Dracologia

12 P.O.V Wild


Acordei em um quarto alto, com cheiro de terra molhada invadindo minha janela aberta, junto com luz a luz do Sol e pássaros gralhando. Qualquer pessoa sentiria paz, mas eu senti um ódio mortal. Eu nunca gostei de luz do Sol e passarinhos cantando, eu queria a porra da janela fechada com blackouts e correntes. Esse era o combinado (ok, sem as correntes) quando eu e Kai, meu colega de quarto, nos "conhecemos". Eu levantei descalço, e o chão estava tão gelado que me fez ter dor de cabeça aguda, como beber água com gelo rápido demais.

–Bom dia! — o cara estava só de toalha, e parecia viver em um mundo paralelo de propagandas de perfume masculino, e apostos que nem os próprios modelos acordavam tão cedo, nem com tanto bom humor. Naquela hora deu vontade de voar na porra do caralho do pescoço dele, mas sabia que seria expulso por isso então fiz a minha cara de puto.

–Tínhamos um acordo, Venus. — e me joguei na cama cobrindo a cabeça.

–É Kai. — o ouvi colocando a roupa e passando desodorante — E já são 8:00. Até eu estou atrasado, Melnikov.

Eu pulei da cama xingando em russo enquanto enfiava a minha cabeça por uma blusa qualquer e um jeans fodido, e peguei a mochila que ainda bem, eu tinha preparado com antecedência. Meu colega de quarto ficou me olhando com aquela cara de "nem um banho? eca" eu respondi mentalmente "nem desodorante, chapa". E saí correndo pelo corredor, ainda tinha que correr para fora do prédio dos corredores e subir de escadas até o 8º andar, que era onde minha aula começaria, Morfologia, droga.

–Han... Bom dia, senhor... Melnikov. — o professor abaixou os óculos e eu quis dar um soco naquele nariz de gnomo, mas seria expulso com certeza. Eu apenas sentei, retribuindo um "bom dia" murmurado e esbaforido de tanto correr. A aula já tinha começado e ri internamente do mauricinho que divide o quarto comigo, ele chegaria bem mais atrasado.

–Bom dia, professor!

–Bom dia, Kai.

Eu quis que os dois se desintegrassem no chão, como lesmas derretendo no sal, ou humanos em ácido, mas eles dois continuaram malditamente sorridentes como imbecis. A dúvida que pairou na minha cabeça, foi como diabos Kai chegou praticamente no mesmo tempo que eu, mas não estava suado, ou arfante. Deve ser o caralho de um E.T bizarro como aquele planeta nojento que ele vive. Agora eu deveria me preocupar se um mini ser não iria invadir meu corpo ou tomar o meu planeta. Babaca.

–Hoje será a segunda aula de Morfologia de vocês, certo? Já tiveram anatomia com Platão, e agora terão aula de Histologia comigo. Meu nome é Dr. Tales de Mileto e eu irei apresentá-los o maravilhoso mundo dos estudos da estrutura microscópica, composição e função dos tecidos vivos. Vou me apropriar do livro de Anatomia dos Dragões de São Cipriano. Eu e o professor Tales dividiremos o mesmo material, por ora. Abram na página 34 e verão uma imagem.

Houve um barulho de abrir de livros e estalar de canetas e gravadores irritantes e eu só queria voltar pra cama. Não acredito que teria de acordar cedo pro resto da vida. Dragões são em sua maior parte noturnos, não são? Mas que porra.

–Essa imagem — o professor continuou — é a visão muscular da criatura que é foco dos nossos estudos hoje. Essa imagem representa a versão macroscópica do que iremos estudar. Não vamos mexer com corpos dissecados e inteiros, trabalharemos com microscópicos, laboratórios e muita tinta de caneta. Esse será o embasamento de vocês para várias matérias. O nosso estudo será dos tecidos nervosos, musculares, epiteliais ósseo, sanguíneo, cardíaco, germinativo, entre outros. É algo que demanda muita habilidade de desenho e horas de sono bem dormidas para não cochilar na minha aula. Sim, eu sei que é a mais temida pelos calouros de Dracologia e eu sinto em dizer que estão todos corretos. Eu passo apenas provas, de no mínimo 8 páginas e com alto grau de complexidade atendendo ao padrão das minhas aulas. Estudem muito pois essa matéria dura bem mais que um só período. E sejam espertos, pois serei o professor de vocês em mais uma matéria no decorrer dessa vida acadêmica universitária. A menos que desistam. Ou sejam expulsos. Atrasos são intoleráveis e eu deixarei passar só até essa aula, entendeu Sr. Melnikov?

