Notas iniciais
Não resisti! O capítulo já estava pronto a algum tempo e com as reviews incríveis que recebi, tive que postá-lo. Aproveitem...

Felizmente, encontrei uma cabine vazia no trem, não queria ter de encarar Ron, ou qualquer um dos meus outros amigos naquele momento. Passei o caminho todo pensando no que havia acontecido. Eu sabia por que tinha defendido Draco Malfoy: Eu estava farta de brigas e discussões. Depois de tudo o que aconteceu elas pareciam tão idiotas e sem sentido. Além do mais, ele havia defendido Harry das acusações infundadas e raivosas de Ron quando não precisava, realmente, fazer isso. Quer dizer, antes da guerra ele nunca teria feito isso, pelo contrário, teria tentado criar ainda mais confusão, denegrir Harry ainda mais. Talvez ele realmente tenha mudado.

Assim como fui das últimas a embarcar, fui uma das últimas a sair do trem. Havia apenas uma carruagem esperando na estrada. Uma figura alta, com o capuz preto da blusa de frio puxado sobre a cabeça estava sentada lá, de costas para mim. Quem estaria tão desinteressado em ver o castelo novamente para ter ficado para trás? Quando alcancei a carruagem um arrepio subiu pela minha coluna. Imediatamente, entendi por que a pessoa estava sozinha. O único passageiro da última carruagem era Draco Malfoy.

Ele me lançou um olhar questionador, mas não disse nada. Embarquei sem cerimônia e a carruagem partiu. Éramos mesmo os últimos. Já estava começando a estranhar o silêncio quando me lembrei que ele não podia falar. Então, aproveitei para dizer tudo o que queria, sem ser interrompida.

— Por que fez aquilo na plataforma? – perguntei, mesmo sabendo que ele não podia responder. Ele apenas deu de ombros. – Queria dizer que sinto muito pelo que aconteceu Malfoy, mas você bem que mereceu aquele murro depois de todos esses anos de perseguição e implicância com a gente.

Dessa vez, ele tentou falar alguma coisa, mas desistiu diante da dor. Então usou a varinha para escrever no ar: DESCULPE. Fiquei realmente surpresa. Draco Malfoy estava pedindo desculpas. Apenas balancei a cabeça. Todo o discurso que eu preparei havia desaparecido. Assim como a vontade de dizê-lo.

Senti que castelo se aproximava. Quando desviei o olhar para a construção, meu coração saltou uma batida. Estava exatamente igual ao que era antes da guerra, tinha certeza. Cada pedra, cada peça de mármore, telha, porta, janela, estátua, estava em seu devido lugar. Mas era como se eu o estivesse observando pela primeira vez, em toda a sua beleza e imponência. A carruagem começou a parar imediatamente após atravessarmos o portão, me fazendo desviar os olhos do castelo.

Minerva McGonagall estava no topo da escadaria principal acompanhada dos outros professores, abaixo dela, no jardim, estavam as outras carruagens lotadas de alunos. Assim que paramos completamente, ela começou:

— Bem vindos a Hogwarts! Estamos muito felizes em tê-los de volta. – ela parecia genuinamente emocionada. – Para começar, eu gostaria de agradecer os esforços de todos para que este dia chegasse. Um dia em que a sombra de Voldemort e seus planos nefastos não nos atormentariam mais. Em que não precisaríamos nos esconder, poderíamos dormir tranquilos e não sentiríamos mais medo.

Aquela altura, muitas pessoas já estavam chorando, eu entre elas. E o que veio a seguir fez com que o restante dos alunos se juntasse a nós.

— Por isso, gostaríamos de homenagear aqueles que sonharam com esse dia e lutaram conosco para que ele pudesse se realizar, mas, infelizmente, não estão aqui para aproveitá-lo.

Ela fez uma aceno de varinha e uma chama muito alta surgiu, do lado esquerdo de nossa carruagem, bem no meio do jardim. As labaredas tinham um tom alaranjado, como o pôr do sol. Elas crepitaram por alguns segundos e então, começaram a se consumir, dando lugar a um incrível monumento de granito branco.

Ele tinha pelo menos dois metros e meio de altura. Em cada lado de sua base quadrada era possível ver o brasão de uma das casas. Da base, saiam cinco pilares, quatro virados para as pontas e um no meio, de frente para o castelo, todos retangulares, como placas. Quando a última labareda se apagou, os nomes começaram a aparecer. Primeiro surgia uma estrela dourada e depois o nome aparecia no granito logo abaixo: Sirius Black, Fred Weasley, Remo Lupin, Ninfadora Tonks, Alastor Moody... Estavam todos lá — alunos e professores, membros da ordem e bruxos comuns. O último nome surgiu e não pude deixar de sorrir: “Dobby, o elfo livre”.

Mas, faltava um... quando pensei em começar a protestar, alguma coisa apareceu no pilar do meio, que era um pouco mais alto que os outros, outra estrela. Logo abaixo veio o nome: Severo Snape. Soltei a respiração que não sabia que estava prendendo e não consegui mais inspirar. Um nó havia se formado na minha garganta. Aquela era uma homenagem linda e mais que justa. Snape havia sido o homem mais corajoso que já conheci. Ninguém se arriscou tanto quanto ele durante a guerra ou até mesmo antes dela.

