Dramione - Side Effect
47 O Patrono
Notas iniciais
A medida que o feitiço cumpria seu papel, a intensidade das minhas lágrimas aumentava, junto da agonia em meu peito. Tive de usar todas as minhas forças para prestar atenção ao que ele dizia. O simples fato de ele existir já era arrebatador. Não há nada surpreendente o suficiente, singular o suficiente, para descrever o inacreditável. Especialmente quando o inacreditável está diretamente ligado a você.
Quando o Patrono se desfez, Narcisa deixou escapar um soluço engasgado. Isso deveria ter me alertado para o fato de que eu estava prendendo a respiração, mas a mistura de sensações era sufocante demais para me deixar perceber qualquer outra coisa.
— Eu nunca imaginei que fosse possível! — ela sussurrou ainda chorando. — Por Merlin, Hermione… Isso é… — mas o choro se avolumou, sufocando as palavras.
E foi a minha vez de soluçar. Não dava mais para conter o turbilhão no meu peito, precisava deixá-lo sair. Precisava extravasar de alguma maneira, mesmo que precária. Como uma única pessoa podia sentir tanta coisa ao mesmo tempo e não explodir?
— Hermione? — Luna se aproximou e chamou por mim, incerta. — Hermione, você está bem?
Meneei a cabeça em sinal de concordância.
— Aquela era a voz do…
— Era. — Confirmei baixinho.
— Ah, pelas cuecas de Merlin… — a voz de Ronald retumbou através sala. Não percebi que ele havia voltado. Provavelmente, por causa do barulho na janela. — Todo mundo sabe que ele não consegue produzir um Patrono. É feito de energia positiva e ele não tem lembranças felizes o suficiente.
Narcisa emitiu um gemido dolorido. E pela expressão no rosto dela, teria sido menos pungente se Ron a tivesse esbofeteado.
— Também é feito de instinto de sobrevivência. — Luna parecia prestes a perder a paciência com a falta de tato do Weasley. O rosto da loirinha estava ficando vermelho vivo. — Como sabe que ele não tem lembranças felizes? Pode ter adquirido algumas desde aquela aula idiota!
— Uma doninha!? — ele riu com escárnio. — Engenhoso, eu confesso. Mas F.A.L.S.O. — Ron fez questão de sublinhar a última palavra, letra por letra.
— Ronald, não dá pra falsificar um Patrono. — Ela retorquiu realmente irritada. — E aquilo era uma lontra! Que prova mais você quer?
— Por que o suposto Patrono de Draco Malfoy ser uma lontra deveria significar alguma coisa? É só mais um indício de que é falso. — Ele jogou as mãos para o alto. — Que idiota! Uma doninha faria muito mais sentido. — Um meio sorriso, nervoso e cruel ao mesmo tempo, surgiu no rosto do ruivo quando ele disse aquilo.
— O Patrono da Hermione é uma lontra. — Harry disse admirado, ainda encarando o lugar onde o Patrono esteve. Ronald apenas revirou os olhos, querendo demonstrar que a declaração continuava não esclarecendo nada. Mas sua expressão de deboche começou a desmoronar. — O Patrono do meu pai era um cervo e o da minha mãe uma corça e, por isso, meu Patrono é um cervo. Nunca percebeu que o da Tonks parecia um lobisomem?
O rosto do ruivo se contorceu em uma pequena careta. Uma lágrima escapou dos olhos verdes de Harry e ele piscou longamente, como que se agarrando a uma lembrança.
— O que você acabou de ver é… — Harry exitou procurando a palavra certa. — Não dá para explicar. Nunca achei que veria de novo. — Ele engoliu em seco e diante da expressão desesperada e confusa do amigo, completou. — O Patrono do Snape… O do Snape também era uma corça. Por causa da minha mãe. Porque o Patrono está ligado ao amor, Ron.
Por alguns segundos, a sala mergulhou no silêncio enquanto todos me encaravam. As lágrimas ainda escorriam pelo rosto de Narcisa, fazendo os olhos cor de tempestade brilharem. Exatamente como os de Draco brilhavam quando ele estava… determinado. Meu coração seu um salto no peito. Lembrei-me do último olhar que Draco me lançou — no túnel da passagem secreta, atrás da Bruxa de um Olho só — quando eu achei que tinha visto algo a mais ali, um algo que eu não consegui decifrar, que não tive tempo suficiente para distinguir. Naquela manhã, assim como na noite em que invadimos a cabana no Havaí, além da dor e do tormento, os olhos azul-acinzentados também carregados de... determinação. Desde o primeiro instante Draco só estava tentando proteger Gina, Lily e eu. E desde o primeiro instante, tudo o que fiz foi desconfiar dele.
