Down Theater (Terminado)
6 Capítulo 6 - De volta ao palco
Notas iniciais
Desta vez um capitulo um pouco mais simples.
A brisa gélida atravessava as telhas furadas, e se deitava entre as rachaduras, o frio estreitava entre as poltronas e circulava o ambiente. Estávamos de volta ao Down Theater, que de longe não era um lugar acolhedor e tão pouco parecia um lar, mas é como já tivéssemos sido acostumados com aquele lugar, aquele cheiro de poeira e mofo.
O demoníaco bobo da corte já os esperava, sentado de pernas cruzadas, preparando seu comum sorriso malicioso, no palco, a frente do antigo portal. Seus dois sininhos começaram a tinir, e lentamente o portal foi aparecendo entre o fundo negro do palco, balançado as cortinas vermelhas.Desta vez, os atores não precisavam da ajuda de uma ventania para forçá-los a sair pelo portal. Eles haviam lutado quase até a própria morte, estavam cansados, doloridos e exaustos, e até o Teatro destruído parecia confortável naquele estado. A fumaça da floresta em chamas também saiu pelo portal, seguida de Tommy e Dáhlia, os menos machucados, mesmo assim pareciam cansados, e cheios de queimaduras. Rune, Amy e Caius saíram logo depois, tossindo seco, mancando, e exibindo suas novas cicatrizes e queimaduras de batalha, Vincent os seguiu. Quando de repentinamente, logo após sair da porta, um gritou. A manga de sua camisa deixava amostra o sangue. Os outros correram para ajudá-los enquanto gritava. — O que aconteceu?! – Perguntou Caius. — Me-meu braço...-gaguejou em meio as os gritos de dor – Meu antigo machucado, está sangrando de novo. — Isso quer dizer ... – Caius refletiu por um momento. Um grito muito mais forte do que Vincent havia soltado, ecoou pelo Teatro. Mors havia caído de bruços no meio do palco, e uma dor muito maior do que qualquer uma que havia sentido, atravessou seu corpo já frágil e cansado.Um liquido frio escorreu pelos seus olhos, enquanto a dor preenchia seus nervos, mas aquelas gotas não eram choro, ou lágrimas, elas eram vermelhas, elas eram de sangue. — Scurra! O que diabos está acontecendo?! – gritou Caius, tentando levantar Mors.O homem vestido de bobo respondeu com um sorriso: — Vocês estão de volta ao mundo real.Maior dor do que queimaduras e arranhões, era repentinamente voltar a ser cego, não só por seus olhos que jorraram sangue, mas a visão da luz, e das cores, terem sidos esvanecidas. Foi um golpe duro para Mors, que agora se recuperava num Camarim sozinho, até que foi acordado pelos passos nada sutis de Caius na escada. — Mors? — Estou aqui. Caius adentrou o camarim, avistando um menino de cabelos negros e olhos mortos, deitado num colchão velho, coberto por uma manta fina. A seu lado, remédios genéricos, esparadrapos e um copo de água meio cheio. — Você está melhor? – perguntou Caius sentando ao lado da porta. — Creio que sim, mas ainda um pouco fraco. Já é hora da janta? — É sim... – disse Caius – Desculpa não trazer seu prato, mas tem alguém que quis trazer para você. — Alguém? Quem? – se indagou Mors, alias quem ali traria seu prato além de Caius, seu possível único amigo ali dentro, já que os outros pareciam ter medo dele, principalmente depois de ter sobrenaturalmente escapado com vida da luta contra o colosso. Seria Tommy como um pedido de desculpas? Será que ter salvado a vida duas vezes daquele garotinho, teria feito cair sua ignorância, a ponto de vir falar com Mors pela primeira vez? — Bom acho melhor, você ver com os próprios olhos. – E então Caius viu o gafe que cometera sem querer, e se