Down Theater (Terminado)

7 Capítulo 7 - Ensaio para o próximo ato


- Venham crianças, preciso apresentá-los a um lugar.

Dáhlia, fixou o olhar em Mors, um pequeno sorriso permaneceu em sua face, um sorriso quase sincero, mas, depois de todos aqueles sorrisos insanos de Scurra, aquele em comparação parecia realmente belo.

— Parece que tenho que ir – Disse ela – Mors.

Apesar da sua conversa com ela, Mors não queria deixá-la ir, assim. Parecia que depois de toda insanidade, da situação mortífera que passaram das intrigas, desconfiança. Todos estavam ali, numa situação em comum, e talvez isso seja o primeiro passo para amizade. Caius, era definitivamente quem Mors mais se dava bem, mas até que ponto eles eram amigos? Mors nunca teve um, não um verdadeiro. Como saberia como cuidar desses novos laços que recebera? E agora, depois da visita de Dáhlia, seria ela também uma amiga?

Dáhlia se levantou, arrumou sua roupa e apoiou um braço na porta do camarote. Tentando levantar forças para dizer algo simples para Mors, como “Tchau” ou mesmo “Se cuide”, e quem sabe um possível pedido de desculpas. Então ela disse apenas.

— Até mais tarde... Eu acho. – ela disse baixo, propositalmente para Mors não ouvir. Mas ela não tinha noção do poder auditivo do garoto, ou pelo menos não lembrava.

Ao ver Dáhlia descendo as escadas, Scurra voltou a dizer.

— Mors também. – Ele sorriu – Se importa de carregá-lo? Acho que ele ainda se sente muito fraco.

E então o palhaço partiu, Com as outras cinco crianças para trás da parede negra do palco. Caius, como sempre desconfiado, do que poderia ver. Talvez outro vento sobrenatural? Ou algo que os arrastassem para outro lugar nada confortável.

Dáhlia se apressou em subir as escadas, mesmo que em sua mente uma pequena confusão estava em ebulição. Como ela deveria levar o garoto cego? E não Caius, ou outro menino. Menos Tommy, é claro.

Ela entrou no camarote em devagar, desajeitada. E Mors percebeu isso. Ela parou na frente de Mors erguendo os braços, sem dizer nada, fechando os olhos. Era como se a garota nunca tivesse tocado em um garoto antes na vida.

A menina esperou, por um momento com os olhos fechados e mãos estendidas. Mors tão confuso se indagou e disse.

— Dáhlia? – Ele tocou o braço tremulo da garota. E ela pareceu receber um choque. – Você quer um abraço? – perguntou ele.

Dáhlia abriu os olhos num instante. Enfurecida e envergonhada, naquela situação desajeitada em que se encontrava. Ela bufou com raiva:

— NÃO! – gritou ela. –É... só que Scurra, pediu para carregá-lo até lá em baixo. – disse ela, quase murmurando.

— E esperava fazer isso me abraçando? – Riu ele.

A garota agora estava vermelha de tanta vergonha, fumaça parecia sair de suas narinas. Ela não conseguiu dizer nada além do gaguejo “N-não, é... q-que... n-não.”

Mors não entendeu a o comportamento da garota, e talvez nem ela. Ele achou tudo meio engraçado, mas ele resolveu parar com essa situação, visto que a menina estava claramente desconfortável.

— Desculpe – disse o garoto, se levantando com dificuldade – Acho que consigo ir sozinho.

-SÉRIO?! – disse ela feliz. Aliviada sobre não ter mais que ajudar o garoto a descer – Quero, dizer... Cuidado então... Qualquer coisa só chamar.

A garota partiu ainda vermelha pela escada. Mors já havia chegado ao corrimão, sentindo o vento do empoeirado salão do Down Theater lá embaixo. Deu então seu primeiro passo a frente, mas suas forças ainda não haviam se recuperado, estava tonto e fraco. E então seu corpo se inclinou para frente espontaneamente.

— Dáhlia! – gritou ele.

— Você é menos pesado do que imaginei. – disse a menina.

Ela acabava de agarrar Mors para não cair. Sem perceber.

— Dáhlia, você está me abraçando muito forte... – Disse Mors. Sentindo as mãos macias de Dáhlia segurarem suas costas.

A menina corou novamente.

— É... – disse ela se recompondo – Eu não queria que você caísse.

— Você ainda está me a-a... – Mors tentou dizer.

Mas ele foi interrompido, A garota se ajeitou novamente, levando o braço do garoto no ombro, já ajudando a descer os degraus.

