Dramione - Side Effect
2 Cutucando as feridas
Notas iniciais
Depois que a guerra acabou todos estavam felizes por ter conseguido, finalmente, estabelecer a paz no mundo bruxo. Mas estava sendo muito difícil esquecer, deixar algumas coisas para trás. Especialmente aqueles que deram suas vidas na batalha. Era como se eu estivesse quebrada, partida. Eu também tinha problemas para dormir. Mesmo sabendo que não havia mais nenhuma ameaça... Dumbledore, Snape, Fred, Sirius, Remo, Tonks, Dobby, os rostos deles, suas mortes eram revividas por mim todas as noites. Às vezes ficava ainda pior, quando não eram eles quem morriam, mas Harry, Gina, Ron, Luna, Neville.
Houve episódios em que acordei gritando e totalmente suada após sonhar que Malfoy era engolido pelas chamas na sala precisa. Não sei por que esse sonho me perturbava tanto quanto ou até mais que os outros, afinal, Draco Malfoy não significava nada para mim!
Minha mãe insistia que eu visse uma psicóloga – um tipo de médico trouxa especialista em tratar pessoas com problemas como o meu. Aparentemente havia desenvolvido uma coisa chamada estresse pós-traumático, pois tudo o que passei ainda estava muito claro na minha memória. Um dos meus exercícios de tratamento era escrever. Confesso que gostei bastante da ideia. Sentia-me muito mais confortável escrevendo do que falando com a médica. Eu falava muito sobre os meus sentimentos durante as sessões. Mas, como não podia dizer a verdade sobre a guerra, o mundo bruxo, Voldemort, os comensais da morte, Harry Potter e a Ordem da Fênix, inventei uma história mirabolante e ela acreditava que um grupo terrorista havia invadido o colégio interno em que eu estudava no exterior, matando alguns dos meus amigos, ferindo outros e fazendo muitos de nós reféns durante quase uma semana.
Estava aliviada por voltar a Hogwarts e continuar apenas com os exercícios de escrita, sem ter mais que mentir. Mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda não havia descoberto um lugar no mundo em que eu me sentisse mais segura. Poderia reencontrar todos os meus amigos. Ver o castelo inteiro, reconstruído, de pé daria forças a todos nós, tinha certeza. Pelas cartas que havíamos trocado, sabia que também não estava sendo nada fácil para eles. Mas seria muito mais fácil cuidarmos uns dos outros quando estivéssemos todos juntos. Procurar por meus pais e trabalhar para recuperar a memória deles me fez passar menos tempo com meus amigos do que eu gostaria. Além disso, Harry e Gina passaram o verão envolvidos com os preparativos para a inauguração do Instituto Lilian Potter — uma ideia genial de Harry, devo dizer, um lar para as crianças que perderam os pais e parentes na guerra, onde elas receberiam amor e carinho, poderiam criar novos laços, ter uma família novamente. Um lugar para onde voltar nas férias escolares, algo que ele nunca teve de verdade.
Ron, por sua vez, passou quase todo o tempo enfiado no Ministério da Magia, acompanhando de perto o desenrolar dos julgamentos aos Comensais que tinham sido presos depois da batalha. Isso era sempre motivo de discussão nas últimas cartas que trocamos. Segundo ele, era preciso garantir que a justiça fosse feita. Eu concordava com a parte da justiça, mas, o que me preocupava era: a que custo?
— Hermione! – Sorri involuntariamente. Como tinha desejado ouvir aquela voz de novo. Como havia pedido a Merlin que pudesse tê-los por perto mais uma vez. Os ministérios de todos os países não pouparam esforços para procurá-los – uma forma de agradecimento aos meus feitos e contribuições para o fim da guerra. Em dois meses eles estavam de volta e com as memórias restabelecidas, apesar de ainda terem de visitar periodicamente o St. Mungos.
— Hermione, você vai se atrasar!
— Já estou indo mãe! – gritei, enquanto enrolava o pergaminho e guardava na bolsa. Depois, com um aceno de varinha fechava o malão.
