Dramione - Side Effect
21 Draco
Draco estava parado ao meu lado com a cabeça baixa e os braços ao lado do corpo, as mãos em punhos. Com a pouca distância entre nós eu conseguia sentir a tensão do corpo dele. Desde que Gina havia se pronunciado eu estava evitando olhar para Draco, não sabia o que encontraria e tinha medo que em seus olhos estivesse o desapontamento e a raiva que eu imaginava.
- Draco... – chamei me virando para olhar para ele devagar. Pequenos tremores percorriam seu corpo a intervalos irregulares. Mas ele não levantou a cabeça.
- Draco...
Eu não conhecia bem a pessoa de pé ao meu lado. Eu não sabia quais eram suas reais intenções. Mas mesmo assim, a possibilidade de tê-la decepcionado acabava comigo, doía em mim como um feitiço de estuporação. Draco Malfoy parecia mudado de tantas formas, que eu simplesmente não sabia o que esperar, em nenhuma situação. Esta nova versão do sonserino: melhorada, mais madura, mais sincera e boa, havia me conquistado. Eu não podia mais negar o óbvio, nem esconder a verdade de mim mesma. Entretanto, a verdade era assustadora e imprevisível. Eu conhecia o caminho para odiá-lo, não para gostar dele.
De repente, Draco caiu de joelhos ainda com a cabeça baixa. Tomei coragem e coloquei as mãos nas laterais de seu rosto o obrigando a olhar para mim. Meu medo se transformou em algo palpável quando percebi que seus olhos estavam cheios de lágrimas. As íris azul-acinzentadas quase transparentes de tão claras. Mergulhei através delas tentando decifrar o que ele poderia estar pensando. A possibilidade de qualquer coisa entre nós dependia de eu conseguir encontrar respostas sobre ele. Anos de hostilidade não ficavam para trás em um piscar de olhos. Mas, percebi enquanto encarava-o, estava disposta a esquecê-los.
Draco havia acabado de se expor de uma maneira que eu nunca, jamais, vi ou imaginei que ele pudesse. Ele tinha assumido a responsabilidade por uma coisa que não lhe dizia respeito, sem nem mesmo hesitar. A pessoa mais orgulhosa que um dia conheci, simplesmente abriu mão dessa parte de si mesmo. Ele estava disposto a criar uma criança que não era dele...
- Eu sinto muito. Sei que deve estar me odiando agora. Mas eu não podia.
- Você não confiou em mim. – sua voz saiu rouca.
- Não era um segredo meu para contar. Desculpe! Gina estava tão assustada, tão fragilizada, que quando começaram a tirar conclusões, deixei que pensassem o que queriam. Depois de sete anos sendo alvo das fofocas e olhares de todo um castelo a gente acaba se acostumando. Ela precisava se sentir confortável com a própria situação antes de ter que enfrentar o julgamento dos outros. Precisava, primeiro, poder contar com calma às pessoas que importam para que elas pudessem apoiá-la.
- Acostumada? Eu vi, eu senti o seu desconforto durante toda a última semana, Hermione. Não me diga que foi fácil, ou que não foi doloroso. Eu estava lá, apenas observando de longe como prometi que faria, mas eu estava lá. E você passou longe de ficar bem. Além do mais, não é como se isso tivesse tornado a notícia mais fácil para o papai e a mamãe Weasley.
- Molly e Arthur vão acabar aceitando e apoiando Gina. Não tenha dúvi-
- Você me fez acreditar... Eu queria assumir... – a voz dele sumiu.
- Eu sinto muito, Draco. Mas você também tirou as suas próprias conclusões. Eu nunca disse nada, realmente.
O sonserino me encarou com ainda mais intensidade. Eu havia afastado Draco todo esse tempo, havia pedido calma mais de uma vez. Eu vinha tentando esconder dos outros e de mim o que estava acontecendo entre nós. Mas eu não podia mais negar. Eu estava apaixonada por Draco Malfoy. E mesmo que ele não tivesse colocado isso em palavras para mim, eu acreditava que ele sentia o mesmo. Como disse que faria, Draco vinha me provando por meio de suas atitudes que estava tentando ser uma pessoa melhor. Eu não podia simplesmente ignorar o que aconteceu na cozinha minutos atrás.
Como que para confirmar meus pensamentos, ele disse.
