Dracologia

11 P.O.V Harris


P.O.V Harris

Depois de conhecer meu colega de quarto, um cara bem mais velho, 3 ou 2 anos se não me engano (e me enganar é algo que acontece sempre), eu decidi arrumar minhas roupas nas cômodas, e percebi que Jaden tinha apenas uma mochila e notei que ele tinha um cheiro de suor quando burramente aceitei aquele cigarro vagabundo sem filtro mais poluente do que locomotiva do século XIX.

–Hey Jaden! O lado direito é meu e o esquerdo é seu, ok?

–Pode ficar com tudo, Shrek. — e saiu pulando a janela.

–Sabe, tem uma porta bem aqui! — eu gritei, mas ele não ouviu. E percebi que o apelido de Shrek pegou, mas não há nada que eu possa fazer a respeito. No fundo, acho que até gostei do ruivo babacão. E mesmo se ele não gostasse de mim, teria de aprender a gostar pois estávamos no mesmo curso e possivelmente na mesma sala.

Eu continuei arrumando minhas coisas, e tudo ficou pronto em menos de 10 minutos. Encarando o armário grande metade vazio, eu me senti solitário. Resolvi pensar que o armário estava meio cheio, e que ficaria amigo de Jaden e quem sabe, dar umas roupas. Não sei se ele trouxera apenas uma mochila pois não pretendia ficar, ou porque nunca achava o jeans skinny perfeito como os das meninas, mas eu decidi que nunca perguntaria sobre isso com a palavra "skninny".

Eu escutei uma gritaria lá embaixo e me encolhi. Era aquela brincadeira sem graça de trote, e fiquei com medo do que falariam e pintariam em mim. Alguns calouros viam isso como boas-vindas, eu via como a oportunidade perfeita do apelido "Shrek" se espalhar. Pensando bem, o ruivo não foi nada simpático, talvez um inimigo na vida seja saudável, várias pesquisas indicam isso, certo?

–Jaden?

Eu havia escutado alguém bater na porta, mas não tinha certeza se era na minha porta. O som parecia meio abafado, como se estivesse na porta ao lado ou... Dentro do armário que eu havia acabado de fechar.

–Jaden... — eu colei o ouvido na porta do quarto, logo abaixo do olho mágico e tentei escutar se batiam novamente, mas nada aconteceu. Mas 5 minutos depois, o mesmo barulho.

–Certo! — eu disse alto — se isso for um trote, pegadinha, ou algo assim, podem aparecer!

Depois percebi que definitivamente vinha de dentro do armário. Qualquer pessoa que tivesse a habilidade de se transformar em dragão e queimar tudo, não teria medo ao abrir uma maldita porta, mas eu estava fodido de medo, meu colega de quarto já era assustador o suficiente. Juntei coragem e abri a porta, e de lá, caiu o que parecia ser uma lagartixa bem grande. Talvez um lagarto monitor, ligeiramente menor do que um dragão de komodo altamente venenoso e mortífero. Pensando bem, eu não sabia se aquele lagartão também não era venenoso.

–Mushu? — eu ri da minha própria piada e depois notei que a vida tem que ser levada ligeiramente mais a sério, e que eu poderia morrer com aquele animal dentro do meu armário. Eu montei em cima dele e o imobilizei, agarrando em seu pescoço e cauda, notando as pernas fortes e curtas, com garras enormes, e não pude deixar de sorrir. Abri a porta com a perna, rezando para que o monstrinho não se debatesse, e ele ficou calmo para meu espanto. — Alguém perdeu um jacaré? Alô?

–Eu! — era um cara bem mais baixo que eu, loiro, com uns olhos de quem não dormia há dias (ou fumou) — Obrigada! — e então tivemos uma situação constrangedora passando o pet de um par de mãos para outra. — Meu nome é Lorenzo, sou um veterano. — e sorriu, faceiro. — E seu nome?

–É Harris. — além de desengonçado, eu era tímido e no Alasca não tinha muita coisa pra interagir além de alces e bonecos de neve.

–Legal, Harris. Você parece ser... americano, acertei?

–Mais ou menos. Nasci no Iraque, mas atualmente moro no Alasca, então... Meio ponto veterano.

–Gostei de você, quer beber mais tarde? Vai ter uma festa de boas-vindas de retorno pros veteranos, mas você pode vir.

–Claro! Me parece bem legal. — e sorri.