Desci as escadas com minhas coisas flutuando atrás de mim.
— Tem certeza de que quer fazer isso filha? – meu pai parecia preocupado. E eu também estava. Não queria deixá-los, não queria ter me afastar deles de novo. Só de pensar na hipótese, meus olhos se enchiam de lágrimas. Mas, a situação era outra — eu fazia questão de lembrar a mim mesma, não havia mais perigo e eu estaria em casa para as festas. Então, respondi com uma voz firme.
— Tenho. Preciso terminar os estudos e acho que voltar a Hogwarts pode ajudar na minha “recuperação”. – sabia que aquele era o argumento principal para convencê-los de que precisava ir. Ele balançou a cabeça afirmativamente e abriu a porta da sala.
***
Assim que atravessei a passagem da plataforma 9 ¾ avistei Harry com Gina, Ron, George e Molly Weasley. Pelo jeito, meus pais não eram os únicos preocupados em me deixar voltar para a escola. Olhei em volta com mais atenção e senti as laterais da minha boca se curvarem para cima. Estavam todos lá: Neville, Luna, Simas, Dino, Parvati, Cho.
Uma cabeleira louro platinada se destaca visivelmente no mar de pessoas, apesar de seu dono estar afastado da multidão, discretamente parado ao lado de uma coluna, tentando não chamar atenção. Nossos olhares se encontram. E notei que havia grandes olheiras roxas logo abaixo de suas orbes azul acinzentadas – Draco Malfoy.
— Mione. – meus amigos cumprimentaram em uníssono, fazendo-me perder a conexão com aqueles olhos atormentados.
— Como senti falta de vocês! – praticamente corri até eles, deixando meus pais para trás. Ron me alcançou primeiro, me levantando pela cintura em um abraço apertado. Ele enterrou o rosto na curva do meu pescoço e inalou profundamente. Depois, subiu uma das mãos até a minha nuca e me puxou para um beijo nada descente. Ali, presa em seus braços, senti-me mais segura, quase inteira novamente.
— Hum, hum! – Gina murmurou.
Ron se afastou só o suficiente para olhar para ela, que meneou a cabeça mostrando meus pais. Com o rosto vermelho como os próprios cabelos, ele me deixou e foi até eles para cumprimentá-los. Aproveitei para abraçar Harry, Gina, a Sra. Weasley, George... quando pensei que fosse ser tirada do chão por mais um par de braços Weasley, pelo outro gêmeo, lembrei que ele não estava mais lá. A guerra o havia tirado de nós.
Fiquei com os braços meio levantados, meio abertos no ar, lutando contra as lágrimas que começaram a se formar. Uma enxurrada de lembranças boas e ruins inundando a minha mente.
— Falta um pedaço não é, não está completo, não está... certo. – George disse cabisbaixo.
Eu o abracei de novo e, dessa vez, desisti de tentar segurar as lágrimas. Sabia que ele também estava chorando pelo jeito como seu corpo tremia. Mas quando me soltou, seu rosto estava calmo.
— Me usando para se aproveitar da cunhadinha gata? Parabéns George! – ele imitou a voz do irmão e soltou uma risada triste. – Era exatamente o que ele diria se estivesse aqui. – completou.
George enxugou minhas últimas lágrimas enquanto falava e pude sentir os olhares nas minhas costas. Respirei fundo, para recuperar o controle, antes de me virar. Soube que Gina também tinha derrubado algumas lágrimas pelo jeito como Harry a segurava pela cintura. Ela forçou um sorriso para mim.
Ron, por outro lado, tinha os olhos parados, meio perdidos, mas cheios de ira. Ele estava observando atentamente alguma coisa mais à frente na plataforma.
— Malfoy... – ele sussurrou. O asco em sua voz fez um arrepio correr pela minha espinha. – O que ele está fazendo aqui? Como ele ousa voltar a Hogwarts depois de tudo o que fez?
