Dramione - Side Effect
46 Avada Kedavra
Notas iniciais
Tentei agir da forma mais natural possível, mas não consegui não espiar por sobre o prato de ovos mexidos, que Héstia havia servido para mim, quando Derick entrou na cozinha para responder ao chamado de Andrômeda.
E é claro que fui pega. Os olhos cor de esmeralda encontraram os meus e senti meu rosto esquentar. Precisei apertar os talheres com força para tentar esconder os tremores que chacoalharam as minhas mãos. Um dos cantos da boca dele se ergueu levemente e foi como se alguém tivesse injetado água gelada nas minhas veias.
A lembrança do que aconteceu no sótão veio a tona e ameaçou trazer a comida, que eu havia acabado de me obrigar a engolir, de volta. Eu só queria me encolher em uma bola, segurar a mim mesma e evitar que as beiradas do buraco na minha alma continuassem a desabar, a aumentar o vazio e a dor. Mas não podia, não naquele momento. Precisava retribuir, fingir que aquela cumplicidade existia de verdade entre nós. E foi o que fiz. Ensaiei um sorriso encabulado que acabou por distraí-lo.
De repente, Gui e Carlinhos estavam ao lado dele, segurando-o pelos braços. Por alguns segundos, Derick pareceu surpreso, então, o pequeno sorriso aumentou e ficou carregado de desdém. Os olhos fizeram questão de não deixar os meus e ficou difícil respirar. Apesar de saber que ele estava preso, eu ainda me sentia acuada. Entretanto, fiz questão de me juntar aos outros.
— Finalmente descobriram, não é?! Foi você, loirinha?
A voz ainda era grave e sedutora, mas havia algo como um tom de ameaça, uma vibração que fazia todos os meus sentidos gritarem PERIGO. Finalmente conheceríamos o verdadeiro Derick.
— Gostaria de ter juntado as peças, mas não. — Luna soou realmente desapontada, apesar de muito calma, mesmo sob o jugo do olhar ameaçador dele.
— É claro que não! Foi a sua amiga sabe-tudo quem matou a charada. Mas tenho certeza que você ajudou. Ninguém mais tem cérebro suficiente para isso e ela tinha poucas informações, até você entrar no quarto dela hoje de manhã. Pelo Lord das Trevas! — Ele se virou de novo para mim. — Quer dizer que aquilo tudo foi fingimento, Granger?! Começo a simpatizar com o Malfoy, quase dá para entender a escolha dele.
A frase foi estrategicamente calculada para me atingir, da primeira à última palavra. Desde de a parte em que ele sugeriu algo a mais entre nós até quando citou o nome de Draco. Eu já devia esperar algo assim. Mas fui pega desprevenida. A intensidade com que ele me olhava pareceu mandar ondas geladas por mim. E eu fiquei paralisada e muda. Até que um casaco de feltro marrom interrompeu a conexão. Héstia havia se colocado entre nós.
— Não vai mais se dirigir a ela. Ou a ninguém sem a minha permissão, está me ouvindo? — ela foi firme.
— Desculpe. É que ela parecia tão interessada lá em cima, minutos atrás.
O barulho estalado, como osso encontrando osso fez com que eu finalmente me movesse. E quando consegui me desvencilhar da figura imponente da bruxa, Luna massageava os nós dos dedos da mão esquerda sob o olhar cuidadoso e — notei sem surpresa — orgulhoso de Neville. Uma mancha vermelha começava a se formar sob o olho direito de Derick e o nariz dele sangrava.
— Isso também funciona.
Héstia riu da careta de dor que Derick não conseguiu esconder. E vi que a sra. Weasley estava se segurando para não fazer o mesmo.
— Agora, vamos começar de novo… Onde eles estão?
— Está perdendo seu tempo. — ele desdenhou.
— Garoto, se não colaborar, eu não vou gostar do que vou ter que fazer. Mas você, vai gostar menos ainda.
— Acha mesmo que pode fazer qualquer coisa para me atingir? Me convencer a colaborar?
A risada com que Derick terminou a frase pareceu cortar o ar, carregado de tensão, como uma lâmina afiada. Meu corpo se arrepiou em resposta. Ele estava muito calmo e confiante para alguém pego em flagrante, preso e que estava sendo ameaçado. Alguém que passaria o resto dos seus dias em Askaban. Na verdade, ele parecia estar se divertindo com a situação, quase gostando dela. Estávamos deixando passar alguma coisa.