Eu também havia gostado de Lorenzo, principalmente do lagarto, coisa que eu esqueci de perguntar, se era bicho de estimação ou projeto de CCI, mas pelo menos seria uma desculpa para puxar papo com ele na festa, desde que ele não estivesse cercado de gente. Considerando que seria uma festa, eu diria que tenho alguma chance.

A faculdade parecia uma realidade tão diferente da escola, a aura das pessoas era diferente. Aqueles babacas valentões (tirando o Falcon, mas ele não era grandão então acho que não conta) e as meninas lip gloss não existem nesses corredores iluminados. Só tem gente que está mais interessado em ir bem nas provas dos períodos e não arranjar confusão. Apenas aprender, se divertir como adultos que bebem martinis e cervejas artesanais, mas no fundo, todo mundo sabe que vão acabar como 4 anos atrás, na sua primeira bebedeira, com 15 anos e vão dançar nas mesas mesmo assim. Mas agora, os caras tinham barba e as meninas realmente tinham peitos e não precisavam de enchimento. E como todos eram mais velhos, penso que todos já tiveram aquele primeiro amor de adolescência e aqueles dilemas de virgindade haviam ficado para trás. E são pessoas que querem graduação não apenas para conseguirem empregos melhores, mas para terem desafios intelectuais e crescerem pessoalmente independentemente de dinheiro, e eu amo essa atmosfera ateniense, de Jedis e Yodas, mas tenho quase certeza de que o Yoda não é de Atenas. Eu decidi voltar para o meu quarto, quando parei pra pensar como diabos aquele bicho tinha entrado no meu armário, e comecei a procurar a grade do curso, e dei de cara com uma enorme lista de coisas sobre as quais eu aprenderia em 4 anos. Legal.

Depois de ler, resolvi dar uma circulada pelo Campus, pronto para descobrir a minha sala, as Arenas e os laboratórios. E logo depois eu iria a papelaria mais próxima pois não tinha nem caneta e as aulas começariam na segunda, e hoje é sábado. Considerando a ressaca que eu vou ter depois da festa com Lorenzo, acordaria umas 4 da tarde e a papelaria já teria fechado depois da minha recuperação e o tempo dentro do carro para pegar a estradinha pois a UUO ficava no meio do nada, e o centro de Westport Galway ficava a 2 horas de distância. E, depois, olhando pro mapa, o nome da cidade era "Wesport" e não "Wesport Galway". Quanto mais eu olhava, mais ficava confuso, e decidi cancelar o passeio para descobrir que maldito mapa mágico era aquele:

–Mas... — e cocei a cabeça.

–Precisa de ajuda? — e quando baixei os olhos, tive que subir a cabeça, pois estava de frente para uma pessoa do mesmo tamanho que eu. — Meu nome é Marie, e acho que já sei com o que está confuso. — a jovem tinha os dentes brancos e cabelos longos, armados e loiros, como Brigitte Bardot tinha antes de envelhecer.

–Sim, é que... Eu não sei onde estou. Antes de vir pra cá, a cidade se chamava Wesport Galway e agora diz só Wesport. — notando sua altura, deduzi que talvez fizesse trabalhos de modelo. Ela com certeza parecia aquelas aquelas altas e esbeltas da passarela.

–É um erro unânime dos calouros, não se preocupe. — e sorriu. — Estamos em Wesport, você pegou um trem na estação de Galway para vir para Wesport. No mapa que a Universidade manda, sempre tem esse erro, demorou pra eu entender, achei que estávamos no meio do caminho! — e riu da própria piada, como aquelas ratinhas da Disney com suas risadas agudas e rápidas.

–Certo... — e ri também, tentando não deixar o clima estranho. — Obrigado. Digo, Obrigado Marie.

–De nada... qual seu nome? — e colocou as mãos nos bolsos jeans.

–É Harris. Harris Black.

–Harris Black, legal! Veio de onde?

–Iraque. Digo, Alasca. — me corrigi tão rápido que nem eu sabia de onde viera. — Digo, eu nasci no Iraque, mas me mudei pro Alasca, então, vim do Alasca.

–Iraque... Você é do munto mortal?

–Sim, minha família mora lá. Você não?

–Eu sou do Iraque também mas no meu mundo, o nome ainda é Mesopotâmia.

