Dramalhama

10 Capítulo 8


Eu não vou descrever o que vi no aeroporto de Portland. Para ser franca, eu não estava prestando a menor atenção em quem ia e vinha. Sabe aquele papo de pessoas esperando os seus entes queridos? Chorando? Correndo para abraçá-los, com uma musiquinha de fundo? Esquece. Não prestei atenção em nada disso. Tudo que eu pensava era: espero que não me esqueçam aqui. Não tem como eu carregar as duas malas sozinha. Minha mãe e meus amigos me zoavam de distraída, mas tenta prestar atenção depois de passar uma noite inteira sem dormir!

"Com licença." falei em inglês, me aproximando da mulher do guichê. "Eu. Estou. Procurando. A. Minha. Família. Anfitriã."

"Eles não vão te encontrar aqui, menina. Você tem que ir em frente, seguir as placas até a esteira das bagagens, descer as escadas e só depois é que vai vê-los".

Gente, como aquela mulher falava rápido.

"O quê?" foi tudo o que consegui dizer. "Pode falar um pouco mais devagar", recitei, me lembrando das frases que tinha aprendido na aula de Inglês. "Por favor?" emendei rápido.

"Você está vendo aquela placa? É ali. Você vai ver muitas pessoas pegando as malas. "E fez um gesto para ilustrar." Você pega as suas malas, e sai.

"Mas eu estou procurando a minha família anfitriã! Eu não posso sair daqui!"

Por fim, ela se cansou, e me guiou (eu não quero dizer que ela praticamente me levou pela mão) até a área de retirada de bagagens. Antes de chegar lá, no entanto, vi duas meninas loiras, altas, uma delas com um mini-cartaz feito de papel, com o meu nome escrito. Uma delas sorria igual ao Pateta.

"Lá", consegui dizer. "São eles, eu acho".

"Você deve ser a Júlia!" a menina com o cartaz gritou. "Somos nós! A Família Webster! Quer dizer, essa é a Karin. Ela é da Alemanha. Eu sou Amber Webster."

Logo depois, uma mulher gorda veio quase arrastando uma menina magrela, de cabelo loiro claríssimo.

"Desculpe o atraso. Tivemos que estacionar longe daqui!"

Meia hora depois, estávamos no Red Robin, uma rede de restaurantes estilo Outback, e eu observava a nova família, enquanto fazia esforço para entender o que diziam.

Taylor Webster, a menina magrinha, falava muito rápido, usando gírias. Ela se parecia com uma Barbie que eu tive com cinco anos, com o cabelo loiro platinado cortado todo irregular, roupas que não combinavam e um tom de loiro que, no Brasil, eu só encontraria em farmácias, na seção de descolorantes. Mas o cabelo dela não era como o da mãe. Era natural, dava para ver. Tinha olhos azuis, alguns dentes faltando, muito magra, como se fosse quebrar a qualquer momento. Eu só não entendia uma coisa: na ficha eles diziam que as filhas tinham 11 e 13 anos, mas essa menina parecia ter 9, no máximo. E tinha muita dificuldade de resolver o labirinto infantil que vinha na bandeja. Pensei que poderiam ter feito um engano ao preencher a tal ficha, mas depois ela mesma me disse que estava animada com o seu aniversário de 12 anos, que estava chegando.

A loira que sorria como o Pateta era a Amber, como ela mesma havia dito. Alta como o personagem da Disney, ela também vivia rindo, e roncava enquanto ria. Além de ter a língua presa. Tanto ela quanto a mãe achavam graça de tudo.

O que me leva à Debbie. Debora Webster, 32 anos, contadora, de acordo com as informações da ficha de intercâmbio. Cabelos loiros, ressecados, o que só podia significar três coisas. Péssima qualidade da água, do xampu, ou água oxigenada barata. Ela estava claramente muito acima do peso, e estava bem rosada, como se estivesse corrido muito.

