Downtown High

6 Other Point Of View


Notas iniciais
Capítulo escrito pela mesma autora dos subcapítulos de Ann, que mostra o ponto de vista de Peter sobre os acontecimentos da semana, e seus sentimentos por ela. É recomendado a leitura do capítulo acompanhada da reprodução das seguintes músicas: Roberta Flack - The First Time Ever I Saw Your Face Kenny Chesney - You Had Me From Hello Boa leitura!

Peter

Finalmente a espera acabou.

O que você está prestes a ler são todas as mais importantes lembranças dessa semana, todas girando ao redor da pessoa mais importante para mim em muito tempo.

Naquela segunda-feira eu conheci a garota pela qual eu tanto esperei. Ela é linda, inteligente, engraçada. Você não imagina o alívio que é finalmente encontrar alguém que entenda suas piadas sobre Shakespeare.

Eu conheci Ann a dois anos atrás, mas nunca nos falamos — uma atitude da qual me arrependo plenamente — porém, no primeiro dia de aula finalmente tivemos essa chance.

Ela chegou ao laboratório com aqueles cabelos deslumbrantes, roupa impecável e olhar penetrante. Pude jurar que aquela garota podia ler minha alma. A professora de química acabou tendo uma importância enorme na minha vida quando a colocou como minha dupla de laboratório.

— Prazer, meu nome é Anna. – ela disse, sem me reconhecer dos anos anteriores, e instantaneamente senti uma pontada no coração, mas eu não deixaria que isso me abalasse.

— Oi, sou Peter, você deve se lembrar, eu fiz literatura com você no ano passado.

Depois de alguns segundos de silêncio constrangedor Ann me reconheceu.

— Desculpa, é claro que eu lembro de você. Você declamou Shakespeare na aula com perfeição.

— Duvida da luz dos astros, de que o sol tenha calor, duvida até da verdade...

Ah meu Pai... Eu acabei de declamar um soneto de amor eterno para uma garota que eu acabei de conhecer. O que eu estou fazendo? Ninguém decora esse tipo de coi...

— ... Mas confia em meu amor... — ela completou com facilidade.

Parece que alguém além de mim decora esse tipo de coisa. Essa garota é demais. Podemos nos casar agora, por favor?

— Sim! Exatamente assim! Eu adoro Hamlet, mas acho que Sonho de Uma Noite de Verão é o meu favorito. – eu estava animado demais com minha nova dupla nessa aula. Conversamos sobre todos os tópicos mais interessantes, desde música e cinema a literatura infantil — Juddy Moody arrasa.

Finalmente alguém para conversar ao invés de fazer os exercícios. E não vou nem mencionar a beleza estonteante daquela garota, aqueles lábios carnudos agiam como um imã sobre mim, me puxando para perto, me fazendo imaginar pegando-a pela cintura e a envolvendo em meus braços, em uma confusão de línguas e sentimentos... Okay... Passei dos limites de pensamentos piegas por então. Ela interrompeu meus pensamentos — algo que eu ficaria feliz de que ela fizesse mais vezes — dizendo:

— Você percebeu que durante esses dois anos nós passamos um pelo outro sem nem pensar em conversar, e aqui estamos nós agora...

— Eu realmente queria ter notado antes que você não era só mais uma daquelas garotas bonitas e sem conteúdo.

Claro que ela notou que eu estava flertando. Eu sou horrível nisso, mas foi inconsciente. Ela simplesmente fez com que isso brotasse e saísse pela minha boca. Com um sorriso tímido — e nem preciso mencionar, lindo — ela deixou a sala. Eu fiquei imensamente surpreso comigo mesmo naquele dia. Eu nunca pensei que algo assim poderia acontecer comigo, que passei dezessete anos da minha vida incólume no âmbito amoroso, e de um minuto para outro sou fisgado por sentimentos que eu nem mesmo sabia que tinha.

A próxima vez que a vi foi na quarta-feira, quando fui até a secretaria entregar alguns testes para o xerox. Eu deveria apenas entregá-los e voltar à aula de história, mas de que vale aprender sobre os outros e perder uma oportunidade de fazer a sua própria história?

Nós conversamos sobre romances vitorianos e filosofia básica durante quase todo o período até que as cópias ficaram prontas, e quando eu saía do local o sinal do fim do período soou e ela pôde me acompanhar até a sala do sr. Nesson. Talvez eu tenha mentido para ele sobre o motivo da minha demora, mas ele não pareceu se importar.