A gargalhada macabra de Derick acabou silenciando o cômodo e por alguns instantes o eco frio dela foi o único som na cozinha. Era como se todos estivessem prendendo a respiração. Imaginando que tipo de pessoa se diverte com a própria desgraça, que tipo de pessoa não tem absolutamente nada a perder. Será que ele não tinha família, amigos, mãe, pai, irmãos? Ninguém com quem verdadeiramente se preocupasse, ou que se preocupasse com ele?
— Vamos descobrir algo. — Percy quebrou o silêncio e encarou o garoto de olhos verdes com sua postura mais imponente, autoritária e cruel. — A não ser que você seja filho de uma chocadeira! O que não seria uma surpresa, na verdade.
A fúria que borbulhou sob as íris verde-esmeralda era assustadora. Neville colocou-se protetoramente na frente de Luna quando viu a expressão assassina no rosto do garoto. Derick se contorceu sob o aperto de Gui e Carlinhos. E eu finalmente descobri, incrédula, o que tínhamos deixado passar.
— Expelliarmus!
Acho que Derick já estava esperando pela minha reação, porque conseguiu se esconder atrás do Weasley mais velho, que acabou desmontando no chão ao receber toda a carga do feitiço em cheio no peito. Distraído pela queda do irmão, Gui acabou deixando Derick escapar também quando ele se debateu de novo. E ele aproveitou a deixa para tentar chegar até a porta. Mas Harry, Ron e Neville entraram no caminho e apontavam suas varinhas direto para o peito do rapaz. Derick exitou por meio segundo.
— Claramente estou em desvantagem aqui. — Gracejou, ele parecia ainda estar se divertindo. Outro sorriso gelado surgiu no rosto perfeito, fazendo meu coração se apertar e meu estômago doer. — Então, é melhor mirar onde vai doer mais. Avada Kedavra!
A cozinha não era exatamente um cômodo pequeno, mas com tantas pessoas reunidas no mesmo espaço, Derick não precisava nem mesmo ter apontado a varinha para alguém. Só que aquelas não foram palavras vãs. E ele sabia exatamente o que estava fazendo. Queria causar devastação e assistir à nossa reação diante do estrago, quando disparou na direção de Luna.
A cozinha explodiu em um caos de fumaça; clarões; gritos de horror, de contra-feitiços e ataques; xingamentos. Tudo ao mesmo tempo. Quando Héstia se colocou entre Derick e eu, ela também me afastou do centro da cena. E quando o mundo virou de cabeça para baixo, eu estava na borda da confusão. E foi isso o que me impediu de ser tragada para o pandemônio à minha frente.
Ficar à margem da bagunça me deu o mínimo de distinção necessária para agir, então, com um aceno de varinha suguei a fumaça. E isto é tudo de que me lembro. Não sei se houve mais gritos, lamentos, feitiços. Não faço ideia de como Derick escapou. Tudo o que eu conseguia enxergar era a figura esguia de Neville agachada ao lado de longos cabelos loiros, espalhados no chão de madeira. O barulho da minha pulsação acelerada enchia meus ouvidos, silenciando todo o resto, enquanto eu caminhava os dez passos que me separavam deles. Meu peito doía enquanto eu insistia em fazê-lo subir e descer para conseguir um pouco de ar. As lágrimas já rolavam em cascata, embaçando a minha visão.
Por que é que eu a envolvi naquilo tudo? Por que tive que arrastar justamente a melhor de nós, a alma mais doce e pura entre todos os que um dia conheci, para dentro de toda aquela sujeira? O buraco oco na minha alma havia aumentado e agora tentava sugar tudo ao redor para o nada dentro dele. Abracei a mim mesma, tentando me manter inteira apenas por mais alguns minutos. Mas o mundo nunca mais seria um lugar alegre. Não haveria mais esperança. A vida tinha acabado de desbotar e perder toda a cor.
De repente, foi como se eu pudesse escutá-la chorar junto comigo e meu coração doeu, apertado no peito. Luna nunca chorava. Era uma lamento triste, que em nada tinha a ver com ela. Mas eu sabia que era Luna quem chorava. Reconheceria o timbre em qualquer lugar, sereno até mesmo na tristeza.
— Desculpa, Luna. — murmurei baixinho. — A culpa é toda minha. Eu não devia…
— Não, não é! Esqueça o que a faz acreditar nisso. Não importa! — A voz dela repetiu as palavras de Héstia dentro da minha cabeça. — Ela te disse isso uma vez e diria de novo agora.
