Dramione - Side Effect
22 Lily?
Notas iniciais
Apressei-me e me sentei na poltrona florida, o que não permitia ao sonserino sentar-se ao meu lado. Ele deslizou para o braço do móvel assim como tinha feito mais cedo. Harry nos encarou confuso e eu rapidamente tentei começar uma conversa e desviar a atenção.
— Então, como foi?
— Basicamente, eles ficaram tão confusos com tudo o que aconteceu na cozinha que nos deixaram falar sem interrupções.
— Harry também não deu tempo para isso. Emendou uma coisa na outra contando sobre a casa em Godric's Hollow, o emprego que Kingsley ofereceu no Departamento de Aurores.
— E não é como se eu não tivesse recursos para nos manter até o fim da escola. — o garoto de olhos verdes completou com simplicidade.
— Bem, no final das contas papai disse: “É do Harry que estamos falando”. E então, mamãe pareceu aceitar.
Draco soltou um tipo de riso abafado. Revirei os olhos e o encarei. Será que algumas coisas não iam mudar nunca?
— Qual o problema, Malfoy? Eu sempre fiz por merecer a confiança que as pessoas depositam em mim. — o loiro pareceu fisicamente atingido. — Pode ter convencido Hermione da sua mudança de caráter e ajudei a livrar a sua cara naquele julgamento porque quero acreditar que está tentando ser diferente, mas ainda precisa se esforçar muito se quiser me convencer de verdade.
— Eu não pedi sua ajuda no julgamento, Potter! E mesmo assim lhe agradeci por isso.
— Eu sei. Fizemos pela mesma razão que o levou a defender Hermione na cozinha e dizer tudo aquilo. Porque acreditávamos que era o certo, porque não queríamos ver nenhuma injustiça.
Por essa, nem eu esperava. O tom duro tinha deixado a voz de Harry, agora só havia reconhecimento e até uma certa camaradagem.
— Por falar nisso. O que foi aquilo na cozinha? — Gina perguntou, inquieta ao lado de Harry.
Draco levantou as sobrancelhas para mim, esperando pela resposta. Como eu ia explicar que estávamos namorando? Como eu ia dizer a Harry que a pessoa que tentou matá-lo, tentou matar Dumbledore, cuja tia matou Sirius, era meu namorado? Por outro lado, Harry havia deixado claro que queria dar uma chance a Draco, que ele não era mais seu inimigo. O sangue pulsava alto em meus ouvidos, meu coração espancava meu peito. Eu não tinha vergonha de Draco, mas eu tinha medo da reação dos meus amigos.
— Temos que mandar uma coruja para Andrômeda! — desviei do assunto. — Ou não teremos tempo hábil para trazer as crianças ainda esse fim de semana.
Funcionou exatamente como eu imaginei. O restante do sábado e todo o domingo foram gastos em viagens por Chave de Portal, arrumações e brincadeiras com as crianças. Gina era a mais empolgada e a surpreendi em vários momentos sonhando acordada, enquanto admirava o que os pequenos faziam, com certeza, imaginando seu próprio bebê ali. Ted mudava de aparência de acordo com seu humor, que também era imprevisível. E isso significava diversão garantida para todos, especialmente as crianças. Quando ele estava calmo e feliz, seus cabelos eram azul piscina e ele era capaz de controlar as mudanças. Quando ficava bravo, seus cabelos escureciam, ficando vermelho sangue e o nariz iniciava uma sequência de mutações, que incluíam desde um focinho de porco, até desaparecer completamente do rosto.
Andrômeda parecia realmente feliz, pela primeira vez desde antes da guerra. Ela não se cansava de contar a todos, cheia de orgulho, as pequenas conquistas de seus “filhos”, fosse a primeira palavra ou o aniversário de uma semana sem fazer xixi na cama. Os meninos ficaram com os quartos do terceiro andar e as meninas do segundo. Narcisa não era o ser mais contente do universo com o que estava fazendo, mas era mãe e sabia o que e como fazer. E tenho certeza que vi um ou dois sorrisos sinceros brotarem de seus lábios quando o trabalho envolvia diretamente as crianças. Entretanto, mesmo com toda a experiência e os esforços combinados das duas, não era suficiente. De cara ficou óbvio que precisaríamos contratar mais alguém para ajudar.
