Dramalhama
5 Capítulo 3
Abri os olhos e me olhei no espelho do banheiro. Eu ainda estava me acostumando com a minha aparência. Tinha acabado de tirar o aparelho. E ainda mais agora, com um novo corte de cabelo e a transformação que a Bel insistiu em fazer. O meu cabelo, que normalmente era loiro com reflexos acobreados, agora estava rosa, preso em um rabo de cavalo no alto da cabeça.
Me afastei, para olhar a estranha por inteiro. Ela usava uma blusa rosa, transparente, abotoada. Sobre ela, um top peludo rosa. Saia jeans com respingos de tinta. Meia arrastão roxa. Botas de tecido jeans, na altura do joelho. Parecia uma boneca da Xuxa saída diretamente do filme Laranja Mecânica.
"Eu sou um gênio!" disse uma voz atrás de mim. A voz pertencia a um corpo que tinha o cabelo castanho preso em duas marias-chiquinhas, estilo Lolita, se a Lolita usasse saia verde-neón de tule e sandálias de plataforma. E ficasse totalmente confortável nesse visual.
"Modéstia é fundamental", resmunguei.
"Eu sempre te disse que assim que você me deixasse fazer uma maquiagem em você, ia arrasar, Júlia. Está perfeito" disse ela. "O pessoal da sala nem vai te reconhecer."
É muito legal quando a sua melhor amiga junta as frases "Está perfeito" com "Ninguém vai te reconhecer". Isso só pode significar duas coisas. Ou você estava jeitosinha, e todos vão se assustar com a sua aparência, ou você está linda, o que significa que normalmente não é. Eu não conseguia me decidir qual das duas eu estava, mas numa coisa a Bel estava certa: aquela pessoa me olhando do outro lado do espelho do banheiro era uma estranha completa.
"Vamos! Os convidados já devem estar chegando."
Meia hora depois, estou andando pelo quintal da casa da minha tia, o local oferecido para o evento. E pensando que é a última vez que comemoro os meus 17 anos com uma festa desse tamanho. Só tive a ideia por pilha dos meus colegas que, pelo menos, compareceram a caráter. E estavam se divertindo, ao contrário de mim, andando de um lado pro outro, feito uma galinha com o pescoço cortado, verificando e atendendo às necessidades dos 80 convidados e mais alguns penetras. Exatamente, penetras. De certa forma, a presença de pessoas que não foram convidadas é um bom sinal, quer dizer que todo mundo quer mesmo ir à sua festa.
A pseudo festa clubber estava lotada. Digo "pseudo" por dois motivos. Um: fora a tentativa frustrada de ir a uma matinê aos 15 anos de idade onde perdi o BV, eu nunca tinha estado em uma boate. Dois, eu detestava bate-estaca. Em vez disso, o DJ tocava todo tipo de música, desde axé a funk. Deixei aberto para os convidados escolherem, pois eu não entendia muito disso. O tipo de música de que eu gostava não ficaria legal numa pista de dança em Cabo Frio.
Mas o visual estava legal. Pelo quintal, havia tochas de iluminação. No meio do quintal, havia uma mini-tenda, onde ficava o bolo encomendado especialmente para a ocasião, além dos docinhos com cores berrantes. Na entrada, minha tia pintava os cabelos dos convidados que quisessem, com spray, e os próprios convidados trajavam roupas inusitadas, óculos coloridos. Alguém pintara o cabelo do Lucas, meu irmão mais novo, de verde, em um moicano improvisado de gel. Ri ao ver a cena. Muito fofinho.
Lucas é o meu irmão por parte de mãe. Daniel, meu padrasto, se casou com ela quando eu tinha 5 anos, e ela engravidou um ano depois. Só digo uma coisa. Muito cuidado com o que deseja. Tá bom, eu estou exagerando. O Lucas não é um dos piores, em termos de irmãos mais novos de 10 anos.
Eu também gosto do Daniel. Ele faz a minha mãe feliz, e isso que importa. A maioria das pessoas não gosta quando os pais se separam. Acho que perdi essa fase, já que era pequena demais pra me lembrar de quando meus pais se divorciaram, ou pra entender de fato o que estava acontecendo. Já ouvi histórias muito piores de quando os pais não se dão bem, ou ficam voltando e separando o tempo todo. Acho que pode-se dizer que eu estava satisfeita com a minha situação.
Quer dizer, fora o fato de, aos 17 anos, nunca ter tido um namorado ou um crush decente, de não ser exatamente popular na minha escola (exceto quando faço festas clubber e convido o ensino médio da minha escola inteiro, ou arrumo briga com professores) e estar em recuperação paralela em três matérias, às vésperas do vestibular.