Nunca levei um choque dos grandes, mas a sensação que percorreu meu corpo naquele momento só podia ser descrita como “ser eletrocutada”. Enxuguei as lágrimas com verdadeiro desespero e olhei, pela primeira vez, para os braços de Neville. E, então, notei o casaco de feltro marrom. Não era Luna quem ele amparava, mas Héstia. A loirinnha tinha estado debruçada sobre o corpo da bruxa e agora olhava para mim ajoelhada no chão. Seu rosto estava muito vermelho e coberto de lágrimas, fazendo as íris azuis clarearem.
— Luna…você… a Héstia… mas… ele… eu vi… era… — eu simplesmente não conseguia acreditar naquilo, muito menos falar, então, fiz a única coisa que podia e me joguei sobre ela. Agarrei-a a com toda a força que tinha.
Luna retribuiu o abraço apertado e enterrou o rosto no meu ombro. Seu corpo tremia levemente com o choro.
— Ela simplesmente… Eu não pude fazer nada… Ela se jogou na frente da Maldição. — ela soluçou.
— Ela viu que não ia dar pra bloquear com um feitiço, então, se colocou no caminho. — explicou Neville, que tinha um corte no ombro e lágrimas nos olhos. — O desgraçado encheu a cozinha de fumaça e usou a confusão para escapar.
— Temos a droga do Desiluminador de volta. É só usar, achar todos aqueles miseráveis e colocar um fim nisso de uma vez por todas. Agora. — Ron rosnou desviando os olhos da cena no meio da cozinha e caminhando até Harry com a mão estendida.
— Draco… — Luna sussurrou e olhou para mim alarmada. — Eles ainda não sabem.
— Mas Héstia… Não posso!
— Não podemos fazer mais nada por ela. — Neville ponderou triste. — A não ser garantir que não tenha se sacrificado em vão.
Engoli o choro e corri para me colocar entre os dois. Ronald me olhava com desinteresse fingido. Harry apenas balançou a cabeça, dando-me a chance de continuar e falar.
— Não sei o que vocês haviam decidido antes de eu descer, mas seja o que for, os comensais já sabem. Derick mandou uma coruja para avisá-los.
— Tínhamos concordado em ir pra China. — Gui contou. — Mas era uma escolha aleatória.
— Acha que eles evitarão o Palacete porque sabem que é para onde vamos? Acha que devemos tentar Aspeen? — o sr. Weasley perguntou com simplicidade.
— A essa altura, Derick já se reuniu com eles. Provavelmente sabem que recuperamos o Desiluminador, que podemos encontrá-los em qualquer lugar a qualquer momento. Não vão fugir, vão se preparar e esperar por nós. Acho que devemos nos despedir de Héstia apropriadamente… e pensar em qual a melhor maneira de agir.
Ninguém encontrou nada para dizer. Não havia o que responder. Isso e o fato de ter sido Ronald quem fez o discurso surpreendentemente sensato. Também não havia ninguém a quem avisar — a não ser Minerva McGonagall. Descobri, tarde demais, que Héstia nunca se casou, ou teve filhos.
— A família e o noivo foram mortos por comensais durante a I Grande Guerra Bruxa. Ela morava sozinha e… — Andrômeda deu um longo e cansado suspiro, enquanto encarava a caneca de chá que tinha nas mãos. Estávamos ali a quase meia hora e ela não tinha nem tocado no conteúdo. — Devia ter insistido mais para que viesse ficar conosco quando inauguramos o Instituto. Ela amava isso aqui.
— E as crianças a amavam. — Narcisa estava parada sob o batente da porta, mais bem composta e arrumada do que eu a vira em meses.
— Como elas estão?
— Ainda estão assustadas, tentando entender o que aconteceu, o que foi a gritaria toda lá embaixo e porque Derick desapareceu. Mas consegui convencê-las a ficar em seus quartos. Mayse reclamou que é só o que eles tem feito a semana toda. Ele é quem está dando mais trabalho.
— A semana toda, ora essa. Falam como estivessem confinados.
— Ele tem certa razão, Andrômeda. — Harry entrou na sala, acompanhado de perto por Neville e Ronald. — Já fazem quase quatro dias que estamos enfiados aqui, entrando e saindo, causando problemas.
Quatro dias. Merlim! Já fazia todo esse tempo? Gina estava nas mãos dos comensais a quase uma semana? Meu suprimento de oxigênio foi bruscamente interrompido. A agonia bloqueava a passagem do ar pela minha garganta. Não queria nem pensar no que esse tempo ao lado de Rodolfo Lestrange podia significar para ela, ou para Lily ou... para Draco. E ele estava tão ferido. A urgência em agir, tomar uma atitude, começava a fazer meus membros formigarem e eu me senti ainda mais culpada por ter petrificado Harry na manhã em que fomos obrigados a fugir do Havaí.