Estava tão exausta quando retornamos ao castelo no domingo à noite, que nem me preocupei em descer para jantar. Tudo bem, eu também queria evitar Draco e assim adiar contar sobre nós para Harry e Gina. Sabia que não conseguiria enrolá-lo por muito mais tempo, mas eu não tinha forças para mais nada naquele momento.
Pelo menos não precisávamos mais nos preocupar com a sombra de Annie Potins vigiando tudo o que fazíamos. Depois de uma semana infernizando nossas vidas, assistindo às aulas no canto da sala, entrevistando-nos em separado para tentar obter algo diferente, ela finalmente deixou o castelo no domingo. Não sem antes publicar uma nota sobre a minha suposta gravidez, uma matéria questionando a sanidade mental de Luna, uma reportagem cheia de elogios sobre os hercúleos esforços de Ronald para capturar e levar a julgamento os comensais da morte e várias entrevistas cheias de coisas que não dissemos. Nada porque não tivéssemos passado antes com outros jornalistas.
Quando saí do banheiro de manhã, Gina me esperava no quarto.
— Vou contar aos nossos amigos no café da manhã.
— Tem certeza?
— É o melhor a fazer. Quer dizer, é o que eu quero fazer.
— Sua mãe é uma mulher muito corajosa. — abaixei e coloquei a mão direita sobre a barriga de Gina, falando baixinho. — E nós duas vamos ajudá-la a fazer as coisas do jeito dela. Aprenda desde já, não vale a pena contrariá-la.
— Escute a sua madrinha, Lily. Dizem que ela é a pessoa mais inteligente deste castelo.
Rindo, Gina passou o braço no meu enquanto caminhávamos.
— Lily?
— O que achou? Ainda não falei com Harry, não sei...
— Ele vai adorar. Então, acha que vai ser uma menina?
— Na verdade, é como se eu pudesse sentir. Alguma coisa parece me dizer isso. Desde que descobri…
— Sabia que também foi o meu primeiro pensamento? Uma garotinha de cabelos ruivos revoltos e olhos verdes correndo pelos jardins d’A Toca.
— Ah, meu Merlin! Hermione, assim você vai me fazer chorar.
Olhei para a ruiva e ela tinha mesmo os olhos cheios de lágrimas. Mas seus lábios me diziam que a razão era felicidade. Ela secou o rosto com as costas da mão enquanto cruzávamos as portas do salão principal. Assim que nos aproximamos, Harry saltou de pé, preocupado.
— O que aconteceu?
— A culpa é toda da Hermione.
Harry me lançou um olhar confuso. Balancei a cabeça rindo e comecei a me servir, Gina acompanhou o meu gesto.
— Vocês ainda vão me deixar louco.
— Vá se acostumando, isso é só o começo. Espere até-
— Não. É o último muffin. Por favor?
Levantei a cabeça e vi Gina com a mão esticada em direção a Ronald, que segurava um muffin com cobertura de chocolate protetoramente.
— Eu estou te fazendo um bem, Ginevra. Você já está ficando gorda.
Eu quis atirar uma maçã na cabeça dele. Eu sabia, sem precisar me virar para Gina que ela tinha os olhos marejados de novo. Com um movimento rápido, Luna, que vinha da outra mesa, tomou o bolinho de Ron segundos antes de ele o morder e o entregou a ruiva.
— Hey! O que acha que está fazendo DiLua?
— Obrigada, LUNA. — Agradeci por Gina, fazendo questão de frisar o verdadeiro nome da loirinha.
— Quando suas vestes não estiverem fechando, não diga que eu não avisei.
— Chega, Ronald. — Harry e eu gritamos juntos.
— Peça desculpas a sua irmã.
— O que você é agora, Hermione, minha mãe? Dá um tempo!
Com isso, ele se levantou e saiu. Gina soltou o ar pesadamente.
— Idiota. Ele nunca, jamais, vai se aproximar de Lily.
— Lily? — Harry parou com o garfo a meio caminho da boca.
— Bem, eu pensei… Quer dizer, eu acho que é uma menina… Então… Você não gostou!