De modo que, ali estava eu, perambulando e tirando fotos com todos, mas olhando pra tudo de longe. O cenário estava o máximo, com luzes piscantes e todos os mínimos detalhes. Mas esse era o problema. Ninguém estava dançando, porque a pista estava clara demais. Então, eu tive uma ideia. Segui o fio até a tomada e puzei, depois de verificar que não desligaria mais alguma coisa. No escuro, o pessoal começou a chegar mais perto e a dançar, inclusive a Fabiana.
"Nossa, que meias legais", falei, assim que a vi.
"Oi. A festa está linda. O que você fez com o cabelo?"
"O que fizeram com o meu cabelo, você quer dizer. A Bel me prometeu que isso sai. " eu disse.
"Ouvi meu nome"A Bel falou, e eu me virei pra ver que ela estava bem atrás de mim. "Meu nome é caro. Não diga em vão."
"Fabi, quem é aquele cara perto da tocha?" perguntei
Eu podia jurar que o conhecia. Ele usava uma camisa de botão, tinha cabelo liso, castanho escuro, ... Eu sabia que já tinha visto aquele rosto em algum lugar. Como se sentisse que estávamos falando dele, ele deu um tchauzinho pra Fabiana.
"Uau, ele é da nossa escola?" Bel perguntou, usando a voz mais rouca que conseguia. Mas algo no olhar da Fabiana fez com que mudasse de tática. Como se as duas tivessem algum segredo.
"Espero que não tenha problema, Júlia. Aquele é o amigo que eu disse que traria. Ele estava meio pra baixo", ela cochichou.
"Claro, não tem problema não. Mas ele parece familiar", terminei de falar bem quando ele se aproximou de nós.
"Oi Fabs!" ele disse, dando um abraço nela.
"Tomás, essa é a Julia."
"Gostei do seu cabelo. Tá parecendo a Gwen Stefani!" disse ele, me fazendo ficar vermelha.
"Eh, ahn, obrigada" consegui dizer.
"Então, eu queria saber quem é a aniversariante", ele disse, baixando a voz para um sussurro. "Você acha que ela se importaria de eu vir de penetra?" perguntou, com um sorriso conspiratório.
"Isso vai depender. Você trouxe presente?" sorri, apesar da timidez.
"Meu cachorro comeu".
Não era tão difícil falar com o penetra misterioso.
"Eu já te vi antes". falei, direta
"Eu estudei no Vértice, uns três anos atrás. Já me formei, graças a Deus. E você é... "
"Julia, a aniversariante". completei.
Tomás sorriu. Ele tinha um sorriso fofo. Então eu me toquei de onde o conhecia.
"Voc6e é parente da Sueli Relvas?"
"Que formalidade... Sim, ela é minha parente. Minha mãe"
"Então você é o filho que foi fazer intercâmbio? O cara da foto na sala dela?"
"O próprio. Não me diga que ela usou como exemplo do filho rebelde recuperado de novo. Haja paciência", ele disse revirando os olhos.
"Só pra casos perdidos como eu. A Sueli estava tentando me convencr a fazer o mesmo..."
Para minha surpresa, ele sorriu com empolgação.
"Bom, nesse caso, eu recomendo totalmente. É uma experiência maravilhosa! Quer dizer, tem a coisa toda da família anfitria, que é como uma loteria. Pode dar muito certo ou muito errado. Mas a experiência é incrível mesmo quando é ruim, tá ligada?"
"Sério? E eu pensando que ela queria me mandar logo pra outro país."
"Isso era pra ser castigo? Porque deve ser o melhor castigo do mundo."
"Ela não me deu nenhuma advertência. Mas pediu pra eu pelo menos conversar com a minha mãe. E foi tipo um lance de código de honra. Que eu não tenho que provar que fiz, porque ela confia em mim."
"E você já falou?"
"Ainda não." admiti. "Eu vou falar, mas acho que em uma festa pela qual ela acabou de pagar não me parece o momento nem o lugar certo. Ainda mais com essa música de fundo".
"O que você fez, se não se importa de me contar? Eu acabei de te conhecer, mas você não me parece ser do tipo problemático."
"Eu tenho meus momentos...", resmunguei, pensando naquela manhã.
"Aqui," ele disse, olhando nos meus olhos. Os olhos deles não eram azuis nem verdes, nada chamativo. Mas eram bem penetrantes. "Me dá o seu número? Eu queria saber o que você quis dizer com essa história. E te conhecer melhor."
