Dramione - Side Effect
8 Julgamento
Notas iniciais
Tive que me arrastar para fora da cama. Íamos viajar juntos com Pó de Flu, da lareira na sala de McGonagall até o Ministério, para a sessão final do julgamento. Se antes eu já não sabia se queria participar daquilo, naquele momento eu tive certeza. Depois da noite anterior... Como eu ia encarar Malfoy depois daquele beijo? Como eu ia depor naquele julgamento com ele me observando o tempo todo? Respirei fundo e desci apressadamente as escadas para o salão comunal. O bilhete de Harry dizia que deveríamos estar na sala da professora às oito. Eu estava começando a me atrasar. Praticamente corri pelos corredores.
Parei em frente a porta da sala, quando encontrei um Harry tristonho e um Ron muito animado. Não me dei ao trabalho de cumprimentar, apenas meneei a cabeça. O moreno sorriu em resposta. Ronald apenas girou a maçaneta. Como a bela covarde que tinha me tornado desde a noite anterior, entrei na sala atrás dos meninos, tentando ficar escondida. Malfoy e Luna já estavam lá. A garota parecia muito calma, serena, ao contrário do resto de nós. Evitei olhar para o sonserino, que me encarava de maneira intensa, me examinando minuciosamente, e não desviou os olhos nem mesmo para responder ao bom dia de Harry.
— Quem será o primeiro? Já estamos em cima da hora. – McGonagall anunciou.
— Eu vou. – não me surpreendi quando Ronald deu um passo à frente.
Ele encheu a mão de pó, entrou na lareira e anunciou com firmeza – Ministério da Magia. Harry o seguiu, depois Malfoy, Luna e eu. Enquanto caminhávamos pelo imenso corredor fiquei para trás propositalmente e me assegurei de manter Luna comigo. Segurei a mão dela, diminuindo o passo. Ela me olhou curiosa e expliquei meu “plano” da maneira mais rápida que pude. Ela apenas sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, muito satisfeita com o que eu tinha acabado de dizer.
Corremos para voltar a acompanhar os outros. Péssima ideia. Meu estômago quase saiu pela boca quando adentramos a sala de julgamento de maneira apressada. Aquele lugar me dava náuseas. Tudo ali era sufocante. O espaço era totalmente circular, com várias filas de bancos distribuídas em forma de arquibancada. A minha direita, o juiz estava sentado atrás de uma grande mesa de carvalho, em uma cadeira de encosto trabalhado. O teto se estendia muito acima de nossas cabeças, causando vertigem em quem olhasse para cima, dando a impressão de que estávamos no fundo de um poço profundo. Segurei novamente a mão de Luna para me acalmar e nos dirigimos aos nossos lugares.
Malfoy caminhou para o meio da grande sala, o andar gracioso, as costas eretas, a cabeça erguida. A única diferença é que o ar de superioridade, tão comum em suas atitudes e palavras, não estava mais lá. Narcisa estava em uma cadeira de espaldar alto. Os olhos estavam vermelhos e inchados. Malfoy se aproximou e beijou-lhe a testa, exatamente como tinha feito comigo duas noites atrás, sentando-se na cadeira ao lado dela. Então, os aurores trouxeram Lucius. Parecia ter perdido muito peso nos últimos meses, a pele de seu rosto pendia frouxa, contribuindo para seu ar exausto. As roupas estavam rotas, rasgadas. Seu olhar tinha um quê de atormentado. Draco Malfoy parecia estar fazendo um esforço tremendo para não olhar para ele, encarando o juiz a sua frente quando este começou a falar.
— Os senhores e a senhora estão aqui para serem julgados pelos crimes que cometeram durante a Segunda Grande Guerra Bruxa. Por terem se aliado a Lord Voldemort, perseguir nascidos trouxas, torturar e matar trouxas e bruxos. – o juiz anunciou. – Vocês negam alguma dessas acusações?
— Não. – Draco respondeu com firmeza. Sua voz era fria e áspera e senti meus ossos congelarem. Narcisa Malfoy deu um gemido angustiado.
— Algum dos presentes gostaria de fazer uso da palavra? – antes mesmo de o homem terminar de falar, Ronald já estava de pé.
— Fique a vontade Sr. Weasley. Leve o tempo que precisar.
— A família Malfoy sempre se orgulhou em ser uma família de sangue puro e fiel seguidora dos ensinamentos de Voldemort. Em nome dele os Malfoy vem praticando atrocidades desde muito antes de eu nascer. Bellatrix Lestrange, por exemplo, torturou os Longbottom até a loucura e matou Sirius Black, aqui, dentro deste ministério.
— Bellatrix Lestrange está morta, senhor Weasley. – um dos jurados se manifestou.