— Pelo contrário. Gina! Eu adorei!
Harry passou os braços por Gina e a apertou contra si, enquanto beijava sua testa.
— Eu disse que ele ia gostar. — falei para ninguém em especial.
— É mesmo uma menina? — Luna me questionou.
— Ela ainda não fez nenhum teste. Mas diz ter certeza que sim.
— Ei, ei, ei… Espera um pouco! — Neville lutava para entender o que estava acontecendo. — A Gina também?
— Também, não. Só a Gina. Quando todo mundo começou a tirar conclusões a Hermione não quis desmentir, pra proteger os dois. — Luna esclareceu apontando para o casal ainda abraçado.
Para uma pessoa que todos julgavam viver no mundo da lua, Luna era bem esperta.
— Puxa! Parabéns, Harry. Parabéns, Gina!
— Ei! Por que eu não fui parabenizada uma semana atrás?
Todos riram e Neville ficou vermelho como um pimentão. O garoto começou a gaguejar, tentando formular um pedido de desculpas.
— Estou apenas curtindo com você, Neville.
Uma coruja pousou na mesa da Lufa-Lufa e eu me peguei olhando para as janelas perto do teto.
— Sua coruja está atrasada hoje. — Gina constatou.
Olhei para trás, procurando por Draco na mesa da Sonserina, mas ele não estava lá.
— Acho que ela não virá.
É claro que ele notou meus esforços para nos manter ocupados durante o fim de semana e protelar dar a notícia que ele queria a Harry e Gina. E pelo jeito, ele não estava nada feliz com isso.
— Está passando mal de novo, Hermione? — Parvati disse se sentando na mesa há alguns metros de nós, acompanhada de Padma, Simas e Dino. — Você está com uma cara estranha…
— Sempre tão agradável. Não é, Patil?
— Só estou preocupada com ela e com o bebê, Gina!
— Então está perdendo seu tempo. Porque ela não está grávida!
— Não está?! Mas ela passou mal, eu vi… A notícia saiu no Profeta! E o Ronald disse-
— Por Merlin! Nada que o meu irmão diz deve ser levado em consideração, ok?! Ele é u-
Gina se dobrou com as mãos na barriga. Seu rosto perdendo a cor. Harry e eu colocamos as mãos nela ao mesmo tempo, evitando que caísse do banco.
— Gina, fala comigo. Onde dói?
Ela abriu os olhos para nós e sussurrou.
— Lily.
— Temos que levá-la até Madame Pomfrey. — Luna disse racional, já se levantando.
Neville não pensou duas vezes e saltou sobre a mesa ajudando Harry a amparar Gina. A movimentação chamou a atenção das outras mesas. Todos nos encaravam assustados, enquanto saíamos do salão. Quando atravessou as portas de carvalho entrando no salão e nos viu, Draco correu até nós. Apesar de parecer caminhar, a maneira como Gina se curvava e era amparada pelos garotos deixou claro que eles eram a única coisa que a mantinha de pé.
O desespero crescia no meu peito como um balão. Junto com ele fui tomada pelo ódio. Como alguém podia ser tão baixo, tão vil. Como era possível as pessoas se divertirem com o sofrimento e degradação dos outros? Girei sobre os calcanhares e marchei até onde estávamos segundos atrás.
— Se alguma coisa acontecer com elas, eu te mato. — sussurrei no ouvido da garota. Minha voz saiu rouca e fria. Parvati Patil virou de súbito e arregalou os olhos para mim.
— Elas? Como assim, elas?
Apesar do ódio na minha voz, da veracidade por trás das palavras, ela só registrou uma mínima parte do que eu disse. A parte que parecia mais interessante. Um sorriso malicioso brotou em seus lábios. Joguei minhas mãos para o alto exasperada e me virei para correr atrás dos outros.
— Ah. Meu. Merlin! O que há de errado com esses Weasley? Eles se reproduzem como coelhos!
Saquei a varinha antes de terminar de me virar. Mas uma mão segurou meu braço com força.
— Hermione, Gina e Lily precisam de você!
Luna foi incisiva e firme, enquanto me puxava pelo corredor. Lancei um último olhar mortal à garota na mesa antes de começar a correr.
Fale com o autor