Um calafrio me passou pela espinha. Ela era grande como eu, do mundo mágico e do Iraque. Será que era como eu em todos os sentidos? Eu disse obrigado mais uma vez, mas disse que tinha de sair para resolver pendências de documentos na minha matrícula, e eu quase pareci um covarde de tão depressa que fugi dela, suando frio. Minha mãe sempre disse que os dragões orientais não eram tão conhecidos assim, apesar da origem dos mais antigos mitos virem do oriente. Ela duvidava que soubessem da nossa raça, e me disse para ficar calado sobre o que era.

–Você é gay, não é?

É meio chato ser um cara gigante que toma sustos com a facilidade de um bebê recém-nascido e isso não é nada justo.

–Jaden? — quando me dei conta, não havia corrido para onde ficava a reitoria, mas sim os dormitórios, e agora estava na cara que eu tinha fugido de Marie e ela provavelmente me achava um completo idiota. — Ah droga! — joguei os mil papéis em cima da minha cama e pus as mãos na cabeça. -O que disse?

–Perguntei se você é gay. — dizia aquilo enquanto puxava um cigarro para acendê-lo como se fosse ok assustar homens de 2 metros e parecer um fantasma, enquanto se acende um cigarro em local proibido, ignorando totalmente o fato de que eu não era fumante.

–Não, não sou gay Jaden. Já somos íntimos assim? — e abri a janela, para que ele percebesse o quão mal educado ele estava sendo, mas ele não se mancou, e não apagou o cigarro. — Sente na janela para fumar, se não vai agarrar tudo na roupa de cama.

–Você é viado. — e sentou no peitoril da janela, uma perna para cada lado, o que me fez ter medo que ele caísse, mas não disse nada.

–Ou apenas não gosto de nicotina no meu travesseiro. — e bufei. — E você, Jaden, é gay? — perguntei revirando os olhos.

–Gosto de mulher em um nível que chega a ser perigoso. — e sorriu, soprando a fumaça para fora do quarto.

–Ok, e isso paz parte do pacote "bad boy", além dos cigarros e da jaqueta de couro?

–Esqueceu a cicatriz na testa e o cheiro de suor. — e olhou para as mãos que estavam jogadas entre as pernas.

–Ei, cara. — ele olhou pra mim. — Deixe esses rótulos pra lá. Não sei o que eu fiz para que fizesse você pensar que eu sou gay, mas não sou ok? Aposto que existem coisas a seu respeito que eu não sei, talvez nunca saiba, e eu também sou assim, somos colegas de quarto e vamos tentar ser no mínimo toleráveis e respeitosos um com o outro, ok? Começando com a primeira regra do Harris de nunca fumar nesse recinto, sem estar na janela.

–"Regra do Harris". — ele repetiu e eu pude ouvir uma risadinha, mas não fiquei irritado. Não ficaria desde que ele respeitasse a regra do Harris.- Vai ter uma festa dos veteranos hoje a noite, soube que você vai com um veterano uma asiática também me chamou, podemos ir juntos, o que acha?

–É por isso que me perguntou aquilo? Porque vou pra uma festa com um veterano da faculdade? Lorenzo não é gay!

–Lorenzo é muito gay, Harris. Ele come um dos professores de Herbologia. Mas não foi só por isso — ele tragou mais um pouco — você falou demais sobre Falcon. — e sorriu.

–Isso não é da sua conta. Mas eu não sou gay. Tudo bem, vamos juntos, eu nem sei onde vai ser a festa.

Quando deu meia noite, Jaden disse que já estava na hora de ir. Ele tomou banho e vestiu uma muda de roupas que levava na mochila e quando foi a minha vez de ir tomar banho, as roupas dele estavam penduradas no box, como se tivessem sido lavadas no banho. Achei aquilo estranho, mas não disse nada, e tomei banho mesmo assim. Eu sabia que ia ser difícil de conviver com aquele cara, era abusado, relaxado e mal educado. Perguntou aquilo, fuma igual a uma prostituta do Harley e deixa cuecas penduradas dentro do chuveiro! Tomara que ele não tenha planos de se casar, porque ele seria a loucura para qualquer mulher. Principalmente deixando toalhas molhadas em cima da cama.

Quando voltei, a toalha molhada estava de fato em cima da cama, e ele estava na janela, fumando como sempre. Mas dessa vez, parecia aqueles pilotos de fuga dos filmes americanos. Blusa social preta e jeans escuro, com coturnos, mas o mesmo penteado de sempre. E o mesmo maldito cigarro nos lábios como sempre. Eu estava com uma camisa branca e um jeans normal, tênis. E minha touca verde.