Seguimos juntos pelos corredores até que ela quebrou o silêncio com uma pergunta.

— Eu me lembrei de uma coisa agora. Você gosta de festas?

— Depende da companhia. — falei em tom de flerte. Um flerte ruim.

— Então você vai amar, pois eu vou estar lá! Minha amiga Lauren vai dar uma festa nesta sexta-feira, na casa dela. Quer ir comigo?

Eu travei, e perdi a habilidade da fala por um microssegundo.

— Com você? Tipo, nós dois? Como em um enc...

— Não! — ela gritou subitamente — Escolhi as palavras erradas. Quer ir nessa festa... Que eu vou. Com várias outras pessoas também... — não foi dessa vez.

— Sim. Claro. Eu te busco na sua casa... Porque eu não sei onde ela mora. E não vou te deixar ir sozinha, de noite... — cala a boca Peter.

Apesar da confusão da manhã — flertes ruins e um falso convite para sair — Ann voltou de carro comigo da escola, eu a deixei em casa e me arrependi de não a beijar lá mesmo, mas, parafraseando minha mãe, tudo ocorreu por um bem maior.

Na quinta-feira eu dei carona para ela novamente, mas nós praticamente não conversamos, já que eu estava muito ocupado sendo interrogado por Izzie, uma amiga de Ann, que escreve para o jornal da escola.

— Então, Peter, você tem namorada? Conhece a Ann desde quando? Em quantos encontros você foi no último ano? — E quando parecia que ela tinha terminado... — Ah! Esqueci... Quais são as suas intenções com a minha amiga?

A pergunta mais interessante a ser feita naquele momento era: Como responder a isso sem me denunciar e/ou parecer um stalker? Decidi apenas responder da maneira mais sucinta possível.

— Não, segunda-feira e nenhum, quanto às intenções... Essa é uma pergunta capciosa... Digamos que no momento ela é minha amiga.

"Ela pode pensar que eu a estou deixando na zona da amizade, pode não notar ou eu posso estar sendo deixado na tal zona. Ou eu estou delirando." Pensei.

— Eu estou fazendo uma reportagem sobre relacionamentos, sabe, pode me ajudar? Você disse que não foi em nenhum encontro no ano passado, certo? Porquê?

Eu não fazia ideia de quem essa garota era até dez minutos antes, e ela já estava querendo saber tudo sobre mim. Calma aí tiazinha. Ainda assim respondi com sinceridade a todas as perguntas dela.

— Eu gosto da ideia de encontrar a garota certa. Aquela que te faz sentir diferente, te torna alguém melhor.

— Hum... E como essa garota seria? — Disse ela curiosa, e talvez um pouco sarcástica.

— Engraçada, bonita, inteligente... Alguém com a qual eu possa conversar por horas sobre qualquer coisa, e nunca deixar de ser interessante. E que não use crocs!

Eu poderia ter descrito Ann mais escancaradamente, mas eu não quero que pareça que eu a estou pressionando.

Izzie continuou me interrogando, até que as deixei na rua delas.

— Não use essas respostas para criar uma conta minha no Tinder. Adeus, Julieta!

No caminho até a minha casa eu fiquei refletindo sobre tudo que havia ocorrido a alguns minutos. Talvez Ann tivesse pedido que Izzie a ajudasse a descobrir essas coisas por que tinha vergonha de perguntar, mas eu duvido dessa opção, porque Ann não pareceu muito confortável com as incessantes preguntas feitas pela amiga. Ela poderia apenas desconfiar de que Ann goste de mim e resolveu ver se dava sua benção.

A sexta-feira chegou, e a vontade de vê-la e beijá-la aumentava a cada minuto. Esse sentimento estranho em meu estômago que eu sinto a cada vez que nos falamos começou suave e doce, mas depois de quase cinco dias já havia se tornado insuportável, e cada vez que o sentia era uma lembrança de que eu não a tinha em meus braços. Mas hoje seria a festa de Lauren e até o fim do dia algo iria acontecer, eu podia sentir isso.

Eu me vesti e tomei um café forte enquanto me preparava psicologicamente para ligar para Ann, eu já tinha o plano em mente, tudo preparado e hoje eu iria contar para Ann o que eu sinto por ela — se até lá eu puder pôr em palavras.

— Alô? Aqui é o Peter... — eu estava exalando nervosismo — Você... Oi.

