Dramione - Side Effect
5 Primeira ronda
Notas iniciais
As aulas pareceram se arrastar durante todo o dia. Ron me evitou deliberadamente. Sentou-se com Simas em todas as matérias, não falou comigo, não olhou para mim. Como disseram que fariam, Harry e Gina estavam lá para me ajudar. Eles tentaram iniciar conversas sobre diversos assuntos durante o almoço, mas os esforços foram em vão. Meus outros amigos, leia-se Neville, Luna, Dino e Simas, pareciam ainda não ter decidido o que pensar sobre Malfoy. E, consequentemente, sobre como me tratar depois do incidente. Eles não me ignoraram como Ron, mas também não estavam exatamente felizes por eu ter defendido o loiro na estação. Não podia julgá-los por desconfiar as atitudes dele. Todos ali já tinham sido vítimas de suas armações e maldades. Até alguns meses atrás ele era o inimigo.
Durante o jantar, a tensão era tão grande que o ar parecia pesado e eu quase podia ouvi-lo estalar quando meu olhar cruzava com o de Ronald. Eu estava sentada entre Gina e Neville, estávamos falando sobre as últimas descobertas herbológicas que ele tinha feito junto da professora Sprout e como ele pretendia se formar na área, talvez até ser professor. Enquanto ria de uma das histórias dele — algo sobre como ele ainda tinha dificuldade para lidar com Mandrágoras, um tipo de trauma — levantei os olhos para o salão e encontrei Malfoy me fitando. Desviei rapidamente o olhar, não queria piorar ainda mais as coisas.
Quando acabarmos de jantar, Gina, Harry e eu saímos distraidamente do salão principal discutindo amenidades. Subimos o primeiro lance de escadas e alguém pousou a mão sobre o meu ombro esquerdo. Olhei para o lado sobressaltada, com uma pontinha de pânico começando a se formar na boca do meu estômago. Não era muito agradável ter as pessoas me abordando de surpresa na atual circunstância. Poderia não ter consequências nada saudáveis para mim e, principalmente, para a outra pessoa. Sensível era um estado de espírito constante para mim. Eu ainda me assustava com quaisquer barulhos, ainda esquadrinhava os ambientes minuciosamente com os olhos antes de me permitir ficar minimamente confortável e, quando estava sozinha, andava apressadamente olhando sempre por cima do ombro. Passei do nível de “assustada” para “em total estado de pânico”, quando constatei quem era a pessoa com a mão em meu ombro. Era Draco Malfoy! Como se eu já não tivesse problemas suficientes!
— O que você quer? – bufei, realmente zangada. Ele levantou as mãos em sinal de rendição.
— Desculpe. Só queria combinar o horário da ronda de hoje e onde vamos nos encontrar. – ele respondeu.
— Não, eu é que peço desculpas. – disse derrotada. – Se importa de me encontrar no topo da escada do corredor do quinto andar, às onze? – eu estava sendo grossa com ele e ele nem merecia isso, dessa vez. Sei que era muito arriscado pedir para encontrá-lo tão perto do salão comunal, onde Ron poderia nos ver, mas a ideia de andar pelo castelo sozinha, tarde da noite, ainda não era muito convidativa.
— Tudo bem. Combinado. – ele tirou a mão do meu ombro... Ele ainda estava com a mão no meu ombro? e saiu escadaria abaixo. Fiquei olhando ele se afastar e percebi que ele evitava fazer contato visual com as outras pessoas. Uma atitude nada condizente com o Malfoy de tempos atrás. Não que ele olhasse para chão, longe disso. Mas as pessoas pareciam não se intimidar mais com ele. Agora era Draco Malfoy quem desviava os olhos...
***
Por garantia, as cinco para as onze eu já estava do lado de fora do salão comunal, esperando a seguros 30 metros do retrato da mulher gorda. Avistei Malfoy assim que ele pisou no último degrau da escada, não consegui esperar mais e fui até ele, fazendo um esforço enorme para não correr.
— Oi. — me apressei em cumprimentar. – Por onde quer começar? Acho que a gente podia fazer a ronda de cima para baixo. É mais rápido descer as escadas do que subir. Apesar que teremos de subi-las de novo, de qualquer maneira... – o nervosismo estava deixando minha língua fora de controle. Eu emendava uma frase na outra sem nem mesmo respirar.
— Calma Granger. Devagar... Respire! Podemos começar de cima sim, sem problemas. – ele me interrompeu, sorrindo de lado de maneira tímida. Não me arrisquei a abrir a boca novamente, apenas balancei a cabeça afirmativamente e comecei a andar em direção a escadaria que dava acesso ao sexto andar.
Já havíamos verificado a torre de astronomia e os corredores perto da antiga sala de adivinhação. O sétimo, sexto e quinto andares também estavam vazios e silenciosos como túmulos. O que, de certa forma, eles eram, pensei sombria. E tive que respirar fundo para não começar a chorar ali mesmo. Tínhamos acabado de entrar em um corredor de salas abandonadas no quarto andar quando um estrondo encheu o ar. Instintivamente, puxei Malfoy para trás de uma estátua, colocando-o atrás de mim. Inspirei e expirei bem devagar, para me acalmar, e tentei ignorar a proximidade de nossos corpos enquanto ouvia atentamente, com a varinha já preparada.