— Sim, mas ela não praticou esses crimes sozinha. Na noite em que ela matou Black, Lucius Malfoy invadiu o ministério para tentar roubar uma profecia e tentou matar nós quatro... – ele fez um gesto com o braço para incluir Harry, Luna e eu. — ...além de Neville Longbottom e, minha irmã, Ginevra Weasley.
Diante do olhar penetrante e impaciente do jurado, Ronald mudou de tática. Ele retirou um pergaminho do bolso e o desenrolou. Era isso, a “lista” que ele citou no dia em que as corujas chegaram. Pelo jeito, ele já estava preparando aquele discurso muito antes de o julgamento ser marcado. Ronald enumerou uma a uma as atrocidades cometidas pela família Malfoy. Mesmo sabendo quem eram os Malfoy, fiquei realmente surpresa com o tamanho da lista. Quando ele chegou a parte sobre eu ter sido torturada, Draco Malfoy, que até então vinha olhando fixamente para o ruivo, baixou os olhos para o chão. O loiro inalava e expirava profundamente, como se quisesse se controlar. Já Narcisa, desistiu de tentar manter a compostura e se descontrolou num choro violento. Os soluços a sacudiam e enchiam a sala. A arquitetura do ambiente amplificava o barulho e ficou impossível escutar o que Ronald falava.
O juiz pediu que ela fosse retirada da sala até se recompor e o filho pediu para sair com ela. Ron finalmente parou de falar. O juiz agradeceu gentilmente, mas até ele parecia cansado.
— Mais alguém quer fazer uso da palavra?
Harry ia se levantar, quando Luna segurou o braço dele e o encarou, fazendo um pedido silencioso com os olhos. Ele sacudiu a cabeça afirmativamente e a garota ficou de pé.
— Bom dia a todos. – ela cumprimentou com um sorriso caloroso. – Sou Luna Lovegood e, como meu amigo, Ronald Weasley acabou de lhes contar, fui mantida prisioneira na mansão Malfoy como forma de represália às publicações de meu pai, Xenófilio Lovegood, editor de O Pasquim. Apesar do que aconteceu comigo e das coisas que presenciei durante a guerra, não concordo com Rony sobre a pena que deve ser aplicada aos Malfoy. Acho que os Malfoy poderiam muito bem pagar pelo que fizeram com trabalhos comunitários ou doações a instituições que abrigam crianças carentes, como o Instituto Lilian Potter, por exemplo.
Ron ia começar a protestar, mas o juiz levantou a mão num gesto de represália. Ele parecia bastante curioso com o que Luna tinha a acrescentar. Ela não decepcionou, continuando:
— Corrijam-me se eu estiver errada, senhores, mas da maneira como vejo, todas essas mortes, batalhas, a guerra foram consequência da intolerância e do preconceito. Todo o ódio de Lord Voldemort e dos Comensais da Morte estava relacionado ao fato de as outras pessoas serem diferentes deles, não possuírem o que eles chamavam de sangue puro. Terem nascido trouxas, ou mestiças. A maneira como eles trataram essas pessoas, e aquelas que se declararam contra seus atos hostis, trouxe apenas sofrimento, perdas. Persegui-los e condená-los a morte porque eles não estão do nosso lado é agir exatamente como o Lord das Trevas agiu. É uma conduta perigosa, e um tanto quanto intolerante, que trará ainda mais sofrimento e somente isto. Que tipo de exemplo estaremos dando às outras pessoas, às crianças? Que tipo de mundo estaremos criando se pagarmos ódio com ódio? Não estou negando o que eles fizeram, mas diferente deles somos pessoas sensatas, boas e deveríamos pensar em outras opções. Opções condizentes com nossa natureza, não com a deles. Obrigada!
Uau! Eu sabia que Luna tinha a habilidade de dizer as coisas certas quando ninguém mais sabia o que fazer, mas isso era... Uau! Um sorriso gigantesco tomou conta do meu rosto, senti o calor do orgulho crescer dentro de mim. Quando ela voltou a se sentar, praticamente me joguei em cima dela, abraçando-a com força. Olhei para Harry e ele sorriu dando de ombros. Não era necessário que nenhum de nós dois dissesse mais nada depois do discurso de Luna.
Os jurados começaram a deliberar e depois de alguns minutos, que me pareceram uma eternidade, o juiz mandou que os aurores trouxessem Narcisa e Draco de volta para a sala, pois era chegada a hora da sentença. A mulher já estava mais controlada, mas de maneira nenhuma estava calma. Quando eles se sentaram, o juiz começou:
— Quando às acusações contra Lucius Malfoy, como o júri declara o réu?
— Culpado, meritíssimo. – respondeu um senhor baixinho e de cabelos muito brancos, que usava óculos muito grandes para seu rosto.
— Quanto às acusações contra Narcisa Malfoy?
— Culpada. – ele chiou.
— E Draco Malfoy?
