Downtown High
5 Meetings
Carol
Já era sexta-feira e eu não podia acreditar. Como seria a festa? Alex iria mesmo? Acho que eu estava um tanto quanto nervosa.
Nas sextas pela manhã nosso ano tinha educação física — que maravilha. Pude ver Alex jogando futebol americano com aquele corpinho.
Lauren, Cat e eu estávamos correndo para nos aquecer na pista de atletismo que cerca o campo de futebol, e eu não conseguia parar de olhar para ele.
— Carol, daqui a pouco você vai cair no chão, de tão distraída que você está. — disse Cat.
— Hã? Ah.. Ok.
— Tudo isso é por causa de Alex? — Perguntou Lauren.
— N-não, eu tenho prova de física hoje... — Fiquei vermelha.
— Ela está mentindo!! — Exclamou Cat.
— Olha que fofinha, toda envergonhada. — Era Amanda se juntando ao grupo.
— OI ALEX! — Gritou Lauren em direção aos meninos que estavam jogando futebol.
— O que você tá fazendo?? Tá louca?? — eu não sabia onde enfiar minha cara.
— Putz, ele não ouviu ainda. — "Graças a Deus" pensei — ALEEEEEX, OI, AQUI É A LAUREN. — e ela começou a abanar freneticamente.
Agora ele viu. Virou a cabeça, riu e abanou também.
— Oi, meninas! — ele disse.
— Vai na minha festa, né? — gritou Lauren.
— Com certeza. — e olhou pra mim com aqueles lindos olhos verdes.
— Ótimo, vá com a sua melhor roupa.
— Pode deixar. — com um sorriso tímido, continuou a jogar futebol.
— Viu, Carol — começou Lauren — não a nada com que se preocupar.
Fiz uma cara de raiva por ela ter chamado Alex, mas continuamos a aula normalmente.
O professor mandou nós pararmos com o aquecimento e nos dividirmos em grupos para atletismo e para futebol. Amanda e Lauren ficaram no atletismo, enquanto eu e Cat fomos para o futebol.
Eu fiquei no banco com os reservas, e Cat foi jogar. Ela estava jogando com Alex — que sorte a dela. Fiquei observando o jogo e vi como ele jogava bem.
No fim do período levei um susto. Alex estava com a bola e corria pelo campo, quando Cat simplesmente se jogou em cima dele, fazendo o coitado cair no chão e se machucar todo. Os dois conversaram um pouco e se dirigiram ao banco de reserva.
— Meu Deus, Alex! Você está bem? – perguntei, assustada.
— Acho que sim... Cat me disse que você curte medicina e entende desses negócios... Poderia me ajudar?
— Ah, claro. – Olhei pra Cat, que estava com uma expressão risonha, como se estive me provocando. – Vamos para a arquibancada, lá está mais vazio. Só me deixa procurar um kit de primeiros socorros.
— Pode ser.
Dirigimo-nos às arquibancadas e nos sentamos no primeiro banco. Alex tirou seu capacete.
— Alex, você está sangrando! Cat te derrubou tão forte assim?
— A princípio, sim...
— Está doendo?
— Um pouco.
— Vou passar algo para esterilizar, e fazer um curativo. – Passei a mão com gaze no corte em sua bochecha, e Alex me olhou nos olhos. Ficamos em silêncio. Estávamos nos encarando e com o rosto muito perto um do outro, cada vez mais perto. O que ia acontecer? O silencio não parava. 5 segundos, 15 segundos, até que...
— Alex! Ai meu Deus, você está bem? Eu vi que se machucou, e vim correndo para cá! – Era Jullie. Sério, vida? Sério mesmo? O que ela queria com ele?
— Ah, sim, estou bem. Carol está cuidando de mim. – Disse, olhando-me com um olhar envergonhado pela interrupção de Jullie.
— Que ótimo. Está doendo? – perguntou a vagabunda.
— Não mais. – respondeu, com um olhar penetrante para mim.