— Está tudo bem, Granger. Deve ter sido só uma porta batendo. – Malfoy sussurrou no meu ouvido com sua voz rouca, enquanto passava os braços sob os meus em um abraço e baixava lentamente minha mão que segurava a varinha. Seu hálito gelado batendo contra a minha pele fez os cabelos da minha nuca se arrepiarem e um calafrio bom percorreu a minha espinha. Fechei os olhos, desfrutando de todo o conforto daqueles braços, que pareciam estranhamente protetores no momento, e me permiti sentir segura. Cedo demais para o meu gosto, ele me soltou.
— Vamos, vamos verificar o que é. – ele propôs me estendendo a mão de maneira quase displicente.
Segurei-a com firmeza, enquanto meu coração acelerava — não sei se pela adrenalina do momento, ou pelo toque suave da pele dele. Caminhamos devagar em direção à origem do barulho, Malfoy um pouco mais a frente. Apertei os dedos dele entre os meus quando ele segurou a maçaneta, prendendo a respiração. Ele apertou de volta como que para me dar confiança e entramos na sala abandonada.
Nada, estava totalmente vazia, não havia nenhum móvel, nenhum objeto ou pessoas. De repente, a porta se fechou atrás de nós com um baque ensurdecedor que ecoou pelas paredes de pedra. Abracei-me a Malfoy e dessa vez, nós dois sacamos as varinhas, apontando-as para a origem do som fantasmagórico. Mais uma vez não havia nada. Enterrei meu rosto em seu peito, suspirando exasperada, enquanto ele mantinha um braço em volta da minha cintura, mas levantei assim que senti seu corpo vibrar com uma meia risada. Ele olhava para um ponto na parede ao lado da porta com uma expressão entre confusa e divertida no rosto.
— Chega de ronda por hoje. – decretou e beijou a minha testa aumentando o aperto de nosso abraço. Draco Malfoy BEIJOU A MINHA TESTA. Meu Merlin, o que é que estava acontecendo? Que universo paralelo era aquele e como eu tinha ido parar ali? Minha pele queimava onde os lábios dele a tocaram. Olhei para ele com os olhos arregalados, mas ele só deu de ombros. Ele vinha fazendo muito isso ultimamente.
Malfoy segurou minha mão novamente e seguiu para a saída. Ao passarmos pela porta tive a impressão de que alguma coisa roçou levemente meu braço esquerdo. Senti um calafrio e rapidamente virei a cabeça, mas de novo não havia nada. Aproximei-me mais dele enquanto seguíamos pelos corredores.
Enquanto caminhávamos eu tentava entender o que havia acontecido. O barulho, o abraço atrás da estátua, a porta batendo, o beijo na sala. Por que ele estava sendo tão legal, tão cuidadoso? Quer dizer, eu era a sangue-ruim, a Granger-sabe-tudo, a pessoa que ele mais odiava no mundo, a personificação de tudo o que ele abominava. Olhei para Malfoy e ele tinha um lindo sorriso no rosto. Um sorriso do tipo satisfeito, vitorioso, que as pessoas ostentam após fazer uma traquinagem ou conseguir algo que querem muito. Aquele do tipo irresistível, que percebi abismada, caia tão bem nele. Nunca tinha visto Malfoy sorrir assim, sem sarcasmo, sem maldade ou desdém. Isso, com certeza, deveria acontecer mais vezes.
Estava tão absorta em meus pensamentos, distraída analisando o sorriso dele, que nem percebi como ou quando chegamos à porta de entrada do salão comunal da Grifinória. Como ele sabia o caminho até ali? Não tinha sido uma boa ideia combinar o encontro no corredor da entrada da torre. Harry me mataria quando soubesse.
— Está entregue. – ele brincou, tirando-me do transe.
— Ah... obrigada. – respondi sem graça. – Como sabia o caminho?
Ele apenas deu de ombros novamente. Aquilo estava começando a me irritar de verdade.
Então, ele colocou as mãos sobre os meus ombros carinhosamente e beijou minha testa, DE NOVO. Depois, virou-se e saiu escadaria abaixo sem nem mesmo dizer tchau. Mas que droga! Isso não iria dar certo. Malfoy me beijando e abraçando pelos corredores do castelo, e pior, eu gostando disso, não ia fazer com que eu acertasse as coisas com Ron mais rápido. Pelo contrário, podia fazer com que elas nunca voltassem ao normal. Soltei um suspiro pesado.
— Sapo de chocolate. – a mulher gorda me deu passagem e eu entrei arrastando os pés. Que senha mais idiota!, murmurei exasperada. O desânimo e, principalmente, a culpa já começavam a me consumir. Quando estava no quarto degrau da escada que dá acesso aos quartos, decidi voltar. Não ia conseguir dormir e acabaria acordando as outras meninas, Gina exigiria que eu contasse o que aconteceu e Gina sempre conseguia o que queria. Não, o melhor era remoer as coisas em um dos confortáveis sofás lá embaixo. Talvez ler um livro em frente a lareira.
Ao chegar ao último degrau, escutei a porta abrir. Alguém estava fora da cama depois do horário. Recuei até a curva da escada e tomei o maior cuidado possível para não ser vista enquanto espiava. Ainda estava decidindo se aplicaria uma detenção ao indisciplinado, ou se estava cansada demais para isso, quando constatei, chocada, que era Ronald. Tratei de continuar escondida e observei ele cruzar o salão comunal quase marchando, exibindo uma bela carranca em seu rosto, que estava completamente vermelho. Ele parecia estar com muita raiva. Tanto, que não fez a mínima questão de esconder o que estava enrolado em sua mão direita, ao encontrar o salão comunal vazio. Ele carregava a capa da invisibilidade de Harry.
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