Ron estava com as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo, tão apertadas que os nós de seus dedos estavam brancos. Suas orelhas estavam vermelhas como pimentas. Ele estava começando a se descontrolar. Então, coloquei uma mão de cada lado do seu rosto fazendo com que ele olhasse para mim.
— Não importa! Não mais. – disse baixinho.
— É claro que importa! – ele rebateu. — Fred deveria estar aqui. Assim como Tonks, Remo, Snape, Sirius. Mas não ele. Nunca ele! – Ron gritou.
Algumas pessoas ao redor começavam a olhar para nós.
— Ron, nós também sentimos falta deles cara. Só eu sei o quanto. – a última parte da frase de Harry foi quase um sussurro e Gina apertou a mão dele.
— Ele sofreu e está sofrendo assim como todos nós. O pai dele está em Azkaban, as pessoas mal olham ou falam com ele e quando o fazem é para dizer algo ruim.
— Como se ele não merecesse. – rebateu Ron, teimoso.
— Ele fez as escolhas erradas e está pagando por isso, acho que merece uma chance de tentar acertar. – eu me manifestei.
Ron pareceu ter levado uma bofetada. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes, mas antes que dissesse alguma coisa, Harry veio em minha ajuda.
— Ela está certa. Além disso, a mãe dele mentiu para Voldemort em um momento decisivo. Mentira essa que acabou me mantendo vivo para derrotá-lo. Lembre-se que até a batalha final odiávamos Snape por ele ter feito algumas escolhas erradas, achávamos que ele era um traidor.
— Você só pode estar brincando. Como tem coragem de comparar aquele filhote de comensal com Severo Snape? Além disso, fomos NÓS que te mantivemos vivo! DURANTE 7 ANOS! Apesar de todas as tentativas do pai dele e dos amiguinhos comensais em garantir o contrário.
Aquela altura, toda a plataforma 9¾ já olhava para nós. Inclusive o causador involuntário da briga. Nossos olhares se encontraram, de novo, e eu pude ver os sentimentos conflitantes que existiam ali: culpa, arrependimento, raiva. Por mais que sua expressão fosse fria e indiferente, eu podia ler a verdade em suas orbes azul acinzentadas. Ele concordava com Rony, ele também achava que aquilo tudo tinha sido culpa dele. Ele tinha ficado do lado errado durante a guerra e se arrependia disso.
— Ron. – Gina praticamente suplicou, fazendo-me despertar para o que acontecia ao meu lado. Dessa vez, era Harry quem parecia ter sido esbofeteado. Não satisfeito, Ronald continuou:
— Isso mesmo Harry Potter. Sua vida custou a vida de muitas outras pessoas. A lista é bem longa, mas se quiser, posso citar os nomes...
A dor nos olhos de Harry parecia aumentar a cada sílaba.
— ...Você só é o menino que sobreviveu porque muitos outros morreram para isso!
— RONALD WEASLEY! – gritou a Sra. Weasley, já em lágrimas.
— Quê? Não vou deixar ele defender aquele verme, não vou conviver com o cara que causou a morte do meu irmão porque Harry Potter acha bonitinho perdoar.
— CHEGA! – todos se assustaram com o grito. Mas eu não precisei desviar os olhos de Ron para saber quem tinha se manifestado dessa vez. Aquela voz era parte dos meus sonhos e pesadelos desde o primeiro ano – Draco Malfoy.
— Não precisa... – começou Harry.
— É claro que precisa Potter. O Weasleyzinho precisa entender que ele não foi o único que perdeu pessoas queridas nessa guerra. Ele precisa entender, de uma vez por todas, que aqueles que morreram sabiam que isso podia acontecer. Eles escolheram lutar, colocaram suas vidas em risco por vontade própria, porque acreditavam em você. EM VOCÊS TRÊS! – ele fez questão de frisar a parte do “vocês três” para que Ronald entendesse a idiotice que estava dizendo.
Cara, quem é você e o que fez com Draco Malfoy?, pensei.
