Dramalhama
4 Capítulo 2
Quando saí da sala da diretora, faltavam 5 minutos pro intervalo.
O colégio Vértice não tinha uma cantina que desse vazão ao número de alunos. Era um quartinho, e as responsáveis vendiam os salgados e refrigerantes por uma janelinha. Havia várias mesas redondas ao redor, e uma enorme mesa de piquenique. Mesmo com aproximadamente 300 alunos no total, o nosso intervalo durava 30 minutos, o que mal dava tempo para entrar na fila, comprar alguma coisa e conseguir algum lugar para sentar.
Isso significava que, em geral, uma pessoa se sentava e guardava lugar enquanto as outras entravam na fila. Eu estava proibida de comer salgados e refri, para não engordar, e em todo caso, já tinha comido um sanduíche natural. Achar um lugar não foi difícil.
"E aí, se ferrou muito? Será que a sua mãe vai cancelar a festa hoje?"
"Nada. A Sueli nem me deu suspensão. Mas ela quer que eu faça uma coisa em troca."
"Você é maluca. Perdeu a noção do perigo? Logo você, a certinha, arrumando briga com o professor?"
"Ele me irritou." falei, olhando feio para as costas do professor, que passou pela gente e foi conversar com a Sueli.
"Ele não te deu um ponto porque você não respondeu a pergunta dele a tempo."
"Você esqueceu que ele insinuou que eu colei na prova dele, só porque eu tirei nota boa?"
"Mas você colou?"
"Ele não tem provas!"
"Do que vocês estão falando?" perguntou a Fabiana, sentando-se no banco de frente pra nós.
"Nada, a Júlia decidiu enlouquecer e arrumar briga com o professor de Física."
"Eu ouvi falar que você tacou o diário de classe dele pela janela."
"Meu Deus!"
"Espero que você não fique de castigo. Sério, eu já montei o look perfeito pra hoje à noite, e está muito em cima da hora." Bel reclamou. "E eu demorei um século desenhando!"
"O que você quer dizer com, levou um século pra desenhar? Você que fez?"
"É."
"Nossa! Você faz um pra mim? Quer dizer, se a Júlia for suspensa, teremos mais tempo."
"Ei, gente, ainda estou aqui, tá! Eu não fui suspensa. E também não atirei o diário de classe dele pela janela. Só me exaltei um pouco. mas sim, a festa ainda está em cima."
"Nesse caso, eu posso levar alguém?" Fabiana perguntou, enquanto esvaziava o bolso e jogava um pedaço de papel amassado na mesa, com várias moedinhas e uma nota de dez reais. O papel caiu no chão e a Bel se abaixou pra apanhá-lo.
"Pode sim", respondi.
"O que é isso, Fabi?" Bel perguntou, alisando o papel amassado. Parecia um flier. "Olha, Julia. Esse não é o seu namoradinho da novela? Ricardo Kahler?"
"Ahn? Cadê? Deixa eu ver."
Mas a foto do panfleto não fazia juz à beleza do Ricardo. Pra começar, estava e preto e branco e não dava pra ver os olhos azuis piscina dele. O bronzeado fofo. Os fios castanho escuros no que parecia ser cabelo preto. Tudo o que eu tinha visto quando o encontrei ao vivo na livraria e ele tirou foto comigo. Também não dava para ver direito, pela foto, o sorriso branco dele e a barba por fazer. Estava tudo pálido.
"Esse Ricardo e um grupo de outros atores estão aqui na escola. Passaram por mim ainda agora e deixaram esse papel." ela apontou para o laguinho próximo à entrada. "Acho que vai ter uma peça de teatro hoje, ou algo assim. Mas eu não sabia que você gostava tanto dele assim. Achei meio gordo, né não?"
"Não é nada!" respondi
"Ele tem tipo uns 25 anos" Fabiana insistiu. "Eu não sabia que você gostava de caras mais velhos."
"Gostar? A Júlia é apaixonada por ele. Ela tem praticamente um altar com as coisas dele, e um álbum com fotos dele."
"Bel, deixa de ser exagerada. Eu não chamaria meu quadro de fotos um altar. Eu tenho umas três fotos com ele, da livraria, quando eu peguei autógrafo com ele, e quando ele veio pra Cabo Frio no Cabo Folia, pro camarote Vip, e foi no meu camarote. Fabiana vai acabar pensando que eu guardo a escova de dentes dele, ou algo assim." reclamei. "E ele tem 20 anos!"
