Dramalhama
8 Capítulo 6
A primeira coisa que eu perguntei ao chegar em casa foi para onde eu ia. A resposta? Mount Hood, Oregon. A família anfitriã? A família Webster.Um casal com duas filhas, uma de 11, outra de 13 anos. E uma intercambista alemã, de 17 anos.
Liguei para a Bel assim que soube da novidade, e pra dizer que não ia para a escola no dia seguinte.
Liguei para a Bel assim que soube da novidade. E também para avisar que eu não ia mais para a escola aqui. A não ser para pegar meu histórico e avisar para a diretora Sueli que eu ia viajar mesmo.
Primeiro, a Bel gargalhou até quase ter uma crise de asma. Principalmente na parte que eu disse para onde iria.
"EEEEi, ainda está ai?" perguntei.
"Ahm.. Júlia, você sabe quantos habitantes tem essa cidade pra onde você vai?" disse ela, assim que conseguiu controlar o riso.
Eu moro em uma cidade com 140 mil pessoas.
"Claro que sei. Quinhentas pessoas. Mas tem uma cidade maior perto dela, com 5 mil."
"E você falando que não gosta de insetos e lama." ela voltou a rir "Você vai morar no estado famoso pelas atividades ao ar livre. Como acampar!"
"Of course I do. There are 500 people. But there is a town next to it, with 5,000 people."
"Como é que você sabe tudo isso? Eu nem sabia onde oregon ficava no mapa até agora há pouco, quando soube que vou pra lá!"
"Gente, será que vai ter muitos homens gatos na sua escola. Caramba, com tantos loiros de olhos azuis lá, o mais feio deve ser dez vezes mais bonito do que os daqui. Me leva com você!!!!!"
Suspirei.
"Quem dera. Eu tenho dificuldade de fazer amigos em Português."
"Quem dera você pudesse ir. Eu já tenho dificuldade pra fazer amigos em Português."
"Pelo menos vai ter alguém da sua idade na casa. De onde ela é mesmo? Noruega?"
"Alemanha. Espero que ela seja legal. Todo alemão que eu conheço é meio frio".
"Nossa, você tem tanta sorte. Vai cair fora bem na época do ENEM. Vai ter férias prolongadas"
Quem dera. Mas que ninguém pense que sair da escola significava férias.
Como a minha mãe repetia pelo menos uma vez por dia, estávamos correndo contra o tempo. Tínhamos que conseguir um monte de coisas. Aulas de Inglês de emergência, visto (o programa enviava um formulário que me dispensava da entrevista no consulado), vacina, roupas, presentes para todos os membros da família e a autorização dos meus pais (a da minha mãe era fácil, mas o meu pai morava em outro estado).
A minha rotina mudou completamente. Eu tinha duas obrigações. A primeira era acordar às 9 da manhã pra estudar Inglês. Todos os dias, das 9 ao meio-dia, eu tinha aulas de Inglês com um professor que ia à minha casa. Vocabulário, conversação e gramática. Era o prejuízo dos anos e anos fugindo das aulas de Inglês. Eu conseguia entender o professor, porque ele falava tudo bem devagar. Quando chegasse aos Estados Unidos é que eu ia ver.
A vantagem é que era uma rotina bem mais amena do que a de aulas das 7:30 da manhã às 20h como antes. Mesmo com a chatice que era entender quando se usa os tempos verbais present perfect e simple past, e decorar expressõezinhas como run into; pelo menos não tinha mais que me importar com o que era seno, cosseno e tangente, nem com a fórmula do cloreto de sódio. Porque isso não importava mais. O que era ótimo, porque o Enem seria na primeira semana de aulas. Se eles tivessem avisado um dia antes, eu não precisaria nem ter feito prova de Química.