— Eu achei que o sofrimento da guerra tinha feito as pessoas amadurecerem. Mas, pelo jeito, você continua o mesmo idiota de sempre, Weasley. – e sorriu sarcástico. Ah, aí está! O arrogante e prepotente Malf..
“TOC”
Ron socou Malfoy no queixo. Pelo barulho e pela expressão de dor que ele tinha nos olhos ao cair no chão, eu tive certeza de que o maxilar do sonserino estava quebrado.
— O que você pensa que está fazendo? – gritei, enquanto instintivamente me abaixei perto dele para examinar o estrago.
Malfoy mantinha as duas mãos sobre a parte inferior do rosto e sangue brotava entre seus dedos.
— O que VOCÊ pensa que está fazendo, Hermione? – Rony perguntou incrédulo. Ele segurou meu braço com força e começou a me puxar. Tentei me soltar, mas ele era bem mais forte do que eu. Foi então que Malfoy se sentou, segurando o pulso dele.
— Sohhhs eahh. – Acho que ele tentou dizer “solta ela”, mas com a dor e a fratura, as palavras saíram embaralhadas e ele bufou de raiva, colocando-se de pé com esforço.
— Quem você pensa que é para me dizer o que fazer, comensalzinho de merda? – Ron respondeu, enquanto me soltava. Isso com certeza vai deixar uma marca, imaginei zangada. Contudo, não tive tempo para avaliar melhor o hematoma. Ronald só havia me soltado para pegar a varinha e estava indo para cima de Malfoy mais uma vez.
— Estup... – Rapidamente e sem pensar muito no que estava fazendo, me coloquei entre os dois. Fechei os olhos me preparando para a dor, mas ela não veio. Quando abri, Draco Malfoy me abraçava protetoramente, com as costas voltadas para Ronald. Entretanto, ele também não havia sido atingido. Só então reparei no escudo protetor entre nós e o ruivo.
Um Harry mais que decepcionado e uma Gina muito brava apontavam as varinhas para o espaço entre nós. George e Molly seguraram meu namorado pelos braços e meio levaram, meio arrastaram ele até o trem. Olhei assustada para Malfoy, mas ele apenas deu de ombros e gemeu. Seu rosto ficou ainda mais pálido que o normal e eu o apoiei com o ombro. Harry e Gina vieram até nós para me ajudar a sustentá-lo – ele era muito alto e forte para mim.
Foi só nesse momento, depois de toda a briga e confusão, que me lembrei dos meus pais. MEUS PAIS! Com toda a certeza, teriam desistido de me deixar voltar para Hogwarts. Olhei para eles e, ao contrário do que imaginei, seus olhares transmitiam mais orgulho do que preocupação. Apesar desta última ainda estar lá!
— Mãe, pai, eu sinto muito! Tem sido muito difícil para todos nós. – minha mãe sorriu encorajadora, mas foi papai quem falou.
— Acho que podemos apenas imaginar pelo que vocês passaram e como isso atingiu e mudou cada um de vocês, filha. Mas de uma coisa eu tenho certeza agora, vocês realmente precisam uns dos outros. Precisam passar algum tempo juntos para descobrir como lidar com as consequências, com os efeitos colaterais, das escolhas que fizeram antes da guerra. Para decidir que escolhas fazer, que decisões tomar, a partir de agora. Vocês precisam uns dos outros para cutucar as feridas que estão abertas até estarem prontos para deixar que elas se tornem apenas cicatrizes. – ele beijou minha testa e puxou mamãe e eu para um abraço apertado.
— Nossa menininha cresceu! – ele constatou rindo. Uma constatação um tanto tardia, devo dizer.
Depois de me despedir deles, segui para o trem. Eu era praticamente a última na plataforma. Mas isso era bom. Eu precisava pensar em tudo o que aconteceu e, principalmente, no que meu pai havia dito. Ele não era o tipo de homem que fazia um discurso daqueles atoa. Havia alguma coisa óbvia e não dita por trás daquelas palavras, que ele queria que eu descobrisse sozinha.
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