Dramalhama

6 Capítulo 4


Ensaiei várias vezes o discurso. "Mãe, eu estava pensando sobre o intercâmbio, já está na hora". Mas a cada vez que eu abria a boca pra tocar no assunto, a minha mãe tinha uma coisa mais urgente para fazer. Eu também não queria que tivesse ninguém por perto. O assunto era delicado. Qualquer comentário negativo, por menor que fosse, podia colocar tudo a perder.

Eu vestia a camisa do uniforme da escola, calça jeans e tênis keds. A cara estava limpa, sem maquiagem, a não ser por um leve toque de batom. As únicas joias eram um par de brincos pequenos de pérolas e um anel solitário, presente de aniversário de 15 anos. Meu cabelo estava solto, agora, mas ainda tinha resquícios de rosa, do spray que não saiu direito desde a festa, há quase dois meses. Sim, já fazia um tempo que eu estava tentando falar com ela.

Meus olhos ardiam com o esforço de não tirar uma soneca depois de comer. Minha mãe tomava café e eu tentava estudar para a prova de Química do dia seguinte. Mas era inútil. Minha cabeça não parava de pensar em outra coisa. Pousei o lápis dentro do livro, antes de fechá-lo.Eu tinha esperado o almoço acabar. Uma hora era o meu irmão, que precisava de ajuda com o dever da escola. Depois, as empregadas chegavam para entregar a lista de compras. Agora ela discutia com o meu pai.

"Não é possível, Mauro. A pensão já está atrasada, e agora você quer pagar menos? É a escola da sua filha. O que você está pagando não cobre nem a mensalidade!" ela estava praticamente gritando ao telefone.

Pensei se seria a hora certa de abordar o assunto intercâmbio. Não tinha ninguém em volta. Depois do que pareciam horas, ela finalmente desligou o celular. Pensei se seria a hora certa de abordar o assunto intercâmbio. Não tinha mais ninguém por perto. Tanto celular quanto telefone fixo estavam em silêncio, pra variar. Mas era questão de tempo, até alguém aparecer com algum problema urgente pra ela resolver. Era agora ou nunca.

"Andei pensando sobre o intercâmbio, mãe. Eu estava conversando com o Tomás, ele foi pros Estados Unidos, sabia?"

"Tomás? Que Tomás?"

"Ah, ele é filho da diretora da escola, amigo da Fabiana, e estava no meu aniversário. A gente conversou sobre intercâmbio, e eu andei pensando nisso."

"Na conversa com o Tomás? — perguntou a minha mãe, tentando jogar verde. Eu juro que não dá para falar de garotos com ela, nem mesmo os garotos em quem eu não estou interessada, que ela fica toda serelepe, com esperanças pela minha vida amorosa. Ou talvez quisesse me distrair do assunto em questão.

"No, mother. To the United States. ", I said, impatiently. Why wouldn't she focus?

"Não, mãe. No intercâmbio. Eu quero mesmo fazer intercâmbio. Este ano vai ser a última chance de eu ir para o programa de High School."

"Eu não vou te mandar pro México..."

"Não, mãe. Pros Estados Unidos." Por que ela não prestava atenção?

Ela ficou quieta, com a xícara de café a meio caminho da boca. Eu sabia que tinha a atenção dela agora. Não era como se eu estivesse inventando moda. O intercâmbio não era uma ideia nova para nós. Minha mãe tinha feito, com 17 anos, e eu sabia de cor cada uma das histórias que ela sempre contava, como a vez em que a estudante da Colômbia teve um ataque de sonambulismo. Também tinha memorizado o que estava escrito em cada um dos folhetos do Across, o programa de intercâmbio que eu vinha sondando desde os 12 anos.

"Desde quando? O que te fez mudar de ideia assim? Sempre que toca no assunto, você insiste em ir pra Espanha ou pro México..."

Respirei fundo e decidi dizer a verdade

"Porque tipo, se eu for pro México, só vou ficar mais fluente no espanhol, e se eu for para os Estados Unidos aprendo inglês e ainda posso praticar espanhol com os mexicanos lá", continuei, me lembrando do que a Sueli havia me falado.

