Dramalhama
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A bendita autorização chegou na quinta-feira (suspiro de alívio). O meu passaporte com visto, bem como o meu discman e as pilhas estavam na minha mochila vermelha, as malas, prontas no chão do quarto. Depois de muita discussão, conseguimos reduzir os pares de sapatos a sete. Dez pares de calças jeans, dos quais cinco eram novos. Cinco jaquetas. Três botas, duas delas de cano longo. Um par de tênis. Muitas blusas. O casaco eu compraria lá. Nenhum casaco que eu comprasse no Brasil serviria para o inverno de Oregon. E por aí vai. Toda vez que eu tentava argumentar, dizer pra minha mãe que não precisava daquele sapato, daquela bolsa, ela desfiava o rosário de como eu ia ficar um ano inteiro lá, e o dólar custava três reais, eu teria que comprar só o essencial.
Mas quem disse que eu conseguia dormir na véspera da viagem? Depois de fritar na cama, abri o discman e tentei ouvir música, mas o sono não vinha. Depois, eu pensava que precisava dormir, que pegaríamos a estrada rumo ao aeroporto logo depois do almoço, e a ansiedade aumentava. Como seria a família? A minha escola nova? Como eu conseguiria ficar um ano inteiro longe da minha casa? Minha cama. Era a última vez que eu dormia nessa cama. Que via as persianas rosas. O armário de madeira, com a porta rosa, combinando com a persiana, com as portas da escrivaninha e a antiga colcha. Decoração típica de quarto de uma menina de 12 anos. Olhei para a parede branca e vi o mural de fotos, ainda com a foto do Bruno Gagliasso que eu tinha tirado da vez que ele veio para a cidade com a sua peça de teatro. Aquilo tinha sido em maio, mais ou menos na época em que me inscrevi no intercâmbio. Parecia tanto tempo... As fotos da festa clubber. As da despedida eu ainda teria que revelar no dia seguinte, o que me levava a: preciso dormir logo, porque amanhã viajo de avião e possivelmente não vou conseguir dormir. E o ciclo interminável da insônia recomeçava.
No dia seguinte, tentei engolir o almoço enquanto me ensinavam a carregar as duas malas. A maior era tão grande que caberia uma criança pequena. Eu dividia atenção entre o arroz, feijão, farofa e frango empanado, as fotos recém-reveladas e a preocupação com o fato de que, quando chegasse aos Estados Unidos, estaria por minha própria conta. Minha mãe não parava de falar sobre o cartão de crédito, que era só para emergências e que eu teria que ser responsável. Realmente. Eu corria dois grandes riscos: engordar bizarramente com tantas guloseimas e estourar o cartão no primeiro mês. Não estou sendo irônica.
Duas horas de viagem até o aeroporto. A ficha começou a cair só agora. Minha mãe, meu padrasto, meu irmão. Pessoas que eu me acostumei a ver desde sempre. Da próxima vez que eu visse o meu irmão, ele teria 11 anos. Minha mãe... eu só veria a minha mãe em 10 meses. É muito tempo. Eu não planejei isso direito. Tudo bem sair da minha cidade, da minha escola. Mas ficar longe da minha mãe? Me lembrei de uma excursão de escola. Passaríamos o dia no Museu do Índio e no Planetário. Eu não queria ir, e ela me forçou. Passei o dia inteiro chorando, e ela ficou irredutível, falando que eu precisava ir, para ser mais independente. Coloquei o fone no ouvido antes que começasse a chorar agora também.
Segunda-feira, 26 de agosto. O Aeroporto do Galeão estava vazio. Me lembro do Daniel carregando as malas. Do Lucas segurando na mão da minha mãe. Ou ele não estava entendendo bem o que estava acontecendo, ou não estava nem aí. Minha mãe também não estava chorando. Nem eu, mas no meu caso, eu queria parecer forte. "Eu consigo ficar um ano fora" dizia para mim mesma o tempo inteiro. O mais difícil foi me separar deles na hora de fazer o check-in e ir para o portão de embarque. Finalmente sozinha. Senti o peito apertar, e nem tinha saído do Brasil.
Por não falar inglês direito, a minha mãe e o Daniel pagaram um escort, que em outras palavras é basicamente uma babá de viajante menor de idade.
Esse mal olhava na minha cara. Depois de um voo incômodo, comida de avião, de não entender nada da programação em inglês (exceto pelos desenhos do Disney Channel) e de dormir pessimamente, eu merecia mesmo ser escoltada por aquele metido. Aliás, escoltada não, já que na primeira oportunidade ele me largou com a outra menor de idade numa sala infantil! Quantos anos ele achava que eu tinha? Dez? Estava passando Os anjinhos na televisão!
Mas eu não estava de muito mau humor nem nada. Quer dizer, era tudo tão novo! Se eu esquecesse o acompanhante ridículo, a coisa toda era meio empolgante. Eu estava por minha conta, pela primeira vez. Era como ser maior de idade, se você para para pensar no assunto. Menos a carteira de habilitação.
Enfim, o voo seguinte foi relativamente rápido. Nem bem liguei o discman, e comi o café da manhã oferecido no avião, já ouvi a voz do copiloto avisando que íamos nos preparar para aterrissar. Olhei pela janelinha do lado do meu assento. Fazia um sol escaldante do lado de fora. Estávamos chegando ao aeroporto de Portland. Fechei o caderninho de recados, com as mensagens dos meus amigos. A última mensagem era da Bel.
"Oi, July, é a Bel, de novo!!! Gente, não estou acreditando que você vai embora amanhã. Agora que está chegando o dia, é que eu estou me tocando. Cara, é sério, vou sentir muito a sua falta! Você sabe que sempre foi uma das minhas melhores amigas.
E me promete uma coisa: assim que chegar, você vai me mandar uma carta me dizendo como foi a viagem e o seu endereço. Vou te mandar cartas toda semana, resumindo o que tem acontecido.
Não esquece!!!
No dia seguinte, hein?
Quero que você fale muito bem de mim aê nos EUA, sabe, pra quando eu for famosa.
Bjos,
Bel
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