A única coisa que eu queria era sair dali. Terminei o curativo e disse:
— Bom, está pronto. Espero que esteja melhor.
— Sim, está ótimo. Muito obrigado. – Alex se dirigiu a mim e me deu um beijo na bochecha (o que provavelmente me deixou vermelha). Deixei-o com Jullie, e me dirigi ao vestiário.
No caminho eu passei por uma das folhas sobre o coral que anexei nos corredores. Na folha estavam escritas as informações sobre as audições e um espaço para os nomes dos interessados. Preocupei-me muito porque as audições iriam ser na quarta-feira, e ninguém havia se inscrito ainda.
Quando entrei no vestiário, procurei Lauren para falar sobre a situação, já que ela fazia coral comigo. Como tinha me atrasado por causa do machucado de Alex, não havia mais ninguém lá.
Vesti-me e já estava a caminho da porta de saída, quando ouvi um som. Uma música vinda dos chuveiros.
Comecei a andar em direção ao som e pude reconhecer que era uma voz angelical cantando.
— "Isn't she lovely... Isn't she wonderful...".
Sério mesmo, aquilo era muito bom. Quanto mais eu me aproximava, mais eu queria conhecer aquela menina.
Quando cheguei nos chuveiros, ela já estava pegando suas coisas para ir embora, e me olhou com uma cara de susto.
— Meu Deus, sua voz é maravilhosa! – Eu disse.
— Ah, que isso... – Ela ficou envergonhada.
— Estou falando sério. Já ouviu falar do coral da escola?
— Sim... Mas não é bem meu tipo de atividade...
— Por que?
— Desculpa, mas... As pessoas... Jullie e sua trupe, sabe... Você não é amiga delas, né?!
— Não, na verdade eu não gosto nem um pouco delas. Elas sempre monopolizam o coral e ignoram o fato de que eu sou a coordenadora.
— OK, eu vou sair... Catherine? Desculpa, qual é o seu nome?
— Carol, qual o seu?
— Anna, amiga do Will... Acho que já te vi falando com ele.
— Ah sim, você costuma almoçar com ele, não é? Espere um pouco. Você é a colega da aula de canto que Lauren tanto fala?
— Mais uma amiga da Lauren? Aquela garota é muito popular, meu Deus.
— Sim! Ela vai dar uma festa hoje. Você vai?
— Sim, prometi pra Lauren que iria tentar ser mais extrovertida, então não tenho muita escolha. Tem problema se eu levar um 'amigo'?
— Acho que ela não iria se importar, já que eu também vou levar um... Como pode nós termos tantos amigos em comum e nunca termos nos falado?
— Incrível, não é? Meio inevitável esse encontro. — disse Anna, rindo. — De qualquer jeito, vou pensar sobre o coral... Nos vemos na festa, então.
— OK, pense bem. Precisamos de vozes como a sua.
No período seguinte eu tinha música. Cheguei à sala e sentei ao lado de Will.
— Você vai na festa? — perguntei.
— Acho que sim. Você vai?
— Sim.
— Quem é o cara de quem vocês tanto estão falando ultimamente?
— Alex?
— Isso.
— Ah, é só um colega meu de cálculo e história.
— Ele vai na festa?
— Sim.
— Sério, Carol? Você vai fazer isso de novo? Não lembra como foi a última vez?
— Will, não tem nada a ver com a última vez.
A "última vez" que estávamos falando tinha sido no ano anterior, lá por dezembro. Lauren deu uma festa, e eu resolvi levar um cara que eu mal conhecia. Então ele começou a beber muito, muito mesmo, e ficou insuportável. Eu falava pra ele parar, mas nada adiantava. O que aconteceu? Ele saiu pra ficar com Sofia, uma das intercambistas japonesas amigas da Cat. Eu fiquei devastada.
— Eu estou te dizendo, Carol. Você não sabe como esse cara é, você só conhece ele há uma semana!
— Will, para. Nada vai dar errado, não se preocupe. – Tentei mudar de assunto – Então, leu minhas partituras novas?
