Downtown High
4 Deep Thoughts
Notas iniciais
Anna
Você já sabe, eu prefiro Miles Morales como Spider Man.
Esse é exatamente o tópico que eu propus a Oliver para a primeira reunião anual do clube. Ele é um moreno alto com uma voz suave que não combina nada com seu porte físico, e é meu amigo desde alguns anos atrás, quando Will me apresentou para ele, que na época era recém-chegado na escola. Eu e ele notamos que a coisa sobre a qual mais falávamos era o universo dos super-heróis, e decidimos criar um clube para discutirmos esse assunto mais profundamente com outros amantes de HQs. Juntaram-se a nós os nerds profundos, os moderados, alguns fãs dos filmes — pobres desinformados... — e poucas pessoas com alguma influência na pirâmide social da escola.
Até que Jullie apareceu...
Não apareceu de verdade, bem... Eu e Oliver colamos algumas folhas pela escola, onde os interessados pelo clube deveriam escrever seus dados. Estava normal até que percebemos o nome de Jullie. Sim. Jullie. A vaquinha queria pastar por aqui...
Meu pasto, minhas regras — pensei, sem perceber o quanto é estranha a frequência com que esse tipo de pensamentos passa pela minha cabeça.
Só havia duas opções:
Primeira: Jullie achou que seria engraçado ver a reação dos nerds ou...
Segunda: Ela é uma nerd enrustida.
A segunda opção é improvável, Jullie é uma JAC, ela lê revistas adolescentes sobre a coleção de bonés do Justin Bieber ou sobre a bunda da Nick Minaj, não HQs... Ela provavelmente nem sabe quem é Stan Lee.
Eu e Oliver trocamos olhares de estranhamento quando vimos aquela ortografia perfeita no papel. Embora ele não tenha dito nada, eu sabia que ele temia tanto quanto eu pelo que poderia acontecer se ela entrasse para o clube.
— Ela poderia ser uma mutação genética, um vírus... Então criaríamos um antídoto contra ela, e a escola estaria livre. Mas então outra cheerleader assumiria o seu lugar e tudo voltaria ao que é.
— Claro que não, Anna, ela é uma pessoa. Talvez... Se ela fosse como o Kilgrave, que emite um vírus que faz com que todos o obedeçam...
— E apenas nós somos imunes... Como duas lindas Jessicas Jones.
— Sendo mutante ou não, vilã ou heroína, ela não parece que vem ao clube, todos os outros já chegaram... — disse Oliver, visivelmente aliviado.
E ele estava certo, ela não apareceu. Nós e os outros participantes discutimos DC vs MARVEL, e claro que a MARVEL tem mais seguidores e fans — sim, sou fangirl eterna — e a DC é muito menos amada.
Super herói do dia: Garota Esquilo.
Quando eu saía da sala e me despedia de todos os meus nerds favoritos, Izzie chegou exausta e sem ar, e teve que recuperar um ritmo razoável de respiração antes de falar alguma coisa.
— Ah, meu Deus... — disse ela, se acalmando — eu te procurei pela escola toda, e ninguém sabia me informar em que sala esse clube fica. Meu pai não pode vir nos buscar.
— Problemas no restaurante de novo?
— Joseph está doente. Meu pai está tendo que trabalhar dobrado, e não vai poder vir. Quer ir a pé? — soou tão desanimada quanto eu diante da ideia de andar até o nosso bairro.
Imediatamente comecei a procurar por meu celular, que estava no fundo da mochila — como sempre... — e liguei para Peter. Enquanto ele não atendia, expliquei para Izzie, que me encarava tentando decifrar o que eu pensava:
— Eu tenho uma ideia melhor do que andar, mas não sei se você vai gostar muito.
— Gostar de que? — disse Peter, ao atender minha ligação.
— Ah. Oi! Onde você está?
— Passando pela sala de música, indo para o estacionamento, por que a pergunta?
Izzie me encarava ansiosa. "O que você está fazendo?" ela sussurrou impaciente.
— Eu preciso de uma carona. Eu e uma amiga, na verdade. Você conhece algum lindo cavalheiro disposto a nos levar para casa?