Dava pra sentir o olhar das meninas em cima da gente, e eu sabia que a Bel estava praticamente pulando de alegria. Eu nunca comentava sobre os garotos de quem eu estava a fim, pelo menos não na escola.
Meu coração acelerou. Eu não estava apaixonada nem nada, mas esse cara era muito lindo. Ele não era alto. Devia ter uns 15 ou 20 centímetros a mais do que eu. E o sorriso dele era a coisa mais linda. Ele estava pedindo o meu número? Qual era a do universo?
Mas será que era aquilo mesmo? Pensei na Fabiana por um momento, e no que ela havia me dito sobre ele estar pra baixo. Será que era por causa de alguma garota? Pensei em mim mesma, e em como eu nunca tinha tido chance se tivesse que me comparar com outras meninas da minha turma. Não que eu tentasse. mas elas pareciam tão adultas, e saíam o tempo todo, e a minha ideia de sábado a noite era atravessar a rua pra ir ao cinema, ou talvez ir comer fora com meus pais. E eu não era super magra. nem gorda. E também não era fã de ir a praia, ou seja, era bem pálida. Mesmo que eu tomasse sol, tinha mais chance de ficar queimada do que bronzeada, e isso tirava um pouco a graça do programa.
"Foi mal. Não tem problema se você não quiser. Não quero insistir."
"Não, quer dizer, tá, quer dizer, eu não me importo, é que..." gaguejei.
Naquele momento, a minha mãe me chamou pra tirar foto com os meus tios, e eu tive que dar uma desculpa pra sair.
"Me desculpa, Tomás. Eu já volto. Com o número." falei sorrindo, e saí correndo pra atender os convidados.
Acabei demorando mais do que pensava. Depois de falar com os meus tios, tive que arrumar refrigerante pros meus convidados da escola, e a minha tia Flávia, que era dona da casa, me chamou pra perguntar quando podia cantar parabéns, porque estava ficando tarde e os vizinhos estavam reclamando do barulho.
Ao voltar, vi que ele estava super interessado em uma conversa com uma garota da minha escola, de uma série acima da minha. Os dois sorriam, e ele tocou em uma mecha do seu cabelo. Me afastei, mas não antes de presenciar os dois no maior amasso.
Que decepção.
"Ai ai, pelo visto eles reataram de novo." Fabiana said to Bel. "Resta saber quanto tempo vai durar."
"Você não parece muito feliz com isso," Bel comentou, intrigada.
"É porque eu não estou. Eu tô de saco cheio. Quer dizer, a namorada dele é gente fina e tudo comigo, mas ele é meu amigo, e eu tô meio sem paciência de ver os dois feito gato e rato, ela mandando e ele atendendo os caprichos, e depois ele fica choramingando no meu ombro. Me diz se isso não é chato."
"E você gosta dele? Tipo, você está a fim dele? Porque se eu soubesse..."
"Ai, não, deus me livre! Eu não gosto dele desse jeito. Ele é como se fosse meu irmão. Eu só tinha esperanças de que ele conhecesse uma pessoa diferente, e não tão chata. Ai eu pensei na Julia..."
"Mandou bem. Ah, você voltou!" Bel se virou pra mim.
"Do que vocês estão falando?", perguntei.
"Nada demais. E você e aquele garoto? Ele é fofo."
"A namorada dele também acha." falei, tentando não deixar a decepção transparecer na voz. E falhando.
"Pelo menos ele pareceu interessado", A fabiana deu de ombros.
"E já estava na hora de você parar de fazer papel de mímica, pra variar. Já passou da hora de você se interessar por uns garotos." Bel acrescentou.
"Eu não sou gay não, gente. Só não acho os garotos da escola interessantes."
"Você me entendeu. Você nem fala com os garotos da nossa turma. Eles te acham meio metida, quando não infantil."
"Eu também não sou louca por eles!" respondi, olhando pro pessoal sentado na mesa. "Isso não quer dizer que eu não converse com outros caras que não sejam da nossa escola. Eu já beijei na boca, sabe?"
"Tá bom. ele era "de outra cidade"?" perguntou, fazendo aspas com os dedos
"E agora mesmo, eu estava conversando com o amigo da Fabiana, o Tomás. E olha como terminou. "
"É, eu só vi vocês conversarem." Bel disse, arqueando as sobrancelhas sugestivamente. "Alguém do sexo oposto, que não era um ator de televisão. E vocês dois estavam conversando como pessoas normais. Já é um começo! Eu te disse que a minha transformação ia causar!
E as duas saíram pra pegar refrigerante.
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