— Ah, li sim. Eu achei bem legal. Já mostrou para o Sr. Carson?
— Ainda não, queria melhorar um pouco. Acho que vou botar mais vozes e movimentos contrários.
— Quer ajuda com isso? Podemos arrumar na hora do almoço.
— OK, pode ser.
O professor chegou e tivemos aula normalmente.
Will havia me deixado com um mau pressentimento sobre Alex, mas resolvi ignorar aquilo. No fim da aula, Will me disse que iria almoçar com Anna e um tal de Oliver, e se despediu. Enquanto me dirigia para o refeitório, eu só conseguia pensar no que havia acontecido na aula de educação física. Alex iria me beijar? E por que Jullie tinha ido falar com ele?
Espera um pouco. Eu estava me tornando uma menininha fútil que só pensa em menininhos? Não, eu não sou assim. Eu não sou uma das cheerleaders superficiais, e nem posso me tornar.
Logo que eu saí da fila de comida, e estava com minha bandeja na mão, Alex apareceu e disse:
— Carol, eu gostaria de agradecer pelo que você fez na aula de educação física. Foi muito legal da sua parte ter me ajudado.
— Ah, não foi nada. Você está melhor? – Olhei para seu curativo. Parecia bom.
— Sim, não dói mais.
— Que bom.
Já ia caminhar em direção à mesa das minhas amigas, quando Alex disse:
— Eu queria pedir desculpas pela Jullie. Eu sei que você não gosta dela, e ela simplesmente apareceu no meio do nada. Não significa nada.
Como ele sabia que eu não gostava da Jullie?
— Tudo bem.
Continuei andando, mas ele me interrompeu:
— Você quer almoçar comigo? Não fiz muitos amigos ainda, você foi uma das primeiras, e nós ainda não almoçamos juntos.
Olhei para a mesa com Amanda, Cat e Lauren, que me olhavam com um olhar risonho e desconfiado. Lauren até fez um formato de beijo com a boca, só para implicar comigo. Elas fizeram sinal com a cabeça que eu podia almoçar com ele sem problemas.
— OK, pode ser. Onde você quer ir?
— No início da semana eu almocei no jardim, é bem bonito. Já comeu lá?
— Algumas vezes. – Aquele é o lugar das cheerleaders, o que me fez pensar no porquê de Alex ter ido lá – Vamos então?
Dirigimo-nos ao jardim e sentamos debaixo de uma árvore. Era realmente bem bonito.
— Então, como foi sua semana? — perguntei.
— Foi boa. Eu não contei para você, mas eu gosto muito de futebol, até jogava na minha antiga escola.
— É? — não podia duvidar, o corpo atlético dele dizia tudo.
— Sim. Eu fiz a prova terça e entrei pro time.
— Sério? Alex, isso é muito legal! Parabéns! — levantei e dei um abraço nele. O menino mal chegou e já estava fazendo história.
— Obrigado, eu estava bem nervoso. Bom, os treinos são terças à tarde... Você estaria afim de assistir um algum dia?
— É claro, já estava com vontade de matar a aula de química a muito tempo.
Alex riu, e foi assim que continuamos nosso almoço, conversando num clima alegre.
Quando percebi, já faltavam 20 minutos para o intervalo acabar.
— Ai meu Deus, Alex! Lembrei agora de que tinha marcado um encontro com meu amigo, e estou super atrasada. Desculpa, mas tenho que ir.
— Ah, tudo bem. Quem é o amigo?
— Will, da banda. Conhece?
— Sim, estamos na mesma turma de inglês.
— Bom, tenho que ir. – Inclinei-me e dei um beijo em sua bochecha, parando a poucos centímetros de seu rosto, o que deixou um silêncio desconfortável por causa do que havia acontecido na aula de educação física.
— Até a festa. — ele disse.
— Até. — sorri e fui embora.