— Não esqueça “comendo a comida deles”. — Ronald falou carrancudo, imitando uma vozinha de criança e me trouxe de volta a sala.
Aparentemente, Mayse tinha expressado seu descontentamento não só a Narcisa.
— Eu vou lembrar aquele garoto quem é que coloca a comida que ele come na mesa.
— Andrômeda, não…
Harry ainda tentou impedir que ela saísse, mas a bruxa estava decidida. E depois que ela se foi, ele lançou um olhar assassino a Ronald — que por sua vez, apenas deu de ombros e murmurou.
— Quê? Ele disse mesmo!
— Não se preocupe, Harry. Andrômeda se faz de durona, mas tudo não passa de encenação. Ela não vai repreendê-lo, apenas explicar a situação, acredite. — Narcisa virou-se para se retirar, mas o chamado de Harry a fez parar.
— Sra. Malfoy. Sinto muito termos prendido a senhora lá em cima.
— Não sei do que está falando!. — Ela tentou brincar. Mas só o que o garoto conseguiu foi ensaiar um sorriso amarelo. — Eu entendo porque tiveram que fazer aquilo. Só sinto muito não ter notado antes… quero dizer, que Derick estava do lado deles. Eu, mais que ninguém, tinha condições de enxergar os sinais.
— Narcisa? Não sei se Andrômeda já te contou… mas, você precisa saber que... é que-
— Que meu marido está vivo? — A expressão da bruxa ficou séria, fazendo-me lembrar da antiga Narcisa de antes da guerra, altiva e imponente. — E pensar que desperdicei todo esse tempo da minha vida chorando por ele…
— Eu sinto muito, mesmo! Mas, será que posso perguntar... faz ideia de como isso é possível?
— Não acompanhamos o beijo do Dementador até o final. Eu queria, queria mesmo. Mas um Auror nos tirou da sala assim que começaram e ele ficou apenas com os Dementarores.
— Um Auror? — Ronald quase pulou do sofá em cima da mulher. — Sabe o nome dele?
— Não.
— Como ele era?
— Desculpe se não prestei atenção a detalhes tão importantes enquanto achava que meu marido estava sendo executado, sr. Weasley. Mas não sei dizer.
Neville e Harry trocaram um olhar divertido.
— Tenho que repassar essa informação ao Percy. Pode haver um traidor. — disse já a meio caminho da porta, especialmente para tentar esconder a vermelhidão que já tomava seu rosto.
— Desculpe. — Narcisa murmurou assim que ele saiu.
— Ele mer-
O ruído, como de vidro sendo arranhado, interrompeu o que quer que Harry fosse dizer. E antes que meu cérebro processasse o barulho, eu já estava de pé com a varinha na mão. Até mesmo Narcisa sacou a dela. Uma forma prateada e brilhante flutuava do lado de fora da janela e eventualmente investiu contra o vidro para entrar.
— É um…
— Patrono! — Luna completou.
Ele cruzou a sala e minha visão foi ofuscada pelo esplendor de seu brilho prateado. Só consegui engolir em seco, quando notei que o Patrono havia parado bem na minha frente. Foi como se as lufadas de ar que o acompanhavam acariciassem meu rosto. E meus olhos arderam, cheios de lágrimas, ao registrar a forma corpórea de uma lontra.
Hermione, Derick Williams não é quem vocês imaginam. Ele ajudou no sequestro e tem repassado informações sobre as decisões da Ordem desde antes disso. Rodolfo e Lucius já sabem sobre o Desiluminador, por isso, estamos indo para a Mansão. Querem emboscar vocês da próxima vez que tentarem resgatar Gina.
Desde o incidente no Havaí estou sendo vigiado. Me proibiram de ver e falar com ela. Estou ficando sem opções e, principalmente, sem tempo. Vocês tem que agir de novo o mais rápido possível.
Mas o que quer que decidam fazer… Hermione, por favor, tomem cuidado. Há ordens expressas para separar Harry do grupo, capturá-lo e levar ele e Gina para o Chatô Snowmass. Ainda não descobri exatamente o que pretendem com isso, mas conhecendo os dois, acho que dá para imaginar. Então, cuidado!
Ah, e Hermione… Te amo. Tanto te amo. Ita hic amor non est in me!
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