— Me encontrem lá fora.
Izzie revirou os olhos e sussurrou um sarcástico "oh, meu lindo cavalheiro".
— Cala a boca!
— Ahn? — disse Peter confuso.
— Não você... Falei para Izzie, — Olhei provocativa para ela — eu nunca mandaria meu belo Romeu calar a boca.
Assim que desliguei o telefone fomos em direção à saída da escola, onde Peter nos encontraria.
— Se os dois pombinhos pretendem ficar sendo melosos, é melhor me avisar, e eu vou andando para casa, Julieta.
— Nada a ver. Cala a boca, Izzie... Se você falar alguma coisa comprometedora eu juro que te mato.
Mesmo com minha ameaça de morte, ela permanecia parada ao meu lado, com aquele sorriso desafiador em seu rosto. Anna + Peter + Izzie x um carro pequeno cheio de silêncio para preencher... Essa realmente foi uma das piores ideias que eu já ousei ter na vida, pior até do que quando eu engoli um prego aos quatro anos de idade.
— Olha... Você é minha amiga. E eu realmente acho que posso vir a gostar dele, ou já gosto... Eu não sei. Mas, por favor, não estrague tudo.
— Oi garotas! — vi seu rosto sorridente nos convidando a entrar.
Sentei no banco da frente, ao lado de Peter, que me cumprimentou com um beijo na bochecha, e pude ver Izzie, no banco de trás, se segurando para não ter um ataque.
— Então, Peter, — falou a jornalista, começando mais uma entrevista — você tem namorada? Conhece a Ann desde quando? Em quantos encontros você foi no ultimo ano?
Sim. Era exatamente isso que eu temia que ela fizesse. Só faltou a famigerada frase: "quais são suas intenções com a garota?".
— Ah! Esqueci... Quais são as suas intenções com a minha amiga? — disse ela se corrigindo.
Claro que ela não iria esquecer... Ela é uma grande jornalista, e uma amiga preocupada, até demais.
— Não, segunda-feira e nenhum – Falou, respondendo a todas as perguntas de uma vez só — quanto às intenções... Essa é uma pergunta capciosa... Digamos que no momento ela é minha amiga.
Boom! Friendzone contra-ataca.
Esforcei-me para soltar um sorriso, e conter aquilo que subia e descia em minha garganta, forçando as lagrimas a saírem. Mas elas não saíram, eu nunca me permitiria ser tão envergonhada por mim mesma.
Você provavelmente deve estar pensando "vocês gosta dele, beija logo, mulher!", mas eu não sei. Eu não sei se gosto dele de verdade, não sei se ele gosta de mim, não sei se aguentaria uma rejeição. Eu praticamente não sei de nada.
— Eu estou fazendo uma reportagem sobre relacionamentos, sabe — falou mentindo, para obter respostas — pode me ajudar? — ele concordou com a cabeça e ela continuou — você disse que não foi em nenhum encontro no ano passado, certo? Por quê?
— Eu gosto da ideia de encontrar a garota certa. Aquela que te faz sentir diferente, te torna alguém melhor.
— Hum... E como essa garota seria?
— Engraçada, bonita, inteligente... Alguém com a qual eu possa conversar por horas sobre qualquer coisa, e nunca deixar de ser interessante. E que não use crocs!
Izzie continuou interrogando-o até chegarmos a nossa rua. Quando saímos do carro Peter gritou:
— Não use essas respostas para criar uma conta minha no Tinder. Adeus, Julieta!
Assim que cheguei ao meu quarto liguei o computador e assisti um dos meus filmes favoritos, As Crônicas de Narnia, Príncipe Caspian, o qual eu já sei todas as falas de cor, conheço todas as cenas como se eu as tivesse escrito, e toda vez que assisto, sonho acordada sobre o meu valente príncipe encantado, que enfrentaria milhares de monstros por mim, e no fim, após uma linda dança ao som de Regina Specktor, nos beijaríamos e seríamos felizes para sempre.
Eu sei, não tenho mais oito anos de idade, e nunca vou ter um unicórnio, mas eu ainda posso ter meu príncipe da Disney.
"Peter" pensei automaticamente.