Como pude esquecer do encontro com Will? Quando cheguei à sala da banda já faltavam 15 minutos para o intervalo acabar. "Will vai me matar" pensei.
— Onde você estava?? — Perguntou, irritado.
— Desculpa, desculpa. Eu estava almoçando com Alex, e não vi o tempo passar.
— Sério? Eu me ofereci pra te ajudar a melhorar músicas que nem são minhas e você me troca por um carinha qualquer?
— Will, eu não estou te trocando...
— Quer saber? Vamos começar isso logo, tenho uns negócios para fazer antes da aula.
Eu sabia que aquilo era uma desculpa. Por que ele estava tão irritado? Eu conhecia Will, ele era meu melhor amigo, e ele nunca fora assim antes.
Ficamos uns 10 minutos tocando piano juntos e compondo novas vozes para as minhas músicas. No fim do intervalo, Will disse:
— Bom... Eu vou encontrar uns amigos antes da aula... – Acho que ele estava um pouco envergonhado por ter explodido antes. — As músicas ficaram boas. Você vai se sair muito bem esse ano, Carol.
— É, tomara. — olhei para os olhos dele. Havia alguma coisa que ele não estava me contando, mas o que era?
— Vou indo, tchau. — levantou e saiu.
— Tchau.
Fiquei lá, pensando. Acho que estou pensando demais, sempre faço isso. Que bom que a festa era essa noite, eu precisava relaxar.
Anna
Droga, estou apaixonada por ele.
Desde aquela aula de química meus sentimentos não fazem nenhum sentido, embora eu tenha realmente tentado entender o que eu sinto. Antes dele eu simplesmente sabia, não precisava refletir se gostava ou não de algo, como não precisamos pensar se estamos com fome ou sede. Era natural. Por que o amor precisa ser implícito? Eu poderia simplesmente olhar para ele e ouvir anjos cantarem enquanto um faixo celeste o iluminasse e teria certeza, o beijaria e seríamos felizes para sempre, mas ao invés disso eu tenho que sofrer com borboletas no estômago e falar coisas sem pensar o tempo todo. O amor te torna uma idiota indecisa.
Eu sempre disse que quando gostasse de alguém eu não iria aguentar e provavelmente contaria para a pessoa na hora, mas agora existe o fator e se. E se ele corresponder? Eu digo "okay, obrigada por corresponder, te vejo por aí." Claro que não. Eu quero beijá-lo, o que é super diferente para mim, é estranho e, principalmente, assustador. Eu nunca quis beijar nenhum dos garotos que quis ficar comigo, e nunca quis tanto ficar com alguém quanto eu quero ficar com Peter.
De repente me vejo pesquisando "melhores cenas de beijo do cinema" no Google, e percebo o nível do meu desespero. Eu era assombrada pela chance de ele não gostar de mim, assim como qualquer pessoa normal seria, mas também pela chance de ele realmente gostar de mim, e querer demonstrar isso com diversos movimentos musculares faciais e bocais, os quais eu não domino nem um pouco.
As cenas de filmes que eu encontrei eram todas muito irreais, e eu não iria me rebaixar ao nível de chupar limão, beijar o espelho ou sei lá o que, como era recomendado em alguns blogs — sim, tem gente que se presta a escrever sobre isso... — assim que eu desisti da minha pesquisa improdutiva (e apaguei o meu histórico do computador, para que ninguém visse os links de coisas do tipo "como beijar seu crush pela primeira vez", "ficando pronta pra hora do beijo" ou "treinos de beijo" no meu computador) me joguei na minha cama e fechei os olhos, recebi uma ligação. Peter. Claro que ele não podia ter escolhido uma hora pior. "Desculpa, não posso atender. Estou treinando para te beijar mais tarde"...
— Alô? Aqui é o Peter... — a voz dele estava diferente, não sei explicar como. — Você... Oi.
— Oi. — não deixei transparecer o quanto aquilo me parecia estranho... Bem estranho. — A que devo a honra de uma ligação tão ilustre às sete e meia da manhã?