Eu já falei com ela por telefone antes. Já dei carona para ela antes. Já inclusive deixei meus sentimentos subentendidos muitas vezes durante esse curto período em que nos conhecemos. Mas hoje eu pretendo fazer algo que nunca fiz antes, para uma pessoa que é como nenhuma outra jamais foi.

— Oi. A que devo a honra de uma ligação tão ilustre às sete e meia da manhã?

— Como você vai para a escola hoje?

— Vou com o ônibus escolar, por que?

"Por que eu penso incessantemente em nossos dedos entrelaçados, e nossas bocas se tocando" pensei, mas ao invés disso, falei apenas:

— Quer uma carona de novo? Eu te levo se quiser.

Ela aceitou e fui para o quarto buscar meus livros, quando minha mãe apareceu sob o marco da porta.

— Bom dia, querido. Você pode levar Dora para a escola hoje? Estou atrasada para uma reunião. — Antes que eu tivesse a chance de argumentar ela virou-se de costas e foi correndo para fora — obrigada! — Gritou no fim do corredor.

Eu não tinha opção, palavra de mãe é irrevogável nessa casa, então respirei fundo e fui para o quarto de Dora.

— Bom dia, princesa. Está pronta? Nós vamos buscar uma amiga antes de irmos à sua escola, okay?

Ela ficou radiante, e começou a girar e agarrar a manga do meu suéter.

— Você arranjou uma namorada? Ela pode vir tomar chá comigo um dia! Pode ser hoje? Qual o nome dela?

Obrigado, criança, por acabar, da maneira mais fofa possível, com todas as minhas chances de beijar a garota perfeita nessa manhã.

— Dora. Eu preciso que você fique calminha e seja super educada. Eu sei que você consegue. Lembra que eu te falei que fiz uma nova amiga, a Ann? Eu gosto dela. Não estrague tudo. E estou contando com você.

Ela concordou solenemente:

— Os irmãos mantém os seus segredos! — Disse, jurando de minguinho.

— Os irmãos mantém os seus segredos.

Buscamos Ann na porta da casa dela e, caramba, ela estava deslumbrante. Dora começou a fazer perguntas, para variar, mas nada vergonhoso, até que Dora desceu, se despediu e foi até a escola. Ou quase. No meio do caminho ela deu meia volta e retornou saltitante até a janela do carona. Eu podia ver em seus olhos que ela iria aprontar alguma coisa.

— Você tem certeza de que não gosta do Pete?

Droga, Dora. Minha irmã consegue ser a pessoa mais irritante do mundo quando quer. Agora seria assombrado por qualquer que fosse a resposta que ela desse.

O silêncio pairou sobre nós por alguns segundos, quando ela olhou indecisa para mim, e de volta para Dora, dizendo:

— Tenho, Dora. Temos que ir.

Certeza.

Essa é uma palavra é muito forte e definitiva. Eu me agarro a esperança de que se ela gostasse de mim, contaria primeiro para mim, e não para minha irmã inconveniente de seis anos de idade. Eu refleti sobre isso durante todo o trajeto restante, olhando para Ann de quando em quando, mas sem coragem de tocar no assunto.

— Chegamos... — quebrei o silêncio quase palpável entre nós — Hum... Está tudo bem, Ann?

— Sim. Tudo bem.

Nada estava bem... Eu teria que recalcular todo o meu plano anterior, mas não desistiria de descobrir se meu sentimento era reciproco. Pensei rápido e a convidei para almoçar comigo. Ela pareceu relutar, mas enfim aceitou polidamente.

Eu tive quatro períodos para decidir o que eu iria fazer. Decidi deixar claro que gosto dela com atitudes antes de palavras, com o sinal universal de amor eterno: Sorvete. A escola vende sorvetes, mas eu queria um lugar calmo e privado para poder falar sem perder o controle ou ser interrompido. A praça do lago era a escolha perfeita, com os bancos e o pedalinho.

Almoçamos na escola mesmo, a assim que terminamos de comer eu a chamei para o famigerado sorvete. Nos dirigimos à saída, e eu pus as mãos nos bolsos para que ela não percebesse o meu nervosismo, minhas palmas estavam ficando encharcadas, mas já era tarde demais para desistir. Eu não queria desistir.

Ann se sentou em um banco de frente para a fonte do lago enquanto eu comprava duas casquinhas com um senhor muito simpático, vê-lo de algum jeito me deixou mais calmo. Assim que me voltei para Ann ela estava vermelha, como quem não poderia segurar as lágrimas por muito tempo.