— Diga alguma coisa, Hermione. — Ronald finalmente quebrou o silêncio, como eu sabia que faria. — Você é a única que-
— O que você quer que eu diga? — Não tinha planejado usar um tom tão ácido e ressentido. Mas um novo tipo de culpa havia se juntado ao caldeirão de sentimentos que borbulhava no meu peito. — Que não faço ideia de como ele conseguiu nos mandar essa mensagem? Mas que eu sei, eu posso sentir, como se eu mesma tivesse produzido aquele Patrono, que ela é verdadeira? Que desde o início tudo o que ele tem feito é arriscar a vida para tentar proteger a sua irmã enquanto todo mundo, inclusive eu, o julgava, criticava e ameaçava a mãe dele? Que não faço ideia de como ele ainda está vivo depois do que Neville e eu vimos no Havaí? Ou que eu o amo ainda mais agora?
Ele abriu e fechou a boca várias vezes, mas não encontrou nada para dizer em resposta.
— O que você quer dizer com “O que eu e Neville vimos no Havaí”? — Harry parecia magoado por ter sido deixado de fora.
— Draco salvou a minha vida no Havaí. Eu estava distraído, Selwyn surgiu do nada, mas o Malfoy… ele nem exitou antes de acertar o cara pra me salvar. O problema é que… — Neville olhou de esguelha para Narcisa analisando as reações da bruxa antes de continuar. — … ele estava mal, machucado de verdade.
— Você não viu os outros comensais chegando, né? — apesar da calma e do tom contido de Harry, aquilo era uma exigência.
— Não. — admiti. — Foi o Draco quem me avisou, disse pra tirar vocês dois de lá o mais rápido possível. Disse que eram muitos, que a gente não teria chance.
— E a Gina?
— Ele não conseguiu tirá-la do quarto em que estava trancada.
— Você devia ter contado! — Harry finalmente explodiu. — Não tinha o direito de esconder isso de mim.
— Harry! — Luna falou pela primeira vez. — Seja sincero? Você teria acreditado? Teria deixado pelo menos ela terminar de falar, se não tivesse visto o que viu aqui e agora?
— Eu cometi o erro de julgar uma pessoa pelo que eu achava que via, pelo que eu achava que sabia, uma vez, Luna. E agora preciso conviver com a culpa de ter odiado por anos o homem que mais se sacrificou para me proteger. Com a dor de não ter tido a chance de me desculpar, ou de simplesmente agradecer, por tudo que o homem mais nobre e corajoso que eu já conheci fez por mim. Prometi a mim mesmo que nunca mais faria isso de novo.
Senti minha garganta dar um nó. Não só pela lembrança de Snape e do que ele havia significado, o papel crucial que havia desempenhado naquela guerra, nas nossas vidas, e pela maneira injusta com que foi julgado por nós a vida toda. Mas por Harry, que mais uma vez não teve a chance de conhecer de verdade alguém tão importante em sua história. Isso precisava parar.
— Sinto muito, Harry. Por favor, me desculpe. Mas eu também não sabia o que pensar… — rebati, ainda na defensiva.
— Como vamos fazer isso? — Ele perguntou em tom bem mais brando, deixando claro que eu estava desculpada. — Ouviu o que o Draco disse, estão indo para a Mansão. Não sei se se lembra, mas é protegida contra tudo. Não dá pra simplesmente aparatar por lá.
— E vão tentar usar a Gina pra te afastar da gente. Te capturar sozinho. — Neville repetiu a parte com que, sabia, o amigo não se preocuparia.
— Nossas outras tentativas provaram que só vai funcionar se chegarmos de surpresa. Mas sabem do Desiluminador e vão criar um perímetro. — Analisei comigo mesma, tentando encontrar a brecha que precisava.
— Então… Está dizendo que só precisamos quebrar a barreira de proteção, entrar, pegar a Gina, e dar um jeito de sair. Mas que aparatar está fora de cogitação? — Neville resumiu, colocando as coisas em uma perspectiva nada animadora.
Concordei.
— Suponho que bater na porta da frente e esperar que o Draco abra pra gente não seja uma opção. — Ronald desdenhou. — Deveria, já que agora ele faz parte do time.
— Se não for dizer alguma coisa para ajudar. Cala a boca, Ronald! — Harry reagiu.
— Time…
Luna sorriu quando seus olhos encontraram os meus.