calou nos minutos seguintes. Mors percebendo o erro, não sentiu nenhuma raiva, estava acostumado, não era culpa de ninguém ser cego. — E você está melhor? – perguntou. — Ah sim. – Disse Caius olhando os curativos entre suas queimaduras nos braços – Mal os sinto agora – mentiu. — Que ótimo. -Bom Mors, vou continuar a comer, deixei esfriando. Desculpa se acordei você ou qualquer tipo de incômodo. – e então Caius se lembrou – parabéns pela vitória hoje. Caius saiu, tentando não fazer muito barulho, inútil, já que quase tropeçara quando saiu. Mors não tinha certeza que aquilo, havia realmente sido uma vitória. Nas escadas Mors ouviu Caius cochichar “Ele está acordado, mas cansado.” Pelo menos agora sabia, que seus ouvidos aguçados não haviam sido danificados.E então alguém agora realmente sutil entrou pelo quarto, não era os passos arrastados de Tommy, muito menos os atrapalhados de Scurra. Era de outra pessoa. — Desculpe pelo incômodo... – Era Dáhlia. Mors ouviu seus cabelos negros voando ao vento que vinha do teto quebrado, o cabelo estava solto, percebeu. Mas se indagou o porquê de Dáhlia, estar ali. — Onde posso por seu prato? – perguntou ela. — Em algum canto. – disse Mors calmamente. – Não estou com fome. A menina, que parecia adulta no olhar de Mors no começo da peça, parecia insegura e envergonhada. A menina que portava bombas e dinamites, da atitude de ferro, e de cabelos presos, parecia outra pessoa, até pela respiração. Ela colocou o prato em cima de um banquinho de madeira no canto do camarote, e sentou-se no canto perto de Mors. — Você foi ótimo hoje. – ela ofegou – Mors.Ótimo, teria mesmo sido? — Ao contrario de mim – ela continuou cabisbaixa – Eu, só piorei a situação de todos. – ela gaguejou – Eu poderia ter matado alguém. — Não acho que tenha sido sua culpa. — E de quem seria? – disse ela. – Quem mais seria tão idiota? Além de vocês terem de se preocupar com o monstro, ainda poderiam ser explodidos ou mortos no incêndio. E tudo por minha culpa. Mors não podia discordar de fato. As explosões e incêndios foram ocasionados pelas bombas de Dáhlia, e ele sentia pela voz triste, que nada que ele dissesse iria fazer ela ser menos culpada.
— Se tivéssemos algum tipo de organização – disse Mors – Um líder, ou algum plano, talvez nada disso tivesse acontecido. Ela pensou por um momento. — Você! — Eu? –perguntou Mors – Eu o que? — Você poderia nos liderar, podia nos dizer o que fazer, marcar, planejar a peça. Como um roteirista. – Ela parecia ter se acostumado a achar que aquele outro mundo era uma peça. O que Scurra está fazendo com nossas mentes? Perguntou Mors a si mesmo. Espere ai, Scurra!- Dáhlia, você pode, por favor, dizer o que aconteceu? Não me lembre de nada depois de que sai do portal. – Disse Mors se encostando na parede rachada do camarote. Dáhlia pensou por um instante, esperando os flashes de sua memória, passarem por sua cabeça. E então se virou e disse. — Você desmaiou com o choque. Mas não foi apenas isso. Dáhlia se lembrava, do momento em que o grito de Mors ecoou pelo teatro, e Caius e ela socorreram-no. Caiu pois o braço direito de Mors em seu ombro, dando tapinhas no menino para reanimá-lo. — Ele... está morto? – Perguntou Tommy. Não se dava para saber se o tom era de tristeza ou felicidade. — Você gostaria disso não é?! – Disse Caius nervoso. -Ele está muito bem vivo Tommy. – respondeu Dáhlia, depois de checar a respiração de Mors. Olhando friamente para Tommy. Amy amedontrada subiu correndo as escadas, atrás de Scurra. Enquanto Vincent