O velho filho da puta só falou meu nome. O Kai, nada. Talvez ele esteja certo em ser falso e bonzinho, isso vai aliviar muito estresse. Não dá pra bancar de fodão agora, o jeito é abaixar a cabeça, dormir (ops copiar) e tentar tirar a nota necessária pra passar logo dessa lenga lenga. Que merda.

–Muito bem, senhores. Ainda sobre a imagem, eu quero que me digam sobre dois tipos de tecidos musculares presentes nesse Dragão. Sim, Sr. Falcon, não é mesmo?

–Tecido muscular que se divide em: músculo estriado e músculo liso. Há também o músculo cardíaco.

–Muito bem, monsieur, você está corretíssimo. Logo nos encaminharemos para o laboratório, onde será nossa sala principal nós próximos dias. O tecido muscular liso apresenta uma contração lenta e involuntária, ou seja, não depende da vontade do indivíduo. Forma a musculatura dos órgãos internos, como a bexiga, estômago, intestino e vasos sanguíneos. O tecido muscular estriado esquelético apresenta uma contração rápida e voluntária. Está ligado aos ossos e atua na movimentação do corpo...

Depois disso eu dormi. Eu dormi igual a uma pedra, parecia que eu estava aprendendo sobre um sapo e não sobre um dragão, puta que pariu. Eu realmente não estava interessado sobre o "tecido germinativo" do Rex que era relacionado a algo sexualmente ativo. Eu realmente não queria saber. Foi quando eu fui encaminhado para fora de sala. E quando eu saí, tinham mais 3 alunos, e eu pressenti que logo viriam mais. Duas garotas e um cara, um deles eu reconheci da aula passada de Habitat, quando ele deu um ataque de pelanca, acho que o nome era Jaden, ou Josh. Talvez John.

–Então, por que temos que ficar aqui, e não simplesmente irmos para os dormitórios de uma vez? — o John ou Josh ou Jaden perguntou.

–Porque depois do sinal tocar vão levar a gente pra reitoria, pra levar uma advertência e um esporro. — a garota revirou os olhos. — Se fugirmos, seremos expulsos. — e cruzou os braços. — O pior é que agora estou sem sono. — e então os 3 olharam pra mim. — Olha, mais um. — e riram.

–É Wild. — e joguei minha mochila no chão, para ter apoio e sentar, pois naquela linda universidade de ricos, não haviam poltronas em um raio de 400 metros. Pra falar no mínimo.

–É Trina. — ela disse agarrando os joelhos para perto do torso, como se estivesse com frio. — Aquela é Felicia, minha colega de quarto. E aquele é Jaden.

"E são todos amiguinhos?" deu vontade de perguntar. Mas claramente Jaden não era amigo delas. Estava mexendo nos bolsos e mordendo os lábios, que já estavam sangrando. A tal da Trina parecia uma adolescente de 15 anos. Não tinha a altura das outras alunas, nem as medidas. Parecia ter parado no tempo. A outra parecia um fantasma, tinha cabelos brancos e olhos vermelhos, além de usar um capuz preto com tatuagens na testa.

Felicia não fez questão nem de dar um sorriso, mas me olhava curiosa. Olhava principalmente pro meu cabelo azul, e eu fingia estar interessado no cabelo branco dela. Mas depois desviei o olhar e decidi que ela era muito esquisita pra se relacionar, tatuagens na testa definitivamente não eram meu fetiche, muito menos pedofilia. As duas calouras estão frustrando todas as minhas expectativas de sexo universitário, merda. Custava ter uma gostosa?

Eu tentei me manter calmo, respirar fundo e lembrar de Rex e vovô em casa, comendo marshmallows quentinhos e assistindo filmes violentos de suspense e ação. Era engraçado quando Rex ouvia os tiros da TV e olhava para os lados tão rápido que parecia que ia ser atingido. Depois meu avô imitava uma arma com a mão e atirava de mentirinha nele, aí o Rex caía com a barriga virada pra cima, e a mesma era coçada pelo vovô. Rex era tipo um cachorro muito inteligente.

–De onde você é? — a garota morena de olhos azuis perguntou.

–Eu sou da Rússia. — e perguntei o mesmo por educação, mas não exatamente estava curioso em saber.

–Havaí. — e sorriu. Orgulhosa de morar lá, eu entendo. No fundo do peito, deu uma pitada de ânimo. Fiquei assustado comigo mesmo em ter interesse de socializar por afinidade. Não que eu seja um cara interesseiro, mas na minha cabeça eu só tinha que socializar com Kai porque era obrigado, e mesmo assim nossa comunicação não tem dado muito certo. -Lá é bem mais quente que a Rússia. Já esteve lá?

Eu tinha dado conta que não respondera em 5 minutos de pura lerdice.