A menina séria, praticamente muda, era a Karin. Acho que não trocamos uma palavra, em todo o tempo em que estive no carro, e depois no restaurante. Era mais alta do que eu (bom, acho que a única mais baixa do que eu ali era a Taylor), cabelo bem loiro, e olhos azuis. Tinha cara de pouquíssimos amigos. Quer dizer, eu sempre tive uma ideia dos alemães como um povo mais seco, só que isso era demais. E não é que ela não entendesse o que falavam. Pelo pouco que ela respondeu, percebi que entendia sim, muito bem, e falava com certa fluência. Ela só não estava a fim de puxar conversa, acho. E também não foi com a minha cara, se a forma como revirava os olhos quando eu respondia, empolgada, às perguntas da família, servia de indicação.

Logo que chegamos em Mount Hood, a Taylor fez questão de me mostrar a casa. Apesar do ritmo alucinado como ela falava, não foi difícil entender o que dizia. Era só observar.

A primeira coisa que eu vi, quando o carro estacionou na garagem, foi uma máquina de coca-cola. Entramos por uma sala de estar, com carpete verde, um sofá mais escuro, uma mesa de centro com tampo de vidro. Do lado esquerdo do sofá, uma gaiola com ratos (não hamsters, mas ratos pretos mesmo, com cauda e tudo). Do lado direito de quem entra, ficava o quarto da Debbie e do Gary. Uma suíte com um banheiro grande e branco. No closet, ela mantinha materiais para scrapbook, que são álbuns de foto artesanais.

Em frente à sala, havia a entrada para a cozinha. Não era uma cozinha particularmente grande, nem pequena. Tinha uma máquina de lavar louças. Uma pia. Muitas latas de sopa instantânea Campbell.

Mas, se preferisse virar à direita, havia o corredor, com o banheiro, e dois quartos. O da esquerda, todo azul, com uma cama, era o da Taylor. O da direita, pintado de verde-limão, com dois beliches, seria o nosso. Todas as camas tinham um cobertor igual: uma imitação de kilt de cores vivas, entre elas, verde-limão combinando com a parede.

"VOCÊS VÃO DIVIDIR O QUARTO COMIGO, NÃO É DEMAIS?"gritou a Amber.

Será que ela sempre fala gritando ou acha que todo intercambista é surdo?

Por último, o quarto da família. Basicamente, era um quarto extra da casa, que tinha um sofá-cama, com uma televisão e filmes. Muitos filmes. Eram todos em VHS, o que era estranho, quer dizer, em 2002, até no Brasil eu tinha um DVD player. Mesmo assim, vi que seria o meu quarto preferido da casa.

Mas não terminava ali. A Taylor ainda fez questão de me mostrar os orgulhos da família. A coleção de lhamas no quintal. Eram 4 ao todo. Além dos três cachorros que entravam e saiam de casa, dos 3 gatos, da cabra, do coelho...

E uma caminhonete que se aproximava e estacionou na garagem.

"Amber, o papai chegou!" a Taylor chamou a irmã, animada.

Então eu fui conhecer o Gary, o pai da Amber e da Taylor, quando ele chegou com a caça. Ele caçava veados e alces! Fisicamente, Gary Webster era magro, altura mediana, cabelos castanhos. Não era bonito, na verdade parecia maltratado, bem mais velho do que trinta e poucos anos. O rosto do cara era puro pé de galinha.

"AGORA VOCÊ JÁ CONHECE A FAMÍLIA TODA!" gritou a Amber, depois que as apresentações foram feitas e os presentes, entregues.

Mais tarde, ao ligar para casa, foi só a minha mãe perguntar como estavam as coisas, para os olhos encherem d'água. Não chorei por pouco. Claro que contei do quarto, dos beliches, dos cachorros e da máquina de Coca-Cola no quintal.

"E eles são gordos?"

"Ela é bem gorda. Mas o marido não é, nem as filhas", sussurrei.

"Manda umas fotos. Deles e da casa."

"Tá bom, eu mando depois."

"Por que você está falando tão baixo?" a minha mãe perguntou.

"Sei lá. Fico achando que eles podem entender alguma coisa do que eu falo. Não sei se eles falam espanhol ou algo parecido. E eu te falando que são gordos..."

"Fala sério, Júlia. Então, já quer voltar para casa?"

Queeeeeeeeero!!!! Me manda uma passagem agora!

"Não, mãe, claro que não. Que ideia!" Respondi, com mais coragem do que eu sentia "Eu não disse que vou aguentar o ano inteiro?"

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.