— Eu menti. — disse ela, parecendo cada vez mais nervosa.

Sem compreender o sentido de tais palavras nem o motivo das lágrimas que insistiam em correr pelo seu rosto, eu apenas a abracei, sentindo seu cheiro, tentando acalmá-la da melhor maneira que pudesse e pude sentir suas mãos se agarrando às costas da minha camisa.

— Eu menti pra Dora...

Eu continuava confuso, tentando lembrar uma oportunidade em que ela pudesse ter mentido para Dora, principalmente algo que a fizesse chorar desse jeito.

— Quando? O que?

Ela me abraçou mais forte e falou de modo meramente audível:

— Ela olhou nos meus olhos e perguntou se eu tinha certeza de que não gostava de você, e eu consegui mentir. Eu menti para uma criança.

Por alguns segundos tudo o que eu consegui fazer foi olhar para ela.

O momento pelo qual eu tanto esperei havia finalmente chegado.

— Me devolve o sorvete. — disse sem perceber o quanto isso soava rude para ela, que não sabia o que se passava em minha cabeça.

Ela se afastou limpando o rosto das lágrimas que haviam passado por ali, e subitamente irritada pela minha escolha errada de vocabulário, respondeu ríspida:

— Para que você precisa pegar o sorvete? Não basta só ir embora e me deixar aqui chorando sozinha?

Ai garota. Esse é o pior jeito de se declarar que existe, mas não precisava me julgar como alguém capaz de fazer tal maldade.

— Deixá-la? Eu só acho impossível beijar alguém enquanto toma sorvete.- disse pondo as duas casquinhas no banco e abrindo um grande sorriso, que eu não pude conter.

Eu cheguei cada vez mais perto, e, com os olhos fechados podia sentir sua presença, cada vez mais próxima, quando em um instante quase divino nossos lábios se tocaram.

Eu estava realizando um sonho, finalmente beijando a garota perfeita, que roubou meu coração em menos de um período, quando de súbito ela pôs as mãos em meu peito e se afastou.

— Peter, eu nunca aceitei beijar nenhum dos garotos que quiseram ficar comigo porque eu nunca gostei de nenhum deles. Mas eu gosto de você, e se você estiver brincando comigo, e eu vou dizer isso da maneira mais romântica possível, eu te mato.

Eu mal tinha acabado de a beijar pela primeira vez e ela já estava me ameaçando de morte. Eu havia me apaixonado por aqueles olhos decididos, aqueles lábios macios, por tudo que se referia a essa garota, que não tem medo de me falar exatamente o que sente, que não precisa fingir ser perfeita nem mesmo após nosso primeiro beijo, e isso a fazia perfeita aos meus olhos.

— Eu realmente gosto de você Anna, eu me apaixonei por você durante essa semana, mas jurei que só eu fosse capaz de me apaixonar tão profundamente em tão pouco tempo, e fiquei com medo de perder sua amizade se me apressasse demais.

— Parece que é mais uma coisa que temos em comum.

Eu não pensava mais sobre tudo que deu errado durante esse dia, ou antes disso, só pensava no momento em que estávamos, naquela linda praça rodeada de plátanos, finalmente tão perto um do outro, finalmente fazendo o que ambos queríamos desde que nos conhecemos. Em um romance relâmpago como Romeu e Julieta, mas, espero eu, sem nenhuma morte no final.

Digamos que não conseguimos falar muito depois disso...

Com um sorriso impregnado no rosto e os dedos entrelaçados estávamos a algumas quadras da escola, atrás de um muro coberto de flores, onde demos mais alguns beijos, mas infelizmente ela tinha motivos que a impediam de chegar na escola de mãos dadas comigo, segundo ela "pessoas que não podiam saber ainda". Os dedos se afastaram, mas os sorrisos permaneceram, e qualquer um que perdesse alguns segundos nos analisando perceberia que algo incomum estava acontecendo conosco.

Eu acompanhei com o olhar enquanto ela se afastava pelos corredores de Downtown, tão realizada quanto eu, ansiando pelo dia em que caminharíamos por esses mesmos corredores independente dos olhares e opiniões alheias. Naquele mesmo instante eu percebi que não conseguiria aguentar mais nenhum dia sem seus olhos sorridentes sobre mim. Nada nesse mundo havia antes feito com que eu me sentisse assim, ao mesmo tempo seguro e sem fôlego, com os pés no chão em pleno voo.

Eu acho que amo essa garota.

Eu amo essa garota.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.