–Nunca. Na verdade, é a primeira vez que saio da Rússia, e como pode ver, não fui muito longe. — sorri forçado, mas pareceu surtir efeito, pois ela sorriu de volta. A esquisita, que antes olhava fixamente pra mim, agora olhava pro chão, como uma louca. Agora percebi como ela parece com aquela personagem do filme de terror que vi com Sasha uma vez... Como era? Mama? Sim, pareciam irmãs gêmeas.

–Quando for pra longe, vá para o Havaí. — ela continuava a sorrir e eu achei meio bizarro. Eu não era um pote de mel nem um anão engraçado, mas ela sorria como se não desse a mínima, e olhou para o meu cabelo azul. — Adorei o cabelo! Não vejo muitos meninos coloridos por aí.

–Colorido? Esse cara não é colorido. — o cara afastado disse enquanto arrancava mais um pedaço da própria boca. — Emo.

Eu fiquei com raiva daquele cara cheio de pose, mas não pude evitar de rir e incentivar as meninas a entrar na piada. Disse que de fato, não era colorido, e que era só um cabelo que fazia par com meus olhos e sempre caiu bem com preto. Se não viraria um Jaden da vida, e eu certamente não queria isso.

O cara me olhou pelo canto do olho e riu sarcasticamente com um "você certamente não ia querer". Eu o fiquei imaginando dizendo isso com a voz do Darth Vader e eu tive que morder a bochecha para segurar o riso. As meninas até acharam graça na citação, mas Felicia insistiu em ficar calada e estava começando a realmente me meter medo como se fosse uma estátua de mármore. A estátua de mármore mais bizarra que eu já vi. E rabiscada na testa, o que fazia dela uma estátua muito irada.

Eu e Trina conversamos pelo resto dos 30 minutos que faltavam para bater o sinal, e ela mais falava do que ouvia, e eu gostei disso. Sempre curti mulheres tagarelas. Infelizmente também curtia peitos e ela não se encaixava no perfil, o que me fez ser mais aéreo no papo, e tivemos aquela sensação "não fluiu". Mas ela insistia em puxar assunto e parecia ser bem divertida, mas ficaria mais com uma mordaça. E talvez alguns chupões no pescoço e umas palmadas.

Então o sinal tocou e ficamos imóveis. Fomos para a sala do reitos acompanhados de Platão, e recebemos a tal da advertência, que era fichada em nossas matrículas e recebíamos um aviso. Não poderíamos faltar demais ou nossa matrícula era cancelada, nem dormir pois era igual a falta, por não participarmos da aula. Então, tínhamos que tomar um litro de café, vários isotônicos e talvez LSD para ficarmos acordados.

As meninas foram se encaminhando para a próxima aula, Jaden pulou o corredor, (que era uma varanda gigante) e eu o vi acender um cigarro. Imaginei a cena nojenta daquela boca ensanguentada sugando o fedor de um maço inteiro e aquilo me enjoou seriamente. Estava lavando o rosto do toalete masculino, e logo depois estava de volta aos corredores que dessa vez, estavam entupidos de alunos depois do sinal. A próxima aula seria de História. Droga. É o mundo conspirando para meu sono de beleza. Resolvi ir até a cafeteria e beber o suficiente no intervalo de 15 minutos, calculando mentalmente quantas vezes eu teria que ir ao banheiro mijar toda aquela cafeína.

–Ótima ideia! — e lá estava Kai de novo.

–Você sempre está com esse humor "acabei de gozar"? — eu impeli um impulso de dar um soco na cara dele.

–Você sempre está na seca? Ou só nos finais de semana?

Aquela doeu, mas foi digno. No fundo, eu acho graça dessa nossa implicância mútua, e nada passa com rancores, mas com piadas de baixo calão. A verdade é que nos aturávamos e sabíamos que éramos muito diferentes um do outro. O pouco que consegui reconhecer daquele homem vindo de outro planeta, foi seu ânimo pela vida. É mais novo que eu, mas parece mais velho. Certa vez eu estava no chuveiro tomando banho e estávamos aos berros discutindo minha bagunça, quando ele começou a falar sem parar sobre si mesmo e suas expectativas. Resmungava sem parar sobre como tudo era diferente no Brasil, e como tudo era diferente em Venus, e como eu era estranho e morto. Eu desliguei o chuveiro e o chamei de E.T, e disse que não era um zumbi, nem criança, como ele costuma dizer quando vê tudo meu jogado por aí. O cara acorda todo dia 7:00 da manhã, não se importando se é final de semana ou não, e ele acorda cedo pra correr! Já fez trilha na floresta, conhece cachoeiras que nunca aparecem nos mapas da faculdade, e pega seu skate e vai até a praia quando bem quer, sempre está respondendo mensagens nas redes sociais de amigos e parentes, é um moleque normal. Normal pra ele, pra mim é bizarro. Do mesmo jeito que ele acha o cúmulo eu não ter facebook, twitter ou instagram, do mesmo jeito que acha um absurdo eu ficar na cama até as seis da tarde, todos os finais de semana, e nunca sair com o sol a pino. Ele não sabe que eu sou um cachorro muito grande, mas já sei que suspeita, pois me olha de soslaio quando saio no meio da noite e ele ainda está no snapchat com suas "amigas". O pouco tempo que convivemos, ele me disse sobre seu pai militar, seu irmão militar, sobre a guerra dos planetas e mais coisas de Guerra das Estrelas. Eu ouço, mas não pergunto nada, e então é minha vez de falar sobre a minha família e eu me limito a falar de vovô e vovó. Ele já me perguntou sobre os meus pais, mas eu disse que fiquei órfão dos dois cedo demais, e não tenho irmãos. Espero que meu irmão não seja convocado pra seleção Di Venus.