— Ok – disse ela calmamente – Um de cada vez. – ela sorriu – ou caímos juntos. – ela voltou-se a Mors – Meu deus, você é muito tímido, parece que nunca tocou numa garota antes.

— Mas foi você que...

— Quieto! Um de cada vez, vamos.

Scurra guiou os atores até uma porta pequena atrás da parede negra do palco, a porta parecia se dirigir para o próprio palco. Ele balançou seu sininhos, e se curvou numa reverencia.

— Bem vindos meus queridos atores, ao brilhante. Tan, tan, tan, tãn! – Disse ele, imitando ridiculamente o som dos tambores – Ao Camarim principal do Down Theater!

— Camarim?! – Rune, Vincent, Tommy e Amy se indagaram quase juntos.

Menos Caius, que como sempre desconfiava do homem de meia idade vestido de bobo da corte.

— Você quer que andemos em círculos? – perguntou ele. – Isso parece apenas dar para o palco de novo.

— É? – Perguntou Scurra, sorrindo – Nunca havia percebido, Caius. Ótima observação – ele abriu a porta – E agora? O que será que há la dentro?

Scurra abriu a porta, e uma grande luminosidade avermelhada saiu do quarto, porem aquilo não era um quarto comum. Mas a entrada estava cheia de pedras brilhosas perdas por fios delicados, havia penas coloridas, e tudo isso não deixava passar a imagem do que havia lá dentro , apenas a luminosidade.

A hesitação tomou conta dos Atores. Mas também o medo, de serem jogadas num portal para algum lugar para lutar com algum tipo de criatura. O que fizeram recuar um pouco.

— Você primeiro Caius. – Disse Scurra reverenciando, e indicando com a mão, a abertura da sala. Seus sininhos tiniram.

Caius entrou, e os atores seguiram-no. Enquanto as penas e pedras coloridas fizeram-nos sumir naquelas cortinas de cores, e iluminação avermelhada.

Mors e Dáhlia demoraram alguns minutos para chegar, Mors nunca havia notado o quando aquele teatro é grande, e isso se evidenciava agora que andava lentamente. Dáhlia, não tinha soltado uma palavra sequer, desde que desceram da escadaria, e nem ela nem Mors, estavam a fim de puxar assunto, não que não quisessem é claro.

Scurra os esperava do lado da porta, sorrindo assim que os avistou.

— Ainda se sente mal Mors? – perguntou o homem.

— Não muito, mas minha perna esquerda ainda está um pouco dormente.

— Percebi. – Disse ele soltando um risinho áspero, olhando para Dáhlia. – Porém acho que curará logo, quero dizer com certeza, afinal o segundo ato está batendo em nossa porta. E o público não se deixa esperar.

— Como tem tanta certeza de tantas coisas? Se é que me permite a pergunta. – disse Mors cortês, mas deixando claro para Scurra sua desconfiança.

— Apenas... – O homem sorriu, e seus sininhos tiniram como uma melodia — ... Tenho.

— Que porta é essa? – Perguntou Dáhlia, ainda com o braço de do garoto fraco em seu ombro.

— Ah, é o lugar mais fantástico do teatro. – Disse ele animado. – Claro, depois do palco.

— Que porta é essa? – Perguntou novamente Dáhlia ignorando o homem.

— O Camarim do Down Theater, com certeza. – Disse sorrindo. – Entrem, conheçam, explorem. Esse lugar é seu.

Mors intrigado, apesar de sua clara desconfiança, que sempre mantinha naquele lugar, e levemente influenciado pela sua curiosidade de jovem, ele desgrudou de Dáhlia, e mancando se levou a entrar a porta. A Luz era tão forte, que os olhos de Mors quase puderam enxergar os raios vermelhos que circulavam seu corpo. Ele passou pelas penas coloridas, fazendo cócegas em seu rosto e desarrumando seu cabelo, e depois pelas pedrinhas brilhantes que arranhavam levemente sua pele.

Mors pode sentir o cheiro de incenso e mobília nova, que aquele lugar apresentava, mesmo que não pudesse ver o que acontecia, ele ouviu tudo.

Caius estava mexendo e separando as lanças que se encontravam empilhadas, passando para um móvel de madeira que as separavam perfeitamente. Tommy analisou a maquina de molar espadas, e provou molar um pouco seu machado desgastado do primeiro e quente ato.

Na outra parede vermelha e quase brilhante de iluminação, estava vários boomerangs de tamanhos e modelos diferentes, com suporte para facas, com vidros de veneno, e até um que atirava lâminas porem Vincent não se atreveu a tocar nesse.