Eu fui para a escola pegar os documentos. A diretora ficou super feliz de saber as novidades. E ficou ainda mais satisfeita de saber que tinha tido uma participação naquilo tudo. Ela me deu o email dela, e pegou o meu, me pedindo para escrever e mantê-la informada. Eu olhei novamente para a foto no porta retratos. Eu e ele não nos falávamos desde a minha festa. Parecia que tinha sido séculos atrás. Fazer o quê.
A minha outra obrigação era conseguir a autorização do meu pai. Desde a separação dos meus pais, a nossa relação era meio complicada. Depois do divórcio, ele foi morar em Santa Catarina, onde eu tinha ido uma vez, quando era criança, e depois disso, nos víamos uma vez por ano, no Rio de Janeiro.
Assim que eu soube que ia mesmo viajar, cumpri com a minha parte. Liguei pra ele, expliquei sobre o intercâmbio, e do que ia precisar.
"Então, pai, eu vou precisar de uma autorização sua, com firma reconhecida em cartório. Você pode me mandar o mais rápido possível? Eu viajo em menos de um mês."
"OK".
"Tem que ter firma reconhecida, tá? Se não não adianta".
"Eu entendi, Júlia. Eu vou mandar".
"Então tá" eu disse, um pouco surpresa por ter sido tão fácil. "Beijo, tchau".
"Um beijo".
Duas semanas se passaram e nada da tal autorização. Para piorar, soubemos que eu teria que partir uma semana antes, por conta de uma viagem da minha futura família anfitriã.
"Júlia, você tem certeza absoluta que disse com o seu pai?" minha mãe me perguntou assim que recebemos a notícia da antecipação da viagem. Ela andava uma pilha.
"Claro que tenho! Eu falei inclusive que tinha que ser firma reconhecida em cartório".
"Acho melhor você ligar de novo pra ele".
"Mãe, ele já concordou" eu falei, já não tão certa.
"Você disse quando ia viajar?"
"Falei, mãe. Eu pedi pra ele mandar rápido, porque a viagem ia ser em menos de um mês".
"Liga de novo. Deve ter acontecido alguma coisa. Eu estou achando ele muito quieto. Não estou com um bom pressentimento.
Claro, ela se lembrava de quando eu quis ir pros Estados Unidos, dois anos antes, para visitar a minha tia. Na ocasião, não importava o quanto eu pedi a autorização, ele ficou irredutível.
"Tá bom, eu vou ligar. Amanhã. A festa de despedida é em dez minutos".
"Júlia, acho que você não tá entendendo. Se essa autorização não chegar aqui, não tem despedida, não tem viagem, não tem nada. Você não pode viajar sem essa assinatura. Nós estamos indo ao Rio amanhã pra pegar o visto".
"Eu vou ligar. Mas o pessoal está chegando. Deixa eu receber os convidados que depois a gente vê isso".
Chamei alguns amigos próximos da escola e a minha família, para um jantar na minha churrascaria preferida.
Ganhei até uns presentes. Eu devia fazer festas de despedida com mais frequência. Era como ter duas festas de aniversário no mesmo ano. A minha mãe me deu um cordão com um símbolo chinês que significa felicidade. Meu irmão fez um desenho. A Bel me deu um diário.
"Júlia" a minha mãe foi até a minha mesa, quando eu tinha terminado de comer e estava conversando com os meus amigos. Ela estava com o celular na mão.
"Já sei".
"É melhor você ir falar com ele lá fora" ela disse, indicando a área externa do restaurante, que estava vazia.
"Desculpa, eu já volto", falei pra Bel antes de sair.
Disquei o número do meu pai.
"Alô?", disse a voz do outro lado
"Oi, pai, tudo bem?"
"Tudo, minha filha, e com você?"
"Tudo. Aqui está uma loucura, com os preparativos para a viagem". Comecei a preparar o terreno. "Por falar nisso... e aquela autorização? Já mandou?"
Tentei manter um tom casual, sem muita cobrança.
"Autorização?"