–Você nunca disse sobre nenhuma garota, Wild. — ele levantou os olhos do smartphone de tela ofuscante que fazia seus olhos parecerem brancos de tão claros e próximos a luz. Assim como seu rosto, que fica azulado.

–Eu nunca fui popular com as garotas. — dei de ombros.

–Nunca foi popular com ninguém em lugar nenhum, já entendi. Mas qual é... — ele riu como um latino nato. Como aquele povo colorido que vejo em documentários e propagandas de TV. Kai com certeza é um estranho no seu planeta também, já que pesquisei e sei que Venus não passa de uma bola poeirenta, sem água, e completamente artificial. É uma colônia de Netuno que está em processo de independência, e que está em guerra com outras duas colônias, e eu ainda não entendi muito bem o porquê. — Nunca namorou sério?

–Só casos, ex rápidas, coisas do tipo. — e não era mentira, eu só ocultei a parte de Sasha e meu glorioso pé na bunda, seguido de uma sentença de ser um eterno sentimental. A verdade é que era ela, e eu sabia disso. Não que eu ainda pensasse nela e chorasse pelos cantos, o namoro de adolescência já se foi há anos, mas o fervor acho que nunca se esquece. Primeiro amor independente da primeira vez. Obviamente eu nunca contaria nada para Kai. — e você?

–Sempre fui meio viajante também, nunca tive aquele namoro de adolescência sabe? — ele riu — aquele que te faz pensar em casamento, eternidade e mil flores com coraçõezinhos. Tinha esperança de encontrar algo parecido aqui, na Terra. As meninas são legais, bonitas e com certeza mais divertidas que as de Vênus, mas ainda não achei uma que seja grande coisa.

–Então precisa de óculos, grande coisa não falta por aqui. — e ri. Era sempre assim, poucas palavras minhas e palavras cuspidas dele. A diferença de idade não era muita, muito menos mental já que reconheço que meu colega de quarto é sim muito mais maduro que eu. Mas ainda me sinto naquela posição paternal de dizer "vai chegar sua vez, filho". Só desejo sorte que não seja como foi pra mim, é ruim lamentar quando chega a sua vez.

As aulas seguintes daquele dia foram repetições de chatices e soníferos sonoros e visuais, que se traduzem em letrinhas minúsculas e... E principalmente o cabelo branco daquela garota estranha. Eu sento na última carteira, na fila mais afastada da janela, e ela senta logo na minha frente, e é unicamente quando as luzes se apagam, que ela abaixa o capuz. Os fios parecem prateados e quando ela apoia a cabeça na parede, consigo ver sua pele clara e talvez tão radiante quanto o cabelo. Felicia, se me lembrava direito. Nunca falava nada, menos que eu e isso era estranho para uma garota. Assim como as marcas na sua testa, que descobri depois serem queimaduras que estranhamente não se curam, e formam um pentagrama. Com certeza era uma bruxa, e alguém para se manter distância já que nossos tipos nunca se deram muito bem. Tem um quê de vampiresca, mas eu não tinha certeza. E tem delicadeza quando vai manusear qualquer coisa, uma suavidade digna de uma mãe cautelosa.

Várias coisas em mim estavam mudando perante uma estadia tão curta naquele lugar. Eu já considero Kai um irmão, não em tanta finidade assim, mas o jeito que nos relacionamos brigando e fazendo as pazes sem querer. Ando falando mais e as meninas agora me parecem todas madames, e eu não sei como meu vocabulário está deixando de ser tão baixo. Por dentro estou feliz, mas quando a sombra e os sonhos de meu pai na cadeia vêm me visitar, a única coisa pior que isso é a Lua cheia.

Morro de saudades de Rex e do vovô.