- Hemione... Você tem alguma noção do que significa para mim? Você tem ideia do que eu teria feito por você e por essa criança?
Não encontrei nada para dizer diante da declaração. Meus nervos pareciam expostos. Eu estava cada vez mais ciente das palmas de minhas mãos sob a pele de Draco, de sua respiração cruzando com a minha no espaço entre nós. Do cheiro de suor e cinzas misturados à essência de âmbar, sândalo e musgo de carvalho que emanava dele. Algo se agitou dentro de mim. Eu queria mostrar a ele como eu me sentia, mas eu não via como poderia colocar isso em palavras. Por isso, eu o beijei.
Ele pareceu surpreso por um instante e eu quase me afastei. Mas, então, ele retribuiu. Tomou meu rosto nas mãos e me puxou para perto, aprofundando o beijo. Entrelacei meus dedos em seus já familiares cabelos loiros, sentindo a macies das mechas. Apesar da urgência, sua boca era suave na minha. E assim como aconteceu no corredor, mais cedo naquela semana, uma necessidade desesperadora de ter Draco ainda mais perto tomou conta de mim. Como se tivessem vida própria, minhas mãos alcançaram suas costas, puxando e apertando, exigindo mais proximidade.
Mas, Draco desfez a conexão entre nós e me afastou gentilmente. Algo pareceu se quebrar no meu peito e o desespero agora tinha outra origem — o medo da rejeição.
- Hermione, desculpe. Mas eu não posso… — senti meus olhos arderem. — Eu não posso continuar assim. Eu não quero mais me esconder ou esconder o que sinto por você. O que mais eu preciso fazer para que acredite que Eu. Gosto. De. Você.?
Apesar de ele ter enfatizado bem as últimas palavras, levei um segundo ou dois para processá-las. Era a primeira vez que ele as dizia e meu coração inflou tanto que parecia que ia estourar, a alegria não deixava espaço para mais nada no meu peito. Um sorriso bobo brotou nos meus lábios.
- Repetir.
- O que?
- Repetir o que disse.
Draco se aproximou, levando os lábios à minha orelha direita. O contato da boca dele com aquele pequeno pedaço de pele me fez perder a respiração.
- Caso ainda não tenha percebido, Hermione Jean Granger, eu gosto de você. — sussurrou, enviando ondas elétricas por todo o meu corpo.
Escondi o rosto na curva do pescoço dele, totalmente embaraçada. E naquele instante, me dei conta de que esperava ouvir essa frase, desde que tudo começou. Draco me abraçou apertado, mas não disse nada. Não cobrou uma resposta. Apenas esperou pacientemente. Depositei um pequeno beijo em seu pescoço e senti a pele se arrepiar sob os meus lábios. Com um sorriso travesso brincando no canto da boca, encarei os olhos azul-acinzentados.
- E é por isso… — Draco analisou minhas reações enquanto falava. — Que não posso ir com calma. Eu já esperei muito, Hermione. Já omiti o que sinto por tempo demais. Por favor, seja minha namorada.
- Não podemos simplesmente aparecer juntos de uma hora para a outra. Isso magoaria pessoas importantes para mim. Quer dizer, eu acabei de terminar com Ron-
- Sei! Acha que o cabeça de fósforo pode ficar ofendido. Tem medo do que as pessoas vão falar, das fofocas... — ele soou rude, a mágoa era nítida por trás de seus olhos cor de tempestade. — Não me preocuparia se fosse você, estarão todos ocupados o suficiente comentando sobre o herdeiro do Potter.
As palavras de Draco eram duras, a intenção era me atingir, mas o que aconteceu foi que a conhecida luz acendeu na minha cabeça. A ideia surgiu pronta, totalmente delineada. Ainda havia uma maneira de proteger Gina e Harry. Eu ajudaria meus amigos, minimamente. Talvez isso significasse arriscar o futuro de algo que eu ainda nem tinha. Mas... Eu não podia mais fingir que estava grávida, mas eu ainda podia desviar a atenção dos alunos, se lhes desse uma história interessante o suficiente — tão escandalosa quanto ou mais, a ponto de colocar em segundo plano a da gravidez. Rita Skeeter e Annie Potins transformariam o que eu ia fazer em matéria de primeira página.
- Tudo bem.
- Hã?
- Tudo bem.. Eu aceito.