Ela ficou me olhando, sem dizer nada. Pensei em todas as chances que eu havia perdido, por falta de auto-confiança. Pensei no meu fracasso com o Tomás no meu aniversário.

"E você disse que, se fosse para os Estados Unidos, eu podia." Então abri aquele sorriso de ouro, que geralmente reservo para quando fico indecisa entre duas blusinhas lindas e espero que ela me deixe comprar as duas.

"Você estava falando a verdade, né?" perguntei, inocentemente.

O que eu queria muito, muito mesmo, era sair da minha escola, onde tinha estudado a vida inteira e, de quebra, adiar o vestibular por mais um ano. Quer dizer, eu nem sei o que quero ser "quando crescer"! Cheguei a um ponto em que não se sabe nem para que se está estudando. Interesse zero por qualquer coisa.

"Eu não sei, Júlia... Você acha que é tão fácil. Eu sofri lá. Fui parar em uma família ruim, tive que trocar de casa. O medo que eu passei. As saudades de casa. O frio. Você sabe que eles não têm empregada. Você ia ter que arrumar o quarto, lavar os pratos. Aqui você não faz nada disso. Você e o Lucas foram criados de uma forma diferente."

"Mãe, você vai mesmo usar contra mim o fato de que nunca precisei lavar um prato? Você mesma diz que você e o Daniel trabalham pra dar uma condição melhor do que a que você teve pra mim e pro Lucas. Me diz, pra que eu vou lavar os pratos se vocês pagam alguém pra isso?" continuei. "E tem mais. No fim de semana, eu sempre te ajudo a tirar a mesa do café da manhã." falei, levantando a voz levemente. Depois abaixei, decidida a agir com maturidade.

"E salão de beleza? Salão lá é uma fortuna. Você não ia poder fazer as unhas toda semana."

Olhei para as minhas próprias unhas roídas curtas, cobertas apenas com uma base incolor. Eu não era exatamente dependente de salão de beleza. Mostrei pra ela.

"Acho que não vou sobreviver sem fazer unha", comentei com ironia.

Então apelei, quando vi que ela estava prestes a desistir.

"Eu não estou te entendendo. Você sempre disse que eu tinha que falar inglês, reclamava quando eu dizia que só queria saber de espanhol. E agora, que eu abro a cabeça para essa possibilidade, você coloca um monte de obstáculos. O intercâmbio não é pra me ajudar a amadurecer? Ou você ficava falando que eu podia ir, se fosse pros Estados Unidos, só porque você achava que eu nunca aceitaria?"

"É um investimento enorme. Você sabe quanto custa o intercâmbio? Mais de 12 mil reais. Eu não vou pagar isso pra você voltar em uma semana, com saudades de casa. E isso fora as despesas lá. O dólar está custando quase 4 reais!"

"Eu sei, mãe. Prometo que não gasto um centavo além do necessário"

Ela gargalhou com essa. Eu não era o modelo de economia.

"Eu sei que vai ser difícil me controlar entre aparelhos eletrônicos e chicletes diferentes dos que eu encontro no Brasil. Nem roupa nova eu compro se você não deixar."

E, por fim, o golpe de misericórdia.

"Essa é a minha última chance. Vou fazer dezoito anos, e aí nenhum programa vai me aceitar mais. Você prometeu!

Achei que dessa vez ia terminar como as outras, se não fosse por esse detalhe. De fato, para o programa de High School, a idade máxima é dezoito anos.

Acho que ela acabou cedendo por perceber que cada um dos argumentos que apresentei era válido. Quer dizer, decidi fazer um acordo e ir para um país que não era a minha primeira opção. Não sei se foi o fato de eu finalmente estar disposta a aprender inglês, ou se foi porque eu ainda não estava pronta para o vestibular. Talvez tenham sido todos esses fatores

Só sei que quando ela finalmente deu o braço a torcer e pegou o telefone para discar o número do Across, tentei não cantar vitória. Do outro lado do telefone, a funcionária do Across dizia que a maioria das pessoas se candidata com, pelo menos, um ano de antecedência, não três meses. E nós já estávamos praticamente em junho

Tudo estava contra mim. Mas pelo menos, eu estava inscrita.