–Vamos. — disse Jaden, e ele pulou da janela. Eu não sabia como ele fazia isso, e quando corri para ver, ele pulava nas janelas dos dormitórios mais caros dos lados, fazia piruetas e caía do primeiro andar como se tivesse feito isso desde que nasceu.

Eu desci as escadas mesmo.

Ele estava no seu milésimo cigarro do dia, estava acendendo outro quando o encontrei na entrada. Peguei meu carro e fomos até uma fraternidade que tinha gente normal e uma piscina com luzes coloridas cheias de meninas que não eram bem meninas:

–Fique longe delas. — Jaden disse apontando com o cigarro. — É sério.

Eu não perguntei, mas como ele parecia saber do que estava falando, nem perguntei apenas assenti. Jaden já tinha encontrado a menina que o havia convidado para a festa e me largou procurando por Lorenzo, com um copo na mão, e eu não sabia o que tinha dentro. No Alasca não se bebia nada além de uísque, para esquentar. Eu nem sabia o gosto de cerveja, vodka ou tequila. Depois de provar então, eu tinha ainda mais dúvidas, mas decidi só enfiar uma mão no bolso e olhar para a pista de dança, dando goladas na bebida.

–Ei! Você veio! — Lorenzo não estava com o lagarto, mas estava com uma garrafa gigante na mão. Já parecia meio bêbado e estava com a metade dos botões de sua camisa abertos.

–Sim, eu e meu amigo Jaden! — eu tive que falar no pé do ouvido dele, por causa do barulho, e quando fui me afastar, ele puxou meu cabelo de volta e eu soube que ele ia tentar e beijar, e virei o rosto. — Não sou gay!

–Tudo bem! Eu também não! — e saiu dançando com a garrafa na mão. Eu não sabia se tinha mesmo pinta de gay, mas decidi procurar pela menina que havia me ajudado com o mapa, acho que o nome era Marie.

Mas quando olhei, ela estava arrastando um menino para dentro do banheiro e eu decidi que não foi uma boa ideia ter vindo. Não mesmo. Mas não fui embora e continuei bebendo para ignorar o fato de que estava completamente sozinho, talvez eu tomasse coragem para dançar e arrumasse amigos bêbados! Eu fico feliz de dizer que foi exatamente isso que aconteceu, mas não tão feliz de dizer que eu fui me meter com as meninas na piscina e quase fui afogado se Jaden não tivesse me tirado de lá. No dia seguinte, ele disse que eu estava tão bêbado que eu havia tirado a camisa para vestir em uma menina, e a levei no colo dizendo que estava casado. Eu me joguei na piscina, e foi aí que eu quase morri. Disse que antes disso estava falando sobre ruivos e ruivas.

A ressaca foi a mais forte da minha vida até então. O chão e as paredes pareciam duplicar-se e voltar a ser uma, a cada piscadela. A luz me incomodava de uma forma que lágrimas começaram a se formar e minha cabeça parecia mais pesada que meu corpo todo. Eu tentava me agarrar nos porcelanatos da banheira, da pia, mas eles pareciam mudar de lugar, mais longe ou mais perto, e eu ia batendo a cabeça e tropeçando, quando comecei a engatinhar de joelhos. Vomitei tanto que a água do vaso estava em estado de ebulição de tão quente. Tinha medo que Jaden visse e fizesse perguntas, mas quando fiquei um pouco melhor e me meti debaixo do banho, ele não estava mais lá. Era três da tarde quando tomei um remédio e desci para o refeitório atrás de café.

O refeitório estava vazio, exceto por uma pessoa que lia um livro perto de uma parede de vidro, bebendo chá e comendo biscoitos amanteigados com a classe e os modos de um inglês. Quando apertei os olhos, pude distinguir Falcon com seu cabelo vermelho e olhos turquesas. Não fui lá falar com ele, mas quando estava saindo, ele olhou pra mim mas logo voltou a ler. Em pleno domingo, e ele lendo no refeitório como um alienígena.

Voltei para o dormitório e resolvi passar o resto do dia vendo minhas séries favoritas e tomando analgésicos atrás de analgésicos. E dá-lhe antidepressivos.

–Já está melhor? — um ser surgiu da janela, e eu já sabia que era Jaden.