e Rune buscavam água, e um pano para secar o sangue. — Os olhos dele não param de sangrar. – Disse Tommy. – Ele voltou a ser cego? — Eu notei seu idiota! – Disse Caius sem reação. Nunca havia alguém sangrar pelos olhos, e para ele era uma visão horrível, as pupilas e Iris afundadas em vermelho, e lagrimas escarlate, manchando todo o rosto pálido de Mors. – Se não vai ajudar, Cale sua maldita boca! Imbecil! Scurra descia as escadas lentamente, com um Vincent agitado atrás dele. Scurra estava segurando seu chapéu enquanto seu corpo balançava descendo, e um pequeno sorriso, que sempre mantinha, descia junto com ele. Caiu olhou para Scurra num relance. — Se acalmem crianças, ele estará bom logo, logo. – Disse o palhaço, enquanto sua barba mal feita brilhava a luz que vinha dos vãos do teatro em pedaços. – Tratem de cuidar de seus ferimentos, pois o show não deve parar... Caius se encheu de fúria, largou Mors, que inconsciente deixou seu braço cair mole no chão. Caius cortou o vento, correndo em direção a Scurra, que nem teve tempo de se mexer, quando se viu. Caius tinha levantado-o e batido na parede. — O QUE VOCÊ FEZ MALDITO?! – Gritou Caius na cara de Scurra, que coçou o ouvido. — Ai, ai, ai. – disse ele, olhando de volta para Caius – Qual motivo de tal agressividade minha criança? — CALE A BOCA, E RESPONDA! – Berrou Caius – POR QUE O MORS ESTÁ SANGRANDO E POR QUE DIABOS VOCÊ NÓS JOGOU PARA A MORTE NAQUELE PORTAL!? — Ele ficará bom, é apenas um choque de realidade, apenas, apenas – Disse Scurra sorrindo – Morte? Do que está falando? — Você sabe o que é, miserável, aquele monstro, a floresta e tudo aquilo que acabamos de passar! – Caius o forçou para a parede, batendo a cabeça do homem. – RESPONDA! — Caius calma! – Disse Rune pegando em seu ombro – Por favor. — Você não viu o que esse homem fez? Vocês estão cegos?! Mors enxergaria essa loucura melhor que qualquer um de vocês! — Mas ele está desacordado. – Disse Tommy. — E você será o próximo seu idiotinha! – Berrou Caius – Se não calar essa maldita boca, eu a calo com um murro! — Caius acalme-se! – Disse Rune. Mas o sangue fervia em Caius, estava estourando como nunca esteve. Afinal depois de tudo que haviam passado no portal. Parecia que ele era o único que tinha visto o real perigo daquele confronto na floresta. Eles não estavam atuando. Eles estavam lutando pela própria vida. — Tudo faz parte da peça. – respondeu Scurra. — Que maldita peça é esta seu retardado?! – Urrou novamente Caius – Todos nós quase morremos! – Caius soltou Scurra no chão – Isso é loucura! — Se não quer participar mais... — VOCÊ FARÁ O QUE? TIRARÁ AS POSSIBILIDADES DELA? – Disse Caius avançando novamente em Scurra, mas dessa vez Rune e Vincent o seguraram a tempo. — Se algo acontecer com ela, Scurra. Eu juro por deus que eu irei arrancar sua maldita cabeça e à abandonarei junto com esse maldito lugar! Fora das mãos tremulas de Caius. Scurra se levantou limpando a roupa. — Eu entendi meu erro – Disse ele. – E pretendo concertá-lo. – ele olhou para os demais – Vão se trocar e cuidar dos ferimentos, iremos jantar daqui a duas horas... – ele olhou diretamente para Caius, sem sorriso – Nada acontecerá a sua irmã, enquanto você permanecer na peça. Os flashes acabaram, quando sininhos tocaram e um chamado de Scurra na escada ecoou na sua imaginação. Dáhlia se recompôs, tentando ouvir a voz do homem. — Venham crianças, preciso apresentá-los a um lugar. – ele parou um momento. – Mors você também.
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