— Como você vai pra escola hoje?
— Vou com o ônibus escolar — carona, carona, diga que vai me dar uma carona, assim eu tenho uma chance de te beijar — por que?
— Quer uma carona? Eu te levo se quiser.
Eu agradeço silenciosamente à Deus por essa oportunidade. "Claro!" Falo, sem nem parar para pensar. Desligo o celular sorridente e visto minha camisa favorita, um jeans rasgado e allstars vermelhos e desço as escadas correndo. Dou bom dia para os meus pais e um beijo na testa do meu irmão mais novo, Joey, e sigo correndo até o banheiro. Depois que meu irmão mais velho entrou para a faculdade a disputa pelo banheiro ficou tão menos acirrada, que eu nunca mais me atrasei para a escola ou precisei pentear os cabelos no ônibus. Então me deparei com uma das coisas mais fúteis que já cheguei a pensar: "se eu deixar meu cabelo solto isso provavelmente vai atrapalhar na hora de beijá-lo, não? Eu quero beijar Peter, não comer cabelo..." Fui para a frente de casa esperar por ele com o cabelo preso.
Enquanto esperava comi três balas de menta, prendi algumas mechas soltas e li o começo do primeiro ato de Hamlet, tudo por precaução.
De repente um carro parou na calçado e o rosto sorridente — e lindo — de Peter me olhou pela janela, me chamando.
Assim que me sento no banco da frente bate um desespero. "Vai ser muito estranho se eu beijá-lo assim, do nada? Claro que vai... Então eu chego devagar, como nos filmes? Eu ponho as mãos em seu pescoço? Eu devia ter pego o ônibus. Eu deveria ter ficado em casa." Aquele silêncio estava começando a ficar constrangedor, então decidi deixas de lado meus pensamentos histéricos e pôr em prática a minha teoria favorita: "você pode fazer qualquer coisa se parar de se questionar por 3 segundos".
1...
Respiro fundo...
2...
Vou chegando mais perto dele...
3...
— Oi! — disse uma voz vinda do banco de trás.
Olho para trás e vejo uma menininha loira de olhos verdes com uns seis anos de idade, sorrindo para mim.
— Pete falou de você! Vocês são namorados? Você é a Ann? Seu cabelo é lindo! Eu sou Dora.
Eu não sabia se ficava brava ou aliviada. Eu não iria beijar Peter na frente de uma criancinha, de um jeito ou de outro, então decidi desistir... Hoje os meus lábios continuariam intocados.
— Dora! O que eu falei antes?
— Seja legal com a Ann...
— Isso, seja legal com a Ann. — rindo, ele olhou para mim — desculpa, ela adoraria dar uma de cupido. Ann, essa é Dora, minha irmã. Dora, essa é a Ann, minha amiga.
A friendzone é um lugar triste e frio. A palavra amiga ecoou por minha mente, zombeteira. Alguns blogs dizem que a amizade é o primeiro passo, outros que é uma prisão de segurança máxima. Eu não deveria ter pesquisado tanto. Apesar disso, Dora é uma menina muito fofa e eu não consigo deixar minha depressão pós friendzone atrapalhar o resto do meu dia.
— Oi, Dora. Muito prazer, sou amiga do seu irmão. — amiga... Que nojo dessa palavra — você é muito linda!
Conversamos por um tempo, até que Peter estacionou na frente da escola de Dora. Ela desceu do carro, deu alguns passos saltitantes em direção à escola, mas voltou correndo, bateu na janela, e quando eu abri o vidro ela me encarou muito séria e perguntou:
— Você tem certeza de que não gosta do Pete?
Aqueles olhinhos verdes quase roubaram a verdade de mim, por dentro eu gritava "sim! Sim, eu gosto muito, eu vejo o seu rosto para onde quer que eu olhe, eu percebi o quanto eu era sozinha antes de conhecê-lo. Eu finalmente senti algo real. Eu gosto seu irmão, Dora, como eu nunca sonhei gostar de alguém!", mas eu simplesmente não podia. Se ele não gostar de mim eu vou ter não só acabado com as minhas chances com ele, mas também com toda a amizade que temos.