–Sim, Jaden, obrigado. — e levei a mão a cabeça, com a dor da minha própria voz.

–Que bom. — e acendeu um cigarro na janela.

Eu queria perguntar a ele se ele não tinha medo de morrer, por conta dos cigarros consecutivos, da tosse que ele já tem, da pele cinzenta e os olhos inchados. Mas ele não parecia ligar, parecia fazer de propósito, como se ele mesmo não gostasse de cigarros. Como se fizesse isso porque queria morrer cedo. Mas eu estava com dor demais para perguntar. Eu só o vi colocar as roupas na janela para secar, e estava com a roupa do dia anterior ainda.

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Segunda-feira e eu já estava bem, 100% para a primeira aula do ano: Habitat. Eu tinha lido uma rele síntese da matéria que incluía Alimentação, e era uma introdução ao estilo de vida das criaturas que nós estudaríamos e lidaríamos pelo resto das nossas vidas. A faculdade parecia um formigueiro, e era um colorido de cabelos, roupas e risadas. Era bonito, alegre e todos estavam entusiasmados com o início das aulas. Minha sala era a última do corredor do 3º andar, e lá estava a turma toda já reunida o professor pronto para começar:

–Seja bem-vindo para a primeira aula...?

–Harris Black.

O professor fez uma reverência acompanhada a um gesto para que eu me sentasse. Ele tinha óculos grossos com armações finas, vestia bermudas muito largas que o faziam parecer ainda mais magro, e uma blusa de turista, com flores de maracujá.

–Como é que as coisas vão, Harris Black? — ele perguntou enquanto escrevia seu nome é matéria no quadro: Habitat, Dr. Charliston.

–Bem, obrigado. — eu respondi sem ter o que tirar da mochila, lápis nem caneta.

–Bem pra quem? — ele pronunciava as palavras como se fosse uma piada que fizesse com todos as suas turmas novas. — Eu digo que, para você e seu mundo, não vai nada bem. Daqui a pouco não sobrará árvores nem para fazer caixões.

Eu resolvi ficar calada, e ele balançou o corpo, andando pelo palco ligeiramente alto.

–Estudar o habitat dessas criaturas envolve o assunto de aquecimento global e poluição, já que isso afeta os Dragões. Os dragões hoje em dia são organizados a partir de um critério comumente conhecido. Alguém sabe me dizer qual seria esse critério?

Um ruivo levantou a mão e disse:

–Os quatro elementos.

Eu já sabia que era Falcon. Maldita assombração. Deve ser carma meu.

–Sim, meu caro aluno! São os quatro elementos. Esse critério tem relação direta com o habitat que eles habitam. Todos sabem que os 4 elementos são fogo, ar, terra e água. — houve um barulho de cadernos, folhas e canetas rangendo, e eu parado. — Os dragões do fogo, habitam regiões tropicais, vulcões e desertos, florestas quentes e úmidas, como a Amazônia. Os dragões do fogo são famosos pela habilidade unânime de cuspir fogo. Alguém sabe por que os dragões conseguem cuspir fogo?

O ruivo levantou a mão novamente e respondeu:

–Câmaras de gases de metano e um de esfregar pedras juntos em uma grande moela.

–Muito obrigado, Falcon. — o professor sorriu. — esse instrumento de defesa tem relação direta com o habitat em que vivem, sua alimentação, predadores entre outras condições de sobrevivência. Os predadores dos dragões não são naturais, isso quer dizer que não são outros animais. O único predador natural de um dragão, é outro dragão maior. Os predadores mais perigosos dos dragões são humanos. Principalmente Cavaleiros e contrabandistas. — o professor varreu os olhos pela sala de aula, como se houvessem ali tais monstros.

–Professor! — Jaden, no fundo da sala, levantou a mão.

–Sim?

–Predadores procuram ativamente as suas presas, que são outros animais, os perseguem, capturam e comem. Cavaleiros e contrabandistas não fazem isso.

–Essa é a definição de predadores naturais, caro jovem. Como posso traduzir para que entendam melhor... Ah, que tal "assassinos"? Melhor, sim?

Houve um silêncio na sala.

