Dramalhama
7 Capítulo 5
Comecei a estudar sem parar. Minha mãe sempre dizia que eu tinha ideia fixa. E agora a filha dela tinha uma nova obsessão: tirar notas aceitáveis para o intercâmbio. Eu precisava ter uma média impecável, sem nenhuma nota vermelha, para poder viajar. Precisaria de cartas de recomendação de dois professores, inclusive de Inglês, e do meu histórico escolar.
Eu passava até os intervalos na biblioteca. Em um momento da minha vida, durante a quarta e quinta séries inteiras praticamente, eu passava os recreios na biblioteca, ou retirava um livro para ler enquanto os outros jogavam queimado. No segundo ano do Ensino Médio, eu suspeitava que já tivesse lido cada um dos volumes naquelas prateleiras. Agora, só usava a mesa da sala para estudar mesmo.
Mas os meses passavam, e nada do Across ligar. Nada de família.
E assim voltei à rotina. Aulas de manhã e à tarde. Além disso, tinha aula particular de Física, Química e Matemática, para manter a média aceitável. Conferir os e-mails na sala de Informática da escola. A vida continua.
Estávamos em junho. Última semana de aulas. Intervalo das dez horas. Eu e a Bel estávamos sentadas na mesa de tijolos próxima ao campinho.
"Alguma notícia do intercâmbio?", Bel perguntou, entre um gole de refrigerante e outro. Era a mesma pergunta que eu fazia para a minha mãe, diariamente. Até ela se encher o saco de mim, e falar que, quando tivesse alguma notícia, avisava.
Suspirei
"Não. Estou começando a perder as esperanças. Quer dizer, se fosse pra eu ir este ano, já não teria alguma novidade?"
"Não necessariamente. Esqueceu que, em Harry Potter, as aulas começam em setembro?"
"Tá, mas eu não vou pra Hogwarts." retruquei.
"Mas vai pro Hemisfério Norte, loura. As férias de julho são as mais longas."
"Mesmo assim. Teria que ver um monte de coisas."
Ouvi o ringtone típico do meu celular. Depois de cinco minutos tentando caçá-lo na mochila, abri o flip para olhar no identificador de chamadas. Estava escrito Maria Luiza no visor. Minha mãe nunca me ligava na escola.
"Você está na aula?", minha mãe perguntou.
"Não. O sinal acabou de tocar. Eu vou me atrasar pra prova. Não posso falar agora."
"Não importa."
Ferrou. Alguém morreu, com certeza. Para a minha mãe dizer não importa, depois que eu digo que estou atrasada, só pode ter acontecido uma tragédia. A menos que...
"Acabei de falar com o Across." disse ela, do outro lado da linha.
Fez-se um silêncio sepulcral.
"Eu consegui?" perguntei, com o coração na boca.
"Conseguiiiiiu! Se quiser, ainda pode desistir."
"De jeito nenhum!" respondi, com vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. "Ok, até daqui a pouco. Tchau."
Fechei o flip do telefone, ainda em choque.
"'É o que eu estou pensando?" perguntou Bel.
"Parece que eu não vou...
"O quê?"
"Pra aula de Física. Consegui uma família. Ai, eu estou tão feliz que dá vontade de batucar na mesa!"
"Nossinhora, Meu Deus" ela disse atropelando as palavras puxando o sotaque de Minas. "Que máximo"
Meu celular bipou, anunciando que a bateria estava acabando. Foi só eu abrir para ele desligar de vez. Agora, não tinha pressa de ir para a aula. Olhei para o laguinho. Quando eu entrei na escola, com cinco anos, ele tinha vários peixinhos. Agora, eles provavelmente desapareceram, intoxicados com biscoitos fandangos jogados ao longo dos anos. Olhei para o banquinho estilo banco de praça perto da quadra, onde a turma tinha tirado uma foto em preto-e-branco para a aula de Artes um ano atrás. A caminho da sala de Física, passei pelo laboratório. Cada canto daquela escola tinha um pedaço da minha história, por mais que eu repetisse, como um mantra: odeio esse lugar, odeio esse lugar. E agora, eu ia para um lugar totalmente novo. Isso me deixava ansiosa e apavorada, ao mesmo tempo.
"Lembra quando o Vicente fingiu que estava recebendo um espírito na aula de laboratório, e o professor acreditou?" Bel perguntou, tomada pela nostalgia.
"Claro, né? O Renato surtou, mesmo com toda a sala morrendo de rir. Nós atormentamos o professor, coitado. E aquela excursão que vocês foram pra serra, porque ele disse pra turma que havia atividades alienígenas lá?"
"Você perdeu, Julia. Foi muito massa!"
"Como se eu fosse gastar dinheiro pra procurar ETs no meio do mato. E dormir em uma barraca! Com insetos!" falei, exasperada. Eu detestava insetos, vivos ou mortos.
"Os ETS foram só uma desculpa para a excursão."
"Não curto lama nem picada de mosquito..."
"Deixa de ser fresca! Cara, e se você fosse parar em uma roça nos Estados Unidos? Eu ia rir tanto de você..."
Paramos em frente à sala de Física.
"Então, quando é a festa de despedida?" Bel perguntou, por fim.
"Que tal você fazer uma festa pra variar? Ainda não me recuperei da última."
"Quando eu sair desta cidade, você vai ganhar um convite para a festa do século, pode esperar."
"Peraí, você não vai pra sala não?" Perguntei.
Ela simplesmente deu de ombros e sorriu.
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