Incredulidade, era isso o que o rosto de Draco demonstrava. Por mais mentirosa e trapaceira que aquele olhar me tivesse feito sentir, eu não podia revelar o que me fez mudar de ideia. Eu também gostava de Draco, eu também queria ficar com ele, mas o momento não podia ser pior. Não faria mal nenhum ir com calma, contar aos poucos, deixar as pessoas se acostumarem. Contudo, diante da situação de Harry e Gina, esse era um luxo com que eu não podia contar. Ele me analisou por um longo instante. E eu me apressei em completar.
- Mas, por favor. Me dê um tempo para contar a Harry e Gina, primeiro.
Draco bufou exasperado, antes de balançar a cabeça positivamente. Joguei meus braços ao redor de seu pescoço com genuína alegria. Ele se levantou, me levando com ele e começou a rodopiar pela cozinha. Senti meus pés deixarem o chão e fechei os olhos, apreciando a sensação. Quando ele parou, eu sentia uma pequena vertigem — se por causa da brincadeira ou da decisão que eu havia acabado de tomar, eu não sabia dizer.
- Preciso ver como eles estão! — disse, assim que consegui me recuperar. — Preciso falar com Harry e Gina.
Não esperei por uma resposta, apenas peguei a mão de Draco e sai da cozinha. Aproximei-me da sala de visitas cautelosamente, prestando atenção. O volume das vozes estava mais baixo do que eu esperava. Parei a alguns passos da porta, avaliando a situação.
- Não posso dizer que estou feliz com isso Harry. Mas também não podia esperar uma atitude diferente de você diante da situação. — escutei a voz de Arthur.
- Desculpe termos adiantado as coisas.
- Harry está certo, tudo isso já estava nos nossos planos. Só não exatamente agora.
- Agora Victoire terá com quem brincar. — eu disse, entrando na sala.
Todos se viraram para mim, mas ninguém parecia chateado com a intromissão. Na verdade, Molly parecia extremamente envergonhada. Seu rosto corando de forma violenta, assim como acontecia com Ronald.
- Hermione querida, eu sinto tanto. Eu não devia ter dito nada daquilo para você. Quer dizer, eu te conheço desde que tinha 11 anos. Devia saber que nunca seria capaz de algo assim.
- Tudo bem. — foi minha única resposta. Quando ela descobrisse sobre Draco e eu, não ficaria mais tão arrependida do que disse.
- Bem. Já que estamos dando grandes notícias hoje, acho que devemos esclarecer que Hermione e Ronald não estão mais juntos. Saiu no Profeta Diário, achei que a esta altura todos já saberiam.
A sra. Weasley engasgou diante da declaração da filha. Seus olhos percorreram o aposento a procura de Draco e se fixaram nele.
- Cansei de me desinformar por meio daquele jornaleco. Não recebo mais. Por que? O que aconteceu?
- Desculpe dizer isso, mãe. Mas a sra. errou feio em algum momento durante a criação do seu filho. Ele é um babaca.
- Gina. — Harry e eu ralhamos ao mesmo tempo. Ela deu de ombros e moveu os lábios para nós: “O que? Eu só disse a verdade”.
- Na verdade, foi ele quem terminou comigo sra. Weasley. Houve alguns desentendimentos e quando me recusei a apoiá-lo na caçada insana que tem promovido contra os ex-comensais. Bem… ele achou que eu não servia mais para estar ao lado dele.
Foi uma forma de resumir as coisas. Ela não precisava saber das brigas escandalosas e da forma como ele vinha me tratando. Draco claramente não concordava com isso, ele estava estalando de raiva ao meu lado, dava para perceber pela forma como seu corpo estava tenso. Os nós dos dedos brancos em suas mãos fechadas em punhos, os braços cruzados com força sobre o peito.
- Forma gentil de colocar as coisas. — Gina disse.
Fuzilei a ruiva com o olhar. Já havíamos exigido muito da paciência e compreensão de Molly por um dia.
- Bem, acho que Gina tem razão. Eu criei um babaca. Nunca em todo o resto da existência miserável dele, Ronald vai encontrar alguém como você. — todos caíram na gargalhada, menos Draco. — Vocês devem estar famintos. Vou fazer alguma coisa para vocês comerem. — a bruxa anunciou, encerrando o assunto.
Arthur saiu com ela e eu sabia que se não dissesse nada aos meus amigos agora, Draco falaria por mim.
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