–O que antes era neblina, hoje é fumaça de poluição. Sabe qual classe de dragões é especialmente afetada por essa característica moderna? Dragões do ar. — detalhe, Falcon tinha levantado a mão mas o professor respondeu antes que ele respondesse. — Eles vivem em altos penhascos, por vezes lugares frios, montanhas de altitude. O maior número de dragões do Ar por metro quadrado, é o Everest, podem anotar isso. São os únicos dragões migratórios. Procuram áreas mais quentes, tirando os dragões do ar do Everest, que são unanimamente Dragões da Era do Gelo. E não, o Sid e o Manny não os conhecem.

A turma caiu na gargalhada.

–Continuando — o professor seguiu falando enquanto eu, banana, ainda não tinha nem a mochila em cima da mesa para disfarçar. — Os dragões do elemento terra ocupam florestas, bosques, clareiras e são os mais abundantes na natureza. Os dragões da água, por sua vez, ocupam mares, nascentes, lagos, rios, cachoeiras, lagoas, oceanos, e se bobear, copos d'água. — ele sorriu. — Vamos ir pessoalmente a todos esses habitats. A Universidade dispões de bosques onde habitam dragões de porte reduzido, para que vocês não corram perigo. O primeiro trabalho de vocês do ano para a minha matéria será: O efeito estufa em relação aos Dragões. Quero os trabalhos no fim do mês.

A aula rolou por mais longos 40 minutos, e eu tive que repetir o título do trabalho pela minha cabeça para que eu não o esquecesse.

–O aquecimentos dos pólos da Terra também afetam os dragões, que podem ser da água na sua maioria, ou do ar. São dragões Antárcticos. Vêm morrendo como pinguins na praia do Leblon e joaninhas que não aparecem mais nos jardins de ninguém. Todos sabem que nos encontramos em um mundo paralelo, não sabem? Existem portais.

Opa, acabei de descobrir o tabu desse mundo.

A sala ficou em silêncio.

–Vocês vão descobrir, que os Dragões foram originalmente do mundo mortal. Eram retratados em poemas, pinturas, e gravados em armaduras. Vão estudar isso com a professora Macaira. Antigamente, os Cavaleiros de Dragão eram heróis, e a última missão deles, foi de capturar todos os dragões do mundo mortal, para que não fossem extintos. Foi a maior glória deles, e um desequilíbrio mortal para o nosso mundo, que foi equilibrado pelos próprios Cavaleiros, que decidiram matar alguns deles, para que os humanos não os descobrissem. Foi um desvio de conduta grave deles, que no fim, não adiantou. Alguns permaneceram e originaram mitos e muitos fósseis foram encontrados. Provavelmente vão estudar os profissionais que tinham como ferramenta de trabalho os Dragões. De Cavaleiros, esses homens tornaram-se homicidas de suas próprias majestosidades. Foi um escândalo naquele século. Eu estava lá.

–Professor, o que houve com os Cavaleiros? — o ruivo perguntou.

–Alguns fugiram para lugares inóspitos e deixaram todas as suas espadas e armaduras para trás. Uns foram presos, responsáveis pelos assassinatos. Outros viraram suicidas, ninguém sabe mais por onde andam. Hoje em dia são bandidos que roubam ovos e apostam corridas, lutas e desafios. Hoje os Cavaleiros são, infelizmente, mercenários. Sua glória foi esquecida no passado. É uma pena. — o professor respirou fundo. — foi um grande golpe para os ecologistas e protetores dos animais.

–O Senhor não disse que os Dragões fizeram um impacto ecológico enorme no ecossistema desse mundo? São predadores, estavam matando todos os outros animais mágicos e morrendo de fome. — Jaden parecia estar nervoso.

–Os ecologistas e estudantes esperavam por isso e planejavam reduzir sua população, utilizando alguns espécimes para estudos.

–Então, iriam dissecá-los e prendê-los em jaulas como fazem aqui. Tudo bem deixá-los vivos e sem dignidade, não é?

–Saia de sala, e só volte quando estiver calmo, meu caro.

–Essa é a verdade. Os Cavaleiros...

–Os Cavaleiros são fora da lei! E nem mais uma palavra, antes que eu o encaminhe para a reitoria.

Jaden se dirigiu até a porta, e a bateu com uma força descomunal atrás de si. Eu não me atrevi ir atrás dele, mas ele havia gerado murmúrios entre os estudantes, que discutiam "a verdade". O professor custou ao conseguir silêncio, mas a aula já estava a 3 minutos do fim, e o barulho que substituiu as palavras, foram os zíperes e a agitação dos braços guardando tudo para assistir a próxima aula.

Eu veria Jaden mais tarde.

Notas finais
o