"Nesse caso, eu iria atrás. Acho que ainda estão aí." Fabiana deu de ombros, dando uma risadinha.
"Essa peça parece legal. Bel, você vai comigo? Você está me devendo por ter me feito assistir "A bruxa de Blair".
"Ainda isso! Isso foi há mais de 2 anos e você ainda joga na minha cara! Além do que, a peça é hoje à noite... Acho que você já tinha feito planos."
"Ahn, vocês duas me ouviram?" a Fabiana perguntou. "Eles estão aqui. Na escola!"
"Tá, até parece. Quem foi que te mandou me falar isso?" perguntei, olhando em volta.
"Nem um pouco paranóica, você! Eu juro. Pode ir ver, se não acredita." a Fabiana respondeu.
"A culpa é de vocês! Vocês ficam me zoando por acreditar nas baboseiras que inventam, e abalam a minha confiança. Lembram da vez que vocês inventaram que gostavam de Pokemon, só pra ver se eu gostava também, só pra rir de mim?
"Não é minha culpa se você acredita em tudo, Julia." Bel said "Mas sinceramente, eu acho que a Fabiana não está de zoeira."
"Bom, vocês sabem o que acontece com quem conta mentiras. Ninguém acredita quando é verdade Olha só a história do pedro e o lobo."
"Tá bom, Júlia. Eu duvido que o Ricardo Kahler gordelícia vá papar a Fabiana toda."
"Seria muita sorte a dela."
"Vai logo!"
Parecia que todos em volta olhavam para mim, meio rindo, meio esperando a minha reação. Eu tinha motivos para duvidar. Fiquei em conflito. Se eu fosse atrás e não fosse verdade, iam me zoar pelo resto da vida. Se fosse e eu não acreditasse, eu nunca me perdoaria.
Finalmente, decidi levantar, pegando o panfleto. Mas nem deu tempo de sair da área coberta da cantina, e comecei a ouvir gritos histéricos, me convencendo de que a Fabiana poderia não estar me zoando, para variar. A segunda pista foi o grupo de garotos bem mais velhos que a gente, andando na minha direção, seguidos por uma procissão de meninas da primeira série ao ensino médio. Eu falei que eles vinham na nossa direção?
Voltei correndo para a mesa, e sentei, quase explodindo de vergonha. O Ricardo Kahler estava na minha escola. O Ricardo Kahler. Em carne e osso.
"Ei, eu me lembro de você! Tudo bem?"
Juntou tudo. Minha inabilidade de falar com garotos em geral, e a minha queda por ele como celebridade. Eu abria e fechava a boca, sem emitir um som. Do meu lado, a Fabiana ria sem parar da minha reação. Tudo isso enquanto os atores falavam sem parar da peça que apresentariam aquela noite, fingindo não perceber que estavam cercados de gente doida.
"A Júlia não vai poder ir na sua peça hoje. É o aniversário dela".
Pisquei os olhos ao ouvir meu nome.
― É mesmo? Parabéns!
E nisso o próprio Ricardo me deu um beijo. No rosto. Eu nem explodi, nem nada. Mas cheguei assustadoramente perto.
― Você está bem? ― um dos atores perguntou, ao ver o meu estado.
Isso fez a Fabiana rir mais alto ainda.
― Bom, obrigado. Tchau, gente. ― eles disseram, finalmente, saindo, bem na hora que o sinal tocou. ― E parabéns de novo, Júlia.
Voltei a me sentar, completamente abobada.
"I'd scratch journalist from the list of possible careers. Can you imagine interviewing him? It would be hysterical" Fabiana said, catching her breath.
"Eita, Júlia. Custava falar oi? Ele falou contigo e tudo."
"Eu... é que, cara! Ele estava aqui. Como eu sou idiota!"
"Eu riscaria "jornalista" da lista de possíveis profissões. Imagina você entrevistando ele. Seria hilário", falou a Fabiana, recuperando o fôlego.
O segundo sinal tocou.
"Vamos logo, senão vamos sentar nos piores lugares. E eu quero me sentar perto do Felipe Barros. Eu não estudei pra prova, e ele sempre me deixa colar." disse a Bel, pegando a mochila e o fichário do Leonardo di Caprio. Eu bem que gostaria de saber como ela reagiria se ele aparecesse na sua frente.
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