— Culpado. – sentenciou. Toda a minha confiança e alegria de segundos atrás haviam morrido. O discurso sincero e inspirador de Luna tinha sido nada mais que um momento bonito. Narcisa havia recomeçado a chorar. Apertei a mão de Luna, enquanto encarava Draco Malfoy pela primeira vez naquele dia. Em seu olhar e também no meu, só havia pesar.
— Mas, — o baixinho recomeçou. – a senhorita Lovegood tem razão. A construção de um novo futuro, um futuro diferente deve começar com o perdão e a disseminação do bem, principalmente, para com quem não julgamos merecer. Por isso, gostaríamos de recomendar que a pena da ré Narcisa Malfoy seja convertida em serviços comunitários para o Instituto Lílian Potter e prisão domiciliar. Para o réu, Draco Malfoy, recomendamos que a pena seja revertida em doações mensais, com valores reajustáveis, para o mesmo instituto, pelo resto de sua vida. Infelizmente, não há nada que possamos fazer quanto ao réu Lucius Malfoy.
Draco parecia não acreditar no estava acontecendo. Eu não acreditava! Era ainda melhor do que eu podia esperar. Ele me encarou, erguendo as sobrancelhas, cobrando uma explicação. Rapidamente, desviei o olhar e comecei a parabenizar e agradecer Luna. Ela me abraçou e Harry sorriu para nós. Ronald se levantou indignado e marchou para fora da sala com cara de poucos amigos.
— Vou acatar todas as sugestões do júri. Publicaremos a data da execução do réu Lucius Malfoy, nos veículos de grande circulação, assim que ela for marcada. Esta sessão está encerrada. – o juiz decretou.
Engoli em seco. Harry soltou um suspiro cansado ao meu lado e vi que Lucius lhe encarava com um olhar de puro ódio.
— Nós vamos ficar bem. – a voz de Draco Malfoy me chamou atenção em meios aos ruídos de pessoas se levantando e cadeiras sendo arrastadas. Ele abraçava a mãe carinhosamente.
Então, ele levantou os olhos para mim, de novo. A força e a determinação estampados ali me intimidaram. Dessa vez, não fugi. Encarei-o de volta.
— Vamos? – alguém chamou atrás de mim.
— Sim, claro. – respondi mecanicamente. Mas não me mexi, não desviei meu olhar dos olhos de Malfoy. Luna segurou meu braço e me puxou do banco.
— Isso significa que temos que ir Hermione. Nos levantar, sair.
Malfoy estava certo, ele a mãe iam ficar bem. Quanto a Luna, Harry e eu, bem... eu já não tinha tanta certeza. Ronald permanecia encostado na parede do corredor. Estava de olhos fechados, os braços cruzados na frente do corpo, o rosto impassível. Quando ouviu nossa aproximação, abriu os olhos devagar e nos examinou por alguns instantes. Mas decidiu não falar.
— Acabou Ron, os Malfoy eram os últimos comensais para serem julgados. – Harry colocou a mão no ombro do amigo.
— Não, não acabou. Ainda há alguns deles foragidos, escondidos por aí.
— Os aurores estão cuidando disso Sr. Weasley. – McGonagall respondeu, como quem explica algo muito complicado para uma criança.
— Então eles não estão fazendo o suficiente! Com licença diretora, volto ao castelo mais tarde. Preciso falar com o Ministro da Magia. – comunicou arrogante, entrando no elevador.
— Foi impressão minha ou isso soou exatamente como o Malfoy? Tão irônico. – Luna e sua sinceridade.
— Eu era assim tão arrogante? – ele perguntou surpreendendo a todos.
— Às vezes até pior. – Harry respondeu sincero.
— Sinto muito. E obrigado pelo que fizeram lá dentro. – ele disse estendendo a mão para meu amigo. Harry pegou-a de bom grado.
— Agradeça a Luna e Hermione.
— Sempre humilde, não é Potter? Mas sei que isso tem o dedo de todos vocês.
— Agora que está tudo resolvido, nós podemos ir. Não posso me ausentar do castelo por mais tempo. – anunciou McGonagall, fazendo um gesto amplo para o elevador a nossa frente.
Entrei e me encostei no fundo. Malfoy parou ao meu lado e eu lutei para manter minha respiração estável e regular. Os outros embarcaram ficando de costas para nós. Encarei a cabeleira loira de Luna com convicção, não me permitiria olhar para o lado. Então, alguém segurou a minha mão, entrelaçando os dedos nos meus e acariciando-a com o polegar. Aquilo enviou ondas de choque por todo o meu corpo. Não me arrisquei a desviar os olhos da nuca de Luna. Eu não precisava fazer isso para saber quem era. Apenas uma pessoa tinha aquele toque suave, aquela pele macia e gelada, que fazia a minha queimar – Draco Malfoy.
Esqueça a respiração instável, agora eu lutava para me lembrar de como respirar.
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