— Ron, Harry, George, Carlinhos, Gui, Angelina, Olívio… — enumerou.
— E depois que entrarmos teremos também Gina e Draco. — completei. — Com eles dando cobertura os outros podem se virar pelo solo.
— Pode dar certo. — Ela cruzou os braços sobre o peito e começou a caminhar de um lado para o outro, analisando a ideia. — Mas ainda sobra o problema da barreira de proteção... — Quando levantou o problema, ela olhou para mim de novo e a resposta nos meus olhos a fez corar. — Oh! É claro… Mas sabe que vai ser arriscado, certo? Especialmente para ela.
— É, eu sei. Mas é nossa melhor chance.
Harry levantou uma sobrancelha para nós, enquanto Neville refazia nossa contagem tentando entender o raciocínio.
— Mas que inferno! Vou chamar os outros. — Ronald tinha as orelhas em vermelho vivo. — Não se preocupem em me esperar. Podem continuar, não é como se eu pudesse acompanhar qualquer coisa mesmo.
— Ele pode não querer saber, mas eu sim! — Harry sentou-se na poltrona mais próxima e inclinou-se para frente, ansioso.
— Narcisa... — Comecei. Precisava ser cautelosa. Não queria que ela se sentisse obrigada a nos ajudar. Mas precisava desesperadamente que aceitasse.
— Se não pedisse, Hermione, eu ia sugerir. — Ela me lançou um sorriso firme. — Não dá para destruir a barreira. Não com os recursos que temos. Mas, como dona do lugar, posso anular o efeito dos encantamentos sobre vocês e permitir que passem.
— Por favor digam que o que Ronald acaba de contar é brincadeira! — Percy entrou correndo na sala seguido de perto pelo restante da Ordem, que discutia entre si sobre a veracidade da notícia que havíamos recebido. — Vocês não podem estar seriamente pensando em correr até a Mansão Malfoy, por causa de uma suposta mensagem do cara que ajudou a levar a Gina.
— Ele está do nosso lado. — Começou Luna. — E agora que temos o Desiluminador de volta, a Mansão é o lugar mais seguro para eles porque é totalmente protegida por feitiços. Faz sentido terem ido para lá.
— Faz sentido mesmo.
— Tudo bem, mas ainda assim é um pulo no escuro.
— Não temos garantias. Não podemos-
— A questão é… — gritei a plenos pulmões por sobre o burburinhos de vozes. Eu estava cansada daquilo. Não podia mais esperar. Não importava se acreditavam em Draco, ou em mim. Tinha que trazê-los de volta, precisava que Gina e ele estivessem finalmente em segurança. — Mesmo que isso seja uma armadilha…
— Hermione! — Luna praticamente gritou. — Você sabe que não é!
— Mesmo se for… — Repeti, lançando a ela um olhar de súplica. Sabíamos a verdade, mas não havia tempo de convencer os outros dela naquele momento. — Que diferença vai fazer? Não estaremos mais preparados amanhã do estamos agora. Eles, ao contrário, só fazem se fortalecer, aumentar as proteções. Quanto tempo mais vamos fazer a Gina esperar?
— E você sugere? — Gui silenciou a resposta de Percy com um aceno de mão.
— Atacar em duas frentes. — Ele meneou a cabeça para me fazer continuar. — Grande parte das pessoas aqui fez parte do time de Quadribol na escola, voa excepcionalmente bem. Sem falar que, por terem jogado juntos tanto tempo, vocês conseguem até antecipar os movimentos uns dos outros em cima de uma vassoura. Eu já vi.
— Essas pessoas entrariam pelo terraço. O restante atacaria por terra, seguro pela cobertura de quem está voando. — Luna completou, um pouco mais calma.
— É um bom plano, mas não resolve o problema do perímetro. Além do mais, não fazemos ideia de onde Gina vai estar, nem de como nos mover lá dentro.
Carlinhos parecia preocupado, apesar de ter elogiado o plano. Sua testa estava vincada em um sulco profundo, que fazia seu rosto parecer bem mais velho. Narcisa deu um passo à frente, e manteve a cabeça erguida, mesmo diante dos olhares julgadores e desconfiados que recebeu.
— Estou ligada ao feitiço de proteção, posso fazê-los atravessar o perímetro. — Ela anunciou para todos, com a voz mais firme que conseguiu. — Quanto à Gina, os quartos de hóspedes ficam na ala leste, no segundo andar. Mas conhecendo meu marido e meu cunhado, eu iria direto ao porão.
Fale com o autor