Até aquele dia eu havia sonhado com um príncipe, um Caspian, Pedro ou até mesmo um Edmundo, mas nunca havia pensado em alguém em especial durante meus devaneios, e isso me deixa muito confusa. Como a pessoa pouco sentimental que sou, eu não faço ideia do que está acontecendo comigo, e não sei lidar com isso.
De repente me imagino em grande salão narniano, rodopiando nos braços de Peter, sentindo suas mãos em minha cintura, nos movendo em harmonia em cada movimento.
Tento afastar esse pensamento, mas o coração grita mais alto. Eu só não sei o que ele quer dizer. Ainda.
E então, depois de mediar uma disputa ferrenha entre meu cérebro e meu coração, eu caí no sono.
Carol
Logo antes do almoço de quinta-feira eu tinha um período livre, onde a maioria dos alunos estudava ou terminava um trabalho pendente, enquanto eu normalmente aproveitada para seguir com minha tradição de procrastinar incessantemente.
Decidi passar esse tempo no pátio. Vários casais abraçados e falando baixinho se encontravam sentados em bancos e sob árvores. Peguei-me pensando se eu iria ocupar aqueles espaços em um futuro próximo. Alex...
“Não. A vida não se resume a meninos” disse a mim mesma, tentando focar em algo mais produtivo, como um bom livro ou partituras a serem arrumadas. O futuro, como minha mãe costuma dizer, é algo com o qual não devemos nos preocupar. Se for para ser, será.
Fiquei repetindo essa última frase continuamente, a ponto de estar praticamente a pronunciando em um sussurro, coisa que proporcionou o comentário:
— O que é para ser? – Amanda chegou da sua aula de inglês.
— Ah... Nada, não. Vamos almoçar?
Alex e eu também tínhamos aula junto nas quintas à tarde, dessa vez de história. Ele estava sempre olhando para mim e eu para ele durante a aula. Não sei o que isso significa, só sei que as cheerious também olhavam para ele, o que me deixava furiosa. Eu achava que estava tendo alguma chance com ele e elas querem roubar isso de mim. Hell to the no!
Alex e Jullie estavam fazendo um trabalho em dupla. O que? Como assim? Aquela garota faz dupla com aquele anjo, enquanto eu tenho que fazer com um tal de Josh, um menino do xadrez, só porque meus amigos não estão nessa turma.
Depois que a aula acabou, Alex me procurou e disse:
— Sabe de uma coisa? Eu já sei até o endereço dessa sua amiga, mas não conheço o rosto dela, e aposto que ela não me conhece também. Posso conhecê-la?
— Você quer conhecer Lauren?
— Sim.
— Sério?
— Sério.
— Hm... Ok...
Caminhei com Alex pelos corredores até achar Lauren. Quando me viu, abriu um sorriso e um olhar de quem estava louca para ver o que iria acontecer.
— Oi Carol, quem é esse? — Perguntou, apontando para Alex sarcasticamente.
— Lauren, esse é Alex, e Alex, essa é Lauren.
Os dois se cumprimentaram de uma maneira tão formal que nem reconheci minha amiga direito.
— Então é você a anfitriã de amanhã?
— Sou sim. Então é você o convidado especial da Carol?
Dei uma cotovelada nas costelas de Lauren. Não era pra ela ter usado a palavra "especial". Sóme fazia ficar com mais vergonha.
— Pelo visto, sim. — Disse Alex, fitando seus olhos em mim.
Após um grande silêncio preenchido por olhares, Lauren disse:
— Okay, foi bom te conhecer, mas precisamos ir para aula de biologia. Te vejo amanhã.
— Tchau, Alex — Disse eu, tímida.
— Tchau. — Disse ele, abanando.
Após termos virado o corredor, Lauren comentou:
— Anjo? Sim. Sorriso lindo? Sim. Mas você viu aquela bunda? Meu deus!
Rindo, entramos na sala de aula, faltando pouco mais de 24h para aquela noite tão esperada.
Jullie
No dia seguinte fiz a minha rotina de sempre. Vesti-me da melhor maneira possível, fiz uma maquiagem e sai para buscar Andy.