"É, pai. A autorização. Eu te falei que ia precisar da autorização quando te contei da viagem, lembra?"
"Pois é. Às vezes eu fico pensando se você falaria da viagem, se não dependesse da autorização".
Opa, essa conversa já não estava indo pro lugar certo. Falar a verdade, nesse caso, não ia me ajudar em nada.
"Claro que contaria, pai. Eu queria saber quando você mandou a autorização, porque o programa está cobrando... E eu viajo semana que vem. O programa antecipou a viagem, porque parece que a família quer fazer um passeio..."
"Eu não vou mandar".
"Hã? Ah, você está brincando, né?"
"Não. Eu não vou mandar, a menos que você venha aqui buscar."
"Como assim, você não vai mandar?" eu falei, com a voz totalmente mudada. "A minha viagem é em uma semana. Não tem como eu comprar uma passagem agora pra Santa Catarina, pra pegar a autorização. Você disse que estava a caminho".
"Eu disse que ia mandar. Mas decidi que não vou mais. Assim vou poder me despedir de você. Então o trato é esse. É pegar ou largar".
"Pai, isso é chantagem". Eu estava chorando abertamente agora. "Eu vou pegar o visto amanhã".
"Não adianta, não vou mudar de ideia. E sem essa autorização, nem adianta ir pegar o tal visto".
"O que foi, Júlia?" minha mãe perguntou do meu lado da linha, depois que o meu choro histérico chegou até a mesa onde os convidados estavam. O Daniel, o Lucas e a Bel vieram com ela, pra ver como eu estava.
"Ele... não vai... não vai", eu não conseguia terminar a frase. Ele falava, e o que EU entendia era: "Acabou, Júlia. Você nadou, nadou e morreu na praia. Depois de tanto esforço pra convencer a sua mãe, pra conseguir uma família anfitriã, não adiantou nada. Você vai ficar em Cabo Frio pelo resto da vida". E só de pensar nisso eu começava a chorar de novo. Até esse momento, eu não tinha percebido o quanto queria sair do país.
"Fala direito, Júlia. Não estou entendendo nada."
"Ele disse... que não vai mandar... a autorização". E voltei a chorar, desesperada.
Ela, então, pegou o telefone da minha mão. Mas só ouviu Tu, Tu, Tu... Isso a deixou mais nervosa ainda. Tanto que mal conseguia discar o número.
"Escuta aqui, Mauro. Se desligar eu vou ligar de novo, e se desligar de novo, eu ligo pro juiz", ela ameaçou num tom raivoso que eu nunca havia escutado sair de sua boca antes. "Você vai mandar a autorização para a minha filha viajar.
Ele disse alguma coisa no outro lado da linha, e ela respondeu.
"Tenho direito, sim. Eu paguei essa viagem sozinha. Se você não mandar a autorização até quarta-feira, eu te processo pelas pensões atrasadas. E faço você me ressarcir das despesas. E pagar a despesa da psicóloga, que é onde ela vai parar por sua culpa".
E o meu padrasto, do meu lado, gritando "Eu pego, eu pego ele!". A cena toda seria até meio engraçada, se eu não estivesse chorando tanto.
O meu pai disse mais alguma coisa, e pude adivinhar mais ou menos o que foi pela resposta da minha mãe.
"Chantagem é o que VOCÊ está fazendo! Você está adorando ficar no controle, né? Mas olha só. A Júlia pode até tentar ir ano que vem de novo, e vai ser maior de idade, não vai mais precisar da sua autorização. Mas tenho certeza que não vai ficar nada satisfeita por você ter tentado impedir que ela fosse. Talvez nunca te perdoe". Outra pausa dramática. "Não se esqueça. Você tem até quarta-feira". E desligou o telefone tremendo.
"Pronto, Júlia". ela disse tentando recuperar a dignidade. "Agora você tem que ligar pra ele na terça, pra ver se ele mandou mesmo".
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