— Tenho, Dora. Temos que ir.
O resto do caminho até a escola não poderia ter sido mais silencioso, porque eu não encontrava uma frase que não deixasse claro que eu gosto dele ou que não fizesse parecer que não havia nada entre nós, e porque tinha medo que ele perguntasse o porquê eu disse aquilo, ou algo do tipo. Acabei de falar que tenho certeza de que não gosto de Peter em voz alta, com ele ao meu lado... Eu sabia que agora que a irmã dele não estava mais no carro era a minha chance, mas ela foi tão indiscreta que eu não sabia mais o que fazer ou não. Era como se aquela criança tivesse lido a minha mente. Eu sabia que não o evitaria para sempre, mas eu realmente não sabia como lidar com meus sentimentos e ficar calada e séria como um general russo estranhamente pareceu a minha melhor opção. Podia senti-lo olhando para mim, tentando achar uma brecha, falar sobre amenidades, ou ao menos ter uma conversa de elevador sobre a previsão do tempo, mas eu olhava fixamente para frente, fingindo que nada havia acontecido.
— Chegamos... — diz Peter, quebrando o silêncio. — Hum... Está tudo bem, Ann?
— Sim. Tudo bem — pude ver que ele não acreditou nem um pouco na minha resposta, mas tentou ser educado e fingiu acreditar.
— Okay. Onde você vai almoçar?
Sim, tudo o que eu preciso é passar muito tempo sozinha com ele, para rolar mais silêncio constrangedor ou rejeição. Mas ao mesmo tempo parte de mim quer estar perto dele, e combinamos de almoçarmos juntos depois da aula.
Quando o ultimo sinal tocou, encontrei Peter no refeitório e comemos pizza de queijo falando sobre assuntos desimportantes enquanto eu só pensava no quanto eu provavelmente seria a amiga para sempre.
— Quer sorvete, Ann? Eu pago.
Curiosamente muitos sites recomendam tomar sorvete com algum amigo para superar a friendzone, então eu aceito e vamos até uma praça perto da escola. Peter comprou dois sorvetes enquanto eu me sentava em um banco de frente para o lago. Assim que ele me entregou a casquinha eu olhei fixamente para ele, com um nó na garganta, e lágrimas lutando para não escorrem por meu rosto, e as palavras escapam de minha boca:
— Eu menti...
— O que? Pra quem?
Era realmente uma cena patética. Eu comecei a chorar e gaguejar, então Peter me envolveu em seus braços, me acalmando e eu finalmente consegui falar.
— Eu menti pra Dora...
— Quando? O que?
Eu o abracei forte, pensando que havia chance de em pouco tempo ele se desvencilhar de meus braços e ir embora, e nada seria como era antes, muito menos como eu havia imaginado.
— Ela olhou nos meus olhos e perguntou se eu tinha certeza de que não gostava de você, e eu consegui mentir. Eu menti para uma criança.
Eu cheguei ao fundo do poço e cavei mais um pouco... Agora eu vou ser ignorada ou viver o resto da minha vida constrangida, e nenhuma das opções me pareceu agradável.
— Me devolve o sorvete — disse ele muito calmo.
Depois de tudo isso ele apenas disse "me devolve o sorvete". Eu me afastei dele segurando aquela casquinha como se fosse tudo o que restou da minha dignidade. Como ele pôde me rejeitar e pedir o meu sorvete de volta com tanta naturalidade? Alguém capaz de fazer isso não merece ser considerado um ser humano. Eu entreguei minhas lágrimas e o meu coração, mas não entregaria aquele sorvete.
— Para que você precisa pegar o sorvete? Não basta só ir embora e me deixar aqui chorando sozinha? — disse cuspindo cada uma das palavras.