Quando chegamos à escola, passamos pelas plásticas – o que não foi nada legal. Uma delas colocou o pé para Andy cair. Se não fosse pelo crush dela, que estava passando na mesma hora, acho que ela teria caído de cara no chão.
Minha primeira aula infelizmente era cálculo. Não gosto de matemática, e não consigo gostar. Parece que quanto mais eu estudo, mais difícil fica. Meus segundo e terceiro períodos foram de alemão. Adoro fazer uma língua diferente, talvez no próximo ano eu até faça francês. Deve ser super divertido, já que dizem que é a língua do amor.
Finalmente o almoço. Acho que nunca comi tanto. Estava tudo tão bom, mas tenho que começar a comer menos e cuidar da minha forma, se não vou engordar.
Encaminhei-me para minha aula de história. Tantas coisas aconteciam no corredor. As plásticas tirando sarro de uma menina meio gordinha, alguns casais se beijando... Até que vi Alex em seu armário, e decidi falar com ele.
— Oi.
— Oi.
— Vamos para a aula de história? – Convidei.
— Claro.
Fomos andando juntos até a sala, e, quando chegamos lá, sentamos perto um do outro. Então a aula começou... Vi que de vez em quando ele olhava para Carol, e ela para ele. Será que estava acontecendo alguma coisa? Será que eu estou atrapalhando algo? Acho que sim, porque nesse mesmo momento ele me contou que ela o havia convidado para uma festa na casa de uma tal de Lauren.
— Você vai? – Ele perguntou, tímido.
— Acho melhor não, tenho um monte de coisa de alemão para fazer. – Falei a primeira desculpa esfarrapada que passou pela minha cabeça.
— Hum... Okay, então.
Ficou um silencio que eu não queria que tivesse ficado. Eu não sabia como quebrar aquilo. Será que eles estão juntos? E se estiverem, o que eu faço? Deixo para lá, ou tento correr atrás do único menino que já gostei?
Quando a aula acabou, nos despedimos e fomos cada um para um lado. Não conseguia pensar em nada a não ser isso, então decidi faltar o clube de quadrinhos, e ir embora mais cedo. Antes que você se pergunte, sim, eu faço parte do clube de quadrinhos, mas isso só irei comentar em outro momento.
Quando cheguei em casa, tranquei-me no quarto e me joguei na cama. Eu só queria paz para pensar em tudo o que estava acontecendo, em tudo que poderia acontecer. Não demorou muito, e minha mãe entrou no quarto perguntando o que tinha acontecido e porque eu tinha voltado mais cedo. Eu contei tudo a ela, realmente desabafei. Quando eu terminei, ela disse:
— Filha, você gosta mesmo dele?
— Acho que sim.
— Então lute por ele. Nunca vi você falar tão bem de um garoto antes.
— Pois é. Ele é incrível, mas eu posso ter o menino que quiser, e, por mais que Carol seja bonita, sei que ela não tem uma lista muito longa...
— Mas o que adianta ter o garoto que quiser, e sofrer por aquele que não tem?
Com essa última frase, minha mãe saiu do meu quarto, e eu me joguei na cama mais uma vez. Tomei um banho, e, quando sai, vi que tinha alguém me ligando. Assim que peguei o celular, vi que era Alex. Atendi sem pensar duas vezes, e ele disse:
“Oi.”.
“Oi.”.
“Não te vi na saída da escola hoje.”.
“Ah, é que eu voltei mais cedo, não estava me sentindo muito bem...”.
“Hum... Mas você está melhor? Vai à aula amanhã?”.
“Claro, não faltaria por nada, até porque eu vou estar torcendo por você, já que é seu primeiro treino. ”.
“Verdade, tinha me esquecido disso. Estou um pouco nervoso.”.
“Haha, não fique, sei que você joga muito bem.”.
“Obrigado. Bom, tenho que desligar, te liguei só para saber se você estava bem.”.
“Então tá. Tchau.”.
“Tchau.”.
E assim terminou nossa segunda conversa por telefone. Pode não ter sido tão longa quanto à outra, mas pelo menos quebrou aquele gelo que tinha ficado na aula de história.
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