a Gina foi levada no baile e, mesmo diante do meu desespero, ele não ficou realmente surpreso ou preocupado. Além disso, ele quase nos atropelou no corredor quando estava vindo do terceiro andar, no dia em que tudo aconteceu, na manhã em que você viu a coruja.
— Na verdade, minutos depois de eu ter visto a coruja pela janela. Faz tanto sentido. Como foi que eu não lembrei?!
— Além disso, eu lembrei que ele… eu estava tão cansada naquela noite, tão confusa. E quando acordei, nada fazia muito sentido. Mas de repente as coisas começaram a se encaixar e eu lembrei… — senti minhas bochechas esquentarem enquanto me preparava para admitir aquilo na frente de todos. — …lembrei que ele me beijou quando me levou pro quarto assim que chegamos do Havaí.
As orelhas de Ronald ficaram vermelho vivo, quase se misturando com os cabelos. Harry arregalou os olhos para mim.
— Por isso você o… — engoli em seco enquanto fuzilava Luna com olhos, mas Gui a interrompeu antes que ela pudesse dizer a todos o que eu tinha feito lá em cima. Ao contrário dela, eu não estava orgulhosa de mim.
— Está dizendo que é Derick quem tem repassado nossos planos e decisões aos comensais? — o Weasley mais velho se levantou da cadeira.
— Está dizendo que Derick te beijou a força? — Ronald explodiu.
— Ele fez isso para pegar o Desiluminador. Achei no quarto dele. — Luna parecia um pouquinho irritada. — E não é como se ele fosse amigo do Draco, ou seu. Podia muito bem fazer a própria jogada pelo coração dela. — ela tomou fôlego para continuar , mas estava olhando para Percy agora. — Mas, voltando ao assunto principal, acho que ele interceptou o Patrono do Neville.
O rosto de Ronald se contorceu em uma careta estranha e a vermelhidão das orelhas começou a se espalhar para o resto do corpo. Até mesmo as mãos, fechadas em punhos estavam ficando vermelhas. Eu sabia o porquê daquela reação, o que ele estava pensando. Estava apenas implícito nas palavras de Luna e naquele momento, não fazia a menor diferença para ninguém, exceto, aparentemente, para ele. Que finalmente teve a confirmação de que precisava — Draco e eu estávamos juntos.
— Ele deixou a cozinha assim que vocês desaparataram naquela noite, ficou fora por muito tempo. Parecia agitado. Mas todos estávamos, por causa da falta de notícias. — Andrômeda disse aquilo mais para si mesma, mas acabou cortando o que Ronald ia começar a falar e nos salvando de uma discussão cheia de gritos e ofensas, além de totalmente sem sentido. — Merlim! Como foi que eu me deixe enganar assim?
— Não se culpe Andrômeda, ele enganou todo mundo. Sabe ser bem charmoso e prestativo quando quer.
— Charmoso? Como… Como foi que você entrou no quarto dele? — Neville parecia inquieto, esfregando as mãos na calça jeans. Luna ficou ainda mais branca, abriu a boca e fechou e eu achei melhor sair em sua defesa.
— Eu… eu... o… o distrai, enquanto ela procurava. Quando Luna achou o Desiluminador, foi a confirmação que faltava pras minhas suspeitas.
— O que estamos esperando para ir lá pegá-lo? — Gui disse já se encaminhando para a porta.
Mas Carlinhos segurou o irmão pelo braço.
— Ele vai desconfiar se chegarmos todos correndo pra cima dele, não acha?
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