— Deixá-la? Eu só acho impossível beijar alguém enquanto toma sorvete.- disse ele, delicadamente pondo as duas casquinhas sobre o banco, e sorrindo para mim.
Seu rosto se aproximava a cada segundo, e eu já podia sentir a sua respiração se encontrando com a minha. E de repente nossos lábios se tocavam suaves como eu sonhei que seria. Eu, que antes estava perdida em pensamentos, só conseguia pensar em uma coisa. Pus uma mão em seu peito e me afastei, embora não quisesse, mas porque precisava.
— Peter, eu nunca aceitei beijar nenhum dos garotos que quiseram ficar comigo porque eu nunca gostei de nenhum deles. Mas eu gosto de você, e se você estiver brincando comigo, e eu dizer isso da maneira mais romântica possível, eu te mato.
— Eu realmente gosto de você Anna, eu me apaixonei por você durante essa semana, mas jurei que só eu fosse capaz de me apaixonar tão profundamente em tão pouco tempo, e fiquei com medo de perder sua amizade se me apressasse demais.
— Parece que é mais uma coisa que temos em comum.
Eu não podia conter o sorriso que brotava em meu rosto, e podia ver como os seus olhos verdes brilhavam ao olhar para mim, e então eu esqueci de tudo que eu havia tentado aprender para aquele momento, nenhum treino te prepara para um beijo sincero e apaixonado. E foi neste momento que eu percebi que nada mais seria como era antes.
Fechei os olhos e mergulhei em seu sorriso.
Voltamos para a escola de mãos dadas até certo ponto do caminho, mas então eu me lembrei da promessa que eu havia feito à Izzie, e disse:
— Desculpa, Peter. Se entrarmos assim eu vou acabar tendo que contar o que aconteceu para algumas pessoas que não podem saber ainda... Não leva pro lado pessoal, mas eu vou ter que soltar a sua mão. Desculpa.
Mas antes que eu me desvencilhasse ele me puxou subitamente e pôs um braço ao redor de minha cintura.
— Eu entendo. Confio em você. Mas por favor resolva isso rápido, pois eu não vou aguentar passar mais um dia fingindo que não há nada entre nós.
Seus lábios tocaram os meus novamente como a brisa que nos contornava naquela esquina ensolarada a duas quadras de Downtown High. Ao chegarmos aos portões me despedi dele com um beijo no rosto e saí correndo para o escritório do jornal da escola. Eu estava sorrindo feito uma idiota e esbarrando em todos pelo meu caminho. Precisava encontrar Izzie. Perguntei por ela a algumas pessoas do editorial, e descobri que ela tinha aula de gramática nesse período com a sra. Potts. Graças à Deus, essa mulher me ama. Cheguei na frente da sala sem fôlego, por ter atravessado a escola correndo. Parei para respirar um pouco, e assim que fiquei mais calma bati na porta e fiz minha melhor cara de aluna exemplar.
— Com licença, sora. Eu preciso falar com uma aluna sua.
— Olá, Anna! Com certeza, quem seria?
— Izzie — falei, olhando muito séria para ela, como quem diz "cala a boca e me segue".
Izzie me seguiu para fora da sala, irritada.
— O que foi? Para que me tirar da sala? É melhor que tenha um bom motivo.
— Não poderia haver um motivo melhor. Sabe o garoto que eu mencionei antes, quando voltávamos para casa?
Aparentemente meu olhar disse tudo, por que em um instante eu já estava sob seu abraço, e ela me olhava como uma mãe parabenizando um filho que tirou um A+ em um teste difícil.
— Não brinca comigo, Anna! Sério? Agora me conta quem é esse cara, ou eu vou ter que descobrir sozinha? Eu sou uma repórter, hein...
— Tudo que você quer é um furo de reportagem, mas okay, eu conto. É Peter Rambolt, da minha aula de química.
— Quem? O loiro de olhos verdes? Você não podia começar com calma? O teu primeiro peguete tinha que ser praticamente um modelo de cuecas?