Na parte reservada para Amy, havia adagas, de tamanhos, tipos, cores, curvadas e retas, com lâminas grossas ou finas, feitas de aço ou ferro amolado. Havia também cotas novas para eles, pretas, com suporte e um pouco de proteção dependendo de suas respectivas armas, no caso de Amy, era um pouco menos protegido, porem tinha dezenas de suportes para adagas, além de ser bem revestido para as lâminas não machucarem a menina.

A Parte de Dáhlia tinha centenas de bombas e matérias explosivos, separados por nome ou efeito, muitas mais do que aquelas que estavam no campo antes da floresta. Era quase um estoque que poderia ser usado por um batalhão inteiro, isso é, se esse batalhão quisesse explodir algum estado inteiro.

— Eu não sei muito bem como segurar esse tipo de arma. – Disse Rune tentando colar as balas em um revólver pequeno, porem todas as munições caíram – Eu definitivamente não consigo fazer isso. Foi um erro Scurra...

Scurra? Perguntou Mors a si mesmo, que não tinha ouvido o som dos passos duros e atrapalhados do palhaço, nem os sininhos balançando a cada passo. Ele pode entrar aqui?

— Eu sei, foi um pequeno equivoco. – Disse Scurra abaixando o revolver da garota. – Melhor não mexer muito nisso, pode machucar algum ator. Que tal passarmos todas as armas de fogo para Dáhlia, o que acha? – perguntou agora para a menina de cabelos negros.

— Eu, acho que posso conseguir – disse Dáhlia envergonhada.

— Claro que consegue! – exclamou Rune – Eu não levo jeito para isso, porem você sim!

— Mas na floresta, eu... Incêndio. – Tentou dizer.

— Não se preocupe querida. – Disse Scurra pegando em seu ombro. – Foi apenas um erro de atuação, e isso será corrigido aqui. – disse ele agora se virando a todos. – Aqui vocês treinaram, organizaram suas armas, e vão se preparar para os próximos atos. – ele sorriu – É melhor fazer isso rapidamente, pois o próximo ato começa, amanha de manhã.

E então o homem saiu da sala, dessa vez muito menos cuidadoso do que antes.

Mors então procurou o seu canto na sala, sem ajuda de ninguém eliminando os lugares da onde os sons das vozes viam. E se encontrou em seu compartimento.

Porem houve um pouco de decepção, não havia nada, ao não seu sua espada que ele tinha deixado na floresta. Como é que Scurra a trouxe para cá? Como é que ele tem todo esse tipo de material? Sua espada também era grande e pesada demais para alguém como Scurra poder carregar, mas também era para Mors. E a cada minuto o Down Theater e Scurra pareciam mais misteriosos, e talvez mágicos?

Mors deixou isso de lado, e então apenas checou sua montante, limpa e seca depois do lago, sem nenhum arranhão que a pele do colosso havia causado anteriormente. Tudo é possível aqui dentro, ou dentro da peça, ele compreendeu.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo discurso de Caius.

— Precisamos de organização – disse ele – Precisamos de um líder, precisamos de um plano, uma estratégia, de separação de deveres e principalmente treinar nossas habilidades. – ele falou num tom preocupante. – A próxima vez que errarmos pode ser a ultima.

— E o que você sugere? – perguntou Dáhlia.

— Eu sugiro que devemos conhecer o terreno em que estamos no próximo ato. – disse ele – E sugiro também que devemos nos organizar para abater a próxima criatura, se é que será uma criatura mesmo.

— Você acreditou no que eu disse? – perguntou Mors.

— Do que vocês estão falando? – perguntou Vincent, assim que Amy pediu, já que nenhum dos outros tinham ouvido as palavras de Mors.

— Aquela criatura, ela era tão humana quanto nós. – disse Mors.

— O que? Você quer dizer que aquela besta é humana? – perguntou Rune.

— Claro que não. – disse o menino cego – Quero dizer, não tenho certeza.

Mors e Caius, decidiram liderar a empreitada que aconteceria no dia seguinte. Os dois passaram a madrugada discutindo sobre o plano e sobre a luta de amanhã. Todos os outros foram dormir, porem antes disso Caius dividiu a equipe.

— Vincent e Tommy iram vigiar a besta de lugares seguros – disse ele – Já que Tommy não consegue nem utilizar seu machado direito.

— Ei! – Discordou Tommy.

— Vimos isso no treinamento. – Concordou Dáhlia.