Instantaneamente, olhei para Malfoy. Snape era a prova de que mesmo quem começa fazendo as escolhas erradas pode se arrepender, encontrar um caminho de volta e, às vezes, fazer a diferença. Talvez Draco Malfoy estivesse mesmo arrependido. Talvez ele realmente estivesse tentando mudar, fazer as coisas certas, para variar.

Enquanto eu o observava admirar o monumento ao nosso lado, uma lágrima escorregou por sua face pálida, deixando um rastro brilhante em sua bochecha. Ele a enxugou rapidamente e virou o corpo, escondendo o rosto com o capuz.

— Bem... – McGonagall tentou recomeçar. Mas os alunos irromperam em palmas entusiasmadas, que iam ficando cada vez mais altas. Ela esperou pacientemente a comoção diminuir.

— Tenho o prazer de convidá-los para desfrutar do nosso banquete, uma comemoração ao novo começo.

Os alunos começaram a desembarcar e seguir a diretora para dentro do castelo. Pulei da carruagem e escutei Malfoy gemer ao fazer o mesmo. Virei-me e pude ver que ele tremia involuntariamente, apoiado na carruagem.

— Você não está bem! Precisa ir até a ala hospitalar. – constatei. Ele não disse nada, apenas olhou para mim. Encarou-me demoradamente com aqueles olhos azul acinzentados. Pela terceira vez naquele dia, fui capturada, fiquei presa em seu olhar intenso e penetrante. Mas, dessa vez, me forcei a quebrar o contato visual.

— Precisa de ajuda para chegar até lá? – perguntei desviando os olhos, envergonhada. Malfoy parecia ter desenvolvido o estranho poder de me hipnotizar, distrair-me do mundo ao meu redor. Não sei se ele já tinha tomado consciência disso, mas eu já estava mais que incomodada. Ele negou a ajuda que eu tinha oferecido balançando a cabeça levemente.

— Ok, então. – disse girando em meus calcanhares para seguir o caminho até o castelo. Mas Malfoy segurou meu pulso, fazendo-me virar de frente para ele. Meu corpo se arrepiou em resposta. Senti-me mergulhar novamente naqueles olhos misteriosos. De repente, ficou difícil respirar. Eu estava começando a me perder no mar azul acinzentado mais uma vez. Droga, por que ele tinha que ter olhos tão lindos? Por que, nesse momento, eles tinham de estar me encarando com tanta intensidade? Com o pouco de sanidade que me restava quebrei a conexão.

— Vamos, eu ajudo você. – disse resignada. – Alguém tem que chamar Madame Pomfrey no salão principal de qualquer maneira.

Ele passou o braço pelos meus ombros de maneira quase casual e começamos a caminhar em direção ao castelo. Graças a Merlin, estavam todos no salão principal. Aquela proximidade entre Malfoy e eu era, no mínimo, estranha e eu não queria mais fofocas e comentários. A confusão na plataforma já iria render conversas e especulações suficientes para as próximas semanas.

Entrei no salão principal sob os olhares curiosos de algumas pessoas. Aparentemente, eu era mais interessante que a seleção dos novos alunos, que estava acontecendo naquele momento. Agradeci mentalmente por Madame Pomfrey se sentar na ponta da mesa, já bastava atravessar o salão, não queria também ter que subir naquele tablado.

— Madame Pomfrey. – chamei enquanto tentava me fundir com a parede.

— Madame Pomfrey! – minha voz saiu um pouco mais alta do que eu queria e uma menina de cabelos ruivos me olhou feio da mesa da sonserina. Pelo menos, consegui chamar a atenção da mulher também.

— Sim?! – ela me encarou confusa.

— Estão precisando da senhora na ala hospitalar.

— Mas já? – ela exclamou surpresa.

Tive que conter um sorriso. Desde que chegamos a Hogwarts não houve um ano sequer em que eu, Harry e Ron não visitamos a ala hospitalar pelo menos uma vez. A mulher olhou através do salão, para a mesa da Grifinória, acho que tentando descobrir quem era o paciente. Várias cabeças se viraram enquanto passávamos a caminho da porta.

— O que exatamente aconteceu, senhorita Granger? Quem precisa de atendimento?

Hesitei. Ainda estávamos dentro do salão e, principalmente, havia muita gente consideravelmente interessada na nossa conversa. Por fim, suspirei pesadamente e respondi:

— Draco Malfoy – disse num sussurro. Mais cabeças se viraram para nós.

— Oh, então não eram apenas rumores? Houve mesmo uma briga?

— Infelizmente, sim! – falei aborrecida.

Quando atravessamos a soleira da porta, ela virou a esquerda em direção a escadaria que descia para a ala hospitalar, já andando apressadamente. E eu fui para o lado contrário. Queria chegar ao dormitório e me instalar antes dos outros. Não tinha ânimo para voltar ao salão e encarar os olhares e comentários sussurrados, muito menos as perguntas que meus amigos me lançariam.