Eu não sabia se ria ou mandava ela tirar os olhos do meu homem, decidi deixar de lado.
Izzie e eu conversamos durante muito tempo, já que ela queria saber de todos os detalhes. Contei a ela sobre o primeiro dia de aula, o jeito como concordávamos em relação a quase tudo, como os seus olhos cintilavam ao olhar para mim, as borboletas no estômago, e, quando eu estava me sentindo a pessoa mais piegas do mundo, a senhora Potts surgiu sob o marco da porta, parecendo preocupada, por isso sussurrei para Izzie:
— Finja que está abalada por que seu cão está no veterinário, no cio ou alguma coisa assim... Não entendo de cachorros.
Então a abracei e fingi consolá-la com frases como “o Totó vai ficar okay...”. Eu realmente não entendo nada de cachorros. Ela estava de costas para a professora e por isso sua risada deveria estar parecendo com um choro legítimo. A professora nos olhou com pena e sussurrou para mim que poderíamos ficar ali todo o tempo que precisássemos, e alguém passaria a matéria para Izzie quando ela se sentisse bem novamente.
Jullie
Finalmente era sexta, e os meus primeiros períodos eram de educação física. Isso quer dizer que vou o ver treinando, e ainda vou poder torcer por ele. No começo estava tudo bem. O treino estava sendo ótimo, até que Alice começou a discutir comigo por causa das posições das pessoas.
Depois de alguns minutos, vi que Alex não estava mais no campo. Fiquei tão preocupada, até que o vi na arquibancada com Carol. Perguntei para Andy o que tinha acontecido, e ela me explicou que ele caiu. Quando ela disse isso, eu saí correndo pra ver se ele estava bem, até porque ele tinha feito o mesmo por mim no dia anterior.
— Alex! Ai meu Deus, você está bem? Eu vi que se machucou, e vim correndo para cá!
— Ah, sim, estou bem. Carol está cuidando de mim.
— Que ótimo. Esta doendo?
— Não mais.
Fiquei meio aliviada por ouvir aquilo, e muito feliz por Carol ser tão prestativa. Então ela disse:
— Bom, está pronto. Espero que esteja melhor.
— Sim, está ótimo. Muito obrigado.
Ele deu um beijo no seu rosto, e ela saiu andando, deixando nós dois sozinhos.
— Tem certeza que você esta bem?
— Aham, a Carol cuidou bem de mim.
Assim conversamos mais um pouco até que voltei pras cheerious.
Quando a aula estava quase acabando, Adam se aproximou de nós, e Andy corou na mesma hora.
— Oi, Jullie.
— Oi, Adam.
— Oi, Andy. – Disse ele com um sorriso malicioso. Estava bem na cara que ele quer ficar com ela, mas ela fica bancando a difícil.
— Oi, Adam. – Disse ela com vergonha, porém animada.
— Estão, Jullie, como está o Alex?
— Está tudo bem. Não foi nada grave.
— Ah, okay então.
— Bom, nós temos que ir agora. – Na verdade, nós não tínhamos, mas Andy parecia envergonhada.
— Esperem! Hoje à noite eu vou dar uma festa lá em casa, e quero vocês lá. – Ele nos chamou de volta.
— Claro, com certeza vamos. – Respondi de prontidão.
— Andy, depois eu passo meu endereço e a hora que vai começar.
— Ah, tá bom. – Ela me olhou com um sorriso de felicidade. Ela realmente gosta dele, e ele da em cima dela há um bom tempo, só falta ficarem.
— Agora que já disse meu comunicado, vocês podem ir. – Deu um beijo rápido em meu rosto e, com calma e cuidado, deu um beijo na bochecha de Andy. Quer dizer, foi mais no canto da boca do que na bochecha, mas isso não precisamos comentar.
Ele saiu e fomos para a direção oposta.
— O que aconteceu ali? – Perguntou-me Andy.
— Não sei, mas com certeza vamos a essa festa.
Fomos nos encaminhando para o vestiário, e a minha aula acabou por aí.
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