— Eu e Rune seremos as iscas. – Disse ele sorrindo para ela. – Já que agora ela usa arco, porem ela não conseguiu treinar o suficiente. – Disse ele – E eu talvez consiga lutar diretamente com a próxima criatura. – ele bufou – porem é arriscado demais, e por isso eu deverei proteger os outros.

— Amy usa adagas, e é muito rápida. – disse Vincent.

— Sim, ataque direto, porem são armas pequenas e fracas, por isso ela vai na dianteira, e só atacará se algo acontecer com a linha de frente.

— Linha de frente? – Perguntou Dáhlia. – E que é forte o suficiente para atacar a criatura de frente? Preferia que todos atacassem de uma vez.

— Não. – disse Mors, o mais calmo que conseguiu.– Dáhlia, assim estaremos desajeitados, e o monstro atacará e matará o mais fraco que encontrar, eles não são burros, são racionais o suficientes para saber quem é o forte e o fraco.

— Mas então quem?

— Eu – disse Mors, porem não como se estivesse feliz.

— O que? Está louco? é suicídio – disse ela preocupada – Quero dizer... você pode se machucar.

Aquele tom de voz divertiu Caius, mas não era tempo de caçoar da preocupação que Dáhlia havia começado a criar com Mors. Ele tomou a frente na discussão.

— Mors venceu o colosso praticamente sozinho. Ele tem a melhor arma a curto alcance e vimos o que ele pode fazer. Ele ficará com o dever de matar o monstro num ataque primário, e se ele não conseguir... – Ele engoliu a seco olhando para seu amigo – Eu e Amy entramos em cena.

— Espera ai! E eu? – perguntou Dáhlia, percebendo que seu nome não foi citado.

— Você cuidará de Mors, caso o ataque dele não der certo – ele olhou ironicamente para ela. E depois retomou. – Você usara suas bombas de gás, ou qualquer coisa que tire vocês de cena sem que o Monstro os siga. Boa sorte.

Depois disso eles foram se deitar, e Mors e Caius continuavam ali, depois de duas longas horas de discussão sobre planos, armas e aquela situação. Já estavam mais cansados do que se estivessem lutando de verdade.

— E ela? – Mors quebrou o silêncio.

— Ela...

— Você e Scurra discutiram umas vezes sobre isso, e todo mundo já percebeu. – Mors não se atreve a perguntar se ela era uma namorada ou coisa do tipo. – E seu desejo, salvar, como assim?

— Ela é uma pessoa muito importante para mim Mors, e ela está em uma situação de saúde muito má, ela é a única coisa que me fez aceitar essa peça. – Seus olhos brilharam, refletindo a tristeza que ele escondia atrás de sua carapaça dura e rígida – Na verdade, ela é minha...

— MORS! – Dáhlia ainda gritou na escadaria. Interrompendo a conversa dos dois – Venham aqui, rápido!

Os dois subiram quase correndo, quando avistaram o camarote dos meninos com Dáhlia com cara pálida e rosto totalmente preocupante.

— Eu... Eu... Mors por favor, Caius – ela pediu a Caius segurando sua blusa – Não o deixe enfrentar o ato sozinho amanha...

— O que foi mulher?! Está louca?! – disse Caius retirando as mãos dela de sua roupa.

— Mors, é melhor o próprio Vincent te contar. – disse Rune pasma, porem menos que Dáhlia.

— Mors, eu as vezes tenho sonhos... – tentou dizer calmamente Vincent – Assim como quando sonhei que encontrei esse teatro, e ouvi sininhos que me dirigiram aqui. – Seus cabelos cacheados pareciam frios, e sua boca rachava entre sua pele morena. – E assim como quando meu irmão separou-se de mim nas ruas, eu sonhei tudo isso e mais, sonhei de pessoas que ganhavam carro em sorteios, apostas em cavalos, e foi assim que eu consegui sobreviver sozinho – Seus olhos pareciam vidro púrpuro, abafado pelo frio e medo. – Eu premeditei muitas coisas, eu tenho premonição com sonhos, e seus fundos vermelhos. – Ele olhou diretamente para Mors. – Nunca errei... e espero que esteja errado agora, por que você ... não é muito...

— Vincent, o que foi que você sonhou? – perguntou Mors.

— Amanhã, Mors... – sua voz era fria e áspera, e seu rosto parecia vidro, imóvel e frio. Ele encontrou forças para seus lábios rachados se mexerem novamente. – Você morrerá.

